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Tuesday, July 31, 2007

PARADOXAL!








































Os aviões andaram bebendo
por Arnaldo Jabor

As coisas é que têm a culpa de tudo, o piano andou bebendo, 'the piano has been drinking!' cantou Tom Waits, 'my necktie is asleep', minha gravata está dormindo, 'the jukebox is taking a leak', a vitrola foi mijar, o tapete precisa de um corte de cabelo, o afinador de pianos é surdo e eu, cá comigo, continuo: os Boeings e legacies e airbuses andaram enchendo a cara também, enquanto os jornais teimam em nos propagar catástrofes que, no dizer das autoridades, se produziram sozinhas como cogumelos autóctones, enquanto o presidente some sob as vaias do Pan e, magoado, se esconde sob os terçóis do palácio, iluminado pela aura do botox que resplende da primeira-dama muda e as pistas dos aeroportos rolam de porre debaixo de chuva, as turbinas se revoltam, as asas tatalam e se partem, os motores se recusam a rodar e destroncam a língua em palavrões, as medalhas vêm pousar como gafanhotos nos peitos dos canalhas, os pepinos se enfiam no rabo dos brigadeiros, os mortos berram com orgulho que são cadáveres verde-e-amarelo, cem por cento nacionais e os 'groovings' não são 'groovy', as ranhuras viram regos arrombados, os pneus rebolam como gelatina, os trens-de-aterrisagem são aleijados, os radares são morcegos drogados e os controladores são cegos de um olho e não enxergam com o outro.

As petistas eróticas gozam fumando charutos, os puteiros erupem como vulcões de esperma na beira das pistas, no caminho dos 'airbuses', as gargalhadas roncam nas gargantas dos ministros, a palma da mão de Deus bate contra seu sagrado punho fechado e um imenso 'top top' atroa os espaços e dedos imensos se esticam do céu e nos mandam enfiá-los, deus sabe aonde, e os mortos teimam em morrer e os traficantes de órgãos ficam desolados com o desperdício de corpos. Os vivos não cooperam e as pistas continuam em coma e os aviões fumam maconha e os pilotos aterram aterrados e os taxistas vigiam preocupados os negros céus de São Paulo, os pássaros vivem em pânico e resolvem andar a pé nas estradas esburacadas, com as verbas de recuperação roubadas no Ministério dos Transportes, os cachorros cagam nas pistas, o ministro da Defesa se derrete e escorre para o ralo, duzentos milhões de dólares fogem às gargalhadas dos cofres da Infraero e ninguém faz nada, ninguém investiga e a grana toda voa como chuva de confete sobre a Anac que gruda o rabo do diretor na cadeira para impedir sua demissão, pois ele diz que a competência é irrelevante e que seria covardia sair agora.

Entrementes: o presidente do Senado sob suspeita (lembram como é o nome dele?) exulta com as catástrofes pois, talvez, o olvidem para sempre, esqueçam os envelopes que voavam sozinhos para os bolsos, vindo das empreiteiras, dos açougues onde as carcaças de bois se esquartejavam em notas frias, a Gautama também comemora (como é o nome ?), o Zuleidão mergulha eufórico nos canais de esgoto a céu aberto, enquanto os viadutos interrompidos choram de solidão, as barragens morrem de sede, as lâmpadas do 'luz para todos' mergulham nas trevas, o Roriz roreja sua lama na falta de memória do povo, os intelectuais continuam calados, a USP dorme o sono dos injustos.

Em meio a isso tudo, o Rio São Francisco fervilha de piranhas e se recusa a ser desviado, o bispo exibicionista se empapuça de hóstias consagradas e se prepara para nova greve de fome, a opinião pública abraça lagoas e usa camisetas com a palavra paz, o Pan acaba, os traficantes comemoram o ouro que já vem vindo de novo por aí, nas linhas vermelhas e amarelas, enquanto os narizes de celebridades celebram e fazem surubas, felizes com o pó que vai voltar a chover em Ipanema e nos Jardins, as comissões de inquérito continuam a dizer que a culpa de tudo é do amigo do Homem Aranha, que tudo foi mais uma missão do 'Capitão Falha Humana', com sua caceta sobre o planeta, que tudo é erro dos pilotos, provavelmente pilotos mansos, com dor-de-corno, largados pela mulher, enchendo as caixas-pretas de lamúrias, lágrimas e sambas-canção, o que os fez deslocar manetes e manchos num desatino de ciúmes, empapuçados de Lexotans ou senão dores-de-corno de urubus traído por papagaios sem-vergonha, que cometeram suicídio, enfiando-se loucamente dentro das turbinas invertidas sobre os lixões.

Concomitantemente, os papéis onde o Executivo escreveu o PAC serão usados como papel higiênico no Planalto para poupar dinheiro, de modo a haver verba para contratar mais 600 imbecis para o Professor Pardal Mangabeira erguer o queixinho fascista com sotaque americano, em vez de contratar controladores de vôo novos, tudo isso rolando enquanto Renan não agüenta mais o tal recesso parlamentar, porque a esposa agora está se vingando no recesso do lar, emanando rancor e acusações mudas pelos cantos das fazendas imaginárias, enquanto continua a dúvida se veremos ou não as partes intimas de Mônica (dobrem a oferta, Playboy...), enquanto a dama do charuto da Anac diz que o acidente não foi no ar, ninguém bateu no ar, logo não tem nada a ver com ela.

Finalmente, como não temos mais palavras para exprimir nossa indignação, ou melhor, como não temos mais indignação para exprimir em palavras, ou melhor ou pior ainda, como não há mais nada para exprimir ou espremer, precisamos saber urgentemente se o Olavo vai f... a vida de Fabio Assunção, se Taís vai estrangular a irmã Paula e principalmente questões fundamentais como saber se 'em trilha de paca, tatu caminha dentro, se jacaré no seco anda, se cavalo que galopa na bunda sua...', em suma, as coisas importantes da vida como, por exemplo, se o passaralho vai continuar voando ou se 'passarinho que come pedra sabe o c... que tem'? Será que já sabe?

E fica a certeza de que a única lei que é respeitada no País é a Lei de Murphy e que a única coisa profunda que ouvi ultimamente foi daquele americano expulso: 'Welcome to Congo!' O Congo é aqui mesmo.



Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.



Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Terça-feira, 31 julho de 2007.


Leia mais artigos de ARNALDO JABOR no BOOTLEAD:

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¤ Qual é a origem do dinheiro (Comentário de Jabor censurado na Internet pelo TSE)




Sunday, July 22, 2007

FAB/CINDACTA (des)controlando "esquifes voadores" nos céus do Brasil.


































Situação poderia ter provocado nova tragédia, diz controlador
por Matheus Pichonelli

Uma pane ocorrida ontem em dois geradores de energia do Cindacta-4 (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo), em Manaus, obrigou os controladores de vôo do centro a trabalharem no escuro e a fazerem contato com órgãos de controle de aproximação por meio de seus telefones celulares.

Apenas duas linhas de telefones fixos funcionaram durante a pane elétrica, segundo um controlador disse à Folha. Rádios e radares ficaram inoperantes. Com medo de retaliações, ele pediu para não ter o nome publicado.

Ele disse que, após a falha, ocorrida por volta das 23h30, o sistema de "backup" geradores de reserva não funcionou. Segundo o controlador, a situação precária poderia ter levado a uma nova tragédia.

A energia só foi retomada por volta das 2h. O Cindacta-4 cuida do controle do tráfego aéreo no Amazonas, Roraima e Mato Grosso e em parte do Pará. Funciona como "porta de entrada" do país, responsável por 90% do tráfego aéreo que evolui dos Estados Unidos e da América Central.

Segundo o relato do controlador, havia 45 aeronaves sem condições de comunicação sobrevoando a região no momento da pane. "Tínhamos apenas dois telefones fixos, que funcionam em casos de emergência, para 12 controladores. A maioria dos contatos com outros órgãos de controle [de aproximação] em Belém, Manaus e Santarém, foi feita pelos nossos celulares."

De acordo com o controlador, um avião ABSA Cargo Airline, de rota internacional, entrou no sistema sem contato com os radares e, a partir de Manaus, deveria trocar de altitude e não o fez, passando a sobrevoar a área na contramão.

"A exemplo do que aconteceu com o Legacy [que colidiu com o Boeing da Gol no ano passado], poderia ter havido uma tragédia. A aeronave passou por Manaus sem contato e seguiu em nível incorreto. Só conseguimos fazer contato com a Venezuela para avisar da situação e a Venezuela foi quem teve que desviar as outras aeronaves do jato", disse.

Para garantir a segurança dos vôos, o controlador disse que a idéia era fechar o espaço aéreo. "Queríamos separar as aeronaves que já estavam voando e, do nosso setor, mandar que todas pousassem." A rota de aeronaves seria desviada e os aviões que estavam em Manaus não poderiam decolar. Mas, segundo o controlador, houve resistência do comando do centro a essa medida.

Ameaça

"O tenente-coronel Leonidas Medeiros de Araújo Jr., que é o subcomandante do Cindacta-4, ordenou que não fechássemos o espaço aéreo porque ninguém poderia saber o que estava acontecendo", disse.

"Ele ameaçou prender os controladores caso não cumpríssemos as medidas. Estava tudo escuro e ele passou a dar as ordens com uma lanterna."

Ele contou que, para que o espaço aéreo não fosse fechado, o subcomandante determinou que um grupo de cinco controladores se deslocasse à antiga torre de comando onde antes funcionava o centro de controle em Manaus e passasse a se comunicar por meio de um rádio de alta freqüência que não era utilizado desde 2002.

"A divisão técnica da Aeronáutica está negligenciando a manutenção de equipamentos. O sistema está doente e as autoridades teimam em não reconhecer. O problema de falta de 'backup' já tinha sido anunciada e não fizeram nada."

Outro lado

A reportagem tentou localizar comandantes do Cindacta-4 para comentar a pane e as declarações do controlador, mas não havia conseguido até a conclusão desta edição.


Matheus Pichonelli é jornalista da Agência Folha.

Publicado no site da "Folha Online".
Domingo, 22 de julho de 2007, 08h59.



Friday, July 20, 2007

Cenário de uma catástrofe mais que evidente.

Foto: © Copyright by TT – Air Team Images - PLANEPICTURES.NET




























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IRRESPONSABILIDADE ASSASSINA
por Maria Lucia Victor Barbosa

Mais uma vez o luto e a dor se abatem sobre o País. Em setembro do ano passado foram 154 mortos no que se chamou de pior desastre da aviação brasileira. Nenhuma providência foi tomada pelas autoridades para resolver o caos aéreo. Apenas promessas vagas. Simulações de ordens partindo do presidente da República. Eleição de culpados como pilotos norte-americanos ou cachorro na pista. Bilhões gastos no PAN. Nenhum recurso para renovação dos aparelhos de controle aéreo. Nenhum treinamento para novos controladores de vôo. Obras suspeitas de superfaturamento em Congonhas.

Agora o pior acidente foi superado. Já se fala em quase 200 mortos, incluindo as pessoas que estavam no prédio da TAM. Mais uma vez emerge claramente a incompetência assassina, a indiferença brutal, a covardia das esquivas, o cinismo das explicações que não explicam. Tudo isso não vem do botequim da esquina, mas das autoridades constituídas que incluem, naturalmente, o presidente da República.

Onde está o sempre confuso e inoperante ministro da Defesa? Onde está o comandante da Aeronáutica para dar explicações adequadas à Nação? Onde estão os responsáveis pela Infraero e pela Anac? Onde está o presidente da República, que tão afeito a luzes e câmaras, a constantes aparições televisivas desta vez não entrou em cadeia de rádio e televisão para consolar as famílias enlutadas? Ou avião é coisa de rico e ele só se dirige aos pobres, aos grotões que digerem facilmente seu gesticular furioso e alucinado, que se empolgam com seus esgares e com seu palavreado chulo próprio dos demagogos que, sedutores de massas entusiasmam os mais carentes? As autoridades (in)competentes estão mergulhados em silêncio ensurdecedor.

Será que o presidente Lula da Silva não aparece por estar de ressaca cívica depois das vaias recebidas no Maracanã de 90 mil gargantas? Pode ser, pois, em que pesem as teorias delirantes e sem nexo dos seus áulicos, dos ptbulls hidrófobos que tentam explicar o monumental apupo, LILS sabe que por uns momentos, os mais constrangedores pelos quais já passou, ficou nu como o rei da história. O gigantesco palanque constituído para sua apoteose triunfal no PAN falhou miseravelmente. Simplesmente porque não houve controle oficial. Aquilo foi diferente dos auditórios fechados, das platéias selecionadas, das claques que o aplaudem em comícios encomendados e em inaugurações planejadas. E ele deve saber que a perniciosa e venenosa tese da “elite branca” especialmente postada no Maracanã para vaiá-lo, não passa de um blefe ideologicamente imbecil dos companheiros.

Por tudo isso, quem sabe, Sua Excelência está sem ânimo para se dirigir aos brasileiros nesse momento de tanta dor. Prefere convocar uma reunião no Palácio e chamar alguns de seus auxiliares. Eles discutem como poderão tirar partido da desgraça para exaltar ainda mais a figura luminosa do salvador da pátria. Decreta-se luto oficial. Aposta-se no esquecimento rápido de mais essa tragédia. Pede-se tempo para averiguar os fatos. Elabora-se algumas teorias idiotas para justificar o acidente, e pronto. E só aguardar a próxima queda de avião, porque a continuar a incompetência assassina governamental o horror irá fatalmente se repetir.

Pena que agora não tem pilotos americanos para levarem a culpa. Mas não é difícil incriminar o piloto que não conseguiu frear o avião. Alguém tem que ser culpado. Menos a Aeronáutica, a Infraero, a Anac, o tartamudeante ministro da Defesa e, principalmente, o presidente da República. Este, além de ser infalível como o Papa, de nada sabe, nada vê, por nada é responsável. Se fosse outro o presidente o que fariam os petistas? No mínimo pediriam o impeachment. Lula, porém, é intocável.

Mas quantos ainda morrerão assassinados oficialmente pela incompetência das autoridades? Não se sabe. Melhor recorrer às estradas. Mas com muito cuidado porque estão em péssimo estado. Como tudo nesse governo, a operação tapa-buraco na última campanha presidencial foi uma farsa. Mais uma como o fracassado Programa Fome Zero ou seu substituto Bolsa Família que tem problemas de fraudes em 90% das cidades recentemente auditadas. Sem falar nas inexistentes PPPs e outras propagandas enganosas.

Nas estradas ainda há chance de sobreviver. Nos aviões é quase impossível. Ainda que os pilotos sejam de uma habilidade e de uma competência incríveis para poder contornar todos os perigos oriundos do controle aéreo, das pistas molhadas, etc. Eis a condição dos meios de transporte num país com as dimensões do Brasil. E o presidente da República ainda tem o desplante de dizer que nunca estivemos tão bem desde a Proclamação da República.

Curva-se de dor o Brasil nesse momento. Até quando se curvará a pátria diante dos desmandos que ora presenciamos? Até quando os brasileiros serão enganados, intoxicados com a propaganda petista? O que somos, um rebanho imbecilizado ou um povo capaz de cobrar de seus governantes o cumprimento dos deveres para os quais os elegemos? Quantos ainda morrerão em desastres aéreos para que o Brasil possa acordar dessa letargia idiotizante?



Maria Lucia Victor Barbosa é formada em sociologia e administração pública e tem especialização em ciência política pela Universidade de Brasília. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Começou a escrever em jornais aos 18 anos. Tem artigos publicados no Jornal da Tarde, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e Valor Econômico, entre outros. É autora de cinco livros, incluindo “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem” e “América Latina – Em busca do Paraíso Perdido”.
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br




Quinta-feira, 19 de julho de 2007, 12h43.



 
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