Showing posts with label Lulismo. Show all posts
Showing posts with label Lulismo. Show all posts

Monday, April 14, 2008

O mais desprezível mau-caráter do planeta!








































Golpe constitucional
por Denis Rosenfield

A prudência recomenda a desconfiança. Encenações, mentiras, desmentidos e desmentidos de desmentidos se tornaram o cotidiano dos brasileiros, aflitos com a falta de moralidade reinante na cena pública. O atual governo nem se ruboriza mais com o que faz, tendo desaparecido qualquer resquício de coerência entre o que é dito e o que é feito. O que vale num dia cessa de valer em outro. Não há a menor preocupação com o cumprimento da palavra e a retidão no comportamento. Neste contexto, como situar a discussão sobre um eventual terceiro mandato de Lula, seja sob a forma da pura e simples reeleição (acompanhada ou não de um plebiscito), seja sob a de um “novo” mandato de cinco anos, em que a partida estaria zerada?

Lula está em plena campanha pelo PAC, inaugurando obras inexistentes e criando símbolos, como se assim pudesse passar à opinião pública a idéia de que algo está sendo feito. O que, porém, está sendo feito senão a campanha de si mesmo, a campanha de alguém empenhado num processo eleitoral de promoção de si mesmo?

Não se pode creditar a Lula a virtude da coerência ou o cumprimento da palavra. A palavra só serve como instrumento retórico, de convencimento do “povo”. Eis por que acreditar num líder carismático como Lula é prova de ingenuidade. Ele diz uma coisa e outra sem o menor compromisso com a verdade.

Legítima é, pois, a pergunta: o que faz ele com seus discursos? Desde a sua eleição, jamais abandonou uma postura eleitoral, algumas vezes criticando o governo, como se não fosse o responsável por ele. O que fala é o seu comportamento. O seu fazer é o de alguém que tem um projeto pessoal de poder, pronto a tudo se as condições políticas lhe forem favoráveis. Lula não permanece em Brasília, na rotina própria de um presidente, mas faz campanha em todo o País, recolhendo os frutos de sua popularidade e criando condições para que esta suba ainda mais. Os seus altos índices mostram que o seu “fazer” produz bons resultados. Ele pode dizer pessoalmente que não quer a reeleição, mas, se o “povo” quiser, aí, sim, a coisa seria diferente.

O que está em processo, podendo ou não ser bem-sucedido, é o que poderíamos denominar “golpe constitucional”. Golpe porque se trata de uma mudança abrupta das regras do jogo, feita por um líder carismático que se aproveita de sua alta popularidade e de seu forte apoio em sindicatos (comprados) e movimentos sociais (por ele financiados), visando a alterar completamente os princípios da democracia representativa. Constitucional porque seguiria procedimentos constitucionalmente estabelecidos, aparentemente obedecendo à ordem da legalidade. A aparência de golpe desaparece, haja vista que as formalidades democráticas são mantidas, prescindindo do uso das armas. Trata-se, na verdade, de uma subversão da democracia por meios democráticos.

Uma das condições de um processo desse tipo reside num líder cujo perfil carismático o coloque acima das refregas partidárias e dos conflitos sociais. É precisamente o caso de Lula, que faz um discurso que agrada a empresários e outro, a movimentos sociais, aparentemente dando satisfação a ambos. No que diz respeito a alianças partidárias, elas lhe servem para mostrar que se situa acima do seu jogo. A divisão entre partidos ditos de esquerda e de direita tampouco é observada, pois coexistem em sua base de apoio o PP e o PCdoB, por exemplo. Sob esta ótica, os que se opõem a ele só podem ser “conspiradores”, como se estivessem cometendo um crime de lesa-majestade.

Um líder carismático deve ter uma ampla base social de sustentação. O recente veto à fiscalização pelo Tribunal de Contas da União dos novos recursos concedidos às centrais sindicais mostra toda a sua preocupação em contentar essa sua base. Primeiro, ele lhes concede uma forma específica de financiamento, propiciando-lhes um amplo espectro de atuação. Segundo, esses recursos são de livre utilização, não sendo objeto de nenhuma fiscalização. Desta maneira, os sindicatos estão cada vez mais amarrados ao próprio aparelho de Estado, fazendo parte dele. Os antigos discursos do sindicalista pela autonomia sindical e pelo fim da obrigatoriedade da contribuição sindical são simplesmente “esquecidos”. A meta agora é que todos se tornem igualmente pelegos, instrumentos do seu próprio poder.

Os movimentos sociais cumprem essa mesma função de controle de uma ampla massa de manobra, podendo ser requisitada a qualquer momento. Poderia ser, por exemplo, requisitada para uma ampla mobilização nacional por um plebiscito visando a uma reforma constitucional que permita a introdução da reeleição para um terceiro mandato. O recente episódio de financiamento do MST com verbas do Ministério da Educação é apenas a ponta de um imenso iceberg, que envolve outros Ministérios, como o de Desenvolvimento Agrário e o de Desenvolvimento Social. Os movimentos sociais são financiados pelo governo, que conta com esse grande trunfo. Podem, assim, invadir qualquer propriedade privada, prejudicar o agronegócio, ocupar rodovias e estradas de ferro. Ademais, estão com as mãos livres para agirem segundo as suas conveniências, pois a lei não é a eles aplicada. A impunidade é total.

Dentro desse projeto, é fundamental contar com uma ampla base social, sobretudo de desempregados ou empregados temporariamente, pois estes não são alcançados pelos sindicatos ou o são, imperfeitamente, pelos movimentos sociais. Eis a função cumprida pelo Bolsa-Família, que alavanca a alta popularidade do presidente entre os mais desfavorecidos, que vêem os recursos recebidos como uma forma de sobrevivência. Se seus alimentos são fornecidos pelo presidente, sua vida dele depende. Não convém menosprezar o poder de mobilização que pode estar aqui embutido, e a mobilização eleitoral seria um dos seus fatores.

Todo o cuidado é pouco!


Denis Lérrer Rosenfield, nasceu em 21 de novembro de 1950 em Porto Alegre. Fez seus estudos de graduação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México e seus estudos de pós-graduação na França, tendo obtido o grau máximo de “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne em 1982. É atualmente Professor Titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador I-A do CNPq. Autor de vários livros e artigos em português, francês e espanhol, além de professor visitante na França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos. Também é articulista dos jornais Estado de São Paulo e O Globo, colaborador da Folha de São Paulo e editor da revista Filosofia Política. Atua também como consultor de análise política para empresas, grupos financeiros, associações empresariais e partidos políticos.
E-Mail: denisrosenfield@terra.com.br


Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Segunda-feira, 14 de abril de 2008.





Raposa/Serra do Sol - Aos ministros do Supremo – Reinaldo Azevedo

Wednesday, November 07, 2007

"Alguém" precisa dar um fim neste louco.
Prevenir é sempre mais fácil do que remediar!










































O PERIGO VENEZUELANO
por Denis Rosenfield

Tudo indica que a esquerda latino-americana não conhece mais limites. Em nome, por exemplo, da luta antiimperialista, Chávez está criando uma corrida armamentista em nosso continente. O discurso pela paz não mais é do que um engodo, feito para enganar os que ainda acreditam nessa mensagem "socialista". Ou como costuma dizer o ditador-presidente: o futuro pertence ao "socialismo do século XXI"!

O programa liberticida desse ditador não deixa qualquer lugar a dúvidas, sobretudo para aqueles que não se deixam encobrir pelo espesso véu da ideologia esquerdista. Seu projeto de constituição lhe confere poderes próprios de um líder totalitário. Seus antecedentes são os do século XX: Stálin, Mao, Castro e outros. Suas ações imediatas consistem na abolição da propriedade privada, na anulação completa da divisão de Poderes, no controle da imprensa e da mídia em geral, no culto à personalidade, na formação de milícias, fortemente armadas, no controle estatal das manifestações públicas e na progressiva supressão dos direitos políticos. O mais surpreendente é que ele ainda suscite admiradores no Brasil! Será que a mentalidade de alguns é tão atrasada assim?

Quando se pensa na compra chavista de armamentos, forçoso é constatar que ela não pode, por definição, estar voltada contra os EUA. Seria risível querer contrapor um país ao outro em termos militares. A potência do norte precisaria apenas de alguns minutos para destruir todo o poderio militar venezuelano, com seus novos e modernos aviões, navios e mísseis. A disparidade é tão grande que o desfecho do confronto estaria de antemão decidido. Todo o resto é apenas retórica de um ditador loquaz!

Ora, se os EUA não podem constituir o seu alvo próprio, para o que serve esse grande esforço militar, feito em prejuízo da imensa maioria dos pobres e miseráveis daquele país? Várias hipóteses devem ser consideradas: a ) a militarização da vida nacional, principalmente por intermédio do armamento das milícias, que se voltariam contra o "inimigo" interno, a saber, todos os que se opõem ao ditador; 2) a criação de um fator externo de conflito, que seria utilizado quando as relações políticas se deteriorarem do ponto de vista do apoio ao ditador. Exemplos históricos, neste sentido, não faltariam. Veja-se o uso político que Stálin e Hitler fizeram de suas guerras; 3) a invasão da Guiana, com a qual a Venezuela já tem um contencioso territorial, equivalente a 2/3 do território desta ex-colônia inglesa; 4) a entrada numa disputa com a Colômbia, tendo como aliado interno as FARCS, que compartilham a mesma ideologia; 5) a intensificação da rivalidade com o Brasil, através de incursões na porosa fronteira entre esses países, colocando-se como a líder continental.

O Senador Sarney, figura discreta e avessa a grandes arroubos oratórios, saiu de sua natural discrição e com um discurso no Senado e entrevistas a jornais, mostrou toda a sua preocupação com essa situação. Chama particularmente atenção o seu distanciamento em relação ao governo Lula no que diz respeito a esse ponto crucial. Tanto mais significativo que o PT está tudo fazendo para que a Venezuela entre para o Mercosul, inclusive afirmando, contra toda evidência, que a democracia existe naquele país. O ex-presidente, judiciosamente, assinalou dois pontos que devem ser destacados: a) o Mercosul, numa iniciativa que data do seu governo e do ex-presidente Raul Alfonsin da Argentina, contempla, para o ingresso de novos membros, uma "cláusula democrática". Ou seja, essa união é uma união de países democráticos, que devem preencher as condições da democracia. A mera existência de eleições é claramente insatisfatória, como se apressou a dizer o senador. Cuba, exemplo de ditadura, também realiza eleições. A farsa não conhece limites. De toda evidência, como foi assinalado, a Venezuela não preenche essas condições; b) a corrida armamentista em curso é um grande desserviço para a América Latina, pois recursos que seriam mais bem aproveitados, por exemplo, para a redução da pobreza, são destinados a milícias ou à aquisição de aparelhos de guerra ultra modernos.

Será que o "socialismo do século XXI" não teria melhor destinação para esses recursos públicos? E a esquerda brasileira continuará a idolatrar o ditador-presidente? E o governo brasileiro, mais uma vez, curvará a cabeça? E as nossas Forças Armadas continuarão sucatadas?


Denis Lérrer Rosenfield, nasceu em 21 de novembro de 1950 em Porto Alegre. Fez seus estudos de graduação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México e seus estudos de pós-graduação na França, tendo obtido o grau máximo de “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne em 1982. É atualmente Professor Titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador I-A do CNPq. Autor de vários livros e artigos em português, francês e espanhol, além de professor visitante na França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos. Também é articulista dos jornais Estado de São Paulo e O Globo, colaborador da Folha de São Paulo e editor da revista Filosofia Política. Atua também como consultor de análise política para empresas, grupos financeiros, associações empresariais e partidos políticos.
E-Mail: denisrosenfield@terra.com.br


Publicado no site "DIEGOCASAGRANDE.COM.BR".
Terça-feira, 06 de novembro de 2007, 17h33.



Wednesday, October 03, 2007

Contra a parede! Dever de lealdade a quem?
À Pátria Soberana ou ao "lulismo-petismo-comunismo"?

































Ambiente militar de preocupação com a situação política brasileira.
por Denis Rosenfield

Situação.

Segundo certas avaliações, o ambiente militar é de muita preocupação com a situação política brasileira. A corrupção demonstrada pelo atual governo, as posições de radicalização do PT em seu último Congresso e as manifestações de cunho socialista dos ditos movimentos sociais são as fontes desse estado de espírito. Acrescente-se, ainda, um ambiente de degradação das instituições, onde não se faz presente nenhum projeto nacional.

Sintonia.

Conforme algumas informações, há, neste segundo mandato do governo Lula, uma maior sintonia entre os militares da reserva e da ativa. No primeiro mandato, havia muitas questões controversas, enquanto, que, agora, observa-se uma maior comunhão de concepções. Parece valer novamente a máxima muito conhecida de que os clubes militares são os "braços falantes" dos militares da ativa, pois esses estão proibidos de se pronunciar publicamente.

Serra.

Na primeira eleição de Lula, deve-se levar em consideração que a reação dos militares a Serra era muito maior do que em relação ao atual presidente. O candidato tucano despertou uma forte reação no meio militar. Não seria por simpatia ao PT que os militares votaram em Lula, mas por terem uma forte antipatia em relação ao candidato tucano. Comenta-se que, quando ministro, usando os aviões da FAB, desrespeitava reiteradamente os militares, no caso, os oficiais da Aeronáutica. Fala-se, inclusive, que jogava lixo no chão dos aviões e dizia que era para os militares limparem. Na última eleição presidencial, depois da experiência de um primeiro mandato petista, e com a ausência de Serra, os votos teriam desaguado em Alckmin, visto como uma pessoa simpática aos militares.

MST.

Há uma nítida posição contrária às ações do MST. Elas são consideradas como atos de uma agrupação política que age ao arrepio da lei e procura implantar no país um regime socialista que seguiria os moldes cubanos. Seus movimentos, nesta perspectiva, são considerados como atos criminosos , que deveriam ser tratados enquanto tais, sem nenhuma complacência. Se o MST não fosse financiado pelo atual governo e se a lei fosse a ele aplicada, a situação não teria chegado a tal nível de desobediência e de desrespeito ao estado de direito. O PT e o governo são considerados responsáveis da radicalização política em curso.

Quilombola.

A questão quilombola começa a despertar muita preocupação, pois se integra a um mesmo processo de desrespeito à propriedade privada, embora se faça por meios legais. O que está acontecendo na ilha de Marambaia concerne a toda a instituição militar, além de despertar fortes suspeitas de uma armação que se inscreve na linha geral dos movimentos sociais. Ela não é percebida como uma questão de justiça, mas como um problema político, que se inscreve num quadro geral de instabilidade política e de relativização da propriedade privada. Não escapa a ninguém que o conceito de quilombo perde o seu significado, sendo objeto de uma "translação semântica" que obedece a orientações claramente políticas. Não tem nenhum sentido que um quilombo possa ser encontrado no centro do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, salvo se for um quilombo aquático, pois parte da área reivindicada é feita de aterro.

Panorama político.

Há uma preocupação crescente com este segundo mandato do governo Lula. Os casos de corrupção são por demais evidentes, tirando qualquer esperança de que um governo petista poderia ser ético. Os desvios de recursos públicos e os problemas de gestão acentuam a percepção da incapacidade administrativa do atual governo, com o PT acaparando-se dos cargos públicos. O bolsa-família é visto como um instrumento político de cooptação eleitoral. Ora, tal quadro só tem se acentuado com o enfraquecimento do Poder Legislativo, com a Câmara imersa nas operações mensalão e sanguessuga entre outras e o Senado, agora, absolvendo vergonhosamente ao Senador Calheiros, com o apoio resoluto do Palácio do Planalto e do PT. As expectativas só têm piorado.

Falta de reação.

Essa situação é, ainda mais, vista como problemática pela falta de reação da sociedade. Os escândalos se multiplicam e nada acontece. O problema, porém, reside em que as manifestações populares eram feitas pelo PT, pelos sindicatos e pelos movimentos sociais, agora totalmente atrelados ao governo que os financia. Não espanta que não tenhamos manifestações, na medida em que a sociedade foi, por assim dizer, calada. Os tentáculos do PT se fizeram tanto no aparelhamento do Estado quando na sociedade . Contudo, a sociedade brasileira está aumentando o seu grau de consciência e a sua insatisfação, apesar de sua pouca organicidade.

Socialismo.

O espectro do socialismo tem voltado com força e não por qualquer tipo de paranóia política. Não se trata, como os petistas procuram fazer acreditar, de que os tempos da guerra fria teriam voltado graças a vozes oposicionistas e direitistas. Pelo contrário. É o próprio PT o responsável de tal situação por ter estruturado o seu último Congresso em torno da idéia de socialismo. Essa idéia retornou ao centro do debate graças ao próprio partido, que teria pensado ser essa a ocasião política para radicalizar o segundo mandado do presidente Lula. É bem verdade que o partido apresenta o seu socialismo como democrático. Ora, trata-se de um mero jogo de palavras, pois, instado a se pronunciar pelo tipo de socialismo, não hesita em dar como exemplos a serem apoiados os governos ditatoriais de Fidel Castro e de Hugo Chávez. Para eles, eis a verdadeira democracia.

Socialismo e democracia.

Ademais, demonstrar o caráter democrático do socialismo é como demonstrar a quadratura do círculo. Todas as sociedades que foram objeto de uma transformação socialista se tornaram seja autoritárias, seja totalitárias. Enquanto isto, as sociedades capitalistas desenvolvidas, todas, são sociedades democráticas. Lá onde os princípios da propriedade privada foram abalados, o autoritarismo se desenvolveu com força. Ora, o Brasil está sendo objeto de um processo de relativização da propriedade privada que passa por suas funções: social, racial, indígena e ambiental.

Serra da Raposa.

Os militares são particularmente sensíveis, por formação, a questões que envolvem a soberania nacional. O caso da reserva indígena, Serra da Raposa, em Roraima, é particularmente ilustrativo. Entre áreas indígenas e reservas ambientais, 60% do Estadofronteira, rica em minérios. Novas delimitações de terras indígenas, que já envolvem mais de 100 milhões de hectares , são vistas sob essa ótica de alienação da soberania. fugiriam, por assim dizer, do controle do Estado. Não é possível que uma unidade da Federação tenha tal limitação territorial. Ademais, trata-se de uma região de fronteira, rica em minérios. Novas delimitações de terras indígenas, que já envolvem mais de 100 milhões de hectares , são vistas sob essa ótica de alienação da soberania.

Bonjour.

Numa unidade militar, na fronteira com a Guiana francesa, um General perguntou a um indígena que dissesse uma frase em sua língua nativa. O índio em questão não hesitou: "Bonjour mon General!". Instado novamente a repetir uma outra frase emendou: "Je mange du pain" (eu como pão). Logo, a sua língua era francesa apresentando-se, enquanto índio, para servir no Exército brasileiro. Tal exemplo mostra o grau de aculturação dessas populações, que são, porém, apresentadas pela Funai como sendo culturalmente independentes da cultura brasileira. Talvez não da francesa!

Socialismo e MST.

Particular atenção deve ser dada, neste contexto, à natureza propriamente socialista, autoritária, do MST. A reforma agrária, vista na perspectiva dessa organização, seria nada mais do que o instrumento de uma revolução, que se faria pela corrosão progressiva das instituições democráticas, do estado de direito e da propriedade privada. Na verdade, o MST não visa à justiça social, mas à criação de um Estado socialista que seguiria os moldes do socialismo realmente existente, tal como existiu no século XX e existe ainda em Cuba e, agora, sendo o objetivo de Hugo Chávez. A visão deste auto-intitulado movimento social é a de uma organização política, com estrutura hierárquica, de tipo paramilitar, cujo objetivo reside na implementação do socialismo. Eis o seu projeto.

O projeto socialista.

Com as recentes manifestações do PT em seu último Congresso, com as invasões do MST e de "movimentos" congêneres, com asdeclarações socializantes da CUT transparece um mesmo projeto socialista que permeia esse partido e suas organizações afins. O governo Lula, em seu primeiro mandato, não enveredou por esse caminho em sua política econômica, embora tenha aparelhado partidariamente o Estado e apoiado e financiado os movimentos sociais. Agora, há indicações de uma radicalização em curso . O projeto socialista enquanto tal está para os movimentos sociais entrando na ordem do dia, mas pode-se dizer também que a sociedade brasileira em geral não parece sensível a tal tipo de projeto . No entanto, haveria aqui um limite claro: um projeto deste tipo não passará no país. Tudo parece indicar que os militares não aceitariam uma chavização do governo Lula.

Comprometimento democrático.

Os militares têm hoje um firme comprometimento com a democracia. Isto significa um respeito pelas instituições republicanas, sem as quais nenhuma sociedade democrática pode existir. Eleições, por si só, não definem uma democracia. Para isto, é necessária uma série de outras condições, como a liberdade irrestrita de imprensa, de pensamento e de participação política. Os Poderes republicanos, como um Poder Legislativo forte e um Judiciário independente, são condições mesmas da democracia. Ou seja, a Venezuela, por exemplo, se afasta, sob esta ótica, a passos largos da democracia. Lá, meios democráticos são utilizados para a abolição mesma da democracia. Um eventual terceiro mandato de Lula poderia ser visto como um rompimento com a democracia, uma ilegalidade, apesar de poder ser apresentado como legal.


Denis Lérrer Rosenfield, nasceu em 21 de novembro de 1950 em Porto Alegre. Fez seus estudos de graduação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México e seus estudos de pós-graduação na França, tendo obtido o grau máximo de “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne em 1982. É atualmente Professor Titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador I-A do CNPq. Autor de vários livros e artigos em português, francês e espanhol, além de professor visitante na França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos. Também é articulista dos jornais Estado de São Paulo e O Globo, colaborador da Folha de São Paulo e editor da revista Filosofia Política. Atua também como consultor de análise política para empresas, grupos financeiros, associações empresariais e partidos políticos.
E-Mail: denisrosenfield@terra.com.br


Publicado no site " A verdade sufocada".
Domingo, 30 setembro de 2007.



Wednesday, May 09, 2007

"Coalisão" é o nome da ratoeira lulo-petista.
































O troço. O lulismo é uma nova categoria política
por Arnaldo Jabor

Que troço é esse? Tem um troço novo aí. Lula inventou, neste governo, a feijoada ideológica.

Os tucanos são bichos hesitantes, cheios de “se” e de “talvez”. Lula está realizando, na prática, uma espécie de baixo-tucanismo, unindo tudo, homogeneizando tudo, num sarapatel político-partidário. Lula sacou que o PSDB não tem mais programa. O PSDB existia através de FH, Serra, Tasso e mais meia dúzia, mas sem militância alguma. Que partido é esse, ilegível, sem plataforma clara, a não ser uma vaga promessa de elegância socialdemocrata mais complexa? O PT falava coisas mais óbvias e mais legíveis: fome, rico e pobre, imperialismo, Estado. O PT deu mais ibope, foi mais fácil de entender.

Mas, graças à intervenção salvadora de Roberto Jefferson, para sorte do Lula e do Brasil, acabou o PT-bolchevista voluntarista, infiltrado no Planalto. E, cercado de peleguismo sindical, nasceu o “lulismo”, que é invulnerável, resiste como almofada às espadas, é molenga, plástico, adaptável. Lula continua a usar a linguagem do PT (na mídia e no marketing), junto com uma prática inominável, um tucanismopeemedebista-pessedistasei-lá-o-quê.

Qual o projeto do lulismo? Resposta: união de todos para o bem da imagem do Lula em nossa História. Só. O lulismo esvazia nossa indignação, nossa vontade de crítica, de oposição. Para ser contra o quê, se ele é “a favor” de tudo? Como escreveu muito bem Demétrio Magnoli, outro dia no GLOBO, a propósito da adesão do professor Pardal, o Roberto Mangabeira Unger, ao governo. (O professor Pardal é aquele jurista americanizado e afascistado que fala com o mesmo sotaque do Henri Sobel e que declarou, há um ano, que “Lula devia ser impichado e que seu governo era o mais corrupto da História”).

Diz Magnoli: “Lula não convidou Mangabeira para o círculo ministerial por não ter lido o que ele escreveu contra ele, mas, precisamente, por ter lido. Agindo com requintada crueldade, o presidente inventou, para abrigar o intelectual, uma Secretaria de Ações a Longo Prazo, que é uma piada literal já chamada de Sealopra. Mas a operação não se cinge à humilhação e serve a um objetivo presidencial estratégico: dissolver a ética da convicção no ácido da galhofa pública”.

Esse texto é na mosca. É o segredo da estratégia do lulismo: a todos cooptar e a todos desmoralizar, enfiando-os no círculo de um poder abstrato para nada, já que ele não fará nada, atolado na feijoada das alianças, a não ser o mínimo necessário, ajudado por seu imenso “rabo-paraalua” — a economia mundial bombando como nunca. Não precisa nem ter governo, pois tudo anda sozinho. Seu Executivo estatizante só serve para atrapalhar. Outro dia, disse-me um ex-ministro do Planejamento: “Eles preferem que as estradas apodreçam a privatizá-las”.

Eu já achei que o Lula poderia ficar autoritário, no segundo mandato, mas Lula é bem mais esperto que eu: ele inventou a manemolência tão nossa, o bundalelê partidário, o coraçãode-mãe onde sempre cabe mais um. Lula se apropriou da “cordialidade” tradicional para esvaziar resistências. Lula não quer se aporrinhar, põe qualquer chapéu. Ele é ecumênico: todas as religiões podem adorá-lo.

Lula desmoralizou os escândalos, vulgarizou as alianças, se abraçou com Barbalho, Newtão, todos...

Ele subverteu tudo, inclusive a subversão.

Os comunas xingam-no “na moita”, pois estão todos bem empregadinhos; hoje em dia, na Argentina e na Venezuela, ele já é chamado de “neoliberal”. E nós estamos nos acostumando à decepção, aprendendo a querer pouco.

Tem um troço esquisito aí...

Tínhamos duas formas de esquerda: uma light e uma dura. As duas se liquefizeram. Ficou uma vaga saudade de FH, enquanto Lula usa os slogans da velha esquerda, da boca para fora, deprimindo os acadêmicos que ele seduzira.

O que dói é imaginar o que Lula poderia fazer, com maioria no Legislativo e oásis econômico mundial. Mas não faz, não quer fazer marola, chatear ninguém. Não há nem oposição e nem “situação” claras. Só ele, se movendo no meio: um messias sem programa, um messias de si mesmo.

Tem um troço esquisito aí, mas ninguém sabe o que é. Tem um troço na cara das pessoas, na esperança das pessoas, um troço estranho que tentamos entender, mas que passa, como um passarinho ou um passaralho no ar. Tem um troço poluindo a cabeça das pessoas, o afeto das pessoas. “Precisamos combater esse troço”, pensamos, mas o diabo é que esse troço oculta a doença e a solução. As velhas categorias para explicar o Brasil morreram. Já há uma pós-miséria, um pós-poder, uma pós-corrupção, uma pós-direita, um pós-crime, uma pós-língua da violência que grunhe, uiva, não fala.

Esse troço é feito de sobras do ferro-velho mental do país, de oligarquias felizes e impunes, de um Judiciário caquético, esse troço deforma a cara dos políticos, esse troço está nas barrigas, nas gravatas escrotas, na gomalina dos cabelos, nas notas frias, na boçalidade dos discursos, nos superfaturamentos, esse troço é um estafermo fabricado com detritos de vergonhas passadas, togas de desembargadores, bicheiros, fardões de academia, cérebros encolhidos, olhos baços, depressões burguesas, hipersexualidade rasteira, doenças tropicais voltando, dengue, barriga d’água, barbeiros e chagas, cheiros de pântano, esse troço é uma enchente que não drenou, bosta que não sumiu, ovo gorado, irresponsabilidades fiscais, assassinos protegidos no Congresso, furtos em prefeituras, municípios apodrecidos, decapitações, pneus queimados, ônibus em fogo.

Esse troço, esta xicaca, estava dormindo há séculos e agora despertou, para criar um buracão no país, esse troço sempre esteve aí, mas, agora, ressuscitou.

Volto a Magnoli: “O lulismo persegue tenazmente a meta de esvaziar o fórum, reduzindo a “ágora” a uma praça de mercado e convertendo todos os cidadãos em idiotas”.

E nossa desgraça paralítica é tal que acho que é até “melhor” assim: que permaneça essa gosma geral, em vez do voluntarismo bolchevodirceuzista revolucionário que ia prevalecer.

A que ponto chegamos.


Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.



Publicado no jornal "O Globo".
Terça-feira, 08 de maio de 2007.


Leia mais artigos de ARNALDO JABOR no BOOTLEAD:

¤ Pequenas bobagens traçam nosso destino

¤ A IRRESISTÍVEL SEDUÇÃO DO TERCEIRO MANDATO

¤ A irresistível sedução do terceiro mandato

¤ Em Tropa de Elite, queremos vingança

¤ 'Brasileiro tem de assumir a própria lepra!'

¤ Os aviões andaram bebendo

¤ Síndrome da incompetência generalizada

¤ Um bode preto assola o país

¤ Lula, o intocável

¤ Será possível que ninguém se toca?

¤ Qual é a origem do dinheiro (Comentário de Jabor censurado na Internet pelo TSE)




 
Copyright © 2004-2019 Bootlead