Friday, February 01, 2008

John McCain: This is the Man!



























Espírito militar está presente nas primárias americanas
por William Waack

Seria incorreto chamar a sociedade americana de “militarizada” mas, para quem viveu nos Estados Unidos mesmo por pouco tempo, chama a atenção o quanto do jargão militar faz parte da linguagem do dia a dia.Um exemplo é dizer que fulano está “flying under the radar” – uma velha expressão de combates aéreos usada para descrever alguém que se comporta de maneira furtiva.

Outro exemplo é expressão idiomática “going over the top” (superando o topo), muito usada quando se quer dizer que alguém assumiu uma iniciativa. O “top”, nesse caso, é o parapeito da trincheira, o momento em que o soldado de infantaria sai da sua relativa proteção e é obrigado a encarar o fogo inimigo, correndo para o ataque.

Os americanos cultivam seus muitos monumentos (e mitos) de guerra. Ser um veterano de alguma campanha – e praticamente a cada geração houve uma grande campanha militar americana nos últimos 60 anos – significa, de novo, ser respeitado. Acabou há muito tempo a época na qual os que regressavam do Vietnã eram vistos com desconfiança ou até desprezo. Quem passou pelo Iraque é admirado.

Há exatos 40 anos os americanos passaram por um trauma militar que tem conseqüências políticas até hoje. Em janeiro de 1968, numa ação complexa, sofisticada e bem planejada, o exército do então Vietnã do Norte e o Vietcong lançaram a ofensiva do Tet (assim denominada devido aos feriados de três dias do Ano Novo vietnamita, no final de janeiro). A surpresa foi total e os guerrilheiros vietcongues conseguiram invadir até mesmo a bem defendida Embaixada dos Estados Unidos em Saigon.

Do ponto de vista estritamente militar, a ofensiva do Tet acabou sendo uma catástrofe para o Vietcong, que perdeu em três meses de combates quase dois terços dos efetivos (e não mais recuperaria a antiga força e a iniciativa, a cargo a partir dali do exército regular do Vietnã do Norte). Mas os americanos, que não perderam nenhum dos grandes confrontos militares no Vietnã, sofreram em janeiro de 1968 uma derrota política da qual não mais se recuperariam – ao contrário, janeiro de 1968 vale como o início de uma virada que só terminaria com a retirada completa sete anos mais tarde.

John McCain, o homem que lidera a corrida entre os republicanos pela nomeação de seu candidato à presidência, é um veterano daquela época. Piloto de combate da Marinha, foi abatido sobre Hanói em 1967, fraturou os dois braços e uma perna, foi torturado e, quando recebeu uma oferta de libertação, disse que só iria embora se os outros prisioneiros de guerra fossem com ele.

Existe na sociedade americana o culto do indivíduo herói, do líder destemido e, principalmente, da idéia da lealdade e do patriotismo sob quaisquer circunstâncias. É um fator político-psicológico de primeira linha e, se McCain acabar sendo o presidente americano, devolve à Casa Branca uma geração de políticos que sabe perfeitamente bem o que significa uma guerra (o piloto de guerra Bush pai foi abatido em águas japonesas em 1945; John Kennedy também entrou em combate no mesmo conflito, para não falar de Eisenhower).

McCain atribui a si a decisão que Bush tomou, há quase um ano, de reforçar consideravelmente o número de militares americanos empregados exclusivamente na segurança de Bagdá. Não é só uma lição militar (o comandante americano no Vietnã, William C. Westmoreland, exigiu e conseguiu cada vez mais tropas, com cada vez menos resultados). McCain entendeu que o significado político de “apaziguar” Bagdá (não importa quanto isso dure, evidentemente) era bem mais importante do que a resistência, no eleitorado americano, a mandar mais gente morrer numa guerra impopular e desastrosa.

Não deixa de ser curioso (trágico, se o leitor preferir) que uma das perguntas que mais se repete aos eleitores americanos, nas pesquisas de opinião, é a célebre “quem você acha que está melhor preparado para ser comandante-em-chefe das Forças Armadas?” E que numa época de crise econômica, as pesquisas indiquem – e não é paradoxo algum – que boa parte dos eleitores prefere alguém que seja capaz de mostrar liderança, e nem tanto quem demonstre ter grandes conhecimentos de economia (como é o caso do principal adversário de McCain entre os republicanos, o milionário e empresário Mitt Romney).

Há grandes temas, bastante abrangentes, que tem enorme peso na eleição americana: raça, religião, segurança nacional, segurança social. Mas num país no qual uma das piores ofensas é ser chamado de “loser” (perdedor), é bom prestar atenção nesse estado de espírito (não encontro outra expressão) que dá ao combate, ao militar e ao veterano uma importância que não se vê em outros países ocidentais.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008, 19h44.



Lula gosta de publicidade, de notícia, não - Ricardo Noblat



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