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Thursday, March 26, 2009

OMBRO A OMBRO!

Foto: Gen Castro e Gen Cesário.



































FERMENTO POLÍTICO
por Oliveiros S. Ferreira

Em minhas andanças profissionais pelo Estado-Maior do Exército, quando exercia as funções de chefe de redação do "Estado de S. Paulo", costumava ouvir uma expressão: "Isso pode fermentar".

Com essas palavras, o General com quem conversava traduzia sua avaliação de um fato recente, fosse a declaração de alguém com poder ou prestígio, fosse um acontecimento. Meu interlocutor partia da certeza de que o que comentava não teria conseqüências imediatas nem mudaria a situação política. Mas que poderia "fermentar", isto é, repercutir, servir de motivo de aglutinação de pessoas e grupos, produzindo conseqüências políticas de maior ou menor relevo.

Dois fatos me levam, interrompendo a série de considerações que deveria prosseguir fazendo sobre o instituto do decreto-lei, a escrever a respeito da impressão que tenho de que eles "fermentarão": a carta aberta do General Luis Cesário da Silveira Filho, ex-Comandante do Comando Militar do Leste, ao Ministro da Defesa, e o voto do Ministro Marco Aurélio Mendes de Farias Mello no STF sobre a demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, chamada por alguns de "terra indígena".

Explico por que tenho a carta publicada e o voto enunciado na condição de fatos que podem "fermentar", contribuindo para alterar a relação de forças que sufoca a Política nacional e impede a organização de uma real oposição ao sistema de poder que o atual governo e quantos se beneficiam do status quo vêm reforçando desde que Luis Inácio Lula da Silva se elegeu Presidente da República.

O voto do Ministro Marco Aurélio "fermentará" porque aponta os erros políticos e jurídicos cometidos por quem delimitou a reserva Raposa/Serra do Sol. O Exército, protagonista, já se pronunciara pela voz do General Heleno, Comandante do Comando Militar da Amazônia. Agora, aos argumentos daquele chefe militar, preocupado com a soberania nacional, será possível acrescentar os jurídicos, tão importantes neste país de bacharéis.

A carta do General Cesário não ultrapassou o limite do proibido pelos regulamentos disciplinares — conteve-se nele, mas fez questão de colocar as grandes questões que dizem respeito ao futuro das Forças Armadas.

O General Cesário falou em nome de uma tradição que, a meu ver, se reveste de dois sentidos: um, o de que o Exército, na história do Brasil, sempre participou das grandes decisões; outro, o da atuação do Partido Fardado, do qual, para mim, o General Orlando Geisel foi o último representante de quatro estrelas. E soube, com um toque de classe já evidente em seu discurso de despedida (v. AQUI ) do Comando Leste, deixar claro em nome de que tradição falava.

Não simplesmente para recordar o passado foi que, em sua despedida, ele mencionou os nomes dos Generais Emilio Garrastazu Médici (que, na condição de comandante da AMAN, engajou os cadetes no 31 de março de 1964) e Orlando Geisel, que sempre simbolizou a oposição à forma como o irmão, o General Ernesto, Presidente da República, conduzia o processo de abertura política que levou aos Governos Sarney, Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. Voltou a citar Orlando Geisel em sua carta ao Ministro Jobim, sem afastar-se da tradição ao citar também o General Octávio Costa, homem de confiança do Presidente Médici.

O Ministro Jobim, em entrevista que concedeu ao JB, fez questão de deixar claro aquilo que o Executivo de que faz parte pensa das Forças Armadas, especialmente do Exército. No que, aliás, apenas reiterou o que o Presidente Lula disse no encontro formal com o corpo de Oficiais Generais, o almoço de confraternização do fim de ano de seu primeiro mandato: que ali estava um "bando de Generais". Se o Presidente da República hostilizou, injuriando os Oficiais Generais da Ativa, o Ministro Jobim acrescentou agora o insulto à injúria, dirigindo-os à Reserva: "O General que declarou a insatisfação não tem nada a administrar porque é absolutamente indiferente, foi para a reserva, se liberou". Jobim comentava, com a falta de delicadeza que lhe é própria e recorrente, as observações que o General Cesário fizera em documento lido na última reunião do Alto Comando do Exército, criticando a Estratégia Nacional de Defesa elaborada em conjunto com Mangabeira Unger.

Em sua resposta, o General Cesário fez questão de reafirmar coisas que não se ouviam há algum tempo: que não há dois Exércitos, o da Ativa e o da Reserva. "Há apenas um, o de Caxias, que congrega, irmanados, os militares da Ativa e da Reserva".

A carta do General Cesário não deve ser tomada como a resposta de um General ofendido por um Ministro civil. Ela marca uma posição: "O Exército brasileiro sempre foi um ator importante na vida brasileira e, ao longo da história, teve o papel de interlocutor, indutor e protagonista". É esta a mensagem que o General Cesário transmite a seus pares e a todos os Oficiais: o Governo Lula da Silva, desde sempre e agora, com a Estratégia Nacional de Defesa, pretende fazer do Exército a gendarmaria a que, desde Vargas, muitos querem reduzi-lo, transformando-o, de interlocutor, indutor e protagonista dos assuntos de Estado, em força subalterna submetida aos governos.

Lembremo-nos de que o Exército foi afastado das decisões de Estado já no Governo Collor de Mello, em processo que culminou, no Governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa. Isso foi feito a pretexto de subordinarem-se as Forças Armadas ao Poder Civil, mas, na realidade, com o propósito de que o País se ajustasse às diretivas daqueles que, ao Norte, pretendem reduzir as Forças Armadas brasileiras a forças meramente policiais.

Tomo a liberdade de transcrever a carta do General Cesário (v. AQUI ), na íntegra. O que importa é o que está dito e dito está com palavras muito educadas.


Oliveiros S. Ferreira nasceu em 05 de maio de 1929 em São José do Rio Pardo, SP, é cientista social, jornalista, escritor, cientista político, historiador e professor, licenciado em Ciência Sociais pela Universidade de São Paulo, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, é livre-docente pela mesma instituição. Atualmente é professor convidado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de ministrar cursos no Programa de Estudos Pós-Graduados da FFLCH da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais e Teoria Política. Tem publicados inúmeros livros nos seguintes temas: Brasil, Política, Relações Internacionais, Ordem Mundial e Guerra.
E-mail: pensar-e-repensar@uol.com.br


Publicado no site "Pensar e Repensar".
Quarta-feira, 18 de março de 2009.




GENERAL CESÁRIO E A MÍSTICA DA SACRALIDADE MILITAR – André F. Falleiro Garcia





Saturday, March 14, 2009

"OS VELHOS SOLDADOS SE DESPEDEM, MAS NÃO SE VÃO"
(General Orlando Geisel)

Foto: General-de-Exército Luiz Cesário da Silveira Filho.










































Íntegra do discurso proferido pelo General-de-Exército Luiz Cesário da Silveira Filho, por ocasião da Passagem de Comando do Comando Militar do Leste, realizada no dia 11 de março de 2009 no Salão Nobre do Palácio Duque de Caxias, quando assumiu o cargo de Comandante do CML, o General-de-Exército Rui Alves Catão.




PASSAGEM DE COMANDO


Meus Senhores!

Alcançado por necessário dispositivo da Lei de Promoções de Oficiais, afasto-me, nesta data, do serviço ativo do Exército e, consequentemente, deixo o cargo de Comandante Militar do Leste.

Dentro do espírito de tão importante cerimônia, admite-se, neste momento, que acima dos aspectos formais dos atos de serviço, a nossa condição intrínseca de seres humanos tomados, pela emoção, e, por igual, do sentimento de gratidão, transcenda as formalidades rotineiras da vida profissional e o estilo das cerimônias regulamentares.

As solenidades militares não se esgotam nos seus aspectos visíveis e formais, senão no seu significado profundo de ritual e símbolo, que deve ser interpretado e explicitado, para que se cumpra o seu verdadeiro papel de síntese do que se quer preservar do passado, de testemunho das aspirações do presente e de arauto do que se deseja anunciar do futuro.

Esta é, para mim, uma formatura diferente na essência de outras formaturas que neste histórico Salão de Honra fiz realizar.

Nela posso identificar um fremir de emoção que é bem familiar e penoso aos homens de farda: o sentimento da despedida.

Não quero esconder a emoção nesta hora. Quero, sim, que ela me dê sonoridade à voz e eloquência à palavra e que me ajude a dizer o que vai na mente e no coração deste velho soldado.

Carregada de emotividade, esta é, para mim, uma manhã memorável. Ao olhar para trás no tempo, observo, rapidamente, que já são decorridos 47 anos e 10 dias, quando, em tocante cerimônia, transpus o Portão dos novos Cadetes da nossa querida Academia Militar das Agulhas Negras para realizar o meu sonho profissional de tornar-me um oficial do Exército Brasileiro, carreira que tanto me dignificou. Egresso do Colégio Militar do Rio de Janeiro, sabia que pelo cabedal de ensino que auferira deste modelar estabelecimento de ensino do nosso Exército, estava em condições de abraçar qualquer carreira com sucesso, mas nenhuma me seduzia mais do que a militar.

Confirmava uma previsão que meu pai, também orgulhoso oficial de cavalaria, vaticinara no meu nascimento "se fores militar, sejas oficial do Exército, ele é o cerne da nacionalidade brasileira e dentre as armas escolhe a imortal Cavalaria, ela é a doce heresia dos campos de batalha e sobre ela Deus, Deus somente". Cumpri os seus desígnios.

Ainda na Academia Militar, berço esplêndido de brasilidade e origem de todos nós, aprendi a grandeza e a servidão da vida militar. A par de exaustivos conhecimentos que nos eram transmitidos, absorvi o Espírito Militar que, oxigenado pela camaradagem, é formado por coragem, lealdade, ética, dignidade, espírito público e amor incondicional ao Brasil, virtudes tão escassas nos dias atuais, mas que, naquele templo de amor ao Brasil, jamais deixaremos de ensinar.

Ainda como cadete do último ano, participei ativamente da Revolução Democrática de 31 de março de 1964, ocupando posição de combate no Vale do Paraíba, oportunidade na qual aprendi que, se necessário for, o soldado deve dispor da própria vida para que os interesses maiores da Pátria se sobreponham às ambições pessoais.

Nesse memorável acontecimento, constatei, pela primeira vez, o quanto de coragem, de responsabilidade e de grandeza é exigido do Chefe Militar, quando na solidão do Comando este chefe tem que tomar importantes decisões. Naquela oportunidade, atuamos sob a liderança incontestável do meu Comandante da Academia, o então Gen Bda Emílio Garrastazu Médici, de patriótica atuação posteriormente na Presidência da República, que assim se expressou na Ordem do Dia lida na formatura que nos recepcionou ao retorno daquela histórica operação cívico-militar:

"Cadetes

Ao decidir empregar a Academia e, em especial, o Corpo de Cadetes, eu e meus assessores diretos fomos tomados de viva emoção. Lançávamos, assim, o sangue jovem do Exército na liça e corríamos o perigo de vê-lo umedecer as velhas terras do Vale do Paraíba. Mais forte que ela, porém, foi o sentimento de nossas responsabilidades e o conteúdo energético de nosso ideal .

Após 29 anos de alheamento, a Academia Militar voltou a empenhar-se ostensivamente na luta pelo aprimoramento de nossas instituições e pela tranquilidade de nosso país. Vós o fizestes com pleno sucesso e com admirável galhardia.

Que, por isso, a história pátria lhes reserve uma página consagradora, fazendo-os ingressar no rol daqueles que, despidos de qualquer ambição ou interesse subalterno, um dia se dispuseram a lutar pelo país que nossos descendentes hão de receber engrandecido e respeitado.

Cadetes: pela história, atingis os umbrais da glória"


Por ser o último integrante da Turma de Aspirantes egressos da AMAN em 1964 a deixar o serviço ativo do Exército, rendo a minha homenagem àqueles que junto comigo, magnetizados pela liderança de nosso Comandante e dos nossos Instrutores, não titubearam diante da possibilidade de derramar o seu próprio sangue, se necessário fosse, sem se importar em sacrificar a sua juventude e as suas esperanças em prol do interesse maior da Pátria, mesmo sem ter ainda, naquela ocasião, concretizado os seus sonhos de serem oficiais do Exército. Alguns já não se encontram entre nós, tal como o meu saudoso irmão, mas sei que Deus e a pátria conhecem os seus nomes e que os seus exemplos serão sempre lembrados enquanto no Brasil existirem soldados que entendem que a liberdade da Pátria é o bem maior a ser protegido.

Os postulados que absorvi do movimento de 31 Mar 1964, que hoje denomino "correção democrática de 1964" por ter evitado o golpe preparado pelo governo de então contra as instituições e a liberdade democrática do Brasil, impregnaram a minha alma de soldado. Seus postulados sempre foram o meu rumo ético: moralidade, honradez, dignidade, amor a ordem, amor ao território, manutenção da identidade cultural, culto ao passado histórico e o dever de lutar por essas coisas.

Vivi intensamente todos os postos da carreira.

Nomeado, para a minha última comissão, assumi o cargo de Comandante Militar do Leste, em 20 Dez 2006, coroando a minha carreira na função que hoje deixo e que muito me honrou e dignificou. Foram 2 anos e 2 meses de intenso trabalho. Ao chegar para comandar, acreditava ter incorporado toda a experiência necessária ao seu exercício. Hoje, reconheço que comandá-lo foi um aprendizado contínuo. Muito aprendi nas inúmeras atividades partilhadas com meus comandados, carregadas de momentos de contagiante otimismo e outros, de intensas preocupações.

Bastaria recordar a proposta de uma nova organização para os Comandos subordinados que já vem resultando na criação da Base de Apoio Logístico do Exército, a execução das Operações Mercosul, a realização dos Jogos Pan-americanos em área militar, a Operação Cimento Social, a Operação Atlântico Sul, a Operação Guanabara e a Operação Moscou, dentre as inúmeras realizações que juntos conquistamos, para nos enchermos de orgulho profissional e nos sentirmos amplamente realizados.

A força que permitiu alcançarmos tão satisfatórios padrões de desempenho foi, sem dúvida, o espírito de disciplina, de trabalho e de camaradagem com que vivemos durante o grato período de meu Comando.

Tenho a certeza de que esse espírito persistirá durante a condução experiente do meu sucessor, Gen Catão, oficial de sobejas qualidades e grande brilho profissional, a quem desejo pleno êxito na nobre missão que hoje é investido.

Sei que nesta hora nenhum dever me seria mais imperativo do que expressar os meus agradecimentos:

- a Deus que, em sua infinita bondade, permitiu que eu chegasse a este momento tão significativo da minha vida com a consciência tranquila dos que cumpriram o seu dever.

- Aos meus pais, Coronel de Cavalaria Luiz Cesário da Silveira, já falecido, e minha mãe Nilza Silveira, que em um lar povoado por 7 filhos, me transmitiram o amor e a necessária educação que formaram o meu caráter de cidadão.

- À minha querida esposa Aladir, minha eterna namorada desde que eu cursava o 1º ano científico do Colégio Militar do Rio de Janeiro, pela compreensão e incentivo e por ter me dado duas queridas filhas Daniele e Adriane, que multiplicaram a família cada uma com um casal de lindos netos o que me dá a garantia que, mesmo quando Deus me chamar, neles a minha herança genética será perpetuada.

- Aos chefes de todos os tempos e de todos os lugares, dos quais sempre busquei os exemplos que inspiraram a minha vida.

- Aos amigos, camaradas de armas e da vida civil, que sempre ombrearam comigo e me estimularam com seu carinho e compreensão ao longo da vida.

- Aos meus subordinados que, durante toda a minha carreira, sempre viram em mim não o Chefe exigente e, sim, o amigo orientador, dispensando-me os maiores tributos de confiança e lealdade.

Vivi intensamente e feliz os 47 anos da minha vida militar. Jamais foram obstáculo, para mim, a deficiência material ou a insuficiência de recursos. Jamais me alcançou a descrença, a rotina que conduz ao imobilismo e o desânimo. Procurei sempre resolver todos os desafios com criatividade, espírito profissional e devotamento.

Fui um profissional do meu tempo, sempre em consonância com a realidade nacional. Amadurecido e alçado ao mais alto posto da hierarquia terrestre venho acompanhando, por dever, atentamente a evolução do pensamento político-estratégico brasileiro, reagindo com as perspectivas de futuro para a Instituição. Tenho levado as minhas apreensões ao Alto- Comando do Exército, colegiado que durante 3 anos e 8 meses tive a honra e o privilégio de integrar e que se constitui no mais alto nível do assessoramento para as decisões do Comandante do Exército.

Vivemos, atualmente, dias de inquietudes e incertezas.

Sei que só nós, os militares, por força da continuidade do nosso dever constitucional, temos por obrigação manter a memória viva e a trajetória imutável da liberdade na construção nacional.

Nossa Instituição sempre foi um ator importante na vida brasileira, e, ao longo da história, teve o papel de interlocutor, indutor e protagonista.

A história do Brasil se confunde com a história do Exército. Ele é o "cerne da nacionalidade brasileira." – como escreveu meu saudoso pai.

Tenho a convicção que o nosso Exército saberá, como sempre, contornar tão graves limitações e continuará, a despeito de qualquer restrição que se lhe anteponha, "protegendo a nação do estrangeiro e de si mesma".

Hora da despedida! Conforme escreveu o General Orlando Geisel, "os velhos soldados se despedem, mas não se vão. No Exército permanecem os meus velhos sonhos, a evocação dos meus melhores dias, a mocidade há muito tempo perdida e a confiança nos chefes que virão depois de mim"

Tenham a certeza de que o que vivi nestes mais de 47 anos de minha vida militar, ficará guardado eternamente em meu coração. Tão vivas lembranças tocaram e tocarão, para sempre, a minha alma de soldado. E hão de servir-me como alento no prosseguimento do resto de minha vida que, hoje, se inicia, na certeza que jamais ficará esquecido como coisa do passado.

Não sou eu que pertenço ao passado.
O passado é que me pertence!

Muito obrigado!

Fonte: SEÇÃO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO COMANDO MILITAR DO LESTE.














































"ORDEM DO DIA DO GEN CMT DA AMAN"
Em 02 de abril de 1964
Gen Bda EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI – Cmt da AMAN


Como é imperativo nas situações de emergência que, por dever de ofício, vez por outra têm de enfrentar as Forças Armadas, a atitude histórica tomada pela Academia Militar das Agulhas Negras foi fruto de acendrado espírito patriótico, de profunda reflexão e do reconhecimento de suas grande responsabilidades no panorama nacional.

O senso de patriotismo, que temos cultivado diuturnamente, nos vem da apreciação das páginas gloriosas de nossa História e da devoção, sincera e continuada, que nos empenhamos em manter e fortalecer para com os elementos fundamentais da nacionalidade brasileira.

A meditação, dedicada à evolução da situação nacional e, muito particularmente, à sua fase aguda, nos foi propiciada pelo interesse em bem servir às legítimas aspirações de nosso povo, pela formação que nos foi proporcionada no ambiente militar brasileiro e pelo equilíbrio que, de regra, soe advir da convicção nos ideais formulados e perseguidos pelos que amam o seu berço natal, a sua família e a sua Pátria.

As responsabilidades da Academia no panorama nacional sempre se nos afiguraram patentes, em face dos anseios que nos norteiam, do trabalho que habitualmente executamos e do muito que, num Exército eminentemente democráticos, produzimos dia-a-dia em prol da segurança nacional e do progresso geral do país.

Estes três pontos básicos, meus camaradas, materializam a orientação que, conscientemente e inundados de fervor cívico, seguimos nos últimos dias. Tenho a certeza absoluta de que, ao seguí-la, adotei a única direção de atuação que despontava, clara e insofismável, do nosso passado, de nossa presente preocupação com o restabelecimento da Hierarquia e da Disciplina, e de nossos anseios relativos ao futuro. Diante das notícias desencontradas que inundavam o país, na noite de 31 Mar p. passado, constituí um E M operacional. Coloquei em estado de alerta o CC e dei ordem de prontidão ao BCS.

Com o evoluir dos acontecimentos, ligados a fatos concretos ocorridos em vários Estados da Federação, os planos e as medidas de controle foram sendo aprofundadas e, na madrugada de 1° Abril, por seu Cmt, a Academia declarou-se a favor daqueles que pugnavam pelo restabelecimento, no país, do clima coerente com suas tradições cristãs e com os sentimentos patrióticos da maioria esmagadora do povo brasileiro. Quando o panorama pareceu claro, a mim e a meus colaboradores diretos, não hesitei um instante em declarar a grave decisão que tomara, pois a sabia inteiramente legítima, dada a consciência cívica e o fervor patriótico de meus comandados.

Em decorrência da decisão formulada, empregamos a Cia Gda do BCS na vigilância dos pontos críticos em torno de RESENDE, estabelecemos as premissas do controle da localidade e a efetivação das primeiras medidas correlatas, e passamos a planejar o emprego do CC.

Na manhã do dia 1°, foram desencadeadas as operações de controle da cidade e as medidas de segurança convenientes. Enquanto isso ocorria, a situação militar se complicava no Vale do Paraíba e, diante da possibilidade efetivamente existente, de tropas do I Exército virem a dominá-lo em todo o território fluminense, só me restou uma atitude a tomar, dentro do quadro geral já traçado: ordenar o emprego imediato do CC na região a E de Resende, em conexão com o 1° BIB (Barra Mansa) e em ligação com o 5° RI, que avançava de Lorena.

A sorte estava lançada: duas proclamações foram preparadas e divulgadas, ao tempo em que sentia, a cada minuto, crescer o ardor combativo de meus comandados, em todos os postos da hierarquia.

O empenho desassombrado da Academia, na ocupação efetiva do terreno e nos preliminares da luta armada que se desenhava, alcançou repercussão magnífica para a causa que abraçáramos, seja na população civil, seja no seio das próprias tropas com que, provavelmente, nos defrontaríamos. Posso, mesmo, asseverar que nossa atitude se constituiu em fator dos mais decisivos para o rumo que, afinal, vieram a tomar os acontecimentos, no Vale do Paraíba e quiçá no BRASIL, cujo ponto, culminante foi a reunião na Academia, às 1800 horas de ontem, dos dois eminentes chefes militares que detinham os s comandos das forças federais em SÃO PAULO e na GUANABARA.

Oficiais, Cadetes Sargentos, Cabos, Soldados e Funcionários Civis da Academia: nosso dever formal e de consciência foi cumprido com elevação e dignidade. O Exército Brasileiro, democrático e cristão, mais um vez interveio nas lutas nacionais para restabelecer o rumo adequado a nossos sentimentos e dos postulados de nossa crença cívica.

Todos podem estar tranqüilos: o que a Pátria de nós poderia esperar lhe foi dado no momento oportuno e com a abnegação que nos caracteriza, no quadro geral de uma colaboração irrestrita e corajosa, que tocou vivamente minha consciência de homem, de cidadão e do soldado. A todos, pois, o agradecimento enternecido da Pátria Brasileira.

Cadetes!

Ao decidir empregar a Academia e, em especial, o Corpo de Cadetes, eu e meus assessores diretos fomos tomados de viva emoção. Lançávamos, assim, o sangue jovem do Exército na liça e corríamos o perigo de vê-lo umedecer as velhas terras do Vale do Paraíba. Mais forte que ela, porém, foram o sentimento de nossas responsabilidades e o conteúdo energético de nosso ideal de, no mais curto espaço de tempo, restaurar os princípios basilares de nossa instituição. Vosso entusiasmo, vosso idealismo imaculado, vossa fé nos destinos do país e vossa dedicação aos misteres militares foram os elementos fiadores da decisão então tomada, que acabou por contribuir de modo ponderável para a solução da crise, em nossa área de operações.

Após 29 anos de alheamento, a Academia Militar voltou a empenhar-se ostensivamente na luta pelo aprimoramento de nossas instituições e pela tranqüilidade de nosso país. Vós o fizestes, com pleno sucesso e com admirável galhardia. Que, por isso, a História Pátria lhes reserve uma página consagradora, fazendo-os ingressar no rol daqueles que, despidos de qualquer ambição ou interesse subalterno, um dia se dispuseram a lutar pelo país que nossos descendentes hão de receber engrandecido e respeitado.

Cadetes: pela História, atingis os umbrais da glória.



CANÇÃO DA CAVALARIA - Composição (Letra): Teófilo Ottoni da Fonseca.
Fanfarra do 3º Regimento de Cavalaria de Guarda
(3º RCG – "Regimento Osorio") CMS – EB (Porto Alegre – RS)





Click AQUI para ver a letra da Canção da Cavalaria.







Fora MST! – João Mellão neto






"OS VELHOS SOLDADOS SE DESPEDEM, MAS NÃO SE VÃO" – (General Orlando Geisel)
 
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