Friday, July 13, 2007

Os brasileiros estão caminhando para um abismo!

































A EXALTAÇÃO DA VULGARIDADE
por Maria Lucia Victor Barbosa

Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral... A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida... A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia".

Estas afirmações pertencem a Eça de Queiroz (1845-1900), mas podem se aplicar perfeitamente ao Brasil de hoje. Nunca antes na história desse país fomos tão vulgares. Enraizou-se entre nós a prática do "politicamente correto", algo que objetivou combater certos preconceitos, mas nos faz aceitar passivamente a mediocridade, acirra ódios raciais, exalta a ignorância.

Vamos além: vivemos a cultura do cinismo e da farsa governamentais. Somos capazes de nos comprazer com o engodo que criamos através do voto. Aceitamos tudo que nos enfiam consciência abaixo com a crença ingênua das crianças em Papai Noel, substituído por Papai Lula.

Sobre o atual presidente da República, ardilosamente teceu-se a proteção que o torna um cidadão acima de qualquer suspeita. Ele de nada sabe, nada vê, de nada se responsabiliza como se a corrupção que grassa de forma avassaladora entre seus compadres, companheiros, aliados antes execrados e agora fiéis escudeiros, lhe fosse desconhecida. Explora-se sua origem humilde e é crime de lesa majestade taxá-lo de despreparado para o cargo. Na verdade, origem humilde, pobreza, agruras vividas nada têm a ver com o caráter de uma pessoa. Alguém que não nasceu em berço de ouro pode se tornar um safado ou um homem de caráter. Pode se manter ignorante ou se transformar numa pessoa culta. No caso do ex-retirante e ex-operário é impressionante como suas piadas grosseiras, seus constantes atropelamentos do idioma, seus rompantes de porta de fábrica, sua costumeira e delirante autolouvação são interpretados como rasgos geniais de comunicador de massas, como selo de autenticidade popular. O que jamais seria perdoado em outros presidentes da República nele provoca risos satisfeitos, aplausos entusiásticos porque um dia ele foi pobre.

Assim como se costuma estigmatizar a pobreza como a única classe que comete crimes, o que está longe da verdade, no caso de Lula da Silva inverte-se os sinais e sua ignorância é tomada como sabedoria da pobreza.

Vai-se mais longe: aprendeu-se com o PT a dividir o mundo político de forma maniqueísta: Fernando Henrique é o mal. Lula da Silva é o bem. FHC é sociólogo, homem culto, poliglota, logo não presta. Lula da Silva é o redentor das massas desvalidas, o puro, o semi-analfabeto que ilustra um ideal de vida bem brasileiro: progredir na vida sem fazer força.

A propaganda massacrante não deixa perceber que, curiosamente, um é extensão do outro na medida em que Lula copia, através de sua equipe de governo, não só a política econômica quanto a social do ex-presidente. No mais, não se pode negar que FHC fez de Lula seu sucessor, impediu seu impeachment e o tucanato de alta plumagem vive imbricado com o PT das mais altas rodas.

Nas atuais cenas de desmoralização do Congresso, onde o cinismo se mistura com a ganância desmedida pelo poder, para não dizer pura canalhice, o presidente da República, através de sua tropa de choque petista congressual capitaneada pela estridente Ideli Salvati, se coloca como defensor do indefensável Renan Calheiros. E este, atracado à cadeira da presidência do Congresso, dá um show de mau-caratismo. A impressão que se tem é a de que se quer desmoralizar de vez a instituição. O naufrágio do Congresso é a consagração do Executivo que, tendo dominado em grande parte o Judiciário prossegue nos caminhos da ditadura petista disfarçada a ser coroada com a TV estatal dirigida por Franklin Martins.

Tem-se visto muitas prisões, mas quem ficou preso? Onde estão Waldomiro Diniz, Marcos Valério, José Dirceu, Silvinho Land Rover e tantos outros? Pelo que consta de notícias estes vão muito bem obrigada. Companheiro que é companheiro não cai, se cai desafia a lei da gravidade e cai para cima. Que o digam Palocci, João Paulo Cunha, José Genoino, eleitos deputados federais. Rejubilem-se com o Brasil da impunidade todos os mensaleiros da "base aliada", todos os companheiros empreiteiros (Zuleido, onde está?). Pipocam os escândalos, as evidências, as gravações, os documentos, as operações policiais e todos se salvam, mesmos sendo lambaris. Manda no Brasil a Venezuela, manda seu preposto Evo Morales e vêm mais hermanos em nosso encalço. Afinal, somos imperialistas e o petróleo agora e deles, coitados.

No Brasil do PT os pobres estão felizes com as bolsas-esmola. Os ricos estão eufóricos com os lucros nunca antes auferidos nesse país. "A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia". Se "estamos perdidos há muito tempo", agora ingressamos na era da exaltação da vulgaridade. "O país perdeu a inteligência e a consciência moral".



Maria Lucia Victor Barbosa é formada em sociologia e administração pública e tem especialização em ciência política pela Universidade de Brasília. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Começou a escrever em jornais aos 18 anos. Tem artigos publicados no Jornal da Tarde, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e Valor Econômico, entre outros. É autora de cinco livros, incluindo “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem” e “América Latina – Em busca do Paraíso Perdido”.
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br




Publicado no site DIEGOCASAGRANDE.COM.BR.
Sexta-feira, 13 de julho de 2007.



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