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Wednesday, February 10, 2010

É aos escravos e aos animais, e não aos homens livres, que
se dá um prêmio como recompensa pela sua submissão.


































VALORES INVERTIDOS
por José Nivaldo Cordeiro

Não posso deixar passar sem um comentário a bela crônica do João Pereira Coutinho, publicada hoje na Folha de S. Paulo (v. AQUI ). No texto, o autor relata a iniqüidade que se instalou em Portugal, qual seja, a institucionalização do ócio remunerado, que praticamente condena multidões a nada fazer como se isso fosse algo de bom. Em troca, os déficits da Previdência Social crescem de forma explosiva e o desemprego não dá sinais de que possa regredir.

Essa situação não é incomum, muito ao contrário. Em toda Europa é possível que alguém nasça e morra sem precisar trabalhar nunca, permanentemente dependente da mesada estatal. Foi instituído o "direito humano" à vagabundagem. Obviamente que a trajetória dos déficits públicos, somados ao impacto da grave crise mundial, aponta para um fim dramático dessa iniqüidade, que é contra a natureza e o senso de justiça.

No Brasil vivemos já o império das bolsas com várias denominações, e as aposentadorias descasadas das contribuições, especialmente as do setor público, prática já antiga de remuneração do ócio. Aqui, por vezes com valores estupendos, os famigerados marajás, que caçoam risonhamente dos pagadores de impostos. A eles se juntaram os recebedores da bolsa-ditadura. Como na Europa, a situação das finanças públicas agrava-se dia a dia, por força dessa situação anormal.

O que mais interessa ao observador é o que vai acontecer na esfera política. Os aposentados, portadores de bolsas e desempregados remunerados estão próximos de constituírem uma grande maioria. Que governante poderá ser eleito prometendo corrigir as finanças públicas pela raiz, ou seja, cortando o ócio remunerado das multidões viciadas em não trabalhar? Terá que ser feito, mas como combinar a correta medida administrativa com a manutenção das instituições democráticas?

Veja-se o caso dramático da Grécia, a manchete dos últimos dias. Aquele país passa por uma grave crise financeira e precisará cortar benefícios sociais e empregos públicos, e gastos de um modo geral, uma vez que a válvula da inflação e da desvalorização cambial, pelo acordo para integrar a União Européia, não pode ser usada. Portugal é a bola da vez em termos de volume proporcional de déficit. Como isso será feito no regime democrático? Eu não tenho a mínima idéia. É certo que essas sociedades passarão por processo de empobrecimento rápido.

O fracasso dessas experiências é o fracasso da social-democracia, ou seja, da promessa igualitarista, incompatível com a prosperidade econômica. Estamos chegando a um tempo em que a realidade econômica se imporá de forma inexorável sobre a alucinação política que assumiu a hipótese de que seria possível suprimir a lei da escassez e que parcela crescente da população poderia viver sem trabalhar. Políticos social-democratas e socialistas em geral chegaram ao poder e lá se mantiveram escorados nessa mentira. O tempo do ajuste chegou.

Na melhor das hipóteses aparecerão políticos da estirpe de Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que "peitarão" os sindicalistas e os políticos populistas e organizarão as finanças públicas. Na pior, teremos a multiplicação dos regimes de força. O certo é que o tempo das meias medidas acabou e a tolerância com os crescentes déficits públicos (bem como o endividamento do Estado) está chegando ao fim. Em última análise, a quebra técnica dos Estados determinará o realinhamento das forças políticas.

É provável que pactos políticos feitos a partir de algum tipo de lei de responsabilidade fiscal venham a ser exigidos para que partidos políticos possam ser constituídos, uma espécie de cláusula pétrea sobre a qual ninguém poderá questionar. Mas antes que isso ocorra veremos o sofrimento dessas gerações de ociosos remunerados, moradores de beira de praia, praticantes de turismo para preencher o seu vazio existencial. Como fazer alguém assim trabalhar, depois de décadas de ócio? É uma questão em aberto.

E essa gente que chegou aos cinqüenta anos sem constituir família, que fez do subsídio estatal seu único arrimo, como sobreviverá ao duro ajuste? Essa gente sem filhos e sem futuro? A disciplina do trabalho se adquire por longos anos de treinamento. Teremos um fenômeno novo e interessante, da reinserção dessas multidões ociosas na rotina humana, que vem desde que a civilização apontou no horizonte. "Homem, comerás o pão com o suor do teu rosto".


José Nivaldo Cordeiro: "Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas".



José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP e editor do site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado". E-mail: nivaldocordeiro@yahoo.com.br


Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Terça-feira, 09 de fevereiro de 2010.




"TERÁS DINHEIRO EM TROCA DA TUA ALMA"





Vender a alma
por João Pereira Coutinho

Tiveram um bom fim de semana? O meu foi perfeito. Só exercício físico. No sábado de manhã, aspirei a casa. Depois, limpei o pó. Lavei a louça, passei a ferro - e entretanto era domingo à noite. Existem trabalhos duros, eu sei. Mas alguém tem de os fazer.

Pena que seja eu. Há várias semanas que procuro empregada, depois das três últimas que passaram por aqui. Elas vêm, ficam alguns meses e depois partem. Não por culpa minha. Sou patrão generoso no salário, no horário, até nas exigências laborais. A culpa é da natureza humana: entre trabalhar em minha casa ou não trabalhar em nenhuma casa, qualquer ser pensante não hesita.

Claro que, por essa altura, o leitor inteligente já formulou uma questão cruel: mas, se as donzelas preferem não trabalhar, como podem viver?

O leitor inteligente, apesar da inteligência, desconhece um pormenor básico: na Europa do século 21, existe um generoso "modelo social" que, apesar de estar a caminho da falência, ainda proporciona algum espetáculo terminal. Esse modelo permite que um adulto possa viver grande parte da existência sem mexer um dedo para trabalhar. Em teoria, o subsídio de desemprego implica um compromisso do trabalhador para encontrar o dito cujo. As agências do Estado, aliás, costumam sugerir ocupações, de acordo com as competências do trabalhador potencial. Mas, na prática, tudo depende da inclinação de cada um. E a inclinação é conhecida.

As três últimas empregadas trabalharam afincadamente enquanto aguardavam pelos "papéis". Os "papéis" são os documentos de naturalização, que concedem ao novo cidadão da República vários direitos (mas, curiosamente, poucos deveres). Um dos direitos é apoio no desemprego, na doença e na velhice. Como a doença e a velhice só costumam aparecer na fase última da vida, melhor aproveitar o desemprego na idade jovem. E elas aproveitam.

Roteiro conhecido: avisam que deixarão o serviço. Eu pergunto por quê. Ingenuamente, imagino que encontraram trabalho melhor. Ou mais bem pago. Razões válidas e meritórias. Com esperança escolástica, antecipo o dia em que uma delas dirá: "Estudar sempre foi um sonho adiado!".

Nenhuma resposta. Quando as reencontro no bairro, tempos depois, a confissão: estão no desemprego. Melhor: com o subsídio de desemprego. E qual o valor do subsídio? Um pouco melhor do que os meus salários, dizem elas, com leve reprovação. Engulo em seco. Elementar, meu caro Watson: eu não posso competir com o Estado. Concorrência desleal.

Escuto tudo com uma mistura de indignação e divertimento. E depois ainda sugiro uma ilegalidade conhecida: é possível acumular o subsídio de desemprego com o salário do emprego. Elas riem. A questão não é o dinheiro. É o trabalho. Para que trabalhar quando é possível não o fazer, ganhando na mesma?

Regresso a casa e sinto-me o último otário do mundo. Serei caso único? Não sou. Mark Steyn, na última "The New Criterion", fornece alguns números que amaciam minha solidão. Conta Steyn, em texto sobre o assustador crescimento do Estado nas sociedades ocidentais, que só no Reino Unido, desde o momento em que o New Labour conquistou o poder (1997), 5 milhões de pessoas não voltaram mais a trabalhar.

Por outras palavras: um décimo da população vive há 12 anos do cheque estatal. Um quinto das crianças britânicas cresce em casas onde nenhum adulto trabalha -um belo exemplo que se perpetuará pela descendência. No Estado de bem-estar social, é possível que um ser humano nasça, cresça, envelheça e morra sem saber o que significa trabalhar e ganhar um salário. Leio essa última frase e sinto uma vibração de simpatia e inveja na minha costela ociosa. Mas ócio com dinheiro dos outros tem um nome feio.

Diz Mark Steyn que o modelo social europeu é um caso de despesa brutal que a economia do continente não poderá suportar pelos próximos anos. Fato. Salvífico* fato.

Mas o modelo não é apenas economicamente inviável; é também moralmente trágico ao condenar milhões de criaturas a vidas desérticas e bovinas, sem nenhum objetivo que possamos reconhecer como humano. Sem querer abusar de metáforas mefistofélicas, o modelo social europeu é uma tentação capital.

Uma forma de o Estado dizer: "Terás dinheiro em troca da tua alma". Terás dinheiro sem o mereceres; e, por isso, terás também uma vida de tédio e repetição. Uma sucessão de dias habitados por nada até o dia em que serás nada também.

(*) adj (lat salvificu) Que salva: O sacrifício salvífico de Cristo.


João Pereira Coutinho nasceu (1974) e vive em Portugal, estudou História na Faculdade de Letras da Universidade da cidade do Porto (Portugal) e fez pós-graduação em Ciência Política na Universidade Católica. Foi cronista do "Jornal Independente" e atualmente assina a coluna "Estado Crítico" no jornal "Expresso" de Portugal. No Brasil, João Pereira Coutinho é colunista da "Folha de S.Paulo", onde escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. Seus artigos encontram-se reunidos no livro "Avenida Paulista", publicado em Portugal. Conheça também, o site mantido por J. P. Coutinho: "O Sítio".
E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com



Publicado no jornal "Folha de S. Paulo" (Ilustrada).
Terça-feira,09 de fevereiro de 2010





Os militares e a memória nacional – Olavo de Carvalho





Monday, January 18, 2010

Lula o "capoeirista" (calção branco), enfrentando
o "gente branca de olhos azuis" (calção preto).


O Capoeirista por Mary Zaidan
Ao advertir que neste ano não encarnará o "Lulinha paz e amor" e que está pronto para revidar o "jogo rasteiro" da oposição e os chutes "do peito para cima", o presidente Lula propositadamente elevou o tom, antecipando a escala e os instrumentos que pretende usar para tentar eleger a sua sucessora. Mesmo sem intimidade alguma com essa dança-jogo-luta e seus maravilhosos e criativos golpes - rabo-de-arraia, meia-lua, queixada, bênção, martelo e tantos outros –, há tempos Lula pratica o que há de mais precioso na capoeira: a ginga. Com maestria, ginga entre falar uma coisa e fazer outra – embalado não pela cadência do berimbau, mas pelo som de sua própria voz. Esconde-se na hora certa, sabe tudo e, quando lhe convém, nada sabe. Acusa outros por delitos que lhe estão por demais próximos e move-se habilmente entre ofensores e ofendidos, entre seus ricos hábitos e os daqueles que vivem na miséria. Consegue fazer agrados à direita e à esquerda e cria, quando lhe é útil, antagonismos ideológicos, não raro há muito superados. Sua destreza é espantosa, de dar inveja a grandes mestres como Binha e Pastinha, idolatrados pelos capoeiristas brasileiros e africanos, terra base dessa belíssima arte. No primeiro palanque do ano, montado para a assinatura de protocolos do programa Minha casa, minha vida, Lula mais uma vez mostrou o seu gingado diante das câmeras de TV e de quase mil convivas. Comportou-se como candidato e, sem qualquer pudor, não escondeu o papel de coadjuvante que imagina para a ministra Dilma Rousseff, mesmo se ela chegar a Presidência da República. Como reina absoluto e não necessita se encaixar nos padrões marqueteiros de campanha, Lula repassou a Dilma o seu figurino de maior sucesso nas duas eleições anteriores. E, enquanto a ministra da Casa Civil tenta, ainda que sem a mesma desenvoltura do chefe, vestir-se de "Dilminha paz e amor", Lula desafia qualquer um que dele discorde ou possa vir a discordar. Lança ameaças ao vento para, antecipadamente, proteger a sua pupila. Usa uma estrela (um dos nomes que os capoeiristas dão à esquiva para uma rasteira), e se diz pronto para se defender de chibatas e voadoras (exemplos de golpes em que, depois de um giro no ar ou de um Aú, se atinge adversário com a sola ou a parte externa do pé). Chama para a briga adversários que não tem e não terá. Sem ter opositores, a propaganda de suas habilidades como capoeirista assemelha-se às exibições turísticas tão comuns no Pelourinho de Salvador, produzidas para inglês ver. Em mais de sete anos, Lula e o seu Governo contaram sempre com a docilidade dos adversários, cada dia mais tementes em desafiar a fabulosa popularidade do presidente. Não experimentou também qualquer ferocidade nas campanhas em que foi eleito e reeleito. Nas disputas eleitorais, o único golpe baixo (e põe baixo nisso) de que foi vítima veio do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello, hoje um aliado que ginga no ritmo ditado por Lula. Cintura-dura e em quase nada flexível, o governador José Serra, o rival, não tem ginga alguma. Mas desta vez, talvez isso não lhe faça a falta que fez em 2004. É Dilma, e não Lula, que estará na roda. E dificilmente ela conseguirá, por mais esforço que faça nos treinos, adquirir molejo. Já o presidente continua a mostrar a sua incrível agilidade. Entre quatro paredes, dois dias depois dos arroubos, desculpou-se junto ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves – a velha tática de consertar no privado os estragos e ameaças que fez em público. Como na capoeira, deu um passo para trás para poder disparar outro golpe qualquer quando e se os candidatos subirem ao ringue – arena que Dilma e Serra tentarão evitar. * Os nomes de golpes e a tentativa de explicá-los foram fruto de pesquisa, já que, ao contrário do presidente, não sou capoeirista.

Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência "Lu Fernandes Escritório de Comunicação".
Publicado no "Blog do Noblat". Domingo, 17 de janeiro de 2010, 14h25.
Farofa & capoeira por Augusto Nunes
"Na ausência de discurso programático, vale chutar do peito para cima. O que eles não sabem é que eu sou capoeirista. E estou muito preparado para não deixar a coisa perpassar peito para cima".
Lula, ainda atarantado com a indignação provocada pelo "Guia do Stalinismo Farofeiro", fingindo que dentro daquele isopor na praia havia não o que vocês imaginam, mas uma pilha de apostilas do curso intensivo de capoeira em que se diplomou durante as férias.

Augusto Nunes da Silva é jornalista, nascido em Taquaritinga, interior de S. Paulo, foi redator-chefe da revista Veja, diretor de redação das revistas Época e Forbes, dos jornais O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Zero Hora, além de diretor-executivo do Jornal do Brasil. Foi também apresentador do programa Roda Vida da TV Cultura e do programa "Verso & Reverso" da TVJB. Augusto Nunes escreveu diversos livros, entre os quais: "Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter" (livro de memórias de Samuel Wainer), "Tancredo" (biografia de Tancredo Neves), "O Reformador: um Perfil do Deputado Luís Eduardo Magalhães" e "A Esperança Estilhaçada", sobre a atual crise política, entre outros. É um dos personagens do livro "Eles Mudaram a Imprensa", da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que selecionou os seis jornalistas mais inovadores dos últimos 30 anos, além de ter ganho por quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente, Nunes escreve uma coluna na edição eletrônica da Revista "VEJA".
Publicado na seção Sanatório Geral da "Coluna do Augusto Nunes". Quarta-feira, 13 de janeiro de 2010.
2010: SE NOS SUBMETERMOS A ISSO... PODEREMOS TERMINAR RECEBENDO ISTO!
Lula o "capoeirista" (calção branco), enfrentandoo "gente branca de olhos azuis" (calção preto).

Monday, January 14, 2008

Apologia a vagabundagem ou só uma idéia de jerico?

Foto: Márcio Pochmann - presidente do IPEA.









































O encômio do ócio
por Ubiratan Iorio

Os brasileiros conscientes, que não se deixam levar pelo bombardeio esquerdista desencadeado pela mídia, estão entregues às baratas. É de impressionar, até para um alienado crônico, a quantidade de pessoas sem qualificação ocupando cargos públicos importantes no governo do PT. Onde isso vai parar não sabemos, mas é fácil percebermos que mais três anos com essa turma no Planalto decretarão a deterioração total de nosso setor público - que, aliás, nunca foi eficiente em termos de servir ao público. Se o próximo presidente tiver consciência da gravidade do problema levará, pelo menos, um mandato inteiro para consertar os estragos.

O louvor à indolência veio de um campeão de sandices, Márcio Pochmann, presidente do Ipea, que, depois de declarar em sua posse que o Estado brasileiro seria "raquítico" e de ter iniciado um expurgo - petetização - no órgão, saiu-se, antes do Natal, com uma bobagem digna de figurar entre as maiores já pronunciadas por uma figura pública: "Não há, do ponto de vista técnico, motivo para alguém trabalhar mais do que quatro horas por dia durante três dias por semana"...

Ponto de vista "técnico"? Tamanha jericada teria de suscitar, naturalmente, reações indignadas por parte dos que, por bons princípios ou por experiência, sabem que o trabalho é essencial para o homem e sua prosperidade. Assim, por exemplo, reagiu o jornalista Reinaldo Azevedo à parvoíce do ex-secretário da ex-prefeita Marta Suplicy: "Pochmann é um daqueles casos em que o trabalho conta como massa negativa. Se ele trabalhar a metade, renderá sempre o dobro. O ideal, de fato, é que não faça nada para que atinja a produtividade 100%".

Azevedo, a meu ver, foi generoso com o economista que compôs, da maneira mais multidisciplinar e errada possível, um hino à vagabundagem, demonstrando desprezar a ética do trabalho, entender tanto de economia quanto uma preguiça sonolenta de teoria dos jogos e conhecer tanto de história quanto uma pulga saltitante da arte do contraponto e fuga.

Sob o ponto de vista ético, sabemos, desde os escritos de São Paulo, que aquele que não gosta de trabalhar não merece comer o pão. Além disso, toda a tradição moral da civilização nos ensina que o trabalho dignifica e que as tarefas profissionais bem feitas, realizadas com perfeição humana, além de renderem benefícios pecuniários, elevam o espírito. Nota zero em ética!

Quanto à história, olhemos apenas o exemplo da França, que já tentou a fórmula do ócio, deu-se conta da imensidão do erro e está voltando atrás, mesmo possuindo um nível de capital humano inquestionavelmente maior do que o do Brasil - o que, teoricamente, daria aos franceses, em média, a possibilidade de terem de trabalhar menos horas do que os brasileiros. Zero em história!

E, quanto à economia, é degradante que alguém do ramo desconheça que o crescimento - da pessoa humana e do país - só se consegue com esforço, criatividade, busca pessoal, hábitos de poupança e trabalho duro, sob leis justas, concisas e estáveis. Nos países desenvolvidos - que atingiram esse grau exatamente por não terem seguido suas idéias - trabalha-se ainda, e muito. Nota zero em economia para o economista! Que vergonha!

Sabe acaso o senhor Pochmann o que seria, por exemplo, ficar atrás do balcão de uma padaria ou botequim e fechar o estabelecimento quatro dias por semana e, nos outros três, atender apenas das 8h até o meio-dia, ou das 14h até as 18h? Ou ser um dentista, médico, agricultor, dono de uma academia, ou representante de vendas e proceder da mesma forma? O que deseja? Que todos corram para gastar nos shoppings, sem terem produzido? O que espera? Que a redução de 70% nas horas semanais de trabalho, de 40 para 12, fará crescer o número de empregados? Será que conhece algo sobre custos? Que nunca leu, em qualquer livro introdutório de economia, sobre o conceito de produtividade? E que ignora as relações, fortes e inescapáveis, entre produtividade, salários, custos de produção, oferta e nível de emprego? Quem sustentaria a vagabundagem coletiva? Os contribuintes? E até quando? Até que todos - inclusive o país - quebrassem?

O encômio do ócio... Aviltante! Por essas e outras, Roberto Campos definia o PT como "o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam".


Ubiratan Jorge Iorio de Souza é Doutor em Economia pela EPGE/Fundação Getulio Vargas, ex-funcionário do Banco Central do Brasil, foi também articulista de Economia do "Jornal do Brasil" e do jornal "O DIA". Ubiratan Iorio tem cerca de quinhentos artigos publicados em jornais e revistas brasileiros, é Consultor em diversas instituições e já publicou os seguintes livros: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira", "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" e "Macroeconomia e Política Macroeconômica". Para saber mais sobre Ubiratan acesse seu site/blog pessoal "Ubiratan Iorio". E-mail: commenti@ubirataniorio.org




Publicado no "Jornal do Brasil".
Segunda-feira, 14 de janeiro de 2008.




ZECA "DIABO" DIRCEU: "IL CONDOTTIERE SCHUMPETERIANO".



 
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