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Monday, December 01, 2008

UMA FIGURA ABJETA DE MUITAS CARAS E NOMES.










































As três faces de um canalha
por Paulo Carvalho Espíndola

A primeira delas é o seu nome de batismo, José Dirceu de Oliveira e Silva, nome pomposo que bem poderia nomear um herói. Muito menos que isso, nomeia um nefando terrorista e um dos maiores criminosos da História recente do Brasil.

A segunda é a do "companheiro" Daniel, desde cedo traidor da pátria e fiel seguidor do facínora Carlos Marighela, aquele mesmo que Lula, muito recentemente, rotulou de herói. Daniel logo descambou para a subversão, até ser preso em um congresso estudantil ilegal. Recuperou a liberdade ao ser banido do território nacional na troca por um embaixador norte-americano, seqüestrado por terroristas. O terror era a sua causa e o crime a sua vocação. Por eles fez cursos de guerrilha em Cuba, onde estabeleceu fortes laços de cumplicidade com o assassino Fidel Castro e formou nova quadrilha de malfeitores políticos, o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), de curta duração e de triste destino.

A terceira é de Carlos Henrique Gouveia de Melo - o mesmo "companheiro" Daniel - na sua volta clandestina ao Brasil. Sob essa face, estabeleceu-se em Cruzeiro do Oeste/PR, iludiu uma pobre-rica mulher e com ela se casou, assim aumentando um pouco mais a sua extensa folha-corrida criminal.

A tão falada anistia, que a esquerda hoje tanto tenta invalidar para o lado que a venceu na luta armada, libertou Carlos Henrique da sua máscara e do seu casamento ilegal, com o quê ressurgiu das cinzas a pior face de um canalha.






















Voltou à cena José Dirceu.

Curiosamente livre de um passado sujo, José Dirceu enveredou pela política legal e tornou-se expoente do Partido dos Trabalhadores e, muito mais, eminência parda daquele que acabou por eleger-se presidente do Brasil.

O circo tornou-se seu. Fazia e desfazia com o beneplácito de Lula, que tinha e ainda tem muito medo dele, por razões que a própria razão desconhece. Acredito que seja porque ele saiba de muita sujeira.

Foi o mandatário de fato e, assim, tinha toda a liberdade de ação. Ágil, voltou ao crime, aliando-se ao colarinho branco e a uma nova quadrilha. Daí vieram os mensalões e uma incontável série de malfeitos, capazes, em um país sério, de implodir toda a estrutura governamental. Não foi o caso do Brasil.

José Dirceu foi defenestrado do governo e teve cassado o seu mandato parlamentar. Agora é lobista e prossegue nas suas articulações de bastidores, com Lula e seus parceiros como as suas marionetes.

A memória nacional é cada vez mais curta e disso ele se vale.

Anteontem mesmo, um grande jornal brasileiro abriu espaço para José Dirceu para ele vomitar o seu canto de sereia e afrontar a Marinha do Brasil.

Críticas são sempre bem-vindas na democracia - tenho por hábito grafar essa palavra com inicial maiúscula. Ler a matéria de José Dirceu, entretanto me causou asco e, sobretudo, a certeza de que ele continua o mesmo, ao exaltar o assassino João Cândido, o "almirante negro". Misturou alhos com bugalhos, perversa e maldosamente, à guisa de defender um anti-racismo muito mais presente nas mal encobertas intenções de "movimentos sociais" do que na realidade de um país miscigenado como o Brasil.

É emblemática a parcialidade do articulista José Dirceu no seu agravo à Marinha do Brasil: A Marinha não condena a chibata, os castigos físicos e nem os métodos de alistamento militar utilizados então, quando os conscritos negros eram caçados a laço – contra os quais Cândido liderou o movimento – mas condena a revolta por causa das vítimas entre os oficiais (quatro) e a população civil (duas crianças) do Rio de Janeiro, bombardeado. Pior, a Marinha não condena a prisão de João Cândido, sua expulsão da Marinha, sua vida na miséria e nem o assassinato de seus 16 companheiros.

É subliminar a diferença que faz entre "vítimas" (as da Marinha) e o "assassinato" dos companheiros de José Cândido.

Não sou psicólogo e, muito menos, psiquiatra para interpretar o que diz esse homem, mas me parece desigual a relação entre os mortos de cada lado. Para mim é bem nítida a tendência para deturpar a História: danem-se as vítimas da Marinha e glória aos companheiros de um assassino frio que urinou no cadáver de seu comandante. Nessa redação comprometida, duas crianças e quatro oficiais não significam nada; os rebeldes, sim.

José Dirceu continua o mesmo, fiel à traição e ao derramamento de sangue, desde que assim seja para os seus desígnios.

Vários dos seus vinte e oito companheiros da MOLIPO tombaram em confronto com os órgãos de segurança. Com certeza, foram delatados e "deletados" por um companheiro em Cuba. Isso pode ter sido obra de Fidel Castro ou de algum amigo "revolucionário" brasileiro. Não me atrevo a apontar culpados, no entanto, tenho convicção de que Daniel conhece muito bem essa estória macabra.

Antes de redescobrir e de reinterpretar os arquivos da História da Marinha, "companheiro" Daniel, abra os seus. Os companheiros da MOLIPO descansarão em paz ou não.

Interessante em tudo isso é que um órgão da grande imprensa ainda abre espaço para essa gente.

E o contraditório?

Ah! Ele virá, certamente, em outro bostejo de José Dirceu...

































Paulo Carvalho Espíndola é Coronel do Exército Brasileiro.









Publicado no site "TERNUMA – Terrorismo Nunca Mais"(Regional Brasília).
Segunda-feira, 01 de dezembro de 2008.





Queda-de-braço – Olavo de Carvalho


Anestesia obâmica – Heitor De Paola



Friday, May 02, 2008

Sr. Nelson "Chupim": Pode "vender" todas as aeronaves da FAB para a URSAL.
A nossa verdadeira "Força" já se encontra em alerta máximo!

Foto: O impiedoso "caçador" de Chavez, Castros, Kirchners, Correas, Morales, Lugos, Ortegas, Bachelets,
Lulas, Jobins, Saitos e caterva.































Click AQUI para ver esta foto em tamanho maior (1024 x 731).

O porta-aviões e a influência dos EUA
por William Waack

Poucos militares gostam de dizer que sua atividade tem fins políticos -e os americanos que comandam o porta-aviões George Washington não são exceção. Numa breve visita ao navio principal das manobras Unitas, nesta segunda feira (28/04), o almirante Phil Cullon, o comandante da frota americana, só admitiu um "significado político" da presença do George Washington no Atlântico Sul na sua abrangência mais ampla.

Na verdade, a vinda do poderoso navio de guerra –o centro de uma força de ataque conhecida como Strike Group 8– para manobras conjuntas com as marinhas da Argentina e Brasil tem um precedente político importante. Entre oficiais da Marinha de Guerra do Brasil causou enorme descontentamento o fato de a Unitas (o nome oficial dessas manobras conjuntas) não terem sido realizada três anos atrás por interferência política atribuída por oficiais brasileiros a Hugo Chávez.

"Já que o governo brasileiro não nos dá verbas para reequipar a Marinha, porque pelo menos não nos deixam participar de manobras conjuntas com uma marinha muito mais avançada (a americana) da qual podemos aprender muitas coisas que não estão nos manuais?", perguntava, há alguns meses, um importante comandante brasileiro que prefere não ter o nome divulgado.

Nesse sentido, o "recado" dado pelos americanos é razoavelmente claro. O George Washington tem 85 aviões de combate, entre eles o Super Hornet, a aeronave mais poderosa operando a partir de navios. Em um único porta-aviões dessa classe (a Nimitz) é mais avião de guerra de última geração voando do que a totalidade das aeronaves equivalentes à disposição da Força Aérea Brasileira.

Os pilotos e técnicos americanos provavelmente voam mais horas por semana em condições próximas às reais (45% dos vôos, por exemplo, são noturnos) do que seus colegas brasileiros e argentinos fazem em um ano, arrisco-me a dizer. Um dos pilotos brasileiros que assistia de camarote ao espetáculo de aviões ultramodernos sendo lançados e recolhidos à razão de 1 a cada 3 minutos (quase o ritmo de um movimentado aeroporto internacional civil) do convés de vôo do George Washington comentava com óbvia admiração: “o que eles fazem não é muito diferente do que a gente faz, mas a diferença é quantas vezes eles fazem”.

Porta-aviões mudaram a história das guerras nos mares, e a data precisa é o começo da Segunda Guerra Mundial, quando aviões japoneses acabaram em poucos minutos com dois formidáveis navios de superfície britânicos. Depois disso, e excetuando-se o uso da arma submarina para fins estratégicos, é impossível pensar em projeção do poder naval sem a aviação embarcada. Nesse sentido, a presença do George Washington é – quer seu almirante concorde com isso ou não – uma clara exibição de poderio militar e político.

A mensagem já é conhecida há muito tempo pelos militares brasileiros da Marinha: para proteger tanto mar declarado como o nosso temos muito poucos recursos. E nem se trata de fazer comparações com um "strike group" como o do George Washington (cujo preço de construção foi quase duas vezes o PIB de um país como a Bolívia, por exemplo).

Outra experiência foi bastante interessante a bordo desse porta-aviões americano. Entre os 4 mil e tantos tripulantes havia vários brasileiros. É bom insistir na palavra brasileiros pois esses marinheiros e marinheiras, embora trajando o uniforme de uma Força Armada de um país estrangeiro, continuam se sentindo…brasileiros. Em outras palavras: consideram-se militares americanos de profissão e brasileiros de alma e coração.

Os nomes pintados nas fuselagens dos modernos aviões de combate, as tarjas com os nomes nos uniformes dos técnicos e marinheiros e grande parte dos oficiais a bordo são latinos. Ouve-se muito espanhol a bordo do George Washington, que é considerado um padrão em termos de treinamento e capacidade de combate. Obviamente essa capacidade é função da "mão-de-obra", digamos assim, e não do hardware ou software de sistemas bélicos.

É o mesmo que acontece com a construção civil: um mexicano ou brasileiro com 7 a 8 meses de permanência numa grande cidade americana alcança, em média, nesse mesmo espaço de tempo, a produtividade de um trabalhador americano. Ou seja, esses imigrantes ou filhos de imigrantes a bordo de uma arma de primeiro mundo demonstram o mesmo padrão de eficiência e capacidade técnicas de “soldados” de primeiro mundo.

Minha leitura dessa curta visita ao George Washington tem dupla natureza. Primeiro: essas águas do Atlântico teriam, sim, de ser nossas não só por direito, mas de fato. Segundo: podemos, sim, ser tão bons quanto eles. É só parar de acreditar nas coisas erradas. E perder aquele complexo de vira-lata tão bem descrito por Nelson Rodrigues, e tão bem encarnado por Hugo Chávez.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Terça-feira, 29 de abril de 2008, 18h31.




Desintegrar para Entregar! – João Nemo



Wednesday, November 21, 2007

Para onde navegareis Brasil?

Foto: Navio-Escola "Brasil" (U-27).


































REPERCUTINDO

Abaixo uma segunda carta, cuja autoria também é atribuída ao 1° Ten da Marinha do Brasil, Marcio de Abreu Praça Cardoso, desta feita tecendo comentários sobre a repercussão causada pela carta anterior (click aqui para ler), como também esclarecendo dúvidas e corrigindo interpretações errôneas por parte de alguns dos leitores daquela.
Bootlead


COMENTÁRIOS SOBRE MINHA CARTA

Prezados senhores,

Apenas uma semana após a divulgação da minha carta, já me sinto obrigado a fazer um comentário geral, vista sua repercussão. Sou parabenizado efusivamente mas também gravemente rechaçado por militares das três Forças, sejam Generais ou Soldados Fuzileiros. Também sou procurado por jornalistas que, somados os meios envolvidos, divulgariam o conteúdo da minha carta em mais de 40 jornais ou periódicos, de maior ou menor expressão. Muitas pessoas me escrevem querendo saber se sou lenda urbana, colocando simplesmente em seu e-mail: “só queria saber se você era real”. Sou taxado de aproveitador, herói nacional, embusteiro, o João Cândido da era digital. Alguns me mandam me calar, outros escrever um livro e me candidatar a deputado federal.

Resumindo, a tarefa de responder a toda essa gente começa a se tornar inviável, seja para agradecer pelas congratulações ou refutar os argumentos contrários. Por isso escrevi este comentário, que não é uma nova carta, mas, basicamente, uma explicação da primeira, de seus reais motivos, suas origens e de pontos obscuros do texto. Peço a todos que a receberem que repassem aos seus contatos para quem também enviaram a carta original. Este segundo texto será enviado a todos que me mandaram uma resposta por e-mail, tenha sido ela a favor ou contra.

Muitas dúvidas surgiram de interpretações erradas do que escrevi, talvez fruto de uma leitura rápida, superficial ou preconceituosa. Por isso, neste comentário, vou usar somente texto puro; abolirei metáforas, sarcasmos ou qualquer outra figura de linguagem que possa suscitar novas dúvidas. Se esquecer de explicar algum ponto da carta, me perdoem, mas faço votos de que, após a leitura deste texto, algumas passagens se tornem mais claras.

O primeiro comentário que faço é sobre sua divulgação inicial. Sem contar minha Turma de EN, que possui cerca de 180 oficiais, com os quais me correspondo freqüentemente pelo grupo de e-mail, esta minha carta foi enviada para cerca de 50 pessoas, incluindo aí praças e oficiais que me conhecem ou trabalharam comigo de forma direta. Também mandei nominalmente uma cópia em papel para alguns oficiais, em geral meus ex-comandantes, e também para alguns Almirantes que julgo serem as autoridades competentes para tomar as decisões que sugiro em meu texto. Mandei uma cópia em papel por achar mais polido e conveniente.

É claro que imaginava que ocorreria uma divulgação ampla, mas cria que seria mais lenta e que ficasse restrita à MB. Por isso, acho que mesmo aqueles que discordam de mim deveriam, com um mínimo de bom-senso, tentar descobrir porque – se escrevi somente despautérios e usei argumentos descabidos – minha carta foi acolhida com tanto entusiasmo pela tropa; isso denota, no mínimo, que parte das suas angústias encontra-se refletida no texto. Não acho que sua distribuição em massa tenha sido feita pelos que a repugnaram, mas pelos que acreditam conter ela um pouco de voz que clame pelo que considero hoje uma multidão de amordaçados.

Se nossas autoridades não concordam com o que escrevi, não há problema nisso, nós vivemos em um Estado Democrático e ninguém é obrigado a pensar de uma forma ou de outra. Mas isso nos leva a um dilema: como lidar com a grande parte das praças e da oficialidade que pensa como eu, em menor ou em maior escala? Se eu sou um problema que foi resolvido com meu desligamento da Força, o que fazer com os demais problemas que povoam nossas Praças d’Armas e cobertas dos navios?

Em segundo lugar, embora seja dito explicitamente no texto, minha carta não foi feita para manchar a imagem da Marinha, mas para melhorá-la. “Esta carta foi escrita como uma última tentativa de mudar o que não consegui em quase uma década”. Repito, considero as FFAA extremamente importantes, apenas fico triste porque não vi profissionalismo, lucidez e seriedade no trato com a coisa pública (nisto não falo de corrupção, mas de eficiência) e com segurança nacional. Foi isso que me motivou a escrever este texto. Por isso, não me escrevam me acusando de não amar o País e coisas do tipo, pois, se tudo o que eu passei na Marinha tivesse um propósito justo e necessário, teria suportado as intempéries e continuado na Força. “O homem pode suportar muitos como, desde que haja um porquê” (Nietzsche).

Perguntam-me se eu odeio a Marinha e se não passei nada de bom nela. Eu gosto da Marinha, sim, e ter escrito a carta, considerando que dê frutos positivos como a melhoria da qualidade de vida e motivação do pessoal, foi a maior contribuição que pude dar. O que adianta passar a vida inteira empurrando sujeira para debaixo do tapete? Mais cedo ou mais tarde alguém teria que tocar no tema. Passei muitos momentos bons na Marinha na companhia de meus amigos de Praça d’Armas e subordinados, mas eu escrevi essa carta para dizer os motivos que me levaram a sair, e não os que me levaram a ficar.

De modo algum sou contra as tradições sadias, que, como cito em meu texto, nos unem em laços comuns. Todas as marinhas do mundo possuem tradições, que estão presentes nos uniformes, no linguajar e no modo de enxergar o mundo. Porém, existem tradições negativas sim, que devem ser abolidas, ou, em muitos casos, apenas atenuadas. Outras, como a que cito explicitamente, que são as honras de portaló, deveriam ser deixadas para festividades e cerimônias. Caso contrário, continuaremos sacrificando um oficial em troca de um simples capricho, na minha opinião.

Por mais incrível que pareça, alguns também me escrevem dizendo que não entenderam qual é a crítica da minha carta. Basta olhar para os jornais: o êxodo de oficiais está aumentando mais e mais (isso é um fato), e a principal causa não é a financeira, acreditem. O principal problema é qualidade de vida. Está satisfeito, hoje, na Marinha, quem é apaixonado pelo que faz. Isso não é demérito, ao contrário, acredito que todos deveriam ser apaixonados pelo que fazem. Mas é a paixão deles que faz com que superem os graves entraves administrativos, as idiossincrasias, as ordens sem sentido e continuem satisfeitos, porque eles mesmos não se vêem fazendo outra coisa. Acontece que paixão não pode ser medida em um concurso de admissão, e não creio que esses amantes fervorosos respondam por mais do que 10% do nosso contingente. Os outros 90% podem gostar da Marinha, tentar dar o melhor de si no local onde servem, mas não são incansáveis; eles esperam que haja uma contra-prestação por parte dos seus superiores, e creio que estamos entrando no cerne do que seria a verdadeira liderança. Já ouvi de muitos praças que a primeira coisa a fazer caso entrássemos em guerra seria matar o comandante tal, ou o tal, pelo nosso próprio bem. Essa é a preocupante opinião da tropa, e só porque não chega aos ouvidos das nossas autoridades não significa que esteja tudo bem. Aos que discordam de mim, antes de esbravejarem e me xingarem, tentem, por favor, saber de seus subordinados se concordam ou não com o que disse. O difícil pode ser extrair sinceridade...

Não invoco sobre mim o título de líder; não estou iniciando nenhum movimento; não me considero um expoente da minha geração e nem possuo uma inteligência privilegiada. O que possuo, sem falsa modéstia, é bom-senso, e foi norteado basicamente por ele que ressaltei os pontos que considero deficitários no nosso dia-a-dia.

Muitos me acusam de ser generalista; chamo a todos de alcoólatras, ladrões e picaretas. Claro que isso não é verdade, e eu nunca escrevi isso. Se alguém diz “o governo Lula é corrupto”, quem é corrupto? Todos? O Presidente? Com que provas? Se alguém diz “a polícia do Rio é corrupta”, quem é corrupto? Os soldados? Os oficiais? Todos? Então estamos entrando em uma nova era de crimes de opinião. Se eu estivesse ofendendo toda a Marinha, porque minha caixa postal teria sido inundada de e-mails me dando parabéns e se solidarizando comigo? Tudo que cito, e olha que não foi tudo o que vi e vivi, se deu ao longo de uma carreira que foi curta, mas bem intensa, caso se possuam olhos críticos e capazes de uma análise mais profunda. Impossível que todos aqueles fatos se refiram a um só lugar ou a uma só pessoa, senão ela seria o anti-cristo. Citei histórias que vivi, ou que vi colegas passarem, ou mesmo práticas que são consagradas em nosso meio. Ou alguém vai ter a coragem de me dizer que não conhece a estória do Caldeirão Naval? Assim sendo, não se sintam ofendidos, porque não disse que todos são alcoólatras e pais ausentes (sei que essa foi minha afirmação mais polêmica). Eu não sou, a maioria dos que concordam comigo não são, grande parte dos que discordam também. Mas devem existir muitos para consumir os 10.000 litros de bebida comprados pela Marinha recentemente, segundo o repórter da BandNews Luiz Megale, compra esta que teria sido criticada pelo Vice-Almirante Armando Ferreira Vidigal. Vide clicando aqui.

Eu estou mentindo? Existe uma conspiração? O que quis dizer foi que realmente a cultura do álcool é muito forte na MB, como cito em vários pontos da carta. Durante minha curta carreira, por muitas vezes fui criticado por não beber, sendo impedido de ir embora depois do expediente para “pelo menos fazer companhia” aos oficiais que se confraternizavam em seu happy-hour. Já fui obrigado a beber cachaça para agradar a um superior; fui obrigado a render serviço fora da escala para permitir que o oficial rendido pudesse tomar cerveja, já que eu não era um bom amigo de copo; dentre os ensinamentos recebidos na EN, estava o que sugeria que “o oficial sempre deve estar com um copo na mão”; dentre brincadeiras de Praça d’Armas vi desafios de beber 450ml de whisky sem gelo. Se eu usei a palavra “alcoólatra” é porque não sabia outra.

Novamente, quando digo pais ausentes não digo que todos sejam, nem que seja de modo voluntário, mas muitos militares não conseguem acompanhar a família do modo que querem, por imposição das funções e pela natureza do trabalho, em certos casos desnecessariamente extenuante. Outros, simplesmente, não gostam de ir pra casa após o trabalho, e obrigam seus subordinados a compartilharem sua falta de zelo pela família. Resumindo, se usei de generalizações, foi em favor da argumentação mais simples, senão encharcaria o texto com ressalvas. Ninguém precisa se encaixar em todas as situações, caso não queira. Contudo, se mesmo assim alguns dos excelentes oficiais que conheço, dentre eles amigos pessoais que mantêm uma postura corretíssima, ficaram de algum modo ofendidos, aqui peço minhas desculpas publicamente e faço minha retratação aos demais oficiais e almirantes. Ao restante, mantenho firmes minhas palavras.

Me criticaram até porque decretei o fim da Marinha!!! “Entendam: esta Força, como hoje conhecemos, não vai subsistir, nem de um modo, nem de outro”. Estou escrevendo esses comentários porque parece que as pessoas leram minha carta sem ler. O que disse foi que a cultura reinante na MB, incluindo as atitudes criticadas por mim, não vai subsistir quando minha geração chegar ao comando. A Marinha vai continuar a existir sempre, isto é uma imposição constitucional.

Não centrei minha exposição no sucateamento dos meios, nem em outros fatores materiais porque muitos já falaram sobre isso e sei que essa não é a questão central. Porém, isso é uma boa notícia: o aumento de satisfação do pessoal na Marinha do Brasil não depende de dinheiro! Depende de boa-vontade e de bom-senso; de resto, só faltam algumas assinaturas.

Me chamam de oportunista, traidor. Dizem que não tive a coragem de divulgar a carta quando ainda estava na ativa. Primeiramente, eu não sou burro, e já cansei de dar murro em ponta de faca há muito tempo. O que pude reclamar e dizer dentro da Marinha eu o fiz a seu tempo, e, invariavelmente, recebia um sonoro NÃO como resposta. Agora eu nem imagino qual o estrago que ocorreria se eu estivesse dentro da Força e enviasse um texto como esse. Me desculpem, mas as FFAA nunca foram um ambiente propício ao debate, e não me digam que isso é necessário à hierarquia e disciplina, pois, na verdade, a dissonância entre a visão de mundo de nossos chefes militares e da nossa tropa está levando a caserna a uma crise de liderança silenciosa; todos estão suportando tudo, esperando ansiosamente o momento em que vão se desvencilhar: os mais antigos esperando cruzarem seus 30 anos, e os mais modernos fugindo através de concursos públicos, ou tentando fazer uma faculdade para cambar para a iniciativa privada. Tudo isso é real.

Outros reclamam que minha carta foi passional, que soou um pouco amarga. Tem razão. Se esta carta fosse escrita alguns meses depois de sair da Força, ela seria muito mais didática, analítica; enfim, iria parecer uma excelente tese de um intelectual que explica todos os problemas do mundo sem nunca tê-los vivido. Ao contrário, já com a idéia de fazer uma carta na cabeça, comecei a escrevê-la no exato dia em que fui proibido por um oficial superior (eu, um Primeiro-Tenente!) de fazer educação física, porque minha camisa era de manga, ao invés de ser uma camiseta regata. Na minha humilde opinião, deve haver algo mais importante com o que se preocupar na Marinha do Brasil. A carga de sentimentos com a qual impregnei minhas linhas serviu para que muitas pessoas se identificassem comigo. Inúmeras foram as pessoas que me escreveram dizendo que, ao lerem o texto, se sentiam exatamente como eu descrevia. Acho que, por isso também, acabei escrevendo pouca coisa, ou quase nada, do lado bom da MB.

Não quero que nossos chefes militares levem canhões à Brasília e tomem de assalto o Congresso para exigir verbas. Apenas não gostaria que o ônus do contingenciamento de recursos seja repassado à tropa, exigindo que nossas guarnições pintem sem tinta e que sejam responsabilizados pelo péssimo acabamento resultante, ou que tenham que dar brilho em um piso sem dispor de cera, como vi algumas vezes, condicionando o licenciamento ao seu surgimento milagroso apenas com a aplicação de um pano úmido.

Afirmam que minhas críticas são vagas e genéricas, outros dizem que fiz uma carta-denúncia. Ora, isto é um paradoxo. Se sou genérico, é exatamente porque não adotei uma postura denuncista: me abstive de anexar provas e de citar nomes, lugares e datas. Outros me acusam de prevaricação. Pode ser. Por duas vezes estive a ponto de prestar queixa junto ao Ministério Público, por Crime contra a Administração Pública e Crime Ambiental (derramamento sistemático de óleo em área de proteção ambiental – falta de profissionalismo). Se eu quisesse poderia tê-lo feito em casa, pela Internet, sem apresentar provas, apenas indícios, e nem precisaria me identificar. Confiram clicando aqui. Não o fiz exatamente porque um simples escândalo levaria ao desencadeamento de vários outros, maculando, aí sim, efetivamente a imagem da instituição, o que não desejava. Como falei em minha carta, alguns navios (evito assim a tão criticada “generalização”) não podem manter sua capacidade operativa e realizar sua manutenção sem recorrer ao malabarismo de notas fiscais, mudando a natureza da despesa efetuada, ou realizando outros artifícios para que não se ultrapasse o limite de licitação. Tudo isso, embora realizado para o aprestamento do navio, é feito com nossas assinaturas, e mesmo que não se considere imoral, efetivamente é ilegal. Por isso disse em minha carta que não se pode dizer a um magistrado que “o fez em prol do serviço”. Reconheço que tal manobra não se destina a auferir vantagens pessoais, mas sim de manter o meio operando. Nisto louvo a MB, realmente não testemunhei casos de corrupção visando enriquecimento ilícito, embora devam existir, como em qualquer outro lugar. Mesmo assim, é óbvio que a Marinha não deveria depender de meios ilícitos para se manter, nem obrigar seus militares a realizar tais atos. É sobre isso que falo.

Sobre a declaração “merecemos descanso depois desta atividade tão ingrata, que é se fazer ao mar”, relembro o sentido de ingrato trazido pelo Michaelis: “1.Que não mostra reconhecimento. 2. Que se esqueceu dos benefícios que recebeu. 3. Que não corresponde aos benefícios recebidos ou à afeição que se lhe dedica”. Realmente é uma atividade ingrata. Embora, particularmente, EU não goste, até mesmo os que sentem satisfação em se fazer ao mar estão longe de receber algum tipo de retorno que não seja a sua própria satisfação. Considero que todo militar embarcado deveria receber compensação orgânica, mas isto não está dentro do nosso poder de decisão. Mas o que está, não se faz: é ridículo dar ao militar um dia de folga para cada 30 que se afasta de casa e exigir que fique a bordo baldeando e pintando o navio sem antes poder ver a família. Qualquer tropa compreende quando é necessário realizar um esforço, e o bom militar o faz sem reclamar. Mas a extenuação da tropa, quando não há um motivo compreensível, leva a crises de liderança.

Teci esses comentários para dar um pano de fundo a quem recebeu minha carta na Internet de modo seco, sem saber de onde vinha e me desconhecendo como pessoa. Saibam que a fiz com a melhor das intenções, pois quero que a Marinha, assim como o Exército e a FAB, se tornem instituições mais fortes e sejam dignas de respeito, não pelo que aparentam ser, mas pelo que são. Existem coisas erradas a serem consertadas; um bate-papo franco com a tropa vai ajudar em muito; nessa negociação, OS DOIS LADOS vão ter que ceder.

Também sei que encontrarei dificuldades na minha próxima carreira assim como em qualquer outra instituição; não desisti do militarismo porque encontrei problemas, mas porque vislumbrava soluções óbvias que não eram adotadas por motivos que não considerava justificáveis. E relembro que não estou falando de problemas materiais. Os que da minha carta só extraíram indignação perderam uma boa oportunidade de entender como pensa parte de nosso contingente, achem isso certo ou errado.

Infelizmente, não estou mais conseguindo responder a todos os e-mails, como planejei desde o início, senão precisaria contratar auxiliares. Contudo, mesmo que demore um pouco, tentarei, ao seu tempo, agradecer a cada um pela resposta ou tentar contra-argumentar as questões levantadas pelos que de mim discordam.

MARCIO DE ABREU PRAÇA CARDOSO
Primeiro-Tenente (RM2)
Analista Administrativo TRE-RJ



Wednesday, November 14, 2007

Cisne Branco em águas turvas.

Obs.: O prefixo da embarcação abaixo, (4), devidamente sucatada e "canibalizada" é uma referência à
posição em que se encontram os comandantes das FFAA perante ao " desgoverno" comuno-petista.




































O DESABAFO

Abaixo uma carta postada no Portal Militar, admitida como de autoria de um 1° Ten da Marinha do Brasil, cuja veracidade só poderá ser confirmada pelo signatário ou pelas autoridades que receberam cópias da mesma, conforme informado pelo autor no seu preâmbulo. De qualquer maneira o conteúdo, com demasiado jargão militar pertinente à MB devido a carta em questão ser dirigida a seus "mestres", coloca em evidência a situação daquela "força", que como todos do "meio" estão fartos de saber também é a conjuntura atual no EB e na FAB.

O Brasil não possui mais Forças Armadas dignas deste nome, seus oficiais intermediários estão desistindo da carreira por completa falta de perspectiva profissional e pelo desmantelamento contínuo hà mais de 20 anos de seus equipamentos e meios de subsistência. E seus comandantes? Ah! Meus caros sobre estes nada mais a comentar, porém, "Que a terra lhes seja leve, com o Pão-de-Açúcar por cima".
Bootlead


Prezado Comandante,

Envio em anexo a este e-mail uma carta de despedida que redigi nestes meus últimos dias na Marinha do Brasil, carta esta que contém algumas das razões pelas quais decidi abandonar esta Força. Esta carta será enviada a todos os Comandantes que trabalharam comigo de modo direto, sendo que, para alguns, enviei uma cópia em papel por razões específicas. Também estou enviando uma cópia para o nosso Almirante, para o Comandante da EN, DPMM, DGPM, CON e Comandante da Marinha. Que seja de alguma valia e que surta algum efeito positivo para aqueles que continuam a servir o País nesta instituição.

Respeitosamente,
1T Cardoso.

Prezado Comandante,

Esta carta foi escrita como uma última tentativa de mudar o que não consegui em quase uma década. Meu desânimo, que culminou na desistência da minha carreira, foi cultivado sistematicamente dia após dia, através da observação e vivência de atitudes que desprestigiavam meu bom-senso, capacidade crítica e intelecto, sobre os quais passarei a discorrer mais adiante.

Após ter sido aprovado, em 1998, num dos concursos mais concorridos daquela época, ingressei na Escola Naval, tendo preterido uma carreira de engenheiro eletrônico na UFRJ. Julgava que a carreira naval se mostrava mais promissora, com estabilidade, interstícios bem definidos e ainda um certo prestígio junto à sociedade. Esse foi o espírito com o qual fui admitido na Marinha do Brasil. Após cinco anos de formação, e apenas um de oficial, já havia tomado a decisão: não havia como permanecer nesta carreira, a não ser, literalmente, “com o sacrifício da própria vida”. Um sacrifício contínuo, que eu via se abater sobre todos os meus colegas de Praça d´Armas, fossem eles Segundos-Tenentes, Capitães-Tenentes ou até Capitães-de-Mar-e-Guerra. Não estou falando de um sacrifício honrado, merecido, daqueles que se vêem nos filmes e são inerentes aos heróis. Não, o sacrifício de que falo, nessa carreira que insistem em chamar de “sacerdócio”, era um sacrifício inócuo, quixotesco, cujos maiores feitos eram a contagem correta e ilibada – quase obsessiva - de vidros de mostarda no balanço de paiol e a maquiagem bem feita, a qual custou toda uma noite em claro, para o recebimento de uma autoridade que só se importava com a idade do whisky que iria ser servido.

Todos esses fatores me levaram a buscar uma carreira extra-Marinha, o que consegui, com a ajuda de meu Senhor Jesus, quando fui aprovado para o cargo de Analista Administrativo do TRE-RJ, o qual estou exercendo no momento. Mas o que me impressiona mesmo é que, a despeito da minha anterior posição, no início de uma brilhante carreira que se desfraldava para mim, nenhuma autoridade se interessou em descobrir por que eu havia decidido abandonar a Marinha. Eu não era um desempregado em busca de um trabalho tampouco um estudante recém-formado em direito, mas um Oficial de Carreira das Forças Armadas que resolveu, como já foi me dito, “trocar os botões dourados por uma salinha suja numa repartição”. No mínimo, é inquietante que a Diretoria de Pessoal esteja realizando pesquisas de satisfação cujo resultado seja que esse êxodo deve-se à “falta de cursos no exterior” e ao “sucateamento dos meios”. Esses não são, nem de longe, os reais motivos. E, pelo menos, quanto à oficialidade da Marinha, também não o é a remuneração. A prova disso é que pelo menos metade dos oficiais que estudam para concursos também busca carreiras de nível médio, cuja remuneração é menor, mas possuem maior qualidade de vida em relação ao regime semi-aberto que se tornou a carreira naval. Se nós formos buscar os reais motivos dessa insatisfação coletiva, porém velada, veremos que são causadas por problemas estruturais, e não conjunturais. Sua causa não está nos baixos salários, embora eles estejam realmente abaixo da média do funcionalismo público federal. Nem no reduzido orçamento, que de fato está sendo cortado ano após ano. E muito menos na redução da quantidade de meios operativos. O valor desta carta reside neste ponto: todos os problemas que serão abordados podem ser resolvidos dentro de casa, através de iniciativas internas, independentes de orçamento, e – o pior – em pouquíssimo tempo, por meio de decisões administrativas simples, que não são tomadas por má-vontade, orgulho, miopia administrativa ou apego demasiado a uma tradição caduca, que emperra e desagrega esta Força, ao invés de uni-la em laços comuns, na medida em que origina ações e ordens contraproducentes que contribuem sobremaneira para o mau andamento do serviço.

Compreendemos que as Forças Armadas, conceitualmente, exercem um papel primordial na manutenção da paz, na dissuasão de hostilidades estrangeiras e na consecução dos nossos objetivos estratégicos como nação – assim como consta nas tão festejadas apostilas da Escola de Guerra Naval. Ainda mais, acreditamos e gostaríamos que essas metas fossem alcançadas, com seriedade e profissionalismo. O problema é que também compreendemos quão diametralmente opostas desses objetivos estão as decisões e atitudes tomadas por nossas autoridades, que destinam porções generosas dos recursos para a pintura incessante de equipamentos que já não funcionam por falta de recursos. Que se apropriam das já parcas etapas de alimentação e as transformam compulsoriamente em “sobras lícitas”, de modo que possam comprar parafusos, tinta, cera e bancar coquetéis para almirantes que festejam a decadência da própria Força. Que investem milhões de reais do contribuinte na compra e manutenção de meios já defasados, que onerarão ainda mais o orçamento, já que os próprios países de origem não toleram seu custo-benefício, isto se considerando que são países ricos. E, o pior, cada atitude dessa vem travestida de honradez e pundonor. A pintura de piso, de sucata, de ferrugem (somente para o dia de uma visita), se reveste do caráter de limpeza e organização, de modo que não fira os olhos de uma autoridade que reluta em não ver a realidade. O saque da nossa mesa vira espírito de sacrifício, o que vem acompanhado de manipulação das notas fiscais para que a comprovação de gastos com solda seja transformada em aparelhos de TV para a tripulação. E a aquisição de “novos” meios deteriorados é motivo de orgulho das autoridades, que se gabam de fortalecer a instituição em tempos de dificuldades, ainda que tenham comprado o refugo de outros países. Esses meios NÃO irão contribuir para a soberania da nação – não andam, nem funcionam, e ainda exporão a vida da tripulação a um risco desnecessário, pois nossos navios não possuem mais portas estanques, nem sistemas de combate a incêndio eficientes, e suas instalações funcionam na base do “gatilho”, sendo isto um dos grandes geradores da sobrecarga de trabalho à qual nossas praças e oficiais de baixa patente estão submetidos.

A chave para se compreender o choque de gerações que ocorre em nossos tempos é a divulgação da informação. O movimento conhecido como Tenentismo, um conhecido de longa data, se manifesta atualmente enriquecido e ligeiramente modificado, uma vez que não se utiliza mais do embate das armas, e nem possui o fervor patriótico de outrora. Com a Internet, ficou muito difícil para o sistema de formação de oficiais privar os alunos e aspirantes da realidade reinante, como acontecia antigamente na chamada “bolha”. Hoje, é praticamente impossível realizar uma lavagem cerebral completa, que torne o militar subserviente o necessário, pois a visão de mundo que um jovem tem não o permite – e essa é a causa de tantos oficiais superiores reclamarem que “não se fazem mais tenentes como antes”. Eu e meus colegas enxergamos a Marinha como mais um órgão estatal, que tem suas funções específicas definidas em lei, e atualmente não está executando-as de forma adequada; não vamos tomá-la pelas armas, nem nos insurgirmos em revoltas. Não, nós não amamos a Marinha acima de nossas próprias vidas, pois isso sequer faz sentido. E entendemos que o mercado de trabalho também mudou, inclusive na iniciativa privada, onde ninguém mais tem um emprego para a vida toda; aplicamos isso em nossas vidas particulares e decidimos que podemos trabalhar onde melhor nos convier, seja por pagar melhor ou ter uma rotina de trabalho mais agradável, e isso sem o peso na consciência de largar o “sacerdócio”. É muita inocência achar que iremos abdicar, conhecendo nossa capacidade, competência, potencial e qualificação, de carreiras públicas que nos oferecem dignidade pessoal, respeito profissional, horário de trabalho justo e, de quebra, remuneração inicial de Contra-Almirante.

Para estudar para meu concurso, tive de fazê-lo em oculto, sob pena de ser execrado do convívio da Força ou perseguido. E fui punido por não ter comunicado minha inscrição, assim como preconiza a retrógrada legislação vigente. Porém, fica o aviso de que o número de oficiais descontentes que agora estudam escondidos é muito maior do que os mais de 30 tenentes que cancelaram seu Curso de Aperfeiçoamento nos últimos dois anos e do que a turma somente de Aspirantes que fechou uma sala exclusiva na Academia do Concurso Público.

Há de ser ressaltado que a geração de oficiais superiores e almirantes atualmente no comando foi formada durante o regime militar ou no pós-regime, uma época bem mais intensa nos valores e também nas arbitrariedades. O mundo mudou, as relações sociais, econômicas e empregatícias também, mas a Marinha insistiu em cristalizar-se novamente em suas tradições, e quanto mais o tempo passa mais esta instituição se afunda num anacronismo intenso. O mundo realmente pode ter mudado muito rápido para que algumas autoridades pudessem ter absorvido, mas é para tentar mudar um pouco essa mentalidade que passo a discorrer sobre algumas das principais causas de insatisfação na Marinha do Brasil:

SERVIÇO

As Forças Armadas possuem uma singularidade em relação a outros órgãos e empresas, sejam públicas ou privadas: submetem seus militares a mais de 24 horas de trabalho contínuas. Isso seria simplesmente imprescindível caso estivéssemos em tempo de guerra. Mas considerando-se que nossos maiores inimigos são a sujeira do piso e o amarelo por fazer, não há respaldo para essa prática. Após o serviço, o militar não deve cumprir o expediente normal, visto que foi privado da sua noite de sono, tempo de lazer e convívio com a família. Médicos e policiais cumprem seus plantões (e muitas vezes conseguem descansar neles), são rendidos pela manhã e vão para casa. A carga horária semanal não deveria, constitucionalmente, exceder as 44 horas semanais – embora batamos com orgulho no peito nos vangloriando de que não possuímos direito algum – mas, com apenas um serviço na semana essa carga sobe para 56 horas. Numa escala muito comum, 3 por 1, o militar pode chegar a cumprir 80 horas semanais, sem nenhum tipo de compensação. É comum que cabos e marinheiros concorram a escalas de 1 por 1, sendo liberados, como um favor, ao meio-dia do dia de sua rendição. Eles cumprem 108 horas semanais, 145% a mais do que permite nossa Constituição, que defendemos com o sacrifício da própria vida.

Durante o serviço nos fins-de-semana, é comum a prática de detalhar “faxinas” a serem realizadas no tempo vago – seja lá o que isso for. Durante o dia, o militar deve se desdobrar em 2 quartos de quatro horas, sendo um de madrugada, além de cumprir os adestramentos previstos. Nessas oito horas, ele permanece em geral em pé, no calor do sol e no frio da madrugada, e, para que não consiga se refazer entre um quarto e outro, é colocado para tratar conveses, limpar corredores ou soldar chapas no seu tempo vago. Será que perder o seu descanso semanal remunerado não é o suficiente, o militar tem que sentir dor o tempo todo? Nesta Força existe um conceito muito errado de que nossos militares são máquinas que devem produzir em tempo integral e de que qualquer tempo ocioso, incluído o de descanso, é desperdício.

Os oficiais são obrigados, em geral, a permanecer em pé no portaló durante seu serviço – desde 06:00h, para fiscalizar(?!) o quarto d´alva –, visando basicamente a realização de cerimonial para visitas de autoridades não-anunciadas e a manutenção do alerta vermelho máximo para a passagem de lanchas de almirantes. Considero isso um desrespeito à minha formação e capacidade intelectual, uma vez que sou relegado a um mero soldado de chumbo, enfeitando um portaló, enquanto sou subaproveitado nas minhas tarefas administrativas. Cabe às autoridades definirem: o que é mais importante, um cerimonial que pode vir a acontecer ou a realização das tarefas administrativas vitais do navio? Sempre achei que tivesse estudado demais para ter simplesmente a função de ficar em pé por mais de 10 horas seguidas. O oficial de serviço pode sim, muito bem, ficar volante no navio, e atender situações que realmente façam jus à sua presença. Quanto ao procedimento das visitas não-anunciadas, já está na hora das autoridades se conscientizarem de que a máquina estatal não pode ficar completamente mobilizada simplesmente aguardando seu repentino aparecimento, de modo a louvá-las e engrandecê-las.

É comum que se avalie a escala de serviço como “muito cochada”, se arbitre uma satisfatória e depois se inventem postos desnecessários para se justificar esse aumento, de modo que não fiquem militares à toa, “sobrando”, como se a folga da escala representasse mão-de-obra ociosa. Lembro também de quando estava na Escola Naval, onde o segundo-anista não poderia pegar menos serviço do que o terceiro-anista, e então criaram um “plantão do bar” para piorar a vida do segundo ano, e, comparativamente, melhorar a do terceiro (redistribuindo, assim, as cotas de infelicidade). Essa prática é muito comum também na Esquadra, matriz do “Caldeirão Naval”, onde a escala do oficial não pode ser maior do que 5 por 1 e já houve caso de mais de três oficiais estarem de serviço em um mesmo dia desnecessariamente. Sei que um oficial pode se qualificar para concorrer à escala em mais de um navio, assim como eu mesmo já fui qualificado, e sem muito esforço; durante o expediente, cada navio poderia ter seu próprio oficial de serviço para resolver problemas administrativos, e, após, somente um dos oficiais se responsabilizaria pelos navios durante o pernoite. Ou então, os oficiais de serviço poderiam simplesmente ficar de sobreaviso, com um celular. Como a manutenção do Grupo de CAv geralmente é citada como impeditivo para a diminuição da tabela como um todo, lanço a V.Sas. um desafio: arquitetar um plano de combate a incêndio efetivo que se utilize somente dos militares de serviço. Isso se mostra na prática inviável, pois combater um incêndio com doze ou oito militares dá no mesmo – teremos que disparar o Halon ou chamar a brigada de bombeiros e GSE. Ressalto que a quase totalidade dos incidentes decorre da presença de pessoal a bordo, ou seja, quanto mais gente houver na tabela de serviço, maior será a quantidade de pessoas necessária para cuidar da tabela de serviço. Só haverá incêndio na cozinha se ela for utilizada, incêndio na coberta se esta estiver habitada, rompimento de rede se estiver pressurizada. A manutenção de uma tabela de serviço que pernoite a bordo é a causa mater dos sinistros, e sua diminuição ou extinção alteraria sobremaneira o paradigma do CAv. E, afinal de contas, se CAv fosse tão importante, as tomadas de incêndio não deveriam estar entupidas com Kaol.

COMISSÕES

Sem esquecermos que, dentre as profissões do mar, só os pescadores são mais mal-remunerados do que nós, podemos fazer algumas considerações.. Se é fato que nossa compensação pecuniária é irrisória, então que haja compensação como há na Petrobrás: seja adotada a escala de 15 por 15, pelo menos (ou seja, um dia de licença para cada dia de comissão), sem se falar na escala de 14 por 21 adotada por aquela empresa, que é considerada de vanguarda até no âmbito internacional, e, logicamente, deve possuir uma capacidade administrativa de referência. Realmente somos homens de madeira em navios de ferro, e merecemos descanso depois desta atividade tão ingrata, que é se fazer ao mar, já que nem fazemos jus à compensação orgânica. Seria implausível abrir mão dos militares por tanto tempo? Creio que não, considerando que em cada dia de mar estamos 24h a serviço, período de tempo três vezes superior ao nosso expediente normal. Se a Marinha inventou tantos obstáculos administrativos de modo que uma tripulação operativa não possa se ausentar para ter descanso, que se transfiram essas responsabilidades para uma unidade administrativa, bastando uma alteração em DGPMs, SGMs, ou qualquer outro pedaço de papel. Afinal, alguém deve dar suporte aos nossos militares, ou não?

Sendo o mar um ambiente inóspito por natureza, os tripulantes ainda são obrigados a cumprir expediente entre o enjôo e o serviço, embora o navio esteja em um período dedicado à vida operativa. Um mínimo de descanso e conforto é necessário ao marinheiro para que realize suas tarefas a contento e ajude a diminuir o stress que naturalmente surge em condições de afastamento e confinamento.

Por último, o que considero mais desrespeitoso: obrigar a tripulação a baldear e pintar o navio no dia do regresso de uma comissão, sem ao menos terem tido a chance de verificar como estão seus familiares. A pintura não pode ser - ou transparecer que é - mais importante do que nossas famílias.

ROTINA E ADMINISTRAÇÃO

Consideramos como nossas prioridades administrativas a desburocratização, a impessoalidade (nisto também subentendida a extinção do queromarinst, a mais arbitrária, arcaica e amadora forma de gerência existente), a definição de objetivos claros que devam ser alcançados e de prazos razoáveis a serem cumpridos – todas as nossas tarefas costumam ser “pra ontem”, revelando o descompasso do nosso planejamento organizacional, e o uso racional do dinheiro público. Por isso, não aceitamos pintar o piso para a visita de uma autoridade, ou pintar o navio antes mesmo de atracar, após três meses de comissão, como se retornasse da Terra-do-Nunca: isso é desperdício. Não aceitamos que se sirvam banquetes para autoridades, e depois compensem com semanas servindo macarrão com salsicha para a tripulação: isso é desrespeito. Inclusive, se há a coragem moral nesta Força de que tanto se ouve falar nas Praças d´Armas, então que se sirva para as autoridades extra-MB que visitarem nossas OMs o mesmo rancho que comemos diariamente. Esta é a melhor maneira de protestar pelo corte de nossos recursos. E, que, finalmente, a Marinha entenda que manutenção de limpeza e arrumação não é nossa função constitucional. Enquanto houver Capitães-de-Fragata passando os dedos com luva em cima de armários não poderemos nos concentrar nas tarefas que realmente importam.

Assim como eu chego sem atrasos todo dia, em um horário definido, gostaria que a licença fosse cumprida desta mesma forma. O licenciamento não é um favor, muito menos concessão do comando: é uma obrigação com o militar que já cumpriu seu expediente diário. Não há como solucionar todos os problemas da MB em um único dia (e cabe ressaltar que a maior parte dos nossos problemas são explicitamente gerados pelas idiossincrasias de nossos oficiais superiores e almirantes, que desejam governar este órgão como melhor lhes parecer, satisfazendo suas prioridades pessoais e relevando as da organização). E se for necessário ficar após o horário, que haja compensação noutro dia. Além disso, a maior humilhação à qual me sujeitei durante estes mais de quatro anos de oficial foi suplicar, diariamente, para poder ir embora após cumprir meu expediente. Nós simplesmente não temos que nos despedir, como um ato de educação, mas ficamos atrelados a uma AUTORIZAÇÃO para irmos embora, o que gera um mal-estar horrível após ser repetido duas centenas de vezes, e ainda nos atrasa, em pelo menos, quarenta minutos por dia, tempo médio para vencer as filas dos nossos superiores nas mais diversas instâncias.

Num passe de mágica, algumas autoridades pensam que podem apagar, através de confraternizações, o dia-a-dia estressante que impõem aos oficiais subalternos e intermediários, tornando todos “uma família” imediatamente. Essas confraternizações são marcadas, em geral, fora do horário de expediente, e são compulsórias, tornando-se um prolongamento (realmente longo) deste. Minha geração não troca o convívio de suas famílias por amigos de copo, e amizade verdadeira não exige comparecimento contrariado. Se todos estivessem satisfeitos, o congraçamento seria conseqüência natural. Quando o coquetel é realizado durante o dia, mostra-se mais um revés interessante: passam-se três horas ou mais de expediente no evento, e julga-se que isso não é errado – esse tempo desperdiçado exige, invariavelmente, uma dedicação suplementar para resolver as tarefas negligenciadas. Mas quando é necessário a um oficial sair mais cedo para resolver um problema, ele fica sendo mal visto. Isso é um exemplo clássico da nossa cultura: pode-se matar o expediente para beber, mas não para tratar de nossa vida pessoal.

Como resultado de alguma carência afetiva, certas autoridades ficam nervosas se não receberem o bom dia, ou o boa noite. Esta é uma frivolidade que deve ser encarada da seguinte forma: as pessoas têm coisas mais importantes para fazer do que dar boa noite compulsoriamente umas às outras. Esse evento ocorre naturalmente ao haver um encontro fortuito entre duas pessoas educadas, e não deve ser objeto de recomendações intimidadoras ou ordens de parada.

Por se falar em parada, esta consiste em uma das melhores formas de desperdiçar mão-de-obra. Como se ninguém soubesse sua função na OM, reúnem-se os oficiais para se despacharem ordens geralmente de caráter individual, ou se fazem verdadeiros grupos de discussão sobre assuntos aleatórios e fantásticos, enquanto todas as praças aguardam em formatura. Em suma, a OM fica parada por quase uma hora e depois se estende o expediente após o horário. Definitivamente, isso não é GQT. A parada pode ser feita por e-mail e os assuntos individuais, tratados individualmente...

Assunto grave e delicado: caixa de economias. Se, hoje mesmo, o governo dobrasse nossa etapa de alimentação, melhoraríamos o padrão do nosso rancho ou dobraríamos nossa receita? Se é difícil trabalhar na escassez do orçamento, que se apliquem pelo menos os recursos corretamente na sua previsão legal. Não existem “sobras lícitas”, pois na realidade não há sobras. Esta sobra artificial é criada quando se estipulam metas financeiras a serem atingidas em detrimento da qualidade de vida de nossas tripulações; como, então, exigir comprometimento? Como ser leal com quem nos retira o bife para comprar parafusos, tinta e souvenires para autoridades? Se não há previsão orçamentária para nossas despesas correntes e manutenção dos meios, então que nossos almirantes parem de ter medo de apertar quem se deve, nosso governo (se bem que apertar a própria Força é mais fácil e não arrisca a nomeação para cargos na ONU), e EXIJAM que sejam repassados os recursos necessários. Mas o que vi todos esses anos é que é mais cômodo exigir a excelência dos mais modernos, exaltando a “criatividade”, como ouvi em tantas Ordens do Dia, quando na verdade não existem ferramentas adequadas, computadores em condições de uso ou nem sequer pano para limpeza, que deve ser reaproveitado até depois de rasgado. Esse é o exemplo de coragem e abnegação a ser seguido no Bicentenário de Tamandaré?

Finalmente, o mais grave, por se tratar de crime: química. É inadmissível que se exija dos subordinados que se mascarem notas fiscais a fim de burlar o controle orçamentário que a própria Marinha idealizou e exportou para a Administração Pública com tanto orgulho. É desnecessário me aprofundar neste tema, mas eu alerto a todos que julgam que “os fins justificam os meios” que a grande quantidade de oficiais descontentes que foram aprovados como Analistas do TCU e na Polícia Federal recentemente pode vir a mudar o destino de quem tem grande prazer em resolver os problemas de bordo a qualquer custo, se achando acima da lei, ou que pensa que pode se explicar a um magistrado dizendo que o fez “em prol do serviço”. Oficiais que desejam fazer o que julgam correto são mal vistos e retirados de suas funções para não atrapalharem o “bom” andamento do serviço. E isso também se aplica à venda ilegal de óleo combustível.

Embora não haja espaço nesta carta para citar todos os nossos vícios, como, por exemplo, a forma amadora de condução do reparo de um navio, esses são, no meu ponto de vista, alguns dos principais problemas geradores da desmotivação que se alastra pelos Oficiais Subalternos e Intermediários na Marinha, e são a causa do êxodo que vem ocorrendo. Eles são mutáveis, pois são concernentes à postura das nossas autoridades. A pena que as FFAA e, em especial, a Marinha, pagará, se não corrigir este problema postural, será ter uma lacuna irreparável em seus postos a médio e longo prazo. Se nossos almirantes decidirem descer dos pedestais e encararem a situação como homens valorosos que são, entenderão que este é um momento de guerra e medidas difíceis devem ser tomadas. Entendam: esta Força, como hoje conhecemos, não vai subsistir, nem de um modo, nem de outro. Se essas mudanças não forem feitas agora, as baixas em massa serão cada vez mais freqüentes e mais fortes, e, quando o remanescente da minha geração chegar ao comando, as fará. Se forem tomadas agora, a Marinha se tornará um lugar agradável de se trabalhar e muitos corações que hoje estão inclinados a sair podem retroceder. Não se enganem, existem Aspirantes do 2º ano estudando para concursos, e também Capitães-Tenentes em postos-chave, sendo que a média de espera para aprovação em um concurso é dois anos. É uma decisão a ser tomada rápido, antes que haja um colapso administrativo, e não existe como prender as pessoas com ameaças de indenização de cursos – o que, aliás, é inconstitucional.

É hora de rever as políticas de motivação e de aposentar o “Manual de Liderança da Marinha”: parar de movimentar militares contrariados quando houver voluntários; respeitar a programação de férias que o militar fez com sua família com seis meses de antecedência; não tocar regresso geral fim-de-semana para comparecer a uma regata (teoricamente, isso é lazer); não exigir de todos nós que demos um “jeitinho” quando não houver previsão orçamentária (o famoso “fazer no amor”); não colocar como prioridade do nosso serviço o apito para lanchas de autoridades, sob o risco de receber uma mensagem exigindo apuração do fato; parar de achar que nossa oficialidade vai ter como sonho de vida tão somente esperar talvez ser Almirante dentro de trinta anos. Estas medidas surtirão muito mais efeito na qualidade do nosso trabalho do que qualquer “Programa Netuno”, recém-divulgado, que já nasce com uma incongruência típica: enquanto toda a Administração Pública Federal terá oito anos para sua implementação, a Marinha implementará seu “pacote de qualidade” em um ano, com a famosa fórmula “embrulha e manda”, se valendo do mascaramento de índices e avaliações.

Quanto a mim, sei que vou servir melhor ao meu País no TRE do que na Marinha, porque cansei de servir com amadores. Cansei de jogar dinheiro pelo ralo e de ver boas idéias se perdendo num labirinto de vaidades, priorizando-se limpeza e arrumação ao invés de segurança nacional. Cansei de pertencer a um celeiro de alcoólatras e pais ausentes; terei efetivamente tempo para me dedicar à minha família e viver dignamente, como não faço desde 19 de janeiro de 1998. E se alguém que ler esta carta se propuser a refutar meus argumentos, estarei à disposição, pois nunca fui de me fechar ao debate por uma simples questão hierárquica.

MARCIO DE ABREU PRAÇA CARDOSO
Primeiro-Tenente (RM2)
Analista Administrativo TRE-RJ
E-mail: tenente_cardoso@hotmail.com




Monday, July 23, 2007

Agora a agressão é contra a Marinha do Brasil. Eles também irão engolir mais este "sapo-teste"?
































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A ILHA DE MARAMBAIA
por Denis Rosenfield

A invenção de quilombolas está se tornando uma perigosa prática nacional. Tanto mais perigosa porquanto encontra respaldo jurídico num decreto presidencial de 2003 e apoio político-administrativo em órgãos como o Incra, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, e a Fundação Palmares, do Ministério da Cultura. Ora, um decreto presidencial, ato administrativo do Poder Executivo, não poderia regulamentar um artigo constitucional, o 68, que dispõe sobre os quilombos, requerendo uma lei complementar, cuja aprovação é atribuição do Poder Legislativo. Por outro lado, órgãos como o Incra e a Fundação Palmares se tornaram ideologicamente engajados, tendo como objetivo central relativizar a propriedade em nome de supostas funções raciais e sociais, atentando, inclusive, contra o Estado de Direito.

O decreto estipula a autodefinição enquanto critério da negritude e a conseqüente auto-atribuição de terras e propriedades rurais e urbanas como condições de desapropriação. O arbítrio da autodefinição e da auto-atribuição se torna, então, a regra de ações ditas quilombolas, não sendo necessário, por exemplo, que essas pessoas residam nesses locais. Ou seja, não é necessária a existência de quilombos, como estipula a Constituição. Não seria a primeira vez na História que ações "legais" atentam contra o Estado de Direito, numa deriva autoritária que pode pôr em questão os fundamentos mesmos da democracia representativa.

A Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro, para quem não a conhece, é uma base dos fuzileiros navais. Um local esplêndido. A União comprou-a por "95 contos de réis" em 1905 e a transferiu para a Marinha em 1906. O seu título de propriedade remonta à fazenda do comendador Breves, tudo estando devidamente documentado. Em função de vicissitudes históricas do Estado brasileiro, em 1938 lá funcionou uma escola de pesca, desativada em 1971. Em 1981, foi instalado o Centro de Adestramento dos Fuzileiros Navais, encarregado do treinamento de seus membros. Está aos seus cuidados a conservação da ilha, que em nada interfere no que diz respeito às suas atividades propriamente militares. Trata-se de uma magnífica reserva ecológica, que vem sendo cuidadosamente preservada pela Marinha, com mata nativa e toda uma fauna e uma flora riquíssimas. Universidades lá realizam pesquisas. Não há plantações nem cultivo de espécie alguma. É quase um milagre que essa conservação tenha sido garantida, haja vista a destruição ambiental ocorrida em outras ilhas ao redor.

Mas nem milagres parecem resistir à arbitrariedade. Um grupo orientado por uma ONG, cuja direção é formada por pastores e bispos metodistas, anglicanos e presbiterianos, fomenta e reclama essa área como "quilombola", tendo como respaldo o Decreto Presidencial 4.887. Habitam a ilha, além dos fuzileiros, 106 famílias, que vivem basicamente da pesca, de cesta básica, Bolsa-Família e aposentadorias. Até a intervenção dessa ONG não havia conflitos "raciais" na ilha. Aliás, sua população é completamente miscigenada, algo tipicamente brasileiro, segundo diversos matizes, vivendo em pequenas áreas costeiras. Suas moradias têm cerca ao redor, configurando, assim, a sua posse. Nada mais simples, do ponto de vista social, do que conceder direitos reais de uso a essas famílias em suas áreas respectivas, já delimitadas. Aliás, essa é proposta da própria Marinha.

Ora, o que quer essa ONG, com o apoio da Fundação Palmares e do Incra? Nada menos que 16 milhões de metros quadrados para 106 famílias, tornando-as "proprietárias" de praticamente metade da ilha e de quase toda a sua baía. Mas o que pretendem realmente? Tomar posse de paredes rochosas e da mata nativa? Destruir a reserva ambiental para lá "plantar" alguma coisa? Ou talvez, sob o belo nome de "turismo étnico", dar início à especulação imobiliária? O que está realmente por trás de tudo isso? Há laudos ambientais segundo os quais não é aconselhável a ocupação humana dessa área de preservação, objeto precisamente dessa ação "racial".

É curioso que o "laudo racial" que serviu de base para instrução do processo junto à Fundação Palmares e ao Incra tenha sido feito pela própria ONG. Ela seria simultaneamente parte, "juíza" e incentivadora de tudo o que acontece, estando milagrosamente em todos os lugares ao mesmo tempo, numa ubiqüidade ideológica digna de seres que agem segundo uma "causa" tida por "absoluta". Ela fornece, assim, os "relatórios técnico-científicos", que deveriam ser mais apropriadamente denominados "técnico-ideológicos", como se, dessa maneira, a legalidade estivesse sendo preservada.

Imaginem o que - se nem a Marinha é respeitada - poderia bem acontecer com os pequenos proprietários rurais e urbanos, confrontados com "reivindicações raciais" dessa espécie. Quem os defenderia? Há todo um símbolo aqui em jogo. Se a Ilha de Marambaia for desapropriada, a mensagem passada é a seguinte: se nem as Forças Armadas resistem a nós, o caminho está aberto a novas ações que podem reformatar completamente as relações de propriedade e, mesmo, partes inteiras do território nacional. Um trabalho preliminar, nesse sentido, já foi feito pela Universidade de Brasília, que construiu um "mapa racial" brasileiro, que serve de orientação para as ações ditas quilombolas. Unidades da Federação seriam amputadas de uma parte considerável de seu território, não importando a existência de títulos de propriedade privados ou públicos, nem a própria existência de cidades. Sabemos que bastam os critérios arbitrários da autodefinição e da auto-atribuição para dar início a uma reivindicação desse tipo, não valendo os direitos de propriedade, por mais antigos e legais que sejam.

Surge uma nova legalidade, a legalidade do arbítrio, passando a legislar sobre tudo. Estamos entrando no terreno da exceção em nome de supostos critérios de raça, criando o apartheid que não fez parte da História nacional.



Denis Lérrer Rosenfield, nasceu em 21 de novembro de 1950 em Porto Alegre. Fez seus estudos de graduação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México e seus estudos de pós-graduação na França, tendo obtido o grau máximo de “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne em 1982. É atualmente Professor Titular de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pesquisador I-A do CNPq. Autor de vários livros e artigos em português, francês e espanhol, além de professor visitante na França, Alemanha, Argentina e Estados Unidos. Também é articulista dos jornais Estado de São Paulo e O Globo, colaborador da Folha de São Paulo e editor da revista Filosofia Política. Atua também como consultor de análise política para empresas, grupos financeiros, associações empresariais e partidos políticos.
E-Mail: denisrosenfield@terra.com.br



Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo".
Segunda-feira, 23 julho de 2007.



Tuesday, December 05, 2006

A Marinha do Brasil já está sob o comando de Hugo Chávez!
































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O gigante Brasil foi empurrado para o joguinho dos pequenos
por William Waack

A vitória de Chávez era uma certeza, a dúvida é apenas saber quanto tempo dura o novo tipo de populismo sul-americano pelo qual o Brasil está cercado. Promete durar bastante. Suas conseqüências, da mesma maneira, prometem ser das piores. Mas não é assim que o governo brasileiro encara os recentes resultados eleitorais na Bolívia, Equador e Venezuela e nem a provável reeleição de Kirchner na Argentina.

O problema aqui não é simpatia ou antipatia em relação a Chávez, Evo Morales e Correa. Trata-se de examinar em que a articulação das políticas anunciadas pelos dirigentes desses três países (em parte com a Argentina) nos interessa ou nos prejudica. Argentina e Bolívia dão a sensação de que defendem o que lhes importa com mais ênfase, e êxito, sobretudo quando lidam com o Brasil. O novo governo do Equador, e suas declarações contraditórias, só trazem incertezas a empresas estrangeiras que investem lá, como a Petrobras.

O caso da Venezuela é mais grave. Chávez é um populista e demagogo clássico em certo sentido: acredita é na própria pessoa, idéias, visões, projetos e programas são secundários, e servem apenas aos próprios interesses. Elevou um assistencialismo que é pouco mais do que distribuição de esmolas ao pretenso patamar de programas de erradicação de pobreza. Mas criou discípulos, cultivados em parte com dinheiro do petróleo, e faz do Brasil um grandão bobo.

Se fosse só discurso, poderíamos ouvir a Chávez (como se ouve a Fidel) com aquela benevolência composta de boa educação e interesse antropológico, e com a qual se costuma encarar indivíduos, e países, de idéias estapafúrdias e grau de periculosidade nulo. Mas não é. O presidente da Venezuela, apoiado pelo governo argentino, conseguiu impedir, por exemplo, que a Marinha brasileira participasse de manobras conjuntas com a Marinha dos Estados Unidos.

Os exercícios, conhecido como Unita, são tradicionais e proporcionam aos almirantes brasileiros uma extraordinária possibilidade de atualização em equipamentos e procedimentos, já que não têm verbas para modernização em ampla escala. Este ano não foram realizados, depois de a Venezuela bater o pé numa reunião realizada há pouco mais de um mês em Buenos Aires (mas exercícios idênticos aconteceram no lado do Pacífico na América do Sul). Decepcionados, os militares brasileiros não escondem um sorriso: os americanos prometem passear pelo Atlântico Sul, no começo do ano que vem, com um "battle group" em torno de um porta aviões. Em outras palavras, vão fazer uma demonstração de força.

Não se sabe qual é a procedência nem a qualidade das informações obtidas pelos serviços de inteligência das Forças Armadas brasileiras, mas circula nos altos escalões em Brasília a versão de que Chávez estaria armando milícias na Bolívia com os fuzis antigos dos quais ele não precisa mais, depois da importação de 100 mil armas novas para infantaria. O simples fato desses comentários vazarem dão uma idéia do tipo de tensão interna que o presidente Chávez está provocando.

Ele está sendo indiretamente ajudado pelos acontecimentos em Washington. Por razões protecionistas, os democratas que retomaram o controle das duas casas no Congresso provavelmente impedirão a ratificação de um acordo de comércio bilateral entre o Peru e os Estados Unidos. E não renovarão a autorização para que Bush negocie outros acordos comerciais com a região a ignorância dos americanos em relação à América Latina (resultado, nos tempos recentes, da pouquíssima importância que atribuem à área) é mais perigosa ainda do que sua arrogância no trato com os vizinhos do Sul.

Políticos como Chávez, Morales, Correa e, em boa parte, Kirchner vivem de se afirmar contra inimigos reais ou imaginários. Agem notoriamente como donos da verdade, como autodenominados defensores dos pobres e oprimidos (quando, na verdade, os exploram impiedosamente para fins políticos), manipulam o afago e a ameaça sem dar a mínima para os valores de instituições políticas. Seus programas econômicos sugerem ganhos eleitorais a curto prazo, mas nenhuma perspectiva de crescimento, prosperidade e estabilidade a médio e longo prazos.

Vizinhos irriquietos e barulhentos jamais interessaram ao Brasil. É estranho ver Lula, que em particular chama Evo Morales por palavrões impublicáveis e se diz "farto" da companhia indesejável de Chávez, encontrando-se tão freqüentemente com ambos e aparentemente articulando políticas comuns cujos resultados, do ponto de vista brasileiro, teimam em não aparecer. Ou não é nada estranho? Ou é só a admiração mal disfarçada pelo que Morales e Chávez por lá podem, mas que a (em termos relativos) sofisticação, complexidade e avanço das sociedade e instituições políticas brasileiras não permitem que aqui se repita?

Fez parte de décadas da política externa brasileira tentar jogar o jogo dos grandes como um grande, apesar de todas as dificuldades. É triste ver um gigante como o Brasil empurrado para o joguinho dos pequenos. E ainda fazendo o papel do grandalhão que aplaude a piada, sem perceber que a piada é ele mesmo.



William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Segunda-feira, 04 de dezembro de 2006.






“É só pegar os panfletos e as entrevistas dos líderes dos partidos para perceber que eles estão de esquerda para enterrados. São como cadáveres insepultos vagando por aí. A maioria dos grupos que se dizem de esquerda são igrejinhas, seitas, um bando de loucos e dogmáticos”

Herbert José de Souza, Betinho, setembro de 1995.








 
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