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Thursday, January 21, 2010

Para bom entendedor, meia palavra basta.
Ou seja: A ONU não tem nenhuma serventia!
















































GEOPOLÍTICA NO HAITI
por José Nivaldo Cordeiro

Se existe o horror na terra, algo parecido com o fim do mundo, está no Haiti. Nenhuma alma pode deixar de lamentar e prantear o que está acontecendo naquela ilha do Caribe. Em nenhum lugar a frase bíblica se aplica melhor: os vivos terão inveja dos mortos. Ao lado da pobreza crônica, histórica, tivemos agora a destruição física. A infra-estrutura desapareceu com o terremoto, a linha se suprimento foi interrompida, a fome e a sede, como raras vezes uma sociedade padeceu, ali se instalaram. O governo desapareceu. O futuro desapareceu. Só resta aos que sobreviveram contar com a caridade internacional.

Mesmo essa caridade, que chegou, não está isenta de interesses. Vários artigos, como o do Le Monde reproduzido pela Folha de S. Paulo, (v. AQUI ) mostram que a ação pronta norte-americana, necessária e humanitária e, sob todos os aspectos, digna de aplausos, precisa ser compreendida dentro do duelo em que a maior das soberanias nacionais, os EUA, está em confronto direto com aqueles que desejam implantar o projeto de governo mundial e usam a ONU como escada para alcançar esses objetivos. Até a data do terremoto o Haiti estava sob jurisdição da ONU, na qual o Brasil desempenha, a mando do Lula, o papel de administrador e de polícia. A chegada unilateral e espetacular dos EUA surpreendeu e serviu para expor a fonte do poder real. A ONU não tem músculos sequer para mandar no Haiti.

A situação daquele pequeno país não é de emergência militar, mas humanitária. O recurso militar serve apenas para garantir a ordem e exibir o poder de quem o tem. Não há inimigos a combater ali, exceto os infortúnios, agora agravados com o terremoto (ou os terremotos, vez que vários vieram na seqüência). A ação dos EUA mostrou que aquele país tem recursos, capacidade de mobilização pronta e vontade política de fazer a coisa certa no prazo exíguo, coisas que faltaram aos burocratas da ONU. Nenhum dos apoiadores da Força de Paz lá instalada tinha quaisquer desses requisitos. O Brasil, coitado, tem Forças Armadas sucateadas e jamais teria como mandar um porta-aviões carregado para servir de unidade supridora de bens ao povo vitimado. Nem tinha um gigantesco navio-hospital para, no prazo de 48 horas, zarpar pronto para entrar em ação. Nem dinheiro. E, menos ainda, vontade política para realizar empreitada de tamanha envergadura. Afinal, como diz a canção, o Haiti também é aqui e sequer temos como enfrentar as nossas próprias mazelas com os parcos recursos de que dispomos.

O fracasso da ONU é rotundo e o Brasil, por apoiar suas aventuras imperiais canhestras, acabou por se envolver com um problema maior do que poderia resolver. Vimos o comando brasileiro perder o controle, que agora está com quem de direito, com quem paga a conta e pode lá enviar quantos soldados for preciso. Não deixou de ser uma prova humilhante. A perda do aeroporto foi a mais emblemática confissão de fracasso.

Acredito que a mobilização norte-americana foi generosa e unilateral. Tudo dentro da tradição daquele povo bendito, que sempre está disposto ajudar alhures, na paz e na guerra, onde precisar. Não faltaram análises de observadores mal intencionados, dizendo que o cálculo de Barack Obama foi eleitoral, que pretende impedir o agravamento da imigração, que é a oportunidade de colocar em prática um grande exercício de enfrentamento de grandes catástrofes. Se há um elemento de realidade em cada uma dessas motivações, basta lembrar que mais importante que o Haiti é o México, o que não impediu a construção de um muro fronteiriço contra a emigração ilegal. Situações diferentes, soluções diversas. Vi a motivação humanitária sobrepor-se a todas as outras.

A brincadeira amadora da ONU acabou e os profissionais de verdade chegaram ao cenário de operações. A experiência provou que os delirantes revolucionários encastelados na ONU estão muito longe de pôr a operar a sua Cosmópolis.


José Nivaldo Cordeiro: "Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas".



José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP e editor do site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado". E-mail: nivaldocordeiro@yahoo.com.br


Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Quarta-feira, 20 de janeiro de 2010.




Existe apenas um poder, que é o "poder militar".
Os outros poderes fazem rir e deixam rir.
































Atuação dos Estados Unidos no Haiti é uma questão de liderança
por Corine Lesnes, correspondente em Washington para o "Le Monde".

Com seu presidente aparecendo com tanta frequência nas telas, os americanos poderiam acreditar que a catástrofe havia acontecido em seu solo. Nos três dias que se seguiram ao terremoto no Haiti, o presidente Barack Obama fez diversas declarações na Casa Branca, enviou 10 mil soldados, um porta-aviões munido de 19 helicópteros, e desbloqueou US$ 100 milhões. A Marinha foi convocada a fazer milagres. O navio-hospital Comfort, um mastodonte equipado com doze salas de operações, nunca havia sido preparado tão rapidamente. Em menos de 48 horas, levantou âncora para Porto Príncipe, onde deveria chegar na quarta-feira (20).

Barack Obama logo assumiu o controle de tudo – quase que instintivamente, poderiam dizer. Ainda que ele tenha designado como coordenador o novo diretor da Agência Americana para o Desenvolvimento USAID, Rajiv Shah, um jovem médico de origem indiana, foi ele que declarou a situação "prioritária", a ponto de merecer manter em Washington os secretários da Defesa e das Relações Exteriores, esperados na Austrália para uma cúpula dedicada ao Afeganistão e à luta antiterrorista.

Obama também enviou a Porto Príncipe um de seus colaboradores mais próximos, Dennis McDonough, para coordenar a comunicação. É verdade que os apresentadores dos telejornais da noite também desembarcaram no Haiti (em que avião?, perguntariam alguns).

Reação instantânea bem vista nos Estados Unidos

A administração Obama se antecipou ao chamado? Teria ela se precipitado indevidamente? Certamente essa é a opinião daqueles – franceses, italianos, brasileiros – cujos aviões de socorro se viram desviados para os outros aeroportos da região por americanos que acreditavam estar fazendo a coisa certa, mas que nenhuma autoridade superior havia ordenado.

Na edição de segunda-feira (19) do jornal "USA Today", os especialistas da Força Aérea dos EUA contaram como haviam procedido ao desembarcarem no aeroporto 24 horas após o terremoto. Foi um caos. A torre de controle estava quebrada. "Fomos falar com os pilotos e dissemos: ei, somos controladores de combate da aeronáutica. Estamos assumindo o controle do aeroporto", contou o sargento Chris Grove.

Dito e feito. Os americanos sabem que foram criticados por terem evacuado seus compatriotas como prioridade, e por terem privilegiado os voos militares em detrimento dos socorros: em outras palavras, a segurança em vez da ajuda humanitária. Mas tudo entrou nos eixos, eles afirmam. Os voos do Exército americano agora estão programados para a noite.

Quanto aos outros aviões, as prioridades são estabelecidas "pelo governo haitiano". E a secretária de Estado, Hillary Clinton, durante sua visita assinou um acordo com o presidente René Préval regularizando a tomada de controle do aeroporto. A conversa aconteceu no hangar "tomado" pelo sargento Chris Grove e depois transformado em QG americano.

Para os americanos, o Haiti é tanto uma exigência humanitária quanto uma exigência de segurança nacional. Cada vez que acontece um tumulto relacionado ao Caribe, especialmente com Cuba, eles temem um êxodo que mandaria centenas de milhares de refugiados para a Flórida, situada a somente 1.200 quilômetros.

Para justificar seu comprometimento em favor do Haiti, Barack Obama também acrescentou uma exigência moral em nome da "humanidade comum" compartilhada por todos os povos da Terra. Para a imagem que os americanos fazem de si mesmos, e para aquela que seus vizinhos têm deles, é necessário ajudar o salvamento do Haiti, disse ele. É uma questão de liderança.

Mesmo que as duas situações não tenham nada a ver, o paralelo com o furacão Katrina foi abordado, em sua vantagem – e para a grande satisfação da Casa Branca. A reação instantânea do presidente – meia hora depois de saber do terremoto, ele já publicava um comunicado – foi bem vista nos Estados Unidos, com algumas exceções.

A crítica mais ácida foi a de Rush Limbaugh, apresentador ultradireitista de rádio, que o acusou de adular a comunidade afro-americana, em um momento em que ela se sente abandonada por seu presidente "pós-racial".

Longa história muitas vezes turbulenta

O Haiti mantém uma longa história – e muitas vezes turbulenta – com os Estados Unidos desde a primeira campanha de julho de 1915, decidida por Woodrow Wilson, precursor das intervenções armadas conduzidas em nome da promoção da democracia (a ocupação durou 19 anos).

Os Estados Unidos "voltaram" em 1994, quando Bill Clinton resolveu restabelecer no poder o padre Jean-Bertrand Aristide, vítima de um golpe de Estado. E depois em 2004, para expulsar o mesmo Aristide, que se tornara um ditador sanguinário. Todas as vezes o exército americano serviu de elemento avançado de uma força multinacional da ONU.

Tomada por uma ambição de fazer o "bem", a administração Obama desta vez promete um compromisso a longo prazo para acabar com um mal crônico. Em um momento em que duas guerras estão esgotando seus recursos, é difícil acusar os americanos de estarem comandando uma nova "ocupação" qualquer.

Se a ONU tivesse enviado controladores aéreos a Porto Príncipe no dia seguinte ao terremoto, o sargento Chris Grove não estaria tumultuando os céus do Haiti.

Tradução: Lana Lim


Publicado no jornal "Folha de S. Paulo".
Quarta-feira, 20 de janeiro de 2010.




Lula o "capoeirista" (calção branco), enfrentando o "gente branca de olhos azuis" (calção preto).





Sunday, August 10, 2008

"BLOOD COCAINE"





Tráfico monta nas matas cursos para jovens integrantes de quadrilhas aprenderem técnicas de guerrilha e uso de armas
por Sérgio Ramalho e Vera Araújo para "O Globo"

O tráfico no Rio está investindo em jovens sem perspectivas de trabalho nas favelas para treinar, em áreas de Mata Atlântica, verdadeiros guerrilheiros.

A informação de que traficantes estão montando esse tipo de curso é citada em relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e foi obtida também pelos analistas da Coordenação de Segurança e Inteligência (CSINT), do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase).

O documento da Abin foi elaborado com base em dados dos setores de inteligência das polícias Civil e Militar, que constataram o emprego desse tipo de tática em confrontos na mata na Rocinha, no Vidigal e nos morros do Chapéu Mangueira e da Babilônia (ambos no Leme).

Na Zona Sul, a principal facção a usar esse tipo de treinamento tem como principal reduto as favelas do PavãoPavãozinho (Copacabana) e do Cantagalo (Ipanema). De acordo com o relatório da agência, os instrutores são jovens das comunidades que passaram pelas Forças Armadas ou ainda estão prestando serviço militar. Agentes da CSINT descobriram que há casos de alunos de até 11 anos.

— Numa sociedade em que ser cidadão é poder consumir, ganhar R$ 1.500 por semana para trabalhar no tráfico de drogas vira, infelizmente, o principal atrativo para essa juventude.

Ninguém quer receber R$ 415 (salário mínimo nacional) — disse o coordenador da CSINT, major da PM Alexandre Azevedo, que prepara um relatório a ser entregue à Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança.

A proposta do diretor-geral do Degase, Eduardo Gameleiro, é a de usar as informações para melhorar o atendimento nas unidades do órgão, responsável pela aplicação de medidas socioeducativas a crianças e adolescentes infratores.

— Temos que usar esses dados para o bem-estar dessas crianças e adolescentes.

O sentido da inteligência no Degase é pedagógico. Temos que criar programas para atendê-los melhor, a partir da realidade que eles vivem em suas comunidades.

Tráfico paga para jovens se alistarem

Segundo o documento da Abin, como incentivo, traficantes oferecem a jovens R$ 300 semanais para que ingressem no Exército ou na Marinha e, de preferência, se tornem pará-quedistas ou fuzileiros navais. Os mais aptos são alçados à posição de instrutores e passam técnicas de guerrilha, tiro e manutenção de armas aos mais novos das quadrilhas. O relatório acrescenta que esses jovens não se limitam a dar treinamento nas favelas de origem. Os mais capacitados dão aulas em comunidades aliadas e até elaboram planos de invasão em áreas dominadas por bandos rivais.

O documento da Abin também cita as rotineiras apreensões de material militar — armas, munição, roupas e barracas de acampamento — em trechos de mata em favelas como Dona Marta, em Botafogo. Dá informações ainda sobre a descoberta de manuais militares e cartilhas com táticas de guerrilha. Em 2002, O GLOBO revelou que, recém-saídos da caserna, ex-soldados e ex-cabos da Brigada PáraQuedista do Exército (PQDs) treinavam traficantes em troca de até R$ 3 mil por aula ou R$ 8 mil por mês.

Traficantes da Rocinha também recebem instruções desse tipo e, segundo a Abin, vêm usando acampamentos na mata no alto da favela para esconder armas, drogas e munição. O relatório da agência frisa que o uso da estratégia vem crescendo como forma de evitar perdas de armas e drogas.

Integrantes da facção que controla a venda de drogas na Rocinha já usaram trilhas no trecho de Mata Atlântica para surpreender rivais no Morro do Vidigal. Segundo o relatório da Abin, os bandidos teriam colocado armadilhas, semelhantes às usadas por caçadores, em trilhas ligando as duas favelas. O objetivo: evitar que os caminhos fossem usados por bandos rivais e integrantes de unidades de elite das polícias Militar e Civil.

O titular da Coordenadoria de Recursos Especiais, delegado Rodrigo Oliveira, reconhece que o treinamento de jovens está se aprimorando: — Quanto menos discernimento, maior o potencial para produzir o mal. Eles acabam fazendo o que o tráfico manda para subir na hierarquia.

As primeiras informações sobre esse treinamento surgiram em 2005, quando um órgão de inteligência do estado interceptou uma conversa entre dois traficantes marcando cursos para "gerente" do tráfico (no Vidigal) e para segurança de quadrilha (em Vigário Geral). Segundo uma fonte da polícia, acostumada a fazer operações na mata, os jovens cada vez mais usam técnicas de guerrilha: — O pior disso tudo é que, para eles, não existe código de guerra. É violência crua. Usam pessoas como escudos e detonam explosivos de forma indiscriminada.

Um dos objetivos é ensinar a montar e gerenciar boca-de-fumo

Aulas incluem ainda lições sobre como atravessar valões, se esconder na mata e suportar torturas
Não importa a compleição física ou o sexo. O que conta é a capacidade de iniciativa, a competitividade e a vontade de montar sua própria "empresa" (boca-de-fumo). Longe de serem regras de empreendedorismo ou gestão de negócios, essas são as qualidades exigidas de quem pretende fazer o curso de treinamento para gerência e segurança do tráfico adotado em pelo menos oito favelas do Rio.

Com duração de seis a 12 meses, o curso é ministrado, geralmente, por ex-integrantes de tropas de elite das Forças Armadas, como expáraquedistas e ex-fuzileiros navais. A faixa etária das turmas, que devem ter até 14 integrantes, começa a partir de 11 anos.

Dois adolescentes que fizeram o curso em favelas de duas facções criminosas contaram ao GLOBO que, para se habilitar, passaram pelos estágios de fogueteiros (responsáveis por soltar fogos para alertar para a chegada da polícia), "aviões" (transportadores de drogas), cargueiros (levam para a favela as drogas encomendadas) e "vapores" (encarregados de vender drogas). Os dois afirmam que não foram aliciados pelo tráfico, e sim que atuar no crime era o único trabalho disponível na comunidade onde moravam.

— Ninguém me ofereceu nada. Eu fui porque quis. Fui fogueteiro, "vapor" e virei cargueiro.

Também trabalhei de "avião". Por último, depois da "graduação" (curso), fui ser gerente — disse K., um dos alunos.

Ao contrário do que se possa imaginar, não é subir um morro com um fuzil AR-15 — que pesa quatro quilos sem o carregador — a parte mais difícil do curso. São as sessões de tortura psicológica e as aulas de esconderijo, em valões fétidos, as partes mais complicadas.

— Perguntaram se eu queria ficar 12 meses no mato. Pensei: não adiantava nada estar ali (na favela) e não saber atirar, usar uma arma. Era um bom treinamento. Não podia estar despreparado.

Formaram uma turma, mas ninguém era obrigado.

Agora, quem aceitasse ir para o mato não podia voltar atrás. Ele (o instrutor) sabia que todo mundo ia correr quando começasse o treinamento.

A partir do momento em que se aceita, não dá para correr — diz K., franzino, de aproximadamente 1,50 metro e 45 quilos.

O jovem passa por pelo menos oito estágios: atravessar valões, aprender a se esconder na mata ou na favela, controlar a mente para não sucumbir às sessões de tortura, progredir nos morros, usar facas, manusear da pistola ao fuzil, montar armadilhas na mata e, por último, gerenciar um ponto de drogas.

— A primeira tarefa era nadar no valão. Foi o pior. Era podre. A gente só segura na arma depois de sete meses. É o que mais a gente quer.

Eles davam o tom. Na última parte, nos ensinaram a montar a nossa própria boca. Era como montar uma empresa. Poucos conseguiram passar. Eu consegui — conta K.

Para Y, o pior mesmo foi o terror psicológico: — Era como brincar de polícia e bandido. A gente ficava numa casa sem nada, um tempão longe da família. Soltavam a gente de noite para os "alemães" (PMs) arregados (pagos pelo tráfico) pegarem a gente. Era para saber quem dava mole, vacilava. Era tudo armado, pois depois eles nos soltavam, mas a gente não sabia. Era só "esculacho" (humilhação), quando nos pegavam.

Y. lembra que os instrutores repetiam o tempo todo que eles não iam sobreviver: — Eles diziam que queriam criar bichos.

Poucos chegaram ao final.


Reportagem de Sérgio Ramalho e Vera Araújo

Publicado no jornal "O Globo".
Domingo, 10 de agosto de 2008.




Palestra no Clube Militar – Fenix






Monday, July 23, 2007

Agora a agressão é contra a Marinha do Brasil. Eles também irão engolir mais este "sapo-teste"?
































Click aqui para ver a imagem ampliada.


A ILHA DE MARAMBAIA
por Denis Rosenfield

A invenção de quilombolas está se tornando uma perigosa prática nacional. Tanto mais perigosa porquanto encontra respaldo jurídico num decreto presidencial de 2003 e apoio político-administrativo em órgãos como o Incra, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, e a Fundação Palmares, do Ministério da Cultura. Ora, um decreto presidencial, ato administrativo do Poder Executivo, não poderia regulamentar um artigo constitucional, o 68, que dispõe sobre os quilombos, requerendo uma lei complementar, cuja aprovação é atribuição do Poder Legislativo. Por outro lado, órgãos como o Incra e a Fundação Palmares se tornaram ideologicamente engajados, tendo como objetivo central relativizar a propriedade em nome de supostas funções raciais e sociais, atentando, inclusive, contra o Estado de Direito.

O decreto estipula a autodefinição enquanto critério da negritude e a conseqüente auto-atribuição de terras e propriedades rurais e urbanas como condições de desapropriação. O arbítrio da autodefinição e da auto-atribuição se torna, então, a regra de ações ditas quilombolas, não sendo necessário, por exemplo, que essas pessoas residam nesses locais. Ou seja, não é necessária a existência de quilombos, como estipula a Constituição. Não seria a primeira vez na História que ações "legais" atentam contra o Estado de Direito, numa deriva autoritária que pode pôr em questão os fundamentos mesmos da democracia representativa.

A Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro, para quem não a conhece, é uma base dos fuzileiros navais. Um local esplêndido. A União comprou-a por "95 contos de réis" em 1905 e a transferiu para a Marinha em 1906. O seu título de propriedade remonta à fazenda do comendador Breves, tudo estando devidamente documentado. Em função de vicissitudes históricas do Estado brasileiro, em 1938 lá funcionou uma escola de pesca, desativada em 1971. Em 1981, foi instalado o Centro de Adestramento dos Fuzileiros Navais, encarregado do treinamento de seus membros. Está aos seus cuidados a conservação da ilha, que em nada interfere no que diz respeito às suas atividades propriamente militares. Trata-se de uma magnífica reserva ecológica, que vem sendo cuidadosamente preservada pela Marinha, com mata nativa e toda uma fauna e uma flora riquíssimas. Universidades lá realizam pesquisas. Não há plantações nem cultivo de espécie alguma. É quase um milagre que essa conservação tenha sido garantida, haja vista a destruição ambiental ocorrida em outras ilhas ao redor.

Mas nem milagres parecem resistir à arbitrariedade. Um grupo orientado por uma ONG, cuja direção é formada por pastores e bispos metodistas, anglicanos e presbiterianos, fomenta e reclama essa área como "quilombola", tendo como respaldo o Decreto Presidencial 4.887. Habitam a ilha, além dos fuzileiros, 106 famílias, que vivem basicamente da pesca, de cesta básica, Bolsa-Família e aposentadorias. Até a intervenção dessa ONG não havia conflitos "raciais" na ilha. Aliás, sua população é completamente miscigenada, algo tipicamente brasileiro, segundo diversos matizes, vivendo em pequenas áreas costeiras. Suas moradias têm cerca ao redor, configurando, assim, a sua posse. Nada mais simples, do ponto de vista social, do que conceder direitos reais de uso a essas famílias em suas áreas respectivas, já delimitadas. Aliás, essa é proposta da própria Marinha.

Ora, o que quer essa ONG, com o apoio da Fundação Palmares e do Incra? Nada menos que 16 milhões de metros quadrados para 106 famílias, tornando-as "proprietárias" de praticamente metade da ilha e de quase toda a sua baía. Mas o que pretendem realmente? Tomar posse de paredes rochosas e da mata nativa? Destruir a reserva ambiental para lá "plantar" alguma coisa? Ou talvez, sob o belo nome de "turismo étnico", dar início à especulação imobiliária? O que está realmente por trás de tudo isso? Há laudos ambientais segundo os quais não é aconselhável a ocupação humana dessa área de preservação, objeto precisamente dessa ação "racial".

É curioso que o "laudo racial" que serviu de base para instrução do processo junto à Fundação Palmares e ao Incra tenha sido feito pela própria ONG. Ela seria simultaneamente parte, "juíza" e incentivadora de tudo o que acontece, estando milagrosamente em todos os lugares ao mesmo tempo, numa ubiqüidade ideológica digna de seres que agem segundo uma "causa" tida por "absoluta". Ela fornece, assim, os "relatórios técnico-científicos", que deveriam ser mais apropriadamente denominados "técnico-ideológicos", como se, dessa maneira, a legalidade estivesse sendo preservada.

Imaginem o que - se nem a Marinha é respeitada - poderia bem acontecer com os pequenos proprietários rurais e urbanos, confrontados com "reivindicações raciais" dessa espécie. Quem os defenderia? Há todo um símbolo aqui em jogo. Se a Ilha de Marambaia for desapropriada, a mensagem passada é a seguinte: se nem as Forças Armadas resistem a nós, o caminho está aberto a novas ações que podem reformatar completamente as relações de propriedade e, mesmo, partes inteiras do território nacional. Um trabalho preliminar, nesse sentido, já foi feito pela Universidade de Brasília, que construiu um "mapa racial" brasileiro, que serve de orientação para as ações ditas quilombolas. Unidades da Federação seriam amputadas de uma parte considerável de seu território, não importando a existência de títulos de propriedade privados ou públicos, nem a própria existência de cidades. Sabemos que bastam os critérios arbitrários da autodefinição e da auto-atribuição para dar início a uma reivindicação desse tipo, não valendo os direitos de propriedade, por mais antigos e legais que sejam.

Surge uma nova legalidade, a legalidade do arbítrio, passando a legislar sobre tudo. Estamos entrando no terreno da exceção em nome de supostos critérios de raça, criando o apartheid que não fez parte da História nacional.



Denis Lérrer Rosenfield, nasceu em 21 de novembro de 1950 em Porto Alegre. Fez seus estudos de graduação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México e seus estudos de pós-graduação na França, tendo obtido o grau máximo de “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne em 1982. É atualmente Professor Titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador I-A do CNPq. Autor de vários livros e artigos em português, francês e espanhol, além de professor visitante na França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos. Também é articulista dos jornais Estado de São Paulo e O Globo, colaborador da Folha de São Paulo e editor da revista Filosofia Política. Atua também como consultor de análise política para empresas, grupos financeiros, associações empresariais e partidos políticos.
E-Mail: denisrosenfield@terra.com.br



Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo".
Segunda-feira, 23 julho de 2007.



 
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