Monday, October 23, 2006

O mito brasileiro! Quem merece?



























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A JORNADA DE LULA, O HERÓI INVENCÍVEL
por Carlos Gerbase

A grande força da candidatura de Lula, que sobrevive a meses de um bombardeio incessante das forças de oposição - de direita, de centro, de extrema-esquerda, de parte considerável da esquerda histórica e de parte de seu próprio partido - é um fenômeno que espanta o Brasil.

Como ele consegue manter-se de pé, quando quase todos seus companheiros mais próximos já caíram? Como ele consegue sustentar sua popularidade, quase intacta, passando por acusações – diretas ou veladas – de quase todos os órgãos de comunicação do País?

A explicação, meus amigos do Não, deve ser buscada onde menos se espera: nos bons livros de roteiro, em especial na “Jornada do Escritor”, de Christopher Vogler, que, por sua vez é uma adaptação de “O herói de mil faces", de Joseph Campbell.

Este texto é rápido e vai direto ao ponto, porque não é preciso argumentar muito para mostrar a proximidade da trajetória pessoal de Lula com a trajetória mítica descrita por Vogler e Campbell, que, imagino, são autores conhecidos pelos meus leitores. Por outro lado, não haveria espaço aqui para descrever didática e minuciosamente estas trajetórias, com todos os seus personagens mitológicos, e suas situações arquetípicas.

Sugiro a eventuais não-leitores de Vogler e Campbell que comprem as obras citadas. São excelentes. A partir desta leitura, aposto que vão concordar comigo: a popularidade de Lula não é derivada de sua obra política, nem dos erros e acertos de sua administração. A explicação não está no terreno racional. Está no terreno do inconsciente coletivo, da irracionalidade, das forças subterrâneas que são acionadas quando o ser humano vai tomar uma decisão, o que inclui escolher seu presidente.

Lula é quase invencível porque está prestes a cumprir uma jornada inteira como herói.

Vejamos:

- Situação inicial do herói

É um nordestino pobre e ignorante, destinado a uma vida miserável num ambiente de privações de todo o tipo. Mas tem duas forças arquetípicas: o caráter indômito e o carinho da família;

- Chamado para a aventura

Sair desta terra miserável e procurar uma nova vida em São Paulo. Para isso, tem de abandonar a família e, solitariamente, enfrentar um ambiente desconhecido e cheio de perigos;

- Peripécias da aventura

Perde um dedo num torno mecânico (atravessando assim o primeiro portal, com uma marca no próprio corpo), torna-se líder sindical durante a ditadura e é preso (situação arquetípica), mas sai da cadeia fortalecido (atravessando o segundo portal); funda um partido político, arrebanhando assim um exército para seguir com ele (mais uma situação arquetípica); neste partido, luta ferozmente para ser eleito presidente, perdendo 3 vezes seguidas. Cabe ao herói ser derrotado em muitas batalhas, para inimigos poderosos - Collor e FHC - mas sair mais forte e mais sábio de cada uma delas;

- Papel dos Mentores na fase final da jornada

Eram dois os seus principais mentores neste momento, José Dirceu e Duda Mendonça. O primeiro, com ele desde o início da jornada, fez as alianças concretas e necessárias para limpar o terreno político, com os empresários e a mídia.

O segundo - mentor mais novo e com novos poderes - deu ao herói o anel mágico da transmutação: a publicidade. O herói, face a um inimigo poderosíssimo, tem que se disfarçar. Lula disfarça-se maravilhosamente. Tão maravilhosamente que, como perceberemos depois, não se tratava de um disfarce;

- A luta de vida e morte com o inimigo

Começa a campanha eleitoral de 2002, em que José Serra, feio e antipático, é o próprio retrato do “mal”, bem ao contrário do simpático, bonito e sábio Fernando Henrique Cardoso, que também sabia, e muito bem, viver um papel de herói. Lula mata Serra e conquista o elixir (a presidência) com que vai salvar sua terra miserável (o Nordeste) e, magnânimo como todos os heróis, ver que a miséria está espalhada em todo o Brasil. Promete, empossado, combater a pobreza, criar empregos, etc.

- O começo do retorno para casa

Lula, que agora é Presidente e tem bons ternos, além de um corte de cabelo civilizado, ainda mantém intactas algumas características fundamentais de sua origem: o dedo decepado, a fala espontânea (cheia de metáforas populares), o jogo de futebol na Granja do Torto, os gostos simples, etc.

Em 3 anos, cria alguns programas assistencialistas, como o Fome Zero, e está sempre atento ao Nordeste e aos lugares mais esquecidos do País. Há resultados concretos, como a diminuição dos índices de desemprego e o Prouni (dando espaço para estudantes pobres), mas nada disso se compara com um sentimento: Lula tem o elixir e está começando a usá-lo. Lula viaja muito. Não gosta de Brasília, das pompas do poder. Lula gosta do Corínthians;

- Uma nova luta de vida e morte antes do clímax

Os inimigos pareciam mortos, mas não estavam. Eles voltam, mais sanguinários do que nunca. Uma traição de um antigo aliado (que, obviamente, era tão melífluo que enganou o herói) revela que, entre os seus amigos, havia gente ambiciosa e capaz de “agir errado”, sempre à sombra do herói, que nada sabe.

As acusações atingem seus dois mentores, Dirceu e Duda, que estão mortos no plano simbólico, e muitos companheiros da jornada, como Genoíno e Gushiken, que estão feridos gravamente e provavelmente fora de combate para sempre. O próprio exército (o PT), desorganizado, cheio de divisões internas, parece combalido e incapaz de responder ao inimigo. Os generais discutem entre si. Este é o momento que estamos vivendo;

- O final desta jornada (e o começo da próxima)

Mas o que importa tudo isso? Quem liga para o PT? Lula, o grande herói, é um solitário, como era um solitário ao deixar sua terra natal para a grande aventura. Lula declarou que foi traído pelos seus amigos no governo, lembram?, e alguns críticos disseram que isso era ruim.

Pelo contrário: Lula ficou ainda mais heróico, pois o herói, principalmente no final da jornada, deve resolver tudo pessoalmente. Exército, mentores e aliados já fizeram sua parte e estão mortos.

Agora é Lula contra Alckmin, o picolé de chuchu. Essa briga, se for homem contra homem, está ganha pelo homem-mito. Lula é maior que o PT. Lula é, com certeza, o maior de todos os mitos brasileiros da virada do século. Se ele passar incólume, como tudo indica, pelos ataques do inimigo nos meses que antecedem a eleição, vence as eleições. É simples. Basta ler Vogler e Campbell.

Até as eleições, Lula provavelmente receberá outros golpes, quem sabe até poderosos, mas o único golpe capaz de derrubá-lo teria que ser dirigido contra o mito Lula. Não adianta querer atingir o político, figura menor, totalmente dispensável numa jornada heróica.

Algo que realmente perfurasse o seu escudo e o fizesse perder o anel da transmutação. Algo que o atingisse pessoalmente, moralmente, humanamente. Mas isso, meus amigos, já foi usado pelo Collor (caso Lurian, lembram?) e duvido que um episódio desse tipo possa ser criado ou ressuscitado.

Se as oposições não provarem, com prova incontestável, que o herói Lula “na verdade é um ladrão” (tem milhões na Suíça, no nome dele e da Marisa), “na verdade é um devasso” (participou das orgias da turma de Ribeirão e levava sempre a Marisa), ou “na verdade é um comunista disfarçado” (os churrascos na Granja do Torto são com carne de criancinha), o herói Lula completa sua jornada, vence as eleições e pode usar seu elixir durante mais 4 anos para nos salvar a todos.

O poder do mito deve levar Lula à reeleição. Se isso será um final feliz? Bom, aí é outra história. Eu já contei a minha.


Carlos Gerbase é gaúcho, nascido em fevereiro de 1959 e além de roteirista e diretor cinematográfico, teve uma importante e influente carreira musical, com a banda Replicantes, nos anos 80. É também jornalista, professor de cinema e escritor.






Publicado em, 24 de maio de 2006, Lisboa (Portugal).

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