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Tuesday, September 30, 2008

FIM DE FESTA, O MUNDO ESTÁ À DERIVA!
































Quais as consequências da crise a longo prazo?
por William Waack

O texto de hoje é sobre a crise financeira internacional. Antes, porém, um recado aos leitores: esta secção do G1 é uma coluna que não é diária. Uma das características da atual crise é a rápida sucessão de eventos. Portanto, vou tentar me concentrar em aspectos que possam ser lidos nas próximas duas horas sem padecer de envelhecimento precoce.

Quais são as consequências político-sociais de longo prazo do cataclismo (sim, estamos diante de uma catástrofe)? Acho que vamos considerar 2008 como um ponto de inflexão, assim como 1929 acabou sendo consagrada como uma data que prenunciava importantes mudanças – ainda que o impacto mais forte da crise daquela época só atingisse as principais economias européias em 1934/5.

Especialmente os comentaristas europeus (franceses e alemães, em particular) assinalam o fim do "modo" anglo-saxônico de encarar os mercados financeiros. O argumento mais corrente é o de que as principais economias européias, muito mais reguladas que as dos Estados Unidos e Reino Unido, sofrerão menos com a crise.

O problema desse argumento são os fatos dos últimos dias: os principais governos europeus tiveram de socorrer instituições financeiras privadas com dinheiro público. O socorro prestado pelo governo alemão a uma das principais caixas hipotecárias do país irritou profundamente a própria comissão da União Européia (mas os Países Baixos tiveram de fazer o mesmo, praticamente na mesma hora).

Não, por favor, não leiam isto como uma prova de que "são todos os mesmos" (afinal, não é com dinheiro público que o governo americano quer salvar o sistema financeiro?). Nos países europeus, a presença do Estado na economia foi sempre vista de outra maneira do que nos Estados Unidos e Reino Unido. Sobretudo os social-democratas acham que os tempos mudaram – e por um período muito longo – a favor de sua tese favorita, e que se traduziu numa expressão alemã adotada também pelos conservadores: economia social de mercado, com forte presença dirigista do Estado. Nicholas Sarkozy, o "liberal" presidente francês, assinaria embaixo.

Há um debate entre os dois lados do Atlântico muito mais cultural do que ideológico sobre o papel de governos não apenas em situações de crise. Essa discussão está profundamente ligada aos problemas que a globalização apresenta também para as economias mais avançadas, e este provavelmente é um dos pontos mais negativos da atual crise: ela deve provocar uma onda irrefreável de protecionismo em nome da proteção de empregos e sobrevivência de instituições nacionais (bancos e empresas, por exemplo).

Curiosamente, os europeus levantam de novo as bandeiras de valores fundamentais da economia, como trabalho e poupança, contra o "estilo anglo-saxão" de tomar empréstimos e arriscar nos mercados de capital. É interessante notar que em sociedades de outros lugares do planeta (Japão, por exemplo) "trabalho" e "poupança" são valores bastante cultivados e nem por isso os japoneses escaparam de uma difícil situação econômica, e não faz muito tempo.

Os autores clássicos, especialmente os da Sociologia, costumam dizer que sem um arcabouço teórico dificilmente se entende os fatos correntes. É o que economistas dizem agora da atual crise. Robert Samuelson, por exemplo, argumenta que o "vácuo intelectual" a respeito de qual teoria econômica melhor explicaria a atual crise é que levou ao caos político no Congresso americano. Em outras palavras, não se previa – pelo menos do ponto de vista da teoria – o que viria acontecer. A principal delas: a falta de experiência em como estabilizar mercados financeiros.

Ligar diretamente em relação de causa-efeito mecânica o campo da economia e o da política é um tipo de sub marxismo que nada explica da realidade – é o departamento das verdades absolutas e respostas prontas, que apenas confundem. É difícil prever, portanto, como e se a atual crise, que promete ser longa e difícil, levará a consequencias políticas e onde.

Mas é possível dizer que no campo "cultural" do debate entre Estado e Mercado o pêndulo deve mover-se com força para o primeiro lado. Deve aumentar consideravelmente nossa (de novo, no campo "cultural") insegurança diante de um mundo no qual tudo parecia explicado, conectado, ajustado e, por tanto, controlável. É aquilo que, em alemão, chama-se "Kulturpessimismus" – a idéia de que, no fundo, não somos capazes de dar ordem e direção ao que queremos.

Não falo aqui do ponto de vista do investidor (os inteligentes saberão perceber no momento de crise também o momento da oportunidade). Falo do ponto de vista da experiência de sociedades que se julgavam acima de crises.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Segunda-feira, 29 de setembro de 2008, 21h45.




MOMENTO PARA O HUMOR

A ONU encomendou uma pesquisa de opinião em alguns países sobre o problema da fome no mundo, a pesquisa solicitava aos entrevistados que respondessem apenas esta única pergunta abaixo:

"Por favor, diga honestamente: Qual é a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo?"

Porém, os resultados foram altamente desanimadores e a pesquisa um tremendo fracasso. Porque:

1 - Os europeus não entendiam o que significava "escassez".

2 – Os africanos não sabiam o que eram "alimentos".

3 – Os argentinos desconheciam o que queria dizer "por favor".

4 – Os americanos perguntaram o que significava "resto do mundo".

5 – Os cubanos solicitaram que lhes explicassem o que era "opinião".

6 – E os brasileiros, estão até hoje se perguntando qual é o significado de "honestamente".



"América Latina está gobernada por el Foro de Sao Paulo" - Antonio Sánchez García


A próxima crise americana – Olavo de Carvalho



Thursday, July 24, 2008

O ANTICRISTO PREPARA-SE PARA O GOVERNO MUNDIAL


































O Lula americano
por Olavo de Carvalho

Além de ouvir o hino americano com as mãos sobre a bolsa escrotal e não sobre o coração, Barack Hussein Obama adulterou o emblema das armas nacionais para fazer dele um logotipo de sua propaganda eleitoral, declarou que a bandeira americana "é um símbolo de violência" e, para completar, tirou as cores do país do leme do seu avião de campanha, substituindo-as pelo "O" que representa... ele próprio.

Mais que simples desprezo, essas atitudes denotam um esforço consciente de destruição dos símbolos nacionais. Esse esforço, por sua vez, não precisa de interpretação simbólica: seu sentido é auto-evidente. Ele dá expressão eleitoral à guerra cultural travada contra os EUA, de dentro e de fora do país, desde os anos 60: trata-se de erigir, sobre os escombros do patriotismo e da soberania, um novo sistema de lealdades, baseado na aliança de todos os ódios anti-americanos, anti-ocidentais e anticristãos com os interesses bilionários empenhados na implantação do governo mundial. O sinal mais claro dessa aliança são as fontes de apoio financeiro do candidato: de um lado, grupos radicais e pró-terroristas, de outro as megafortunas globalistas e a grande mídia em peso. Daí o vigor da sua campanha, que tem quatro vezes mais dinheiro que a do oponente e – sem exagero – vinte ou trinta vezes mais cobertura jornalística.

Com esse respaldo, ele se permite desafiar não só todas as conveniências, mas passar por cima das exigências legais mais elementares: depois de sonegar durante meses sua certidão de nascimento, apresentou uma certidão manifestamente falsa (Click AQUI para ver em inglês). O documento original, que continua sumido, é necessário para tirar a limpo uma questão essencial: Obama é cidadão americano ou é um estrangeiro, inelegível portanto? A ocultação e a fraude subseqüente falam em favor da última hipótese, mas o entusiasmo inalterado dos obamistas, contrastando com o seu absoluto desinteresse em esclarecer essa questão, mostra que preferem antes demolir de um só golpe o sistema eleitoral americano do que permitir que os republicanos continuem no poder: o novo sistema de lealdades já está em vigor, sobrepondo à integridade nacional as ambições partidárias da esquerda.

Com a mesma insolência autoconfiante, os planos de governo de Obama contrariam flagrantemente a vontade da maioria, sem precisar temer que isso tire um voto sequer do candidato. A nação quer baixar o preço da gasolina; Obama promete aumentá-lo, mantendo o veto à abertura de novos poços de petróleo. A América quer ver os imigrantes ilegais pelas costas; Obama promete não somente anistiá-los, mas dar-lhes assistência médica com o dinheiro dos contribuintes. A nação quer menos impostos; Obama promete criar mais alguns. Se milhões de cidadãos americanos que pensam e querem o contrário de Obama juram votar nele para presidente, não é por causa do que ele promete, mas a despeito de ele lhes prometer até mesmo o inferno. A atração da imagem hipnótica é mais forte do que o cálculo de custo-benefício.

A campanha de Obama é uma obra de engenharia psicológica de precisão, planejada não para conquistar os eleitores pela persuasão racional, mas para debilitá-los, chocá-los e estupidificá-los ao ponto de fazê-los aceitar todo prejuízo, toda humilhação, toda derrota, só para não contrariar a suposta obrigação moral de elegê-lo, pouco importando que ele seja mesmo um inimigo disfarçado. Sacrificar tudo ante um fetiche, e fazê-lo até certo ponto conscientemente, compartilhando portanto as culpas da operação e incapacitando-se previamente para lutar contra ela depois de realizada, eis o que Obama está exigindo – e obtendo – dos eleitores.

Já vimos essa operação ser realizada no Brasil, com base na imagem estereotipada do "presidente operário", contra cujos crimes e perfídias já ninguém pode levantar uma voz audível, pois, arrastados pela chantagem psicológica, todos se acumpliciaram de algum modo ao ritual de sacrifício ante o altar do ídolo.



Olavo Luís Pimentel de Carvalho nasceu em Campinas, SP em 29/04/1947 é escritor, jornalista, palestrante, filósofo, livre pensador e intelectual, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros, publica regularmente seus artigos no jornal "Diário do Comércio" e no site "Mídia Sem Máscara", além de inúmeros outros veículos do Brasil e do exterior. Já escreveu vários livros e ensaios, sendo que o mais discutido é "O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras" de 1996, que granjeou para o autor um bom número de desafetos nos meios intelectuais brasileiro, mas também uma multidão de leitores devotos, que esgotaram em três semanas a primeira edição da obra, e em quatro dias a segunda. Atualmente reside em Richmond-Virginia, EUA onde mantém um site em português e inglês, sobre sua vida, obras e idéias.
E-mail: olavo@olavodecarvalho.org


Publicado no "Jornal do Brasil".
Quinta-feira,24 de julho de 2008.




O GOVERNO MUNDIAL: Segundo estudiosos das Escrituras Sagrada, o Anticristo surgirá em meio às crises mundiais existentes, de forma que sua aparição surpreenderá o mundo. Seu governo se tornará, em um curto espaço de tempo, num forte governo mundial, unificando com sucesso todos os blocos de relações econômicas e políticas existentes no momento. Com a finalidade de trazer a paz, será reconhecido e aceito, e combaterá as crises mundiais implantando um largo sistema de integração financeira: o sistema 666 de compra e venda. Será neste momento que ele descumprirá o seu trato e se voltará para Jerusalém, no lugar do antigo templo, para lá por o seu trono e exigir ser adorado como Deus. (Apocalipse 13:16–18)


O EXÉRCITO, A LEI E A ORDEM – Oliveiros S. Ferreira





Wednesday, May 14, 2008

Quem realmente é esse "Hussein"?










































Obama ainda precisa mostrar quem é
por William Waack

Mauren Dowd, talvez a mais ferina língua do colunismo político americano, inventou um jeito de Barack Obama punir Hillary Clinton por tudo o que ela disse dele na briga interna dos democratas. É só nomeá-la vice-presidente, sugeriu Dowd, no "New York Times".

Do jeito que ela é, continua a colunista, Hillary teria convulsões estomacais todo dia que acordasse pensando que é Obama, e não ela, o chefe de Estado americano. E se consolaria lembrando que 14 vice-presidentes americanos acabaram assumindo o posto.

Mas a brincadeira para a própria Dowd parou aí. Ela lembra que Obama não é o mesmo perto de Hillary – a agressividade, a tenacidade e a figura da oponente parecem paralisar um político, Obama, que demonstrou ser um excepcional encantador de públicos. Talvez tenha sido esse o principal "serviço" prestado por Hillary, ainda que involuntariamente, durante a campanha política.

Pois está claro agora que Obama tem de correr e dizer quem é – ainda que a gente possa se perguntar: nessa altura do campeonato, Obama precisa ainda dizer quem é? Precisa. A eleição nacional é completamente diferente da disputa entre os democratas, nas quais, por sinal, Hillary pareceu muito forte em relação a Obama justamente naqueles estados populosos que fazem a diferença entre republicanos e democratas na conta do voto nacional.

Hillary deixou bem evidente para a máquina de campanha eleitoral republicana os pontos nos quais Obama surge como figura vulnerável: ele precisa, por exemplo, começar a usar a bandeirinha americana espetada na lapela do paletó. Pode parecer ridículo ao público brasileiro, mas, para o americano, demonstrar patriotismo a cada segundo é fundamental para qualquer candidato.

Mais além das pesquisas de intenção de voto, os pesquisadores de comportamento eleitoral americano descobriram recentemente que 45% dos eleitores se identificam com os "valores de Obama" (assim mesmo, bem vago), mas 54% do eleitorado enxerga melhor os "valores de McCain"). Os republicanos têm condições, a partir da leitura desses resultados, de tentar uma campanha baseada em "valores", deixando de lado a situação da economia do país, que lhes é francamente desfavorável em termos políticos.

Vários comentaristas americanos vêm batendo nos últimos dias na mesma tecla: mesmo no recente caso das declarações sobre raça feitas pelo reverendo Jeremyah Wright, que Obama se apressou em repudiar, ficou um ar de dúvida se apenas a frase "entendo a situação dos negros americanos, assim como entendo a situação dos brancos americanos" é suficiente.

Quando os republicanos falam de "valores", ao que eles se referem, além de elementos claramente éticos e morais como casamento de pessoas do mesmo sexo ou aborto? A máquina eleitoral republicana fala principalmente de coisas como apego ao trabalho (em vez de programas de assistência patrocinados pelo estado), simpatia pelas vítimas de crime (em vez de "compreensão" pela situação social que levou alguém a ser um criminoso), proteção das fronteiras (em vez de tolerar a entrada de imigrantes ilegais).

Parte ou não apenas de um mito americano, há algo mais que o eleitorado nos Estados Unidos valoriza muito, e isso se chamaria aqui do apelo exercido pelas Forças Armadas e a projeção do poder americano (definido como imperial, decadente, ou o que o leitor quiser). O fato é que uma boa parte do eleitorado que tanto McCain quanto Obama querem conquistar considera essencial que um presidente não só fale duro, mas prometa agir duro em termos de política externa.

No fundo, o problema de Obama é não permitir que ele seja colocado, pelos republicanos, do lado errado daquilo que os comentaristas americanos chamam de "cultural devide" – a tênue linha a partir da qual o eleitorado que ele precisa conquistar (para vencer as eleições) o consideraria não confiável.

A vitória não está garantida para Obama. E muitos dos que se entusiasmaram com ele aqui no Brasil provavelmente ficarão decepcionados com o que ele, acredito, começará a dizer agora.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Segunda-feira, 12 de maio de 2008, 20h08.





PSICOPOLÍTICA E "CURA MENTAL" – Maria Lucia Victor Barbosa

Friday, February 01, 2008

John McCain: This is the Man!



























Espírito militar está presente nas primárias americanas
por William Waack

Seria incorreto chamar a sociedade americana de “militarizada” mas, para quem viveu nos Estados Unidos mesmo por pouco tempo, chama a atenção o quanto do jargão militar faz parte da linguagem do dia a dia.Um exemplo é dizer que fulano está “flying under the radar” – uma velha expressão de combates aéreos usada para descrever alguém que se comporta de maneira furtiva.

Outro exemplo é expressão idiomática “going over the top” (superando o topo), muito usada quando se quer dizer que alguém assumiu uma iniciativa. O “top”, nesse caso, é o parapeito da trincheira, o momento em que o soldado de infantaria sai da sua relativa proteção e é obrigado a encarar o fogo inimigo, correndo para o ataque.

Os americanos cultivam seus muitos monumentos (e mitos) de guerra. Ser um veterano de alguma campanha – e praticamente a cada geração houve uma grande campanha militar americana nos últimos 60 anos – significa, de novo, ser respeitado. Acabou há muito tempo a época na qual os que regressavam do Vietnã eram vistos com desconfiança ou até desprezo. Quem passou pelo Iraque é admirado.

Há exatos 40 anos os americanos passaram por um trauma militar que tem conseqüências políticas até hoje. Em janeiro de 1968, numa ação complexa, sofisticada e bem planejada, o exército do então Vietnã do Norte e o Vietcong lançaram a ofensiva do Tet (assim denominada devido aos feriados de três dias do Ano Novo vietnamita, no final de janeiro). A surpresa foi total e os guerrilheiros vietcongues conseguiram invadir até mesmo a bem defendida Embaixada dos Estados Unidos em Saigon.

Do ponto de vista estritamente militar, a ofensiva do Tet acabou sendo uma catástrofe para o Vietcong, que perdeu em três meses de combates quase dois terços dos efetivos (e não mais recuperaria a antiga força e a iniciativa, a cargo a partir dali do exército regular do Vietnã do Norte). Mas os americanos, que não perderam nenhum dos grandes confrontos militares no Vietnã, sofreram em janeiro de 1968 uma derrota política da qual não mais se recuperariam – ao contrário, janeiro de 1968 vale como o início de uma virada que só terminaria com a retirada completa sete anos mais tarde.

John McCain, o homem que lidera a corrida entre os republicanos pela nomeação de seu candidato à presidência, é um veterano daquela época. Piloto de combate da Marinha, foi abatido sobre Hanói em 1967, fraturou os dois braços e uma perna, foi torturado e, quando recebeu uma oferta de libertação, disse que só iria embora se os outros prisioneiros de guerra fossem com ele.

Existe na sociedade americana o culto do indivíduo herói, do líder destemido e, principalmente, da idéia da lealdade e do patriotismo sob quaisquer circunstâncias. É um fator político-psicológico de primeira linha e, se McCain acabar sendo o presidente americano, devolve à Casa Branca uma geração de políticos que sabe perfeitamente bem o que significa uma guerra (o piloto de guerra Bush pai foi abatido em águas japonesas em 1945; John Kennedy também entrou em combate no mesmo conflito, para não falar de Eisenhower).

McCain atribui a si a decisão que Bush tomou, há quase um ano, de reforçar consideravelmente o número de militares americanos empregados exclusivamente na segurança de Bagdá. Não é só uma lição militar (o comandante americano no Vietnã, William C. Westmoreland, exigiu e conseguiu cada vez mais tropas, com cada vez menos resultados). McCain entendeu que o significado político de “apaziguar” Bagdá (não importa quanto isso dure, evidentemente) era bem mais importante do que a resistência, no eleitorado americano, a mandar mais gente morrer numa guerra impopular e desastrosa.

Não deixa de ser curioso (trágico, se o leitor preferir) que uma das perguntas que mais se repete aos eleitores americanos, nas pesquisas de opinião, é a célebre “quem você acha que está melhor preparado para ser comandante-em-chefe das Forças Armadas?” E que numa época de crise econômica, as pesquisas indiquem – e não é paradoxo algum – que boa parte dos eleitores prefere alguém que seja capaz de mostrar liderança, e nem tanto quem demonstre ter grandes conhecimentos de economia (como é o caso do principal adversário de McCain entre os republicanos, o milionário e empresário Mitt Romney).

Há grandes temas, bastante abrangentes, que tem enorme peso na eleição americana: raça, religião, segurança nacional, segurança social. Mas num país no qual uma das piores ofensas é ser chamado de “loser” (perdedor), é bom prestar atenção nesse estado de espírito (não encontro outra expressão) que dá ao combate, ao militar e ao veterano uma importância que não se vê em outros países ocidentais.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008, 19h44.



Lula gosta de publicidade, de notícia, não - Ricardo Noblat



 
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