Monday, July 16, 2007

Os políticos brasileiros são apenas um reflexo dos seus eleitores.

































Esperto ou corrupto, qual a diferença?
por Fritz Utzeri

Nas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, as maneiras de pensar e agir de um povo se revelam. De que serve indignar-se com Renan & Roriz e no dia-a-dia trafegar pelo acostamento da estrada se houver engarrafamento; desrespeitar o sinal se não houver guarda ou ignorar a placa e estacionar na vaga do paralítico? Vejo isso todos os dias no estacionamento onde deixo o meu carro, no Centro.

Parece que procuramos sempre a vantagem à custa de pequenos expedientes. Corrupção é outra coisa, pensamos. É roubar grande! Quantos de nós, brasileiros, só não somos corruptos simplesmente porque jamais tivemos a oportunidade de sê-lo? Ou será que, como dizia o imortal Barão de Itararé, corrupção é "aquele grande negócio para o qual não fomos convidados?"

Li no domingo passado, numa das colunas mais prestigiadas da imprensa carioca uma nota sobre a inauguração do Engenhão. O ingresso seria trocado por uma lata de leite em pó, destinada a instituições de caridade. Leia a nota transcrita, ipsis literis do jornal:

"Em tempo: uns torcedores espertos trocaram o leite em pó das latas por areia na inauguração do Engenhão. No ato da troca pelo ingresso, poucos bilheteiros perceberam o golpe".

Percebeu? Não? Leia novamente. Será que é adequado qualificar como "esperto" o torcedor que dá esse golpe para entrar no estádio? Vamos verificar, no Aurélio, o que significa "esperto".

Esperto. [Do lat. vulgo expertu (v. espertar).] Adj. 1. Acordado, desperto. 2. Inteligente, fino, arguto: "Nada lhe escapa, é muito esperto". 3. Enérgico, vigoroso: movimentos espertos. 4. Espertalhão (1). 5. Forte, vivo: fogo esperto. 6. Quase quente: Estranhou a água do banho que estava esperta. 7. Bras. Gir. V. bacana (1). S.m. 8. Espertalhão (2): O mundo é dos espertos. [Cf. experto.]

Vamos a espertalhão:

Espertalhão. [De esperto + alhão.] Adj. 1. Diz-se de homem esperto, finório. Velhaco, astuto, malicioso, esperto.

Veja como o comportamento e a percepção se refletem na língua, tornando-a imprecisa e demonstrando como o criminoso pode ser admirado pela sociedade, a ponto de ser confundido com "inteligente, fino e arguto", sem citar que "esperto" dá origem a "experto" que significa alguém que tem experiência, um perito.

Ou seja, segundo o dicionário, "esperto" para os brasileiros quer dizer: "inteligente, fino, arguto", mas também: "finório, velhaco, astuto e malicioso"... Entenderam?

Ora, o que esses espertalhões do Engenhão (aí a palavra seria aplicada corretamente) fizeram, a lei tipifica como estelionato, fraude, que é crime definido assim pelo Código Penal:

"Estelionato é o fato de o sujeito obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento".

A pena para crime de estelionato é de dois a seis anos de detenção com multa. Não há razão alguma para a admiração mal disfarçada que freqüentemente demonstramos por essas pequenas "espertezas" criminosas. Vamos usar as palavras certas. E não adianta reclamar do Renan e do Roriz & Cia. Se você anda pelo acostamento, paga uma cervejinha para o guarda ou acha idiota perder seu precioso tempo numa fila, podendo furá-la, você, meu amigo, não é esperto. Você é um delinqüente.

PS - A nota não informa o que aconteceu com os "espertos" que foram pegos. Foram presos? Sentenciados a quantos anos? Por mim, mandava preparar um copão do leite em pó que trouxeram e mandava beber até o último gole...



Fritz Utzeri nasceu na Alemanha em 1945. Em 1953, mudou-se para o Brasil. Cursou medicina, onde começou na imprensa universitária, fazendo panfletagem, e descobriu que o que gostava de fazer era jornal. Em 1968, após ser aprovado no curso para seleção de estagiários, começou a trabalhar para o Jornal do Brasil, onde foi repórter especial, editor e correspondente internacional em Nova York e Paris. Reportagens como "Quem matou Rubens Paiva" e a cobertura do atentado do Riocentro renderam importantes prêmios: Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e Esso de Jornalismo. Trabalhou ainda na TV Globo, onde recebeu outro prêmio Vladimir Herzog pelo Globo Repórter sobre os 15 anos do caso Riocentro. Após a TV Globo, abandonou , durante cinco anos, o jornalismo e foi trabalhar na Alcatel como Diretor de Comunicação. Trabalhou na Fundação Roberto Marinho como Superintendente de Comunicação e no jornal O Globo, onde atuou como editor de opinião. Foi também Diretor de Redação do Jornal do Brasil. Atualmente Fritz Utzeri escreve no Jornal do Brasil e edita o jornal eletrônico Montbläat.


1 comment:

BASTILHA said...

Aviso ao governico, à INFRAERO e aos aloprados em geral

Vocês estão ralados.

Tem gente que perdeu familiar naquele vôo e que não vai deixar barato.

É gente que não precisa de indenização, mas que tem caráter e estofo para apoiar aos que precisam - e para brigar no sentido de esclarer tudo, colocando na cadeia os culpados. É gente de vida limpa, que não precisa mendigar nada a governo algum, que construiu patrimônio com esforço próprio e que não foge de grandes desafios.

Acreditem: sei bem do que estou falando. Passado este terrível momento de dor, vocês não vão mais ter folga.

http://www.narizgelado.apostos.com/

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