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Sunday, June 29, 2008

NEUTRALIZADO!































De novo a providência, agora ao som de nana nenê...
por Clausewitz

Eu busquei o texto abaixo transcrito na íntegra, tão logo tive notícias dele... procurei igualmente confirmar a autoria daqueles que eu encontrava e consta em todas as fontes de consulta como sendo do Coronel Reformado José Alberto Tavares da Silva... como o único que eu conheço ainda não é reformado e é o ex-chefe da Comissão de Obras do Rio de Janeiro, ou seja, a pessoa que ficou frente a frente com a problemática da providência, vou atribuir a esse que estou falando o mérito pelo brilhante e sóbrio texto, que fiz questão de colá-lo na íntegra, pois assim merece ser lido... caso não seja da lavra do Coronel Tavares, fica aqui minha homenagem a ele por ter tentado alertar sobre aquela casa de maribondos...

Uma coisa interessante a respeito desse Oficial é que ele, não concordando com particularidades desse cavalo de tróia chamado cimento social, pediu passagem para a reserva, sacrificando uma promissora carreira... como não era ouvido, deixou às moscas a carcaça da instituição que teimou em ser subserviente ao mal instituído, pagando caro com isso pela teimosia... até eu teria como confirmar se há outro Oficial com esse mesmo nome no universo de Josés e Albertos do EB, mas o sistema que pode me dar a resposta, está repousando, que nem o seu dono... nana nenê, que a mineira vem pegar, papai está na manguaça, mamãe foi guerrilhar... nana nenê...



"Será que poderia ser imaginado como sendo esse o objetivo dos que, tendo a responsabilidade de zelar pelo conceito do Exército perante a sociedade brasileira concordaram com a aventura de jogar a Força no meio de uma favela, a fim de realizar trabalhos comunitários? Não acreditamos. Por formação e convicção, não podemos aceitar que tal raciocínio pudesse passar pela cabeça de alguém. Então, quais as razões para a ocorrência de tão infeliz decisão? Desde que, nas pesquisas de opinião, as Forças Armadas passaram a encabeçar a lista das instituições de maior credibilidade perante a opinião pública, isso passou a incomodar muita gente:

O governo central, de um modo geral, marcado pelos sucessivos escândalos, cada um tentando fazer esquecer o anterior pela amplitude cada vez maior das ilegalidades cometidas e pelo envolvimento cada vez mais próximo dos escalões mais elevados, despertando a revolta das pessoas de bem do país, sabe que se houver manifestações contrárias justificadas, as FFAA estarão sempre de acordo com o pensamento da maioria da população. O grupelho de assaltantes, seqüestradores, terroristas, assassinos, ladrões de bancos e de cofres, alojados em altos cargos da administração federal, ressentidos pela derrota que lhes foi imposta pelas FFAA, impedindo a conquista de seu objetivo maior de implantar uma ditadura comunista, e ainda inconformados, não perdoarão nunca os seus maiores opositores, pois, têm a certeza, apesar da aparente omissão, se chegada a hora de uma decisão de ser contra ou a favor do Brasil, para qual lado penderão os militares.

O Congresso, acusado diariamente pela "imprensa investigativa" - supõe-se que a soldo do poder executivo - para desmoralizar o legislativo (que fornece incontáveis motivos para tal), certamente não deve ver com satisfação o seu posicionamento comparativo nas pesquisas com o das FFAA. E, em conseqüência, não cumpre o seu dever de preservar a Segurança Nacional, dotando-as dos recursos necessários ao cumprimento de sua destinação constitucional. Por uma questão de meridiana inteligência, deveriam os nossos parlamentares induzir que a preservação das FFAA é a preservação de suas próprias sobrevivências, como Poder.

A imprensa, submissa pelas dívidas e compromissos, eivada de comunas inconformados pelos sucessivos fracassos da ideologia que já morreu soterrada pelo muro de Berlim, mas que insistem em manter embalsamada, como seu ídolo caribenho, controlada através das verbas publicitárias dos ministérios e estatais, capaz de cumprir sem a menor cerimônia as diretrizes emanadas de uma secretaria chefiada pelo redator do manifesto de resgate de um embaixador seqüestrado, faz questão de dar a maior ênfase a qualquer fato ou evento relativo às FFAA que apresente algo de negativo, mesmo que, para isso, tenha de mentir, como foi o caso dos documentos encontrados queimados na Base Aérea de Salvador.

Qualquer leitor de jornal e revista ou assistente de telejornais sabe, exatamente, qual a situação das favelas cariocas. Maior deve ser o conhecimento das mesmas pelos órgãos de informações das FFAA. Dominadas, há muito tempo, por "cidadãos intocáveis" que se transformaram em gangues de narcotraficantes, combatidos por policiais que o filme TROPA DE ELITE bem caracteriza, agora com seus ambientes incrementados pelas milícias que cobram proteção dos moradores, tudo, nessas áreas superpovoadas, conduz a situações de permanente conflito.

E ninguém pensou nisso? Será que esse é um "terreno" (do estudo de situação) propício ao emprego de tropa regular, com princípios rígidos de hierarquia e disciplina, por longo período, para realização de ação comunitária, reparando casas de moradores? Será que esta, realmente, é uma missão apropriada e conveniente para o Exército realizar? Se existe um Ministério das Cidades para empregar um monte de companheiros, tem de funcionar. Caberia a ele ou a um dos seus órgãos reconhecer, licitar, realizar as obras, etc., e, para a devida segurança, as polícias do governador que, no primeiro incidente, ele que é um ferrenho defensor do emprego das FFAA em missões de todo tipo, já caiu de pau em cima dos executores da obra.

Será que a "brilhante idéia", partida de gabinetes refrigerados de Brasília, de colocar o Exército nessa fogueira já não embutia objetivos escusos? Diante de tantas incompatibilidades, qual deveria ser a linha de ação mais razoável para a Força? Acreditamos que o labor diário nos quartéis, a preocupação com as responsabilidades constitucionais, a preparação profissional cada vez mais intensa para suprir as já conhecidas deficiências em recursos de toda ordem e a manutenção respeitosa de COTA E AFASTAMENTO de determinados segmentos que, ostensivamente, fazem questão de não ter qualquer atitude conciliatória, seria a atitude mais prudente por parte dos responsáveis diretos pela manutenção e melhora crescente do conceito da Força perante a opinião pública.

Mas, infelizmente, para nós, da velha guarda, não parece ser esse o pensamento predominante. As reiteradas homenagens aos que não as merecem, como certos almoços e recepções, o fornecimento de uniformes do EB para serem usados por pessoas indevidas e indesejadas, as condecorações a determinadas figuras que desqualificam as que já ornamentaram, com orgulho, o peito dos que as receberam por mérito, os desejos incontidos de agradar em quaisquer circunstâncias, o entendimento de que um NÃO bem argumentado pode não ser bem recebido, o apego aos cargos e suas respectivas vantagens, tudo isso está pesando muito na hora de decidir. E, quando as decisões não levam em conta todos os passos do Estudo de Situação – MISSÃO, TERRENO, INIMIGO E MEIOS – dá no que deu. Um fato altamente negativo, com dolorosa repercussão no conceito do EB. É o preço a pagar pela subserviência."


Carl Philipp Gottlieb von Clausewitz, General Prussiano, nasceu em 01 de junho de 1780, na localidade de Burg, próximo a Magdeburg, antigo Reinado da Prússia (norte da atual Alemanha). Clausewitz começou sua carreira militar como cadete (Fahnenjunker) em 1792 no 34º Regimento de Infantaria do Exército Prussiano e foi promovido a Major-General em 1818. Carl von Clausewitz é autor do livro "Da Guerra" (Vom Kriege), considerado um clássico da literatura estratégica militar. Atualmente Clausewitz empresta seus conhecimentos ao carente Exército Brasileiro, no que diz respeito às áreas da estratégia, da doutrina e da honradez militares. É também editor-chefe do "Blog do Clausewitz"



Publicado no "Blog do Clausewitz".
Domingo, 29 de junho de 2008, 07h23.





É proibido parar de mentir – Olavo de Carvalho

Tuesday, June 24, 2008

Intenções do PT para uso de GLO = "Grupamentos Lacaiescos de Opressão".
Cuidado EB! É outra armadilha, a definitiva.































Pela porta dos fundos, não
editorial do jornal O Estado de S. Paulo

Nestes 10 dias que se seguiram ao brutal assassínio de três jovens moradores do Morro da Providência - entregues por um tenente do Exército, à frente de uma dezena de homens, a uma quadrilha de traficantes para que lhes aplicasse um "corretivo", o País vem discutindo uma série de questões decerto relevantes sobre a atuação das Forças Armadas, mas que apenas tangenciam o problema de fundo. Em primeiro lugar, denunciou-se o emprego de tropa federal para dar cobertura a um projeto claramente eleitoreiro de reforma de casas no Morro da Providência, chamado Cimento Social. Encampado pelo governo Lula, o projeto é uma jogada do senador Marcelo Crivella, da Igreja Universal - e do seu braço político, o Partido da República, a mesma agremiação a que pertence o vice-presidente da República, José Alencar -, que integra a enxundiosa base parlamentar do Planalto e pretende se eleger prefeito do Rio. (Logo se descobriu que a missão da tropa incluía a "garantia da lei e da ordem", para o que seria necessário um decreto presidencial, admissível em raras situações previstas na Constituição.)

Segundo, focalizou-se a presumível promiscuidade entre militares e traficantes. Ao se descobrir que a entrega dos jovens foi precedida de um contato com o comando da quadrilha do Morro da Mineira que os exterminaria, e que o ato em si foi tranqüilo - desembarcadas de um caminhão do Exército, as vítimas foram conduzidas aos seus algozes por um sargento com as mãos apaziguadoramente levantadas -, logicamente se passou a investigar se e quantos dos 200 soldados acantonados na Providência estariam contaminados por suas ligações com os bandos que controlam os morros. Segundo o ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares, as unidades do Exército no Rio separam os recrutas, nos alojamentos, de acordo com a facção criminosa que domina as suas comunidades de origem. Para o Comando Militar do Leste, "tal informação carece de fundamento". Em terceiro lugar, passou-se a debater a continuidade da proteção dada ao Cimento Social.

Uma ação civil pública pedindo a imediata retirada das tropas e sua substituição por soldados da Força Nacional de Segurança Pública foi acolhida pela juíza federal Regina Coelli Medeiros de Carvalho e em seguida reformada em instância superior. A nova sentença, do desembargador Joaquim Antônio Castro Aguiar, manteve o Exército, reduzindo porém o contingente a 150 homens e limitando o seu raio de ação a 100 metros do local das obras. (Um dia depois, a imprensa identificou a presença de tropas em pelo menos outros dois pontos do morro.) O juiz ordenou ao governo que apresente solução definitiva para o caso até quinta-feira. Por fim, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, tornou a defender o engajamento das Forças Armadas nas operações de "Garantia da Lei e da Ordem", nos termos de um projeto de lei a ser remetido ao Congresso definindo a conduta militar em tais circunstâncias.

O ministro parece imaginar - e esse é o ponto-chave insuficientemente posto em evidência diante da opinião pública - que o pretendido estatuto contornará o incontornável. De um lado, o imperativo de manter a defesa da lei e da ordem no âmbito das instituições policiais que existem exatamente para isso, envidando-se todos os esforços concebíveis para que dêem conta da incumbência, a exemplo do que ocorreu em outros países cujas polícias, corrompidas pelos barões da droga, puderam ser razoavelmente saneadas porque isso se tornou ponto de honra para os respectivos governos. De outro lado, o caráter contraproducente das tentativas de fazer o Exército ingressar pela porta dos fundos na garantia da segurança pública. A sociedade deve entender que não há meio-termo: ou se investe pesadamente no expurgo dos policiais que transformaram delegacias e quartéis em valhacouto de bandidos ou as autoridades locais reconhecem explicitamente a sua impotência para levar a cabo a iniciativa.

Nessa indesejável hipótese extrema, a alternativa que resta, quaisquer que sejam os seus custos políticos, é a intervenção federal no Estado em causa, para legitimar a entrada do Exército nas suas áreas mais expostas ao banditismo. Fora disso, concentre-se a Força na função para a qual surgiu - a defesa nacional.

Publicado no jornal " O Estado de S.Paulo".
Terça-feira, 24 de junho de 2008.



Definições do Exército Brasileiro para operações de GLO:

GLO - Garantia da Lei e da Ordem

Conjunto de medidas levadas a efeito para superar antagonismos e pressões que se manifestam ou produzam efeitos no âmbito interno, atuando sobre seus agentes e seus efeitos, de forma a manter a lei e a ordem e garantir os poderes constitucionais.

Atuação coordenada das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública na execução de ações e medidas provenientes de todas as expressões do poder nacional, em caráter integrado e realçado na expressão militar. Tem por finalidade a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem.

Operação de controle de distúrbio

Ações freqüentemente empregadas em operações de GLO e podem ser executadas em situação de normalidade. Os meios da força terrestre só devem ser empregados em ações de controle de distúrbios após esgotados os meios da Polícia Militar, ou quando o distúrbio ocorrer em área sujeita à administração militar.

Forças de emprego geral

Forças existentes desde o tempo de paz ou ativadas por mobilização, disponíveis para atuar, no todo ou parte, em qualquer área estratégica compatível com sua base doutrinária, tanto no recompletamento de forças de emprego estratégico como operacionalmente. Uma organização militar de emprego geral pode ser empregada, para efeito de GLO, na área estratégica onde estiver localizada.

Área de pacificação

Área onde serão desenvolvidas as operações de GLO nas situações de normalidade e não-normalidade institucional.

Atitude operativa

No quadro de operações de GLO, diz respeito ao posicionamento do Governo para destruir o mecanismo e neutralizar os dirigentes das forças adversas. A situação a enfrentar pode evoluir até o estágio de luta interna e a ação correspondente é de ordem operativa, de nítida característica militar.

Atitude preventiva

No quadro de operações de GLO, diz respeito ao posicionamento do Governo para evitar que se crie e amplie no país o clima propício ao desenvolvimento de processos subversivos. Esta atitude é caracterizada pelo desencadeamento, prevalentemente, de medidas preventivas, particularmente inteligência e comunicação social.

Pacificar

Ação genérica que representa as operações desenvolvidas pelas Forças Armadas contra uma ou mais forças adversas, com a finalidade de GLO, seja em uma ação pacificadora, seja em uma zona de operações.

Ação genérica realizada com a finalidade de destruir forças adversas ou irregulares, eliminar a organização revolucionária e restabelecer a normalidade político-administrativa na área conturbada.

Segurança integrada

Expressão usada nos planejamentos de GLO da força terrestre, com o objetivo de estimular e caracterizar uma maior participação e integração de todos os setores envolvidos

Setor de segurança integrada

Subdivisão da subárea de segurança integrada, para fins de planejamento de GLO, quanto a execução de ações ou medidas preventivas e de caráter permanente, particularmente nas atividades de inteligência e comunicação social, e que correspondem a uma área a ser atribuída, normalmente, sob a responsabilidade de uma organização militar valor batalhão.

Zona de segurança integrada

São áreas de responsabilidade, para fins de GLO, quanto a execução de ações ou medidas preventivas e de caráter permanente, particularmente nas atividades de inteligência e comunicação social que, em princípio, correspondem as áreas sob jurisdição dos Comandos Militares de Área.






Pode ser que ele esteja maluco – João Ubaldo Ribeiro

ORDEM ERRADA NÃO SE CUMPRE!

Wednesday, November 14, 2007

Cisne Branco em águas turvas.

Obs.: O prefixo da embarcação abaixo, (4), devidamente sucatada e "canibalizada" é uma referência à
posição em que se encontram os comandantes das FFAA perante ao " desgoverno" comuno-petista.




































O DESABAFO

Abaixo uma carta postada no Portal Militar, admitida como de autoria de um 1° Ten da Marinha do Brasil, cuja veracidade só poderá ser confirmada pelo signatário ou pelas autoridades que receberam cópias da mesma, conforme informado pelo autor no seu preâmbulo. De qualquer maneira o conteúdo, com demasiado jargão militar pertinente à MB devido a carta em questão ser dirigida a seus "mestres", coloca em evidência a situação daquela "força", que como todos do "meio" estão fartos de saber também é a conjuntura atual no EB e na FAB.

O Brasil não possui mais Forças Armadas dignas deste nome, seus oficiais intermediários estão desistindo da carreira por completa falta de perspectiva profissional e pelo desmantelamento contínuo hà mais de 20 anos de seus equipamentos e meios de subsistência. E seus comandantes? Ah! Meus caros sobre estes nada mais a comentar, porém, "Que a terra lhes seja leve, com o Pão-de-Açúcar por cima".
Bootlead


Prezado Comandante,

Envio em anexo a este e-mail uma carta de despedida que redigi nestes meus últimos dias na Marinha do Brasil, carta esta que contém algumas das razões pelas quais decidi abandonar esta Força. Esta carta será enviada a todos os Comandantes que trabalharam comigo de modo direto, sendo que, para alguns, enviei uma cópia em papel por razões específicas. Também estou enviando uma cópia para o nosso Almirante, para o Comandante da EN, DPMM, DGPM, CON e Comandante da Marinha. Que seja de alguma valia e que surta algum efeito positivo para aqueles que continuam a servir o País nesta instituição.

Respeitosamente,
1T Cardoso.

Prezado Comandante,

Esta carta foi escrita como uma última tentativa de mudar o que não consegui em quase uma década. Meu desânimo, que culminou na desistência da minha carreira, foi cultivado sistematicamente dia após dia, através da observação e vivência de atitudes que desprestigiavam meu bom-senso, capacidade crítica e intelecto, sobre os quais passarei a discorrer mais adiante.

Após ter sido aprovado, em 1998, num dos concursos mais concorridos daquela época, ingressei na Escola Naval, tendo preterido uma carreira de engenheiro eletrônico na UFRJ. Julgava que a carreira naval se mostrava mais promissora, com estabilidade, interstícios bem definidos e ainda um certo prestígio junto à sociedade. Esse foi o espírito com o qual fui admitido na Marinha do Brasil. Após cinco anos de formação, e apenas um de oficial, já havia tomado a decisão: não havia como permanecer nesta carreira, a não ser, literalmente, “com o sacrifício da própria vida”. Um sacrifício contínuo, que eu via se abater sobre todos os meus colegas de Praça d´Armas, fossem eles Segundos-Tenentes, Capitães-Tenentes ou até Capitães-de-Mar-e-Guerra. Não estou falando de um sacrifício honrado, merecido, daqueles que se vêem nos filmes e são inerentes aos heróis. Não, o sacrifício de que falo, nessa carreira que insistem em chamar de “sacerdócio”, era um sacrifício inócuo, quixotesco, cujos maiores feitos eram a contagem correta e ilibada – quase obsessiva - de vidros de mostarda no balanço de paiol e a maquiagem bem feita, a qual custou toda uma noite em claro, para o recebimento de uma autoridade que só se importava com a idade do whisky que iria ser servido.

Todos esses fatores me levaram a buscar uma carreira extra-Marinha, o que consegui, com a ajuda de meu Senhor Jesus, quando fui aprovado para o cargo de Analista Administrativo do TRE-RJ, o qual estou exercendo no momento. Mas o que me impressiona mesmo é que, a despeito da minha anterior posição, no início de uma brilhante carreira que se desfraldava para mim, nenhuma autoridade se interessou em descobrir por que eu havia decidido abandonar a Marinha. Eu não era um desempregado em busca de um trabalho tampouco um estudante recém-formado em direito, mas um Oficial de Carreira das Forças Armadas que resolveu, como já foi me dito, “trocar os botões dourados por uma salinha suja numa repartição”. No mínimo, é inquietante que a Diretoria de Pessoal esteja realizando pesquisas de satisfação cujo resultado seja que esse êxodo deve-se à “falta de cursos no exterior” e ao “sucateamento dos meios”. Esses não são, nem de longe, os reais motivos. E, pelo menos, quanto à oficialidade da Marinha, também não o é a remuneração. A prova disso é que pelo menos metade dos oficiais que estudam para concursos também busca carreiras de nível médio, cuja remuneração é menor, mas possuem maior qualidade de vida em relação ao regime semi-aberto que se tornou a carreira naval. Se nós formos buscar os reais motivos dessa insatisfação coletiva, porém velada, veremos que são causadas por problemas estruturais, e não conjunturais. Sua causa não está nos baixos salários, embora eles estejam realmente abaixo da média do funcionalismo público federal. Nem no reduzido orçamento, que de fato está sendo cortado ano após ano. E muito menos na redução da quantidade de meios operativos. O valor desta carta reside neste ponto: todos os problemas que serão abordados podem ser resolvidos dentro de casa, através de iniciativas internas, independentes de orçamento, e – o pior – em pouquíssimo tempo, por meio de decisões administrativas simples, que não são tomadas por má-vontade, orgulho, miopia administrativa ou apego demasiado a uma tradição caduca, que emperra e desagrega esta Força, ao invés de uni-la em laços comuns, na medida em que origina ações e ordens contraproducentes que contribuem sobremaneira para o mau andamento do serviço.

Compreendemos que as Forças Armadas, conceitualmente, exercem um papel primordial na manutenção da paz, na dissuasão de hostilidades estrangeiras e na consecução dos nossos objetivos estratégicos como nação – assim como consta nas tão festejadas apostilas da Escola de Guerra Naval. Ainda mais, acreditamos e gostaríamos que essas metas fossem alcançadas, com seriedade e profissionalismo. O problema é que também compreendemos quão diametralmente opostas desses objetivos estão as decisões e atitudes tomadas por nossas autoridades, que destinam porções generosas dos recursos para a pintura incessante de equipamentos que já não funcionam por falta de recursos. Que se apropriam das já parcas etapas de alimentação e as transformam compulsoriamente em “sobras lícitas”, de modo que possam comprar parafusos, tinta, cera e bancar coquetéis para almirantes que festejam a decadência da própria Força. Que investem milhões de reais do contribuinte na compra e manutenção de meios já defasados, que onerarão ainda mais o orçamento, já que os próprios países de origem não toleram seu custo-benefício, isto se considerando que são países ricos. E, o pior, cada atitude dessa vem travestida de honradez e pundonor. A pintura de piso, de sucata, de ferrugem (somente para o dia de uma visita), se reveste do caráter de limpeza e organização, de modo que não fira os olhos de uma autoridade que reluta em não ver a realidade. O saque da nossa mesa vira espírito de sacrifício, o que vem acompanhado de manipulação das notas fiscais para que a comprovação de gastos com solda seja transformada em aparelhos de TV para a tripulação. E a aquisição de “novos” meios deteriorados é motivo de orgulho das autoridades, que se gabam de fortalecer a instituição em tempos de dificuldades, ainda que tenham comprado o refugo de outros países. Esses meios NÃO irão contribuir para a soberania da nação – não andam, nem funcionam, e ainda exporão a vida da tripulação a um risco desnecessário, pois nossos navios não possuem mais portas estanques, nem sistemas de combate a incêndio eficientes, e suas instalações funcionam na base do “gatilho”, sendo isto um dos grandes geradores da sobrecarga de trabalho à qual nossas praças e oficiais de baixa patente estão submetidos.

A chave para se compreender o choque de gerações que ocorre em nossos tempos é a divulgação da informação. O movimento conhecido como Tenentismo, um conhecido de longa data, se manifesta atualmente enriquecido e ligeiramente modificado, uma vez que não se utiliza mais do embate das armas, e nem possui o fervor patriótico de outrora. Com a Internet, ficou muito difícil para o sistema de formação de oficiais privar os alunos e aspirantes da realidade reinante, como acontecia antigamente na chamada “bolha”. Hoje, é praticamente impossível realizar uma lavagem cerebral completa, que torne o militar subserviente o necessário, pois a visão de mundo que um jovem tem não o permite – e essa é a causa de tantos oficiais superiores reclamarem que “não se fazem mais tenentes como antes”. Eu e meus colegas enxergamos a Marinha como mais um órgão estatal, que tem suas funções específicas definidas em lei, e atualmente não está executando-as de forma adequada; não vamos tomá-la pelas armas, nem nos insurgirmos em revoltas. Não, nós não amamos a Marinha acima de nossas próprias vidas, pois isso sequer faz sentido. E entendemos que o mercado de trabalho também mudou, inclusive na iniciativa privada, onde ninguém mais tem um emprego para a vida toda; aplicamos isso em nossas vidas particulares e decidimos que podemos trabalhar onde melhor nos convier, seja por pagar melhor ou ter uma rotina de trabalho mais agradável, e isso sem o peso na consciência de largar o “sacerdócio”. É muita inocência achar que iremos abdicar, conhecendo nossa capacidade, competência, potencial e qualificação, de carreiras públicas que nos oferecem dignidade pessoal, respeito profissional, horário de trabalho justo e, de quebra, remuneração inicial de Contra-Almirante.

Para estudar para meu concurso, tive de fazê-lo em oculto, sob pena de ser execrado do convívio da Força ou perseguido. E fui punido por não ter comunicado minha inscrição, assim como preconiza a retrógrada legislação vigente. Porém, fica o aviso de que o número de oficiais descontentes que agora estudam escondidos é muito maior do que os mais de 30 tenentes que cancelaram seu Curso de Aperfeiçoamento nos últimos dois anos e do que a turma somente de Aspirantes que fechou uma sala exclusiva na Academia do Concurso Público.

Há de ser ressaltado que a geração de oficiais superiores e almirantes atualmente no comando foi formada durante o regime militar ou no pós-regime, uma época bem mais intensa nos valores e também nas arbitrariedades. O mundo mudou, as relações sociais, econômicas e empregatícias também, mas a Marinha insistiu em cristalizar-se novamente em suas tradições, e quanto mais o tempo passa mais esta instituição se afunda num anacronismo intenso. O mundo realmente pode ter mudado muito rápido para que algumas autoridades pudessem ter absorvido, mas é para tentar mudar um pouco essa mentalidade que passo a discorrer sobre algumas das principais causas de insatisfação na Marinha do Brasil:

SERVIÇO

As Forças Armadas possuem uma singularidade em relação a outros órgãos e empresas, sejam públicas ou privadas: submetem seus militares a mais de 24 horas de trabalho contínuas. Isso seria simplesmente imprescindível caso estivéssemos em tempo de guerra. Mas considerando-se que nossos maiores inimigos são a sujeira do piso e o amarelo por fazer, não há respaldo para essa prática. Após o serviço, o militar não deve cumprir o expediente normal, visto que foi privado da sua noite de sono, tempo de lazer e convívio com a família. Médicos e policiais cumprem seus plantões (e muitas vezes conseguem descansar neles), são rendidos pela manhã e vão para casa. A carga horária semanal não deveria, constitucionalmente, exceder as 44 horas semanais – embora batamos com orgulho no peito nos vangloriando de que não possuímos direito algum – mas, com apenas um serviço na semana essa carga sobe para 56 horas. Numa escala muito comum, 3 por 1, o militar pode chegar a cumprir 80 horas semanais, sem nenhum tipo de compensação. É comum que cabos e marinheiros concorram a escalas de 1 por 1, sendo liberados, como um favor, ao meio-dia do dia de sua rendição. Eles cumprem 108 horas semanais, 145% a mais do que permite nossa Constituição, que defendemos com o sacrifício da própria vida.

Durante o serviço nos fins-de-semana, é comum a prática de detalhar “faxinas” a serem realizadas no tempo vago – seja lá o que isso for. Durante o dia, o militar deve se desdobrar em 2 quartos de quatro horas, sendo um de madrugada, além de cumprir os adestramentos previstos. Nessas oito horas, ele permanece em geral em pé, no calor do sol e no frio da madrugada, e, para que não consiga se refazer entre um quarto e outro, é colocado para tratar conveses, limpar corredores ou soldar chapas no seu tempo vago. Será que perder o seu descanso semanal remunerado não é o suficiente, o militar tem que sentir dor o tempo todo? Nesta Força existe um conceito muito errado de que nossos militares são máquinas que devem produzir em tempo integral e de que qualquer tempo ocioso, incluído o de descanso, é desperdício.

Os oficiais são obrigados, em geral, a permanecer em pé no portaló durante seu serviço – desde 06:00h, para fiscalizar(?!) o quarto d´alva –, visando basicamente a realização de cerimonial para visitas de autoridades não-anunciadas e a manutenção do alerta vermelho máximo para a passagem de lanchas de almirantes. Considero isso um desrespeito à minha formação e capacidade intelectual, uma vez que sou relegado a um mero soldado de chumbo, enfeitando um portaló, enquanto sou subaproveitado nas minhas tarefas administrativas. Cabe às autoridades definirem: o que é mais importante, um cerimonial que pode vir a acontecer ou a realização das tarefas administrativas vitais do navio? Sempre achei que tivesse estudado demais para ter simplesmente a função de ficar em pé por mais de 10 horas seguidas. O oficial de serviço pode sim, muito bem, ficar volante no navio, e atender situações que realmente façam jus à sua presença. Quanto ao procedimento das visitas não-anunciadas, já está na hora das autoridades se conscientizarem de que a máquina estatal não pode ficar completamente mobilizada simplesmente aguardando seu repentino aparecimento, de modo a louvá-las e engrandecê-las.

É comum que se avalie a escala de serviço como “muito cochada”, se arbitre uma satisfatória e depois se inventem postos desnecessários para se justificar esse aumento, de modo que não fiquem militares à toa, “sobrando”, como se a folga da escala representasse mão-de-obra ociosa. Lembro também de quando estava na Escola Naval, onde o segundo-anista não poderia pegar menos serviço do que o terceiro-anista, e então criaram um “plantão do bar” para piorar a vida do segundo ano, e, comparativamente, melhorar a do terceiro (redistribuindo, assim, as cotas de infelicidade). Essa prática é muito comum também na Esquadra, matriz do “Caldeirão Naval”, onde a escala do oficial não pode ser maior do que 5 por 1 e já houve caso de mais de três oficiais estarem de serviço em um mesmo dia desnecessariamente. Sei que um oficial pode se qualificar para concorrer à escala em mais de um navio, assim como eu mesmo já fui qualificado, e sem muito esforço; durante o expediente, cada navio poderia ter seu próprio oficial de serviço para resolver problemas administrativos, e, após, somente um dos oficiais se responsabilizaria pelos navios durante o pernoite. Ou então, os oficiais de serviço poderiam simplesmente ficar de sobreaviso, com um celular. Como a manutenção do Grupo de CAv geralmente é citada como impeditivo para a diminuição da tabela como um todo, lanço a V.Sas. um desafio: arquitetar um plano de combate a incêndio efetivo que se utilize somente dos militares de serviço. Isso se mostra na prática inviável, pois combater um incêndio com doze ou oito militares dá no mesmo – teremos que disparar o Halon ou chamar a brigada de bombeiros e GSE. Ressalto que a quase totalidade dos incidentes decorre da presença de pessoal a bordo, ou seja, quanto mais gente houver na tabela de serviço, maior será a quantidade de pessoas necessária para cuidar da tabela de serviço. Só haverá incêndio na cozinha se ela for utilizada, incêndio na coberta se esta estiver habitada, rompimento de rede se estiver pressurizada. A manutenção de uma tabela de serviço que pernoite a bordo é a causa mater dos sinistros, e sua diminuição ou extinção alteraria sobremaneira o paradigma do CAv. E, afinal de contas, se CAv fosse tão importante, as tomadas de incêndio não deveriam estar entupidas com Kaol.

COMISSÕES

Sem esquecermos que, dentre as profissões do mar, só os pescadores são mais mal-remunerados do que nós, podemos fazer algumas considerações.. Se é fato que nossa compensação pecuniária é irrisória, então que haja compensação como há na Petrobrás: seja adotada a escala de 15 por 15, pelo menos (ou seja, um dia de licença para cada dia de comissão), sem se falar na escala de 14 por 21 adotada por aquela empresa, que é considerada de vanguarda até no âmbito internacional, e, logicamente, deve possuir uma capacidade administrativa de referência. Realmente somos homens de madeira em navios de ferro, e merecemos descanso depois desta atividade tão ingrata, que é se fazer ao mar, já que nem fazemos jus à compensação orgânica. Seria implausível abrir mão dos militares por tanto tempo? Creio que não, considerando que em cada dia de mar estamos 24h a serviço, período de tempo três vezes superior ao nosso expediente normal. Se a Marinha inventou tantos obstáculos administrativos de modo que uma tripulação operativa não possa se ausentar para ter descanso, que se transfiram essas responsabilidades para uma unidade administrativa, bastando uma alteração em DGPMs, SGMs, ou qualquer outro pedaço de papel. Afinal, alguém deve dar suporte aos nossos militares, ou não?

Sendo o mar um ambiente inóspito por natureza, os tripulantes ainda são obrigados a cumprir expediente entre o enjôo e o serviço, embora o navio esteja em um período dedicado à vida operativa. Um mínimo de descanso e conforto é necessário ao marinheiro para que realize suas tarefas a contento e ajude a diminuir o stress que naturalmente surge em condições de afastamento e confinamento.

Por último, o que considero mais desrespeitoso: obrigar a tripulação a baldear e pintar o navio no dia do regresso de uma comissão, sem ao menos terem tido a chance de verificar como estão seus familiares. A pintura não pode ser - ou transparecer que é - mais importante do que nossas famílias.

ROTINA E ADMINISTRAÇÃO

Consideramos como nossas prioridades administrativas a desburocratização, a impessoalidade (nisto também subentendida a extinção do queromarinst, a mais arbitrária, arcaica e amadora forma de gerência existente), a definição de objetivos claros que devam ser alcançados e de prazos razoáveis a serem cumpridos – todas as nossas tarefas costumam ser “pra ontem”, revelando o descompasso do nosso planejamento organizacional, e o uso racional do dinheiro público. Por isso, não aceitamos pintar o piso para a visita de uma autoridade, ou pintar o navio antes mesmo de atracar, após três meses de comissão, como se retornasse da Terra-do-Nunca: isso é desperdício. Não aceitamos que se sirvam banquetes para autoridades, e depois compensem com semanas servindo macarrão com salsicha para a tripulação: isso é desrespeito. Inclusive, se há a coragem moral nesta Força de que tanto se ouve falar nas Praças d´Armas, então que se sirva para as autoridades extra-MB que visitarem nossas OMs o mesmo rancho que comemos diariamente. Esta é a melhor maneira de protestar pelo corte de nossos recursos. E, que, finalmente, a Marinha entenda que manutenção de limpeza e arrumação não é nossa função constitucional. Enquanto houver Capitães-de-Fragata passando os dedos com luva em cima de armários não poderemos nos concentrar nas tarefas que realmente importam.

Assim como eu chego sem atrasos todo dia, em um horário definido, gostaria que a licença fosse cumprida desta mesma forma. O licenciamento não é um favor, muito menos concessão do comando: é uma obrigação com o militar que já cumpriu seu expediente diário. Não há como solucionar todos os problemas da MB em um único dia (e cabe ressaltar que a maior parte dos nossos problemas são explicitamente gerados pelas idiossincrasias de nossos oficiais superiores e almirantes, que desejam governar este órgão como melhor lhes parecer, satisfazendo suas prioridades pessoais e relevando as da organização). E se for necessário ficar após o horário, que haja compensação noutro dia. Além disso, a maior humilhação à qual me sujeitei durante estes mais de quatro anos de oficial foi suplicar, diariamente, para poder ir embora após cumprir meu expediente. Nós simplesmente não temos que nos despedir, como um ato de educação, mas ficamos atrelados a uma AUTORIZAÇÃO para irmos embora, o que gera um mal-estar horrível após ser repetido duas centenas de vezes, e ainda nos atrasa, em pelo menos, quarenta minutos por dia, tempo médio para vencer as filas dos nossos superiores nas mais diversas instâncias.

Num passe de mágica, algumas autoridades pensam que podem apagar, através de confraternizações, o dia-a-dia estressante que impõem aos oficiais subalternos e intermediários, tornando todos “uma família” imediatamente. Essas confraternizações são marcadas, em geral, fora do horário de expediente, e são compulsórias, tornando-se um prolongamento (realmente longo) deste. Minha geração não troca o convívio de suas famílias por amigos de copo, e amizade verdadeira não exige comparecimento contrariado. Se todos estivessem satisfeitos, o congraçamento seria conseqüência natural. Quando o coquetel é realizado durante o dia, mostra-se mais um revés interessante: passam-se três horas ou mais de expediente no evento, e julga-se que isso não é errado – esse tempo desperdiçado exige, invariavelmente, uma dedicação suplementar para resolver as tarefas negligenciadas. Mas quando é necessário a um oficial sair mais cedo para resolver um problema, ele fica sendo mal visto. Isso é um exemplo clássico da nossa cultura: pode-se matar o expediente para beber, mas não para tratar de nossa vida pessoal.

Como resultado de alguma carência afetiva, certas autoridades ficam nervosas se não receberem o bom dia, ou o boa noite. Esta é uma frivolidade que deve ser encarada da seguinte forma: as pessoas têm coisas mais importantes para fazer do que dar boa noite compulsoriamente umas às outras. Esse evento ocorre naturalmente ao haver um encontro fortuito entre duas pessoas educadas, e não deve ser objeto de recomendações intimidadoras ou ordens de parada.

Por se falar em parada, esta consiste em uma das melhores formas de desperdiçar mão-de-obra. Como se ninguém soubesse sua função na OM, reúnem-se os oficiais para se despacharem ordens geralmente de caráter individual, ou se fazem verdadeiros grupos de discussão sobre assuntos aleatórios e fantásticos, enquanto todas as praças aguardam em formatura. Em suma, a OM fica parada por quase uma hora e depois se estende o expediente após o horário. Definitivamente, isso não é GQT. A parada pode ser feita por e-mail e os assuntos individuais, tratados individualmente...

Assunto grave e delicado: caixa de economias. Se, hoje mesmo, o governo dobrasse nossa etapa de alimentação, melhoraríamos o padrão do nosso rancho ou dobraríamos nossa receita? Se é difícil trabalhar na escassez do orçamento, que se apliquem pelo menos os recursos corretamente na sua previsão legal. Não existem “sobras lícitas”, pois na realidade não há sobras. Esta sobra artificial é criada quando se estipulam metas financeiras a serem atingidas em detrimento da qualidade de vida de nossas tripulações; como, então, exigir comprometimento? Como ser leal com quem nos retira o bife para comprar parafusos, tinta e souvenires para autoridades? Se não há previsão orçamentária para nossas despesas correntes e manutenção dos meios, então que nossos almirantes parem de ter medo de apertar quem se deve, nosso governo (se bem que apertar a própria Força é mais fácil e não arrisca a nomeação para cargos na ONU), e EXIJAM que sejam repassados os recursos necessários. Mas o que vi todos esses anos é que é mais cômodo exigir a excelência dos mais modernos, exaltando a “criatividade”, como ouvi em tantas Ordens do Dia, quando na verdade não existem ferramentas adequadas, computadores em condições de uso ou nem sequer pano para limpeza, que deve ser reaproveitado até depois de rasgado. Esse é o exemplo de coragem e abnegação a ser seguido no Bicentenário de Tamandaré?

Finalmente, o mais grave, por se tratar de crime: química. É inadmissível que se exija dos subordinados que se mascarem notas fiscais a fim de burlar o controle orçamentário que a própria Marinha idealizou e exportou para a Administração Pública com tanto orgulho. É desnecessário me aprofundar neste tema, mas eu alerto a todos que julgam que “os fins justificam os meios” que a grande quantidade de oficiais descontentes que foram aprovados como Analistas do TCU e na Polícia Federal recentemente pode vir a mudar o destino de quem tem grande prazer em resolver os problemas de bordo a qualquer custo, se achando acima da lei, ou que pensa que pode se explicar a um magistrado dizendo que o fez “em prol do serviço”. Oficiais que desejam fazer o que julgam correto são mal vistos e retirados de suas funções para não atrapalharem o “bom” andamento do serviço. E isso também se aplica à venda ilegal de óleo combustível.

Embora não haja espaço nesta carta para citar todos os nossos vícios, como, por exemplo, a forma amadora de condução do reparo de um navio, esses são, no meu ponto de vista, alguns dos principais problemas geradores da desmotivação que se alastra pelos Oficiais Subalternos e Intermediários na Marinha, e são a causa do êxodo que vem ocorrendo. Eles são mutáveis, pois são concernentes à postura das nossas autoridades. A pena que as FFAA e, em especial, a Marinha, pagará, se não corrigir este problema postural, será ter uma lacuna irreparável em seus postos a médio e longo prazo. Se nossos almirantes decidirem descer dos pedestais e encararem a situação como homens valorosos que são, entenderão que este é um momento de guerra e medidas difíceis devem ser tomadas. Entendam: esta Força, como hoje conhecemos, não vai subsistir, nem de um modo, nem de outro. Se essas mudanças não forem feitas agora, as baixas em massa serão cada vez mais freqüentes e mais fortes, e, quando o remanescente da minha geração chegar ao comando, as fará. Se forem tomadas agora, a Marinha se tornará um lugar agradável de se trabalhar e muitos corações que hoje estão inclinados a sair podem retroceder. Não se enganem, existem Aspirantes do 2º ano estudando para concursos, e também Capitães-Tenentes em postos-chave, sendo que a média de espera para aprovação em um concurso é dois anos. É uma decisão a ser tomada rápido, antes que haja um colapso administrativo, e não existe como prender as pessoas com ameaças de indenização de cursos – o que, aliás, é inconstitucional.

É hora de rever as políticas de motivação e de aposentar o “Manual de Liderança da Marinha”: parar de movimentar militares contrariados quando houver voluntários; respeitar a programação de férias que o militar fez com sua família com seis meses de antecedência; não tocar regresso geral fim-de-semana para comparecer a uma regata (teoricamente, isso é lazer); não exigir de todos nós que demos um “jeitinho” quando não houver previsão orçamentária (o famoso “fazer no amor”); não colocar como prioridade do nosso serviço o apito para lanchas de autoridades, sob o risco de receber uma mensagem exigindo apuração do fato; parar de achar que nossa oficialidade vai ter como sonho de vida tão somente esperar talvez ser Almirante dentro de trinta anos. Estas medidas surtirão muito mais efeito na qualidade do nosso trabalho do que qualquer “Programa Netuno”, recém-divulgado, que já nasce com uma incongruência típica: enquanto toda a Administração Pública Federal terá oito anos para sua implementação, a Marinha implementará seu “pacote de qualidade” em um ano, com a famosa fórmula “embrulha e manda”, se valendo do mascaramento de índices e avaliações.

Quanto a mim, sei que vou servir melhor ao meu País no TRE do que na Marinha, porque cansei de servir com amadores. Cansei de jogar dinheiro pelo ralo e de ver boas idéias se perdendo num labirinto de vaidades, priorizando-se limpeza e arrumação ao invés de segurança nacional. Cansei de pertencer a um celeiro de alcoólatras e pais ausentes; terei efetivamente tempo para me dedicar à minha família e viver dignamente, como não faço desde 19 de janeiro de 1998. E se alguém que ler esta carta se propuser a refutar meus argumentos, estarei à disposição, pois nunca fui de me fechar ao debate por uma simples questão hierárquica.

MARCIO DE ABREU PRAÇA CARDOSO
Primeiro-Tenente (RM2)
Analista Administrativo TRE-RJ
E-mail: tenente_cardoso@hotmail.com




 
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