Wednesday, August 22, 2007

Nelson Rodrigues decifrando o Brasil para Jabor.

Foto-Arte: © Revista "Veja" de 13/03/1980 (Capa)









































'Brasileiro tem de assumir a própria lepra!'
por Arnaldo Jabor

Nos últimos dias, dois artigos me interessaram muito: o ótimo texto de Roberto Pompeu de Toledo na Veja onde ele diz: 'Os distraídos talvez não tenham percebido, mas o Brasil acabou...' e a reportagem de João Moreira Salles na Piauí, acompanhando FHC numa viagem, onde o ex-presidente declara: 'Que ninguém se engane, o Brasil é isto mesmo que está aí...' e 'continuaremos para sempre nesta falta de entusiasmo, neste desânimo...'

Também sinto isso nestes dias sinistros, entre tragédias sangrentas e a aberta desfaçatez de políticos desafiando a República. Às vezes, penso, como cantou Cole Porter: 'Que devo fazer? tomo cianureto ou champagne?' Mas, lendo e relendo esses artigos, eu me pergunto: 'Será? Será mesmo que estamos perdidos e mal pagos?'

Aí, resolvi pegar meu velho telefone preto e ligar para o Nelson Rodrigues, lá no paraíso onde vive, um céu de teatro de revista, com nuvens de algodão e estrelas de papel dourado.

Nelson me atende:

- Você anda sumido, hein rapaz!... Está ficando mascarado?

- Não, Nelson - estou deprimido com esta suja tragédia nacional. Até o FHC que tem bom humor está exalando cava depressão...

- Sossega, leão... não é nada disso... 'Nunca antes' o Brasil teve a chance luminosa de ver a própria cara! Estamos entendendo que a história marcha pelas brechas, pelos buracos de cupim... Não existem as tais 'relações de produção e blocos históricos' - isso é bobagem... A história é um botequim de pé sujo... Você viu: o micróbio na barriga do Tancredo Neves mudou o curso do País; tudo ia bem e acabou sob o bigode do Sarney. E o ciúme do Pedro Collor não provocou o 'impeachment'? Mais atrás, um porre do Jânio embaralhou a pátria! Ou não? É assim, rapaz...

Veja você o Renan... Estou acompanhando tudo como um folhetim de mim mesmo: a amante, a 'gestante', os envelopes de jabá, a fidelidade obstinada da esposa enganada, os oposicionistas no Congresso tremendo de medo de que ele revele o nome das namoradas... Todos têm amantes em Brasília... Lá não há inocentes, todos são cúmplices... O Brasil está parado por um adultério financiado por uma empreiteira!

Outro dia mesmo, a história mundial mudou por causa da Monica Lewinsky... Bush foi eleito por ela e pelo moralismo dos americanos contra o Clinton e o Gore. A guerra do Iraque começou entre seus lábios! Aqui, também é assim... Aliás, eu acho o Renan muito educativo. Ele nos ensina que o egoísmo privado é a Pedra da Gávea que resiste a todo interesse público... E a classe média, que babou na própria gravata durante séculos, está acordando da própria estupidez. Qualquer vendedor de Chicabon já entende de economia; nunca contemplamos nosso destino de vira-latas com tanta nitidez...

Quer ver outra coisa boa que aconteceu? A desmoralização dos bolchevistas de galinheiro que encantavam a consciência dos intelectuais... Estão todos de rabo entre as pernas, se esgueirando pelos cantos das universidades... Descobriram que a 'revolução brasileira' era o oxímoro perfeito: a 'revolução reacionária'. É verdade que sobraram os pelegos sindicalistas roendo o Estado como rapadura, mas é melhor que o bolchevismo do Dirceu que ia destruir o Plano Real, em nome do povo... Aliás, cá entre nós, o Dirceu está podre de rico, fazendo negócios com os comunas latinos. Ele bate nas algibeiras e berra, ovante e jucundo: 'Dinheiro há! Dinheiro há!' E a indústria das indenizações pela ditadura, comandada pelo Greenhalgh? Dizem que ele já tem até piscina com chafariz e filhote de jacaré! Qualquer sujeito que levou um tapa da polícia na ditadura pediu indenização: trinta contos por mês...

Quer ver outra coisa boa? Acabou a idéia de 'utopia'... Ninguém sabia direito o que era isso, pensavam que era a mulher do Prestes, a Dona Utopia... Pois, acabou; hoje, aprendemos que o que interessa é a 'administração', que um país só cresce se for como um armazém, com o português de lápis atrás da orelha, fazendo contas...

Sabe por que você e seus amigos intelectuais, como o doce Roberto Pompeu estão tristes? Porque no fundo vocês ainda acreditam em uma 'harmonia futura'... Maquiavel acabou com essa ilusão do Platão há muito tempo... Aliás, o Maquiavel fica rindo do Hegel aqui em cima, que anda muito deprimido. Rapaz... a história é uma selva de epilépticos, a história não é um 'piquenique', não.

E tem mais: debaixo desses escândalos e tragédias, muitos fios vão se tecendo. As 'coisas' têm vida própria... De noite, microrrevoluções se passam, nas insônias das pessoas... Por exemplo, a oposição se derreteu, mas a imprensa está fazendo gol de bicicleta... As coisas se movem no escuro...

E tem o Acaso, também. Por exemplo, esse Lula tem sorte pra burro, rapaz; se ele der um palpite do bicho, joga na cabeça, porque ganha... Ele herdou a inflação zero do FHC, diz que foi ele que fez, e ainda pegou a economia numa fase rara! O Milton Friedman chegou aqui outro dia e me disse: 'Olha, Nelson, eu achava que 'não tinha almoço de graça', não. Mas, tem. O Lula está comendo de graça.' Esta crise aí passa logo e com a economia funcionando, temos a chance única de assistir ao teatro de revistas do Brasil... O primeiro passo para a reconstrução nacional é a desmoralização absoluta! O Jorge Luis Borges, que anda por aqui tropeçando nos anjinhos, disse que a 'esperança é o mais sórdido dos sentimentos...' Ele não é burro, não... A frase é boa - o Otto Lara está com uma inveja danada...

O único perigo seria uma quebradeira econômica. Aí o Lula podia querer 'venezuelizar' a coisa e chamar os analfabetos para cerrar fileiras e criar a tal Assembléia Constituinte, mas o Tocqueville me garantiu que acha difícil, porque o Lula não é o Chávez, aquele leão-de-chácara da Praça Mauá... O Brasil é mais complicado...

Olha, rapaz, o sujeito e os países só se salvam se assumirem a própria miséria, a própria lepra!... Em vez de reclamar, vocês deviam se agachar e beber a água da sarjeta! Ela é a salvação!...

- Obrigado, Nelson, ganhei mais um dia...



Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.



Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Terça-feira, 21 de agosto de 2007.


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