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Thursday, February 07, 2008

Diogo Mainardi: A assombração das "antas".































Diogo, O Terrível
entrevistado por João Pereira Coutinho

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. "Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa", digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, "Lula é Minha Anta" (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

Compaixão e irrisão. Várias vezes disse a Diogo Mainardi que ele deveria regressar à ficção. Basta ler os quatro livros publicados até ao momento ("Malthus", "Arquipélago", "Polígono das Secas", "Contra o Brasil") para entender o lugar singular do autor na prosa brasileira contemporânea. Ao resgatar a tradição satírica européia para a língua lusa, Mainardi faz o que Millôr Fernandes e Ivan Lessa fizeram antes dele: limpa o pó à gramática e confere uma vitalidade ao texto que é mortal para denunciar o ridículo da condição humana. Mas a resposta dele é sempre a mesma: "E quem paga as minhas contas?" Na conversa que tivemos, e que reproduzo em baixo, a pergunta é repetida. A resposta também.

Erro meu. "Lula é Minha Anta" não é apenas o resumo da batalha hilária de Diogo Mainardi para derrubar Lula. É também o retrato político de um país que ganha contornos grotescos, muito acima de qualquer ficção: na política, no jornalismo, no mundo empresarial; e nas relações promíscuas e até mafiosas que se instalam entre esses vários mundos. E, quando assim é, não existe grande espaço para prosa imaginativa. Seria inútil. Redundante. Em Inglaterra, onde a vida é previsível e civilizada (ou previsível porque civilizada), o "non sense" transferiu-se da vida para a literatura. De Jonathan Swift a Laurence Sterne, de Evelyn Waugh e Kingsley Amis, a sátira é abundante porque funciona como contraste. Mas quando a realidade já é surreal, é a realidade que se transforma em ficção. Quem precisa de livros quando basta olhar pela janela?

Mainardi olhou pela janela. Descreveu a paisagem. Mas falhou no essencial: em 2007, Lula era reeleito, ou seja, "absolvido pelas urnas", como dizem seus acólitos. Num dos melhores textos do livro, Mainardi compara-se ao Coiote do desenho animado, que persegue obsessivamente o Papa-Léguas para ser derrotado no final. Uma pena? Para o Brasil, com certeza. Para os leitores, longe disso. "Lula é Minha Anta" ficará como testemunho de uma época e exercício literário pleno de violência sarcástica. E, além disso, ninguém assiste ao desenho animado para ver o Papa-Léguas.


Olá, Diogo. Como é que você está?

Estou de bermuda e chinelo, como sempre. Na minha frente, o computador. À direita, pela janela, a praia de Ipanema. Choveu muito: mar marrom e areia cheia de protozoários. Na sala, meu caçula está com a TV ligada, assistindo a um episódio de "Little Einsteins". De vez em quando, influenciado pelo desenho, ele ergue os braços e grita: Johann Sebastian Bach! Felix Mendelssohn!

Nunca assisti a esse desenho. A minha infância foi deliciosamente corrompida pelo Walt Disney.

A minha foi miseravelmente corrompida pelo Pepe Legal.

Que memórias você tem da infância? Nada de clichês, e pode falar das empregadas.

Tive uma infância clichê. Inclusive no que se refere às empregadas.

Falando do Brasil: você já está a preparar o seu exílio na Europa?

Dependo do trabalho, e o trabalho, atualmente, está no Brasil. Já fui um imigrante brasileiro na Europa. Agora sou um retirante paraibano no Rio de Janeiro.

Isso significa que se surgir trabalho na Europa você abandona o país na hora?

Retirante só migra em período de seca.

Mas você sabe que a Europa é o último sítio do mundo, depois de Bagdá, para trabalhar.

É por isso que eu relaciono a Europa com o ócio. Ou com a literatura, que é a expressão envergonhada do ócio.

Antes de qualquer pergunta sobre o seu livro, gostei de ver nele as fotos dos seus filhos brincando com um pelúcia do Lula. Em São Paulo, um amigo mostrou-me o mesmo boneco e disse-me que tinha sido criado por um artista plástico. Ainda tentei comprar um, mas não consegui. Você sabe onde eu posso encontrar esse boneco?

Vou ver se arrumo um boneco extra.

Obrigado. Você não acha que o boneco tem uma graciosidade que falta ao presidente?

Pouco tempo atrás, acordei no meio da noite e flagrei o boneco roubando minha carteira e tentando matar o peixe no aquário.

E o que você fez? Não me diga que pediu impeachment...

Tranquei o boneco no armário da cozinha.

As crônicas de "Lula é Minha Anta" são, em resumo, a história de uma batalha: Mainardi contra Lula e Lula vitorioso, no final, com a reeleição. Você não acha que teria sido preferível ler Flaubert ou Tolstói nesse tempo todo?

No livro, sou personagem, e não autor ou leitor. Como Bouvard e Pécuchet, perdi a lavoura. Como Anna Karenina, fui esmagado por um trem.

A partir do momento em que o "mensalão" foi denunciado por Roberto Jefferson, você apostou tudo em como Lula não seria reeleito. Você não acha que foi demasiado otimista com o seu país?

Tem razão: por um breve período, fui pateticamente otimista com o Brasil. O mensalão, por suas particularidades, ofereceu uma oportunidade histórica para o país, exatamente como "mãos limpas", na Itália. Como de costume, a gente bobeou.

Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

Exatamente. Lula --o meu Lula-- é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

Eu estive no Brasil em dois momentos marcantes dos últimos anos: quando o mensalão estava no auge e nas últimas eleições. E fiquei pasmo com pessoas educadas, fluentes e letradas que diziam que votariam em Lula, não em Alckmin?

Pessoas educadas, fluentes e letradas que votam em Lula? Não conheço. Acho que você está freqüentando demais os jornalistas da Folha de S.Paulo.

Qual a responsabilidade da oposição nesse clima favorável a Lula? Você acha que o "impeachment pelas urnas", que chegou a ser defendido por Fernando Henrique Cardoso, foi ingenuidade ou estupidez?

Fernando Henrique Cardoso não é ingênuo nem estúpido. Acho que os oposicionistas queriam tomar o lugar do Lula sem mexer nos esquemas de corrupção que os beneficiaram no passado e que podem beneficiá-los no futuro.

Ou seja, a oposição é tão corrupta como o presidente?

O lulismo é muito mais perverso: transformou a corrupção em plataforma de governo.

Alckmin: o que correu mal? Você teria votado noutro candidato sem ser de nariz tapado?

Eu não voto. Nem de nariz tapado. Desde o começo, defendi o "impeachment" de Lula. O julgamento do lulismo deveria ter sido político e criminal, e não apenas eleitoral.

Mas você confessou que iria votar Alckmin de nariz tapado. Nem assim foi votar?

Quando percebi o jogo da oposição, avisei que a tese do "impeachment pelo voto" abria a perspectiva de uma "absolvição pelo voto". Como sempre fui contrário a uma absolvição, torci pela eleição do Alckmin. Só não votei nele --e não voto em ninguém-- porque não tenho domicílio eleitoral.

Você é particularmente duro com o jornalismo brasileiro, que teria sido cúmplice de Lula. "O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga", eis o aforismo. Depois do mensalão e apesar da reeleição, você acha que mudou alguma coisa?

Agora o contribuinte sabe o que está pagando.

Um de seus melhores textos, "Minha Vida de Coiote", é o retrato de como perseguir Lula se transforma sempre num desastre para o perseguidor como na história do Coiote e do Papa-Léguas. Com todos os processos, ameaças e xingamentos, você nunca pensou simplesmente: "que se dane tudo"?

Como o Papa-Léguas, eu sempre acho que meu próximo plano vai dar certo.

Existe alguma coisa de positivo no Brasil para você? Ironicamente, lendo o seu livro, a coisa mais positiva é a Justiça, que o absolvia nos processos.

O que eu mais gosto no Brasil é minha casa. Fora da minha casa, minha rua, no máximo até a esquina. Institucionalmente, sim: a melhor chance do Brasil --quem sabe a única-- está nos tribunais.

Isso não é um paradoxo? Como explicar que tudo corra mal, exceto a Justiça?

Tenho de apelar para Montesquieu. Sabe como é: aquele lero-lero de separação dos poderes. Como todo o resto, a Justiça pode ser uma porcaria, mas as leis não são. Há um monte de bons juízes e promotores por aí, aplicando-as com rigor.

Por que motivo os petistas nunca acertam com o seu nome? É sempre "Diego", "Diego".

O petismo tem um problema com a língua portuguesa, Juan.

No final do livro, você se despede de Lula. Dessa vez é para valer?

Lula já não existe mais. Hoje em dia, todo mundo sabe que ele é apenas outro Sarney, só que piorado. Acho que dei uma mãozinha para desmascará-lo.

Imagine que o presidente convidava você para um chá ou para outra bebida qualquer. Você iria?

Já tentei entrevistá-lo. O bicho não quer saber de mim. Eu gostaria de encontrá-lo profissionalmente, mas não tenho o menor interesse particular por ele. Considero-o um dos líderes mais aborrecidos do planeta.

Abrindo um pouco mais a conversa: como você observa a política da América Latina --Chávez, Morales e tutti quanti?

Jura que você quer falar sobre essa gente?

Claro. O grotesco diverte-me.

Em excesso, o grotesco enjoa.

Apesar de tudo, seria improvável que Lula seguisse os passos da "revolução bolivariana" de Chávez, não?

Eu sempre reconheci uma qualidade em Lula: ele é maricas demais para se meter numa fria dessas.

E a sociedade brasileira não é a venezuelana, ou é?

Você tem razão: a venezuelana é um tiquinho melhor.

Você tem candidato favorito nas eleições americanas?

Meu preferido é John McCain. Os americanos têm o dever de ajeitar as coisas no Iraque, e o único que capaz de fazê-lo é o velhote.

Meu preferido é Obama, por causa do antiamericanismo mundial. Seria uma lição para o mundo eleger um negro.

Se eu fui demasiado otimista com o Brasil, você está sendo demasiado otimista com o mundo.

E o Brasil? Seria capaz de eleger um negro?

O Brasil seria capaz de eleger uma anta.

Mudando de assunto: você pensa em regressar à ficção?

E quem paga minhas contas?

Bom, você pode escrever colunas e romances.

Não dá tempo. Sou marcha lenta.

A sua ficção, ao retomar a grande tradição satirista européia, parece um corpo estranho na literatura brasileira contemporânea. Você sente isso?

Sinto que é bem melhor pertencer à grande (mas a pequena também serve) tradição satirista européia do que à literatura brasileira contemporânea.

Para um jovem brasileiro com pretensões literárias, que autores você recomendaria?

Leitura é uma questão de afinidade. Depois de esgotar os romances obrigatórios (Quantos são? 300? 400?), o negócio é escolher um filão e mergulhar nele.

Você é regularmente identificado com a "escola Paulo Francis". Você concorda com essa linhagem?

Fui um aluno relapso, mas é claro que estudei nessa escola.

E o que aprendeu com ela?

Como todo aluno relapso, não consegui aprender nada. Mas o professor era ótimo.

O Carnaval está aí: nunca o convidaram para uma escola de samba?

Não. Em compensação, algum tempo atrás, numa tarde de carnaval, pisei num naco de cérebro humano.


João Pereira Coutinho nasceu (1974) e vive em Portugal, estudou História na Faculdade de Letras da Universidade da cidade do Porto (Portugal) e fez pós-graduação em Ciência Política na Universidade Católica. Foi cronista do "Jornal Independente" e atualmente assina a coluna "Estado Crítico" no jornal "Expresso" de Portugal. No Brasil, João Pereira Coutinho é colunista da "Folha de S.Paulo", onde escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. Seus artigos encontram-se reunidos no livro "Avenida Paulista", publicado em Portugal. Conheça também, o site mantido por J. P. Coutinho: "O Sítio".
E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com




Publicado na Folha Online.
Terça-feira, 05 de fevereiro de 2008.







Nem esmola, nem fortuna – Ternuma Brasília

Revelados os horríveis abusos das FARC a menores - Gonzalo Guillen (El Nuevo Herald)

Thursday, January 17, 2008

Uma fábula fabulosa: A "anta" e o "urubu".


































Depois daquela foto ou “O dever dos democratas”
por Reinaldo Azevedo

Antes de Fábio Luís da Silva virar um empresário milionário — o que aconteceu de 2003 para cá, depois que o pai virou presidente —, ele era monitor de jardim zoológico. O visitante queria ver a zebra. Lá ia Lulinha mostrar onde estava a zebra. “Cadê o jumento?” E Lulinha mostrava o caminho do jumento. “E a anta? Tem anta, moço?” E Lulinha demonstrava a sua intimidade com a morada das antas. Se fosse preciso, descrevia a sua dieta, hábitos, ciclo reprodutivo, tudo. Ele cansou de ver, em seu ofício original, a cena protagonizada por seu pai nos jornais de hoje: de câmera em punho, os visitantes saíam fotografando coisas que julgavam exóticas: aquele macaco que tem o traseiro colorido, o besouro vira-bosta, um bicho qualquer que se alimenta de carniça.

Foi o que fez Lula: fotografou o bicho exótico e moribundo Fidel Castro. Poderia ser o vira-bosta. Poderia ser um urubu. Poderia ser uma hiena. Mas é o vagabundo que se sustenta de carne humana. É o porco fedorento que sobreviveu no século 21. É o ditador desprezível que fuzila sem julgamento. É o norte (i)moral por trás do terrorismo das Farc. Ao fotografá-lo, diriam os otimistas, Lula evidencia que, mais do que exótico, o moribundo — rejeitado, por ora, até pelo inferno — é um animal em extinção. Assim, a sabujice do Apedeuta, o seu deslumbramento basbaque, corresponderia a uma antecipação da sentença de morte.

Infelizmente, não é bem assim. O ato de Lula evidencia como este pobre continente ainda está tomado pela estupidez ideológica. Vocês podem não acreditar, mas há um liame entre a genuflexão lulista ao carniceiro e o “Decreto Oi”, a Lei Fleury que Lula vai assinar para legalizar o negócio ilegal da venda da Brasil Telecom para a Oi. Eu explico.

A justificativa que se pretende “moral” para o ato imoral, já nos informaram seus biógrafos que dão plantão da imprensa, é criar a tal “plataforma nacional” para as teles, no melhor interesse do Brasil. Lula estaria, assim, vejam só, consoante com aquele a quem fotografa, defendendo o país dos interesses do grande capital estrangeiro, que viria aqui explorar os botocudos. Compreendem o nexo? O Babalorixá de Banânina seria um resistente, da safra desses gentis homens latino-americanos que fazem tudo pelo povo — precisando, eventualmente, da colaboração de Carlos Jereissati e de Sérgio Andrade, dois ilustres patriotas do capital nacional.

Mais do que isso: Fidel é o símbolo do parasitismo esquerdofrênico ainda presente no continente. Na Colômbia, ele encontrou na cocaína o seu sustento; no Brasil, faz tráfico com as leis de estado. Sim, Fidel é um cadáver político, é um cadáver moral e já é quase cadáver físico. Mas ainda procria. Na Colômbia, ele seqüestra e mata; no Brasil, rouba, esbulha a lei e invade propriedades privadas; na Venezuela, constrói o fascismo bolivariano.

A foto tirada por Lula significa uma escolha. E, por isso, é um dever moral dos democratas mobilizar todos os recursos que a lei oferecer para combatê-lo: de forma sistemática, organizada, contínua, inflexível.


Reinaldo Azevedo é formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Universidade Metodista, foi professor de literatura e redação dos colégios Quarup, Singular e do curso Anglo, foi também redator-chefe das revistas República e Bravo!, diretor de redação da revista Primeira Leitura, além de coordenador de política da sucursal de Brasília do jornal Folha de S. Paulo. Escreve freqüentemente sobre política nos jornais "O Estado de S. Paulo" e "O Globo". Reinaldo atualmente é articulista da revista "VEJA" e escreve o blog político mais influente da rede, "Blog Reinaldo Azevedo". Polêmico, irônico, ferino, Reinaldo Azevedo é autor dos livros "Contra o Consenso: Ensaios e Resenhas", pela Editora Barracuda, do best seller "O país dos Petralhas" e por último "Máximas de um País Mínimo", ambos da Editora Record.





Publicado no Blog Reinaldo Azevedo.
Quarta-feira, 16 de janeiro de 2008, 15h20.



































"É sempre bom lembrar que existe o Mal absoluto também na política. E ele merece nosso combate cotidiano, incansável, imperturbável. Não perca uma só chance de desmerecer o petismo. Você estará sempre certo".
Reinaldo Azevedo



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Thursday, November 22, 2007

Separados ao nascer?





























O espetáculo da ignorância
por Augusto Nunes

Ainda inconformado com a abstinência imposta pela reportagem do jornalista americano Larry Rother, o presidente Lula fica muito mais interessante quando desanda a falar depois de almoços em homenagem a forasteiros ilustres, sempre regados a vinho. Autorizado pelo cerimonial, o anfitrião ergue um brinde ao visitante e, até a hora da sobremesa, molha a garganta com três ou quatro taças. É a dose certa para lubrificar a garganta e destravar a língua de Lula.

Foi assim na quarta-feira passada, ao fim do almoço no Itamaraty em louvor do presidente da Guiné-Bissau. Alguns jornalistas estavam lá para saber o que Lula achara do incidente entre o rei Juan Carlos e o presidente Hugo Chávez. Como já deixara Santiago, o comandante do Aerolula não testemunhara o cala-boca. Mas um falante compulsivo não nega fogo.

Agarrado a generalizações e irrelevâncias, caminhou por alguns metros sobre o muro da neutralidade. De repente, sem que alguma pergunta inconveniente tivesse atrapalhado a travessia, o malabarista resolveu alterar a rota. Perdeu o equilíbrio e perdeu o rumo. "Podem criticar o Chávez por qualquer coisa, mas não por falta de democracia na Venezuela", esbravejou Lula, pronto para brigar com repórteres que, até então, não haviam criticado nem ligeiramente a reencarnação enlouquecida de Simón Bolívar.

Enquanto os ouvintes convalesciam do espanto, a ofensiva concentrou-se nos que resistem a chicanas constitucionais forjadas para perpetuar o inquilinato de Chávez no Palácio Miraflores. "Por que ninguém se queixa quando a Margareth Thatcher fica tanto tempo no poder?", quis saber. "E o Felipe González, o François Mitterrand, o Helmuth Kohl?". Um repórter ponderou que "são situações distintas": como se aprende no colégio, há diferenças consideráveis entre monarquias parlamentaristas, repúblicas que adotam o parlamentarismo puro e outras que confiam a chefia do governo ao primeiro-ministro sem reduzir o presidente a figura decorativa.

"Não tem nada de distinto", irritou-se o homem que, por ter driblado os estudos, não conhece esses assuntos nem de vista. "O que importa não é o regime, é o exercício do poder". Reduzido à sua essência, o falatório delirante era um recado ao Brasil: o presidente está louco por um terceiro mandato. E topa - se assim Deus mandar e se essa for a vontade do povo - passar a vida inteira no poder.

Faltou um Juan Carlos para recomendar-lhe que parasse de dizer bobagens. Faltou um José Luis Zapatero para ensinar ao onisciente de araque que existem diferenças abissais entre genuínas democracias e falsificações cucarachas. Faltou, sobretudo, uma voz que gritasse a verdade perturbadora: há quase cinco anos, o Brasil é governado por um homem que seria reprovado no mais singelo concurso público que incluísse uma prova de conhecimentos gerais.

Essa verdade se desdobra em outras duas. Primeira: nunca houve um presidente tão visceralmente ignorante. Segunda: ele é a cara do Brasil que o escolheu. Milhões de eleitores hoje se sentem dispensados de ler, estudar, pensar. O pastor não precisou de nada disso para chegar lá. Bastaram a intuição e a esperteza. Cumpre ao rebanho segui-lo.

O país está submerso na Era da Mediocridade. Enquanto não voltar à tona, Lula será o homem certo no lugar certo.


Augusto Nunes da Silva é jornalista, nascido em Taquaritinga, interior de S. Paulo, foi redator-chefe da revista Veja, diretor de redação das revistas Época e Forbes e dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora. Foi também apresentador do programa Roda Vida, da TV Cultura. Augusto Nunes escreveu diversos livros, entre os quais: "Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter" (livro de memórias de Samuel Wainer), "Tancredo" (biografia de Tancredo Neves), "O Reformador: um Perfil do Deputado Luís Eduardo Magalhães" e "A Esperança Estilhaçada", sobre a atual crise política, entre outros. É um dos personagens do livro "Eles Mudaram a Imprensa", da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que selecionou os seis jornalistas mais inovadores dos últimos 30 anos, além de ter ganho por quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente é colunista do Jornal do Brasil e apresentador do programa "Verso & Reverso" da TVJB.


Publicado no jornal "Jornal do Brasil".
Quarta-feira, 21 de novembro de 2007.



 
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