Tuesday, July 21, 2009

Resenha da História do Brasil – A verdadeira.































O país nasceu por engano, balançou no berço da safadeza e agora é controlado pela aliança dos amorais
por Augusto Nunes

O Brasil nasceu por engano. Buscavam o caminho das Índias as caravelas que em abril de 1500 perderam o rumo tão espetacularmente que acabariam caindo nos abismos do outro lado do mundo se não tivessem topado com aquela demasia de praias com areias finas e brancas, banhadas por ondas verdes ou azuis, muita mata, muita flor, muito rio, muito peixe, muito bicho de carne tenra, muita fruta sumarenta e, melhor que tudo, muita índia pelada.

O Brasil balançou no berço da safadeza. Souberam disso tarde demais aqueles viventes cor de cobre, sem roupas no corpo nem pelos nas partes pudendas, os homens prontos para trocar preciosidades por quinquilharias, as mulheres prontas para abrir o sorriso e as pernas para qualquer forasteiro, pois os nativos praticavam sem remorso o que só era pecado do outro lado do grande mar, e não poderiam ser tementes a um Deus que desconheciam.

O Brasil nasceu carnavalesco. Nem um Joãosinho Trinta em transe num terreiro de candomblé pensaria em juntar na avenida, como fez o português Henrique Soares, maior autoridade religiosa presente e celebrante da primeira missa naquelas imensidões misteriosas, um padre de batina erguendo o cálice sagrado, navegantes fantasiados de soldados medievais, marinheiros com roupa de domingo, índios com a genitália desnuda que séculos depois seria banida da Sapucaí por bicheiros respeitadores dos bons costumes e a cruz dos cristãos no convívio amistoso com arcos, flechas e bordunas.

O Brasil balançou no berço da maluquice. Marujos ainda mareados pela travessia do Atlântico, ainda atarantados com a visão do paraíso, decidiram que aquilo era uma ilha e deveria chamar-se Ilha de Vera Cruz, e assim a chamaram até perceberem, incontáveis milhas além, que era muito litoral para uma ilha só, e pareceu-lhes sensato rebatizar o colosso ausente de todos os mapas com o nome de Terra de Santa Cruz, porque disso ninguém duvidava: era firme a terra que pisavam.

O Brasil nasceu preguiçoso. Passou a infância e a adolescência na praia, e esperou 200 anos até criar ânimo e coragem para escalar o paredão que separava o mar do Planalto, e esperou mais um século até se aventurar pelos sertões estendidos por trás da floresta virgem, num esforço de tal forma extenuante que ficou estabelecido que, dali por diante, os nativos da terra, os estrangeiros e seus descendentes sempre deixariam para amanhã o que poderiam ter feito ontem.

Tinha de dar no que deu. Coerentemente incoerente, o Brasil parido pelo equívoco hostilizou os civilizadores holandeses para manter-se sob o jugo do império português, o Brasil amalucado teve como primeira e única rainha uma doida de hospício, o Brasil da safadeza acolheu o filho da rainha que roubou a matriz na vinda e a colônia na volta, o Brasil preguiçoso foi o último a abolir a escravidão, o Brasil sem pressa foi o último a virar República, o Brasil carnavalesco transformou a própria História num tremendo samba do crioulo doido.

O cortejo dos presidentes, ministros, senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores aberto em 1889 informa que a troca de regime não mudou a essência da coisa: o Brasil republicano é o Brasil monárquico de terno e gravata, só que mais cafajeste. Muito mais cafajeste, informa a paisagem deste começo de século. Depois de 500 anos, os herdeiros dos traços mais detestáveis do DNA nacional promoveram o grande acerto dos amorais, instalaram-se no coração do poder e vão tornando decididamente intragável a geleia geral brasileira.

Nascido e criado sob o signo da insensatez, o país que teve um imperador com 5 anos de idade que parecia adulto é governado por um presidente que parece moleque. Com um menino sem pai nem mãe no trono, o Brasil não sentiu medo. Com um sessentão no comando, o Brasil que pensa se sente sem pai nem mãe.


Augusto Nunes da Silva é jornalista, nascido em Taquaritinga, interior de S. Paulo, foi redator-chefe da revista Veja, diretor de redação das revistas Época e Forbes, dos jornais O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Zero Hora, além de diretor-executivo do Jornal do Brasil. Foi também apresentador do programa Roda Vida da TV Cultura e do programa "Verso & Reverso" da TVJB. Augusto Nunes escreveu diversos livros, entre os quais: "Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter" (livro de memórias de Samuel Wainer), "Tancredo" (biografia de Tancredo Neves), "O Reformador: um Perfil do Deputado Luís Eduardo Magalhães" e "A Esperança Estilhaçada", sobre a atual crise política, entre outros. É um dos personagens do livro "Eles Mudaram a Imprensa", da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que selecionou os seis jornalistas mais inovadores dos últimos 30 anos, além de ter ganho por quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente, Nunes escreve uma coluna na edição eletrônica da Revista "VEJA".




Publicado na seção Direto ao Ponto da "Coluna do Augusto Nunes".
Domingo, 19 de julho de 2009.




(...) Quando meu vizinho foi dar queixa, o delegado tirou onda da cara dele:

"Vem cá, os militares não conseguem nem defender da sua vila, como é que vão defender o país?"

Pois é... eu também queria saber, "otoridade".

Morar em VILA MILITAR é garantia de "SEGURANÇA"? – TALMA SIMPLESMENTE






PORQUÊ TANTA INDIGNAÇÃO? NÓS SOMOS ISSO MESMO, UM DEPÓSITO DE LIXO A CÉU ABERTO. E VIVA O "POVO BRASILEIRO"!





3 comments:

Laguardia said...

Há um selo para Bootlead no Blog Brasil Liberdade e Democracia

O Jornal Tresler e a Espiral do Silêncio said...

Vão reclamar que estou sendo petralha, mas o penúltimo parágrafo do Augusto Nunes é mais interessante.

Abraços

Anonymous said...

Comentário publicado na Coluna do Augusto Nunes, a respeito do artigo aqui transcrito. Muito bom, ou melhor, ótimo!


"A RES-IMPÚDICA
(À MODA DE FERNANDO PESSOA)

SENHORES SENADORES,
QUANTO DO VOSSO QUINHÃO
É FRUTO DA CORRUPÇÃO?

POR CAUSA DELA
QUANTAS MÃES CHORARAM EM VÃO
POR ESCOLAS, HOSPITAIS, PELO PÃO?

QUANTOS PAIS SEM TETO, SEM MOBÍLIA
FORMAM O CORDÃO DO BOLSA-FAMÍLIA?

QUANTOS JOVENS SE PERDERAM NO EXEMPLO
QUE EMANA DO VOSSO IMPÚDICO-IMPUNE TEMPLO?
(OU COVIL?)

PISAIS NOSSOS SONHOS E ESPERANÇAS, Ó NARCISISTAS
POIS VOSSA VISÃO NÃO VAI ALÉM DOS LOBISTAS

COM QUE VOLÚPIA SACRIFICAIS A MORALIDADE
Ó VESTAIS TRANSLÚCIDAS DA IMPUNIDADE!

SERÁ QUE VALE A PENA?
QUALQUER DOLAR/REAL VALE A PENA
PRA VOSSA ALMA TÃO PEQUENA?

QUE NA PENUMBRA DO ATO SECRETO
PARA VÓS NADA ABJETO
ENTRONIZAIS NUM GESTO BLASFEMO
A IMORALIDADE COMO VALOR SUPREMO"

por Antonio Pádua em 22/07/2009

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