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Wednesday, March 09, 2011

Carnaval: A apoteose dos coprófagos.




A NOSSA FANTASIA
por Valmir Fonseca Azevedo Pereira

Hoje, retiramos do armário a nossa fantasia de palhaço, de fato uma mistura de palhaço com pierrô, traje que alguns poderão, pejorativamente, nominar como de tolo empedernido, outros de trouxa assumidos.

É antiga. Temos usada a mesma e batida caricatura (?) de palhaço nos últimos oito anos, embora, a cada ano acrescentemos mais um adereço aqui, outro acolá. Assim, para os desconhecidos, ela poderá parecer nova.

Infelizmente, nós os palhaços não caímos nas graças do petismo, que dirá do lulismo, e muito menos do continuísmo.

Por pura vaidade ou vergonha, nos falta coragem para adentrarmos nas passarelas da folia com as indumentárias que o sindical – petismo - lulista adora.

A de "bichonas" ficou ridícula, conforme a nossa veneranda mãe, a de "crioulos", vergonhosa, segundo a nossa tia lésbica, a de "secundaristas da UNE", uma blasfêmia, na opinião dos sobrinhos, a de "universitários graças aos questionáveis exames do Enem", um nojo, foi a sentença de um velho amigo.

E assim, por tentativa e erro, fomos procurando uma fantasia mais de acordo com o nosso atual estado de espírito, tudo em vão.

Tanto a de "PAC 1" como a de "PAC 2", cheias de fogos de artifícios, de pompas e circunstâncias foram sumariamente desclassificadas.

A de "lavrador do MST", ignóbil, a de "sindicalista raivoso", sórdida, a de "assessor sem concurso", um vexame, a de "escamoteador de dinheiro na cueca", repugnante, a de "filiado ao PT", infame, a de "amedalhado pelas autoridades militares" (peito cheio de medalhas), indigna, a de "terrorista convicto" (portando granada e o escambau), repulsiva, a de "político corrupto", redundante, a de "juiz venal", desprezível, todas, foram espinafradas com desusado vigor por um grupo, que receamos nem podemos chamar de amigos, pois se negam a endossar nossas simpatias pelo atual (?) e muito menos pelo desgoverno passado (?).

Desarvorados, por sermos incapazes de escolher uma miserável fantasia para gozar dos folguedos de momo, tentamos, como último recurso, a de METAMORFOSE AMBULANTE, visto que, o dito goza da preferência nacional.

Não cortamos o dedo mindinho da mão esquerda (poderíamos até ser aposentados), isto tirou a veracidade de nossa indumentária, mas carregávamos uma garrafa de pinga, volta – e - meia trocávamos os passos, riamos às bandeiras despregadas, mentíamos à larga, mas esta derradeira tentativa foi a pior, a vaia correu solta. Quase apanhamos. Inclusive, rasgaram a nossa camiseta de "VIVA O MULLA".

Por tudo, compungidos, voltamos a tirar do armário a velha e rota fantasia.

O nariz, aquela bolinha vermelha que alegra a petizada está cada vez maior, as orelhas de burro, também. A novidade é a dentuça postiça uma singela homenagem à nova majestade.

Hoje, mais do nunca é preciso cair na gandaia, pois os ventos que sopram anunciam que este poderá ser, na atual quadratura, o último baile da Ilha Fiscal.

Depois, é pagar a pesada conta, que ele nos legou por nossa total e inconseqüente falta de caráter.

Nóis merece a fantasia de "tolinhos na terra dos vivaldinos".


Valmir Fonseca Azevedo Pereira é General-de-Brigada do "Exército de Caxias".










Publicado no site "A verdade sufocada"
Domingo, 06 de março 2011.



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A "Casa do Caralho" é a grande campeã do carnaval brasileiro em 2011.
CONFIRA O SAMBA-ENREDO!





Mentiras carnavalescas
por Leonardo Bruno

Estamos na época de carnaval. É moda a mídia e a televisão venderem a idéia de que somos um povo festeiro e farrista. Bem, até nesta sexta-feira, eu seguia uma ética rotineira, porém fora do comum dessas fases pagodeiras: estava trabalhando e analisando meios de ganhar dinheiro com advocacia. Tenho que pagar minhas contas. Presenciei com indiferença a semana de carnaval. O tempora, O mores!

Interessante a experiência que tive quando fui ao Rio de Janeiro, no carnaval de 2005. Visitava um amigo, quando percebi que a cidade estava vazia. E sentia que a grande maioria desprezava ou ignorava o carnaval. De fato, a maioria do povo não dava à mínima. O grosso da população carioca fugia da cidade. Sobravam apenas alguns favelados, traficantes de drogas, bicheiros e artistas da Rede Globo. Além do que, claro, os turistas estrangeiros, visíveis deslumbrados e bobalhões (claro que não faço parte deles). Na última vez que passei pelo Rio de avião, indo de viagem a São Paulo, via um desses turistas toscos falando da caipirinha, com aquele sotaque meio ridículo. Estava com um grupo de gringos de sua espécie. Reconheci o passaporte: era da África do Sul. Com certeza vai levar uma imagem caricatural da nossa gente, ou seja, a de um país de praias, futebol, mulatas exóticas e foguentas e povo alegórico e fantasista. Quem diz que o Rio de Janeiro é o cartão postal desta nação realmente não sabe do que está falando.

Não consigo me identificar em nada com o Rio. Na verdade, eu não tenho a menor identidade com qualquer coisa tropical. O clima e a vegetação do norte me parecem monótonos e sem graça, além da temperatura ser alta, calorenta e por vezes insuportável. Sem querer depreciar meus amigos nordestinos, não me empolgo com praias ou paisagens solares. Tal como o Rio, as capitais nordestinas me fazem lembrar turistas gringos idiotas, prostitutas, trios elétricos e micaretas. Costumo apreciar climas temperados e cinzentos e roupas pesadas. Embora nunca tenha ido a Europa, aquela paisagem cinzenta, sombria que vejo em fotos e vídeos me causa uma séria impressão. Sem contar as quatro estações, que dão graça ao tempo. No Brasil, por mais que seja um gaúcho radicado no Pará, o máximo que me identifico é com São Paulo, terra da prosperidade e modernidade (ainda que o povo paulista vote no canastrão analfabeto e insípido Tiririca ou no charlatão pseudo-filósofo Gabriel Chalita para deputado federal). Ou as paisagens do sul, com suas colinas enormes e costumes europeus arraigados dos colonizadores. Se bem que os sulistas tenham fama de rudes, mal humorados, criaturas estranhas. Para quem está acostumado com a polidez e simpatia do povo paraense, a rudeza peculiar dos sulistas parece coisa de homens das cavernas, de verdadeiros ogros.

O carnaval passaria indiferente para mim, como para milhões de brasileiros, se não fosse um detalhe que virou notícia na internet. Uma escola de samba de Florianópolis chamada "Unidos da Ilha da Magia" vai desfilar com um tema de Cuba, em particular, homenageando a ditadura de mais de meio século do todo-poderoso ditadorzinho de republiqueta do Caribe, Fidel Castro. Se as escolas de samba se restringissem a mostrar mulheres nuas, cachaça à vontade e muita promiscuidade sexual, vá lá, eu não me importaria. O problema é a falsificação histórica digna dos piores dias do famigerado "realismo socialista" stalinista. Com o título "Cuba sim! Em nome da verdade", a escola de samba está propagando sórdidas mentiras. Com direito ainda a participação especial de Aleida Guevara, filha do guerrilheiro, terrorista, psicopata e assassino Che Guevara.

Algo me incomodou profundamente. Nada mais me atinge na alma do que a destruição da verdade. E, no entanto, o espectro de Stálin e do "Realismo Socialista" paira no carnaval, contaminando milhões de consciências com as falsidades abjetas e cínicas do regime socialista. Quando sambistas começam a falar sobre história, parecem papagaios analfabetos. Se bem que o problema não é somente de sambistas. O que não falta no curso de história são papagaios analfabetos, seja do marxismo, seja de apologia à tirania cubana, seja de qualquer governo liberticida. As escolas de samba, como subprodutos do velho fascismo varguista, agora servem a outro totalitarismo, só que comunista. O que mudou? O pensamento do governo e da intelligentsia. Continuam cada vez mais idiotas.

Falei de "realismo socialista"? As letras da música são pura paródia de mau gosto, de pura distorção da realidade. O besteirol começa desse jeito: "Uma forte emoção / No meu coração /Liberdade /Eu sou União/ A voz de um povo pela igualdade". Resta-nos saber onde está a liberdade numa ditadura que reprime as liberdades elementares do povo cubano. E que igualdade existe numa sociedade onde uma diminuta nomenclatura burocrática controla um país inteiro e trata seus concidadãos como verdadeiros servos? Deve ser a igualdade na miséria, todo mundo nivelado por baixo. Ou quem sabe o tipo peculiar de "igualdade socialista", onde uns são mais iguais que outros. A vigarice não termina por aí: "Guerreiros unidos na revolução/Pelo bem de uma nação/Um preço a pagar, não vou negar/Mas a comunidade em primeiro lugar". Grotesco é escutar que uma nação deva pagar a destruição de sua liberdade pela revolução. Em outras palavras, prisões arbitrárias, censura à liberdade de pensamento, de consciência e de imprensa, tortura, execuções sumárias, fuga em massa do país. Napoleão, no alto do seu sarcasmo, dizia que a revolução é a opinião que adquiriu algumas baionetas. No caso cubano, a revolução é a opinião que adquiriu o fuzil no paredão do quartel de La Cabaña.

O trecho da modinha esconde o lado perverso da história, típico da mentalidade socialista: a comunidade, em primeiro lugar, representada pelo Estado, tem pleno direito de esmagar o indivíduo. Hitler pregava os "direitos" da comunidade sobre indivíduo. Stálin pregava os "direitos" da comunidade sobre o indivíduo. Enfim, qualquer tirano prega a tirania da comunidade sobre o indivíduo. Porque não há maior representação de conformismos social do que a coletividade, do que está preestabelecido, do que é imposto pelo conjunto, em detrimento dos direitos do indivíduo. Isto porque nem mesmo a sociedade decide nada: é o Estado, ou uma camarilha bem diminuta chamada "Partido", que dita, tanto para a coletividade, como para o indivíduo, esmagando ambos.

E para finalizar, o sambinha vulgar nos vende a propaganda mentirosa do regime cubano, nestes termos: "Os sonhos se tornam verdade/ Trazendo pra muitos a felicidade/ Com saúde, educação/ A base pra um cidadão". Um sambista da vida não seria tão inteligente o bastante para escrever essas asneiras (embora seja bastante equiparada a estupidez e tagarelice comum do comunista). Não será suspeito que uma escola de samba fale "em nome da verdade", o que é a mais grotesca mentira?

Qualquer pessoa sensata e bem informada sabe que os serviços de saúde e educação cubanos não prestam. E desde quando um serviço de saúde e educação controlado pelo Estado vale a liberdade humana? Desde quando o suposto bem-estar social vale o mal estar espiritual de ser eternamente prisioneiro de um regime político tirano? Benjamin Franklin, na sua imensa sabedoria, afirmava que quem abdica da liberdade pela segurança, não merece a liberdade, nem a segurança. Cuba, em nome da segurança, perdeu a liberdade. E também a segurança.

Tal propaganda descarada cheira a uso indevido de dinheiro público, propina, peita, para promover ideologias e regimes genocidas. Ou quem sabe a dinheirada da própria ditadura cubana. Numa época em que um ex-presidente da república usou de sua influência no Ministério da Cultura para fazer um filminho ruim sobre sua vida, não me espantaria que a ideologização da cultura no Estado brasileiro esteja mais forte do que nunca, com a ascensão do PT no poder. Bem que o Ministério da Cultura deveria ser modificado, em homenagem a George Orwell e sua novela "1984": O Ministério da Verdade, que seria entendido como Ministério da Mentira!

"Cuba, em nome da mentira" é o espetáculo que a escola de samba de Florianópolis nos brinda. Não se pode exigir de sambistas carnavalescos ignorantes algum conhecimento de história. Mas por que dão palpites irresponsáveis? Provavelmente não tiraram asnices do nada. Extraíram de alguém, de alguma pretensa autoridade no assunto. Notoriamente da vulgata marxista dos nossos professores de história, entusiastas de qualquer mandatário de plantão, viuvinhas de Stálin e nostálgicos do Muro de Berlim que são. Ou então a tal "Associação Cultural José Martí", que deu apoio e orientação aos sambistas, já que a delegação da escola de samba foi a Cuba, deslumbrada, tal como um turista idiota nas praias do Rio de Janeiro. Voltaram apaixonados pela barbicha do Che Guevara, tal como um dia outros foram gamados pelos longos bigodes do sanguinário serial killer da Geórgia, o Sr. Diugashivili, guia genial dos povos.

Vigarices à parte, os carnavalescos ignorantes não parecem agradecidos pelo sistema de liberdades que usufruem. Envolvidos pela sua "ilha da magia", ignoram completamente que Cuba é uma ilha sim, mas de magia negra. Os idiotas úteis brincam no carnaval como macacos de uma grande farsa. Só que a farsa não é mera fantasia de carnaval. É uma burla destrutiva que oculta, oprime e esconde a aflição de milhões de cubanos. E no reino de todas as prisões, campos de concentração, paredões e águas que separam Cuba do exterior, a pior muralha que isola a vida dos cubanos do mundo real democrático é a mentira. Mentira que é alimentada por intelectuais, historiadores, universidades, "associações culturais", imprensa, enfim, todos colaborando para a eterna prisão do povo cubano. A mentira repetida pela escola de samba é mais uma chave nos grilhões daquela pobre nação. E a ignorância, alimentada pela mentira sistemática, aliena cada vez mais as nações democráticas na sua obrigação de defender da liberdade contra os males do totalitarismo.


Leonardo Bruno, "Conde Loppeux de la Villanueva", um reacionário hidrófobo, blogueiro da mídia golpista.








Publicado no blog "Conde Loppeux de la Villanueva"
Sábado, 05 de março 2011,04h28.




A alegria é um produto de mercado – Arnaldo Jabor







Tuesday, February 22, 2011

"Ser ou não ser, eis a questão"




A alegria é um produto de mercado
por Arnaldo Jabor

Está chegando o carnaval. Antigamente o carnaval vinha aos poucos, com as cigarras e o imenso verão, com as marchinhas de rádio que aprendíamos a cantar. Hoje, o carnaval se anuncia como um prenúncio de calamidade pública, uma "selva de epiléticos", com massas se esmagando para provar nossa felicidade. A alegria natural do brasileiro foi transformada em produto.

Hoje em dia é proibido sofrer. Temos de "funcionar", temos de rir, de gozar, de ser belos, magros, chiques, tesudos, em suma, temos de ter "qualidade total", como os produtos. Para isso, há o Prozac, o Viagra, os "uppers", os "downers", senão nos encostam como mercadorias depreciadas.

O bode pós-moderno vem da insatisfação de estar aquém da felicidade prometida pela propaganda. É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Ninguém quer ser "sujeito", com limites, angústias; homens e mulheres querem ser mercadorias sedutoras, como BMWs, Ninjas Kawasaki. E aí, toma choque, toma pílula, toma tarja preta. Só nos resta essa felicidade vagabunda fetichizada em êxtases volúveis, famas de 15 minutos, "fast fucks", "raves" sem rumo.

A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória. "A depressão não é comercial", lamentou um costureiro gay à beira do suicídio, mas que tinha de sorrir sempre, para não perder a freguesia.

O mercado nos satisfaz com rapidez sinistra: a voracidade, a tesão, o amor. E pensamos: Eu posso escolher o filme ou música que quiser, mas, nessa aparente liberdade, "quem" me pergunta o que eu quero? A interatividade é uma falsificação da liberdade, pois ignora meu direito de nada querer. Eu não quero nada. Não quero comprar nada, não quero saber nada, quero ficar deprimido em paz.

Acho que a depressão tem grande importância para a sabedoria; sem algum desencanto com a vida, sem um ceticismo crítico, ninguém chega a uma reflexão decente. O bobo alegre não filosofa pois, mesmo para louvar a alegria, é preciso incluir o gosto da tragédia. No pós-guerra, tivemos o existencialismo, a literatura com gênios como Beckett e Camus ou o teatro do absurdo, o homem entre o sim e o não, entre a vida e o nada.

Estava neste ponto do artigo, quando me chegou às mãos um artigo chamado Elogio da Melancolia, de Eric G. Wilson, da Universidade de Wake Forest. Veio a calhar. Com destreza acadêmica, ele aprofunda meus conceitos. Ele escreve:

"Estamos aniquilando a melancolia. Inventaram a ciência da felicidade. Livros de autoajuda, pílulas da alegria, tudo cria um "admirável mundo novo" sem bodes, felicidade sem penas. Isto é perigoso, pois anula uma parte essencial da vida: a tristeza."

Ele continua:

"Não sou contra a alegria em geral, claro... Nem romantizo a depressão clínica, que exige tratamento. Mas, sinto que somos inebriados pela moda americana de felicidade. Podemos crer que estamos levando ótimas vidas livres, quando nos comportamos artificialmente como robôs, caindo no conto dos desgastados comportamentos "felizes", nas convenções do contentamento. Enganados, perdemos o espantoso mistério do cosmo, sua treva luminosa, sua terrível beleza. O sonho americano de felicidade pode ser um pesadelo. O poeta John Keats morreu tuberculoso, em meio a brutais tragédias, mas nunca denunciou a vida. Transformou a desgraça em uma fonte vital de beleza. As coisas são belas, porque morrem – ele clamava. A rosa de porcelana não é tão bela como aquela que desmaia e fenece."

Li também num texto de Adauto Novaes uma citação de Paul Valéry: "O que seria de nós sem o socorro do que não existe? Se uma sociedade elimina tudo que é vago ou irracional para entregar-se ao mensurável e ao verificável, ela poderia sobreviver? (...) tudo o que sabemos e tudo que podemos hoje acabou por opor-se ao que somos. A ordem exige a ação de presença de coisas ausentes".

Ou seja – digo eu –, o que seria de nós sem as coisas vagas com que podemos sonhar?

A resposta a isso eu encontrei num texto de Vargas Llosa publicado no El País: "Palavras como "espírito, ideais, prazer, amor, solidariedade, arte, criação, alma, transcendência" significam ainda alguma coisa? (...) Antes, a razão de ser da cultura era dar resposta a esse tipo de perguntas, porém o que hoje entendemos por cultura está esvaziada por completo de semelhante responsabilidade. Hoje o que chamamos de cultura é um mecanismo que nos permite ignorar assuntos problemáticos; é uma forma de diversão ligeira para o grande público esquecer-se do que é sério, como uma fileira de cocaína ou férias de irrealidade."

Aliás, este é o grande sonho do mercado: a satisfação completa do freguês. No entanto, a melancolia, a consciência do tempo finito é o lugar de onde se contempla a beleza. Há uma conexão entre tristeza, beleza e morte. Só o melancólico cria a arte e pode celebrar a experiência do transitório resplendor da vida. A melancolia, longe de ser uma doença, é quase um convite milagroso para transcender a banalidade cotidiana e imaginar inéditas possibilidades de existência. Sem a melancolia, a terra congelaria num estado fixo. Mas se permitimos que a melancolia floresça no coração, o universo, antes inanimado, ganha vida, subitamente. Regras finitas dissolvem-se diante de infinitas possibilidades. Mas, por que não aceitamos isso? Por que continuamos a desejar o inferno da satisfação total, a felicidade plena?

Por medo. Escondemo-nos atrás de sorrisos tensos porque temos medo de encarar a complexidade do mundo, seu mistério impreciso, suas terríveis belezas. Usamos uma máscara falsa, um disfarce para nos proteger deste abismo da existência. Mas, este abismo é nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida. A fragmentação é liberdade. É isso aí, bichos – como se dizia em tempos analógicos.


Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.
E-mail: a.j.producao@uol.com.br


Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" – (Cultura).
Terça-Feira, 22 de fevereiro de 2011.





A esquerda e o Islã de mãos dadas – Partes I e II – Leonardo Bruno







 
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