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Friday, February 11, 2011

R. I. P.




Morre em SP o jornalista Mauro Chaves
Articulista e editorialista do ''Estado'' desde os anos 80, dedicou-se também a teatro, cinema e mundo editorial

Vítima de insuficiência cardíaca, morreu ontem (10/02/2011), no Hospital Bandeirantes, em São Paulo, o jornalista Mauro Chaves. Articulista e editorialista do Estado e do Jornal da Tarde desde 1981 e, mais recentemente, comentarista político da TV Gazeta, ele tinha 69 anos. Deixa a mulher, Carmem, e três filhos. Está sendo velado no cemitério Gethsemani, onde será sepultado às 16 horas de hoje.

Dedicado aos temas da vida cultural e artística, Chaves esteve sempre voltado para múltiplos interesses. Formou-se em Direito pela PUC-SP, fez também Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas. Antes de seus 30 anos lançou seu primeiro livro, Três Contos Artificiais, e desde então se dedicou à criação de peças teatrais, aos livros, a produzir roteiros para o cinema e escrever crítica política e social. Em seus artigos e editoriais defendeu sempre posições liberais e denunciou abusos do Estado contra os direitos do indivíduo. Divertia-se, também, denunciando os modismos e o mau gosto no mundo do teatro e da mídia.

Aos 32 anos, em 1974, recebeu um prêmio especial do Serviço Nacional de Teatro pela peça Os Executivos - fruto da experiência acumulada como diretor de empresa. A peça foi encenada por Beatriz Segall e Ariclê Perez, com direção de Silnei Siqueira. Em Porto Alegre, ganhou o prêmio Secretaria da Cultura com a peça Alvará de Conservação. Produziu depois Adaptação do Funcionário Ruan, que lhe valeu o prêmio Pen Club. Outro trabalho, Contravérbios, na definição dele mesmo, "é uma reflexão sobre nossa linguagem, mas também sobre nossas belas e estúpidas incongruências".

No final dos anos 70, com o diretor Carlos Reichenbach e os atores Luiz Gustavo e Sandra Bréa, produziu Capuzes Negros. Em Cabeça e Corpo, em 1983, Chaves abordou os conflitos e as ironias da vida conjugal. É autor, também, de O Dólar Azul, O Virulêncio e do ensaio A Evolução das Ideias no Brasil, que teve como supervisor Azis Ab"Sáber.

Fonte: "O Estado de S. Paulo" – (Notícias)
Sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011




N da R. – É de autoria de Mauro Chaves o memorável artigo "Clube dos 16%" (BEM-VINDO! AO CLUBE DOS 16%. SEJA VOCÊ TAMBÉM UM SÓCIO-FUNDADOR) publicado no "Estadão" em 14/02/2009.


"REQUIESCAT IN PACE"




Facebook, o bem e o mal – Arnaldo Jabor







Saturday, February 14, 2009

BEM-VINDO! AO CLUBE DOS 16%.
SEJA VOCÊ TAMBÉM UM SÓCIO-FUNDADOR.









































ATENÇÃO! PARA SER ADMITIDO COMO INTEGRANTE PLENO DESTA SOCIEDADE,
VOCE PRECISA CONCORDAR INTEIRAMENTE COM OS ARTIGOS DO ESTATUTO ABAIXO:


CLUBE DOS 16%

Art. 1º: Fica constituída, com a denominação acima, a sociedade civil sem fins lucrativos, cuja finalidade é a de se recusar a aceitar o que dizem ser o pensamento dominante de 84% da população do País.

Art. 2º: Os integrantes desta entidade esclarecem que jamais foram entrevistados por qualquer instituto de pesquisa de opinião nem conhecem quem quer que seja que já tenha sido entrevistado por algum instituto de pesquisa de opinião ou já tenha ouvido falar da existência de alguma pessoa que já tenha sido entrevistada por algum instituto de pesquisa de opinião, que tenha manifestado sua opinião de aprovação a quem anunciam como detentor de 84% de opinião favorável da população.

Art. 3º: Os integrantes desta entidade aqui manifestam, claramente, sua adesão ao critério da valorização pelo mérito.

Art. 4º: Por critério da valorização pelo mérito aqui se entende o crescimento, o desenvolvimento e a elevação geral de padrão de existência da pessoa humana que decorra, fundamentalmente, do reconhecimento ao esforço de seu aprendizado e consequentes resultados.

Art. 5º: Os integrantes da entidade aqui constituída se recusam a aceitar o critério de cotas, de qualquer espécie, que substitua o mencionado critério de valorização pelo mérito, seja para ingresso em instituições de ensino, empresas estatais ou entidades de qualquer esfera da Administração Pública.

Art. 6º: Os integrantes da entidade aqui constituída são contrários à distribuição de quaisquer tipos de Bolsas que não sejam, exclusivamente, de estudo.

Art. 7º: Os integrantes da entidade aqui constituída não acham que é preconceito exigir preparo das pessoas públicas, especialmente daquelas que detêm as maiores responsabilidades de comando.

Art. 8º: Os integrantes desta entidade consideram que um alto dirigente público tem de possuir um acervo de conhecimentos suficiente para que não tenha de "comer pela mão" de subordinados - inclusive divergentes entre si - ou se submeter às pressões dos lobbies, cujos interesses frequentemente em nada se assemelham aos interesses da coletividade sobre a qual atuam.

Art. 9º: Os integrantes desta entidade não acham que é possível governar "de ouvido", tomar decisões com base apenas no que lhe cochicham os oportunistas, os áulicos ou os que ainda não se libertaram de um ideologismo rançoso, que só sobrevive graças ao sentido folclórico ou museológico que ainda mantém no mundo contemporâneo.

Art. 10º: Os participantes desta associação consideram que não deve haver vergonha ou sentimento de culpa pelo fato de se usar o vernáculo corretamente, observando-se a topologia pronominal, os tempos verbais e respeitando-se a exigência básica do vocábulo no plural, qual seja, a adoção da letra "s" ao final da palavra.

Art. 11: Os integrantes desta entidade não se sentem diminuídos pelo fato de eventualmente terem estudado em boas escolas e universidades, pois acreditam que isso, em vez de significar insulto pessoal aos que não tiveram a oportunidade de fazê-lo, lhes pode representar um desafio à busca de oportunidades semelhantes, pelo esforço redobrado do aprendizado, com o que tantos já cresceram, acima de todas as expectativas, próprias e alheias.

Art. 12: Por valorizarem o esforço pessoal do aprendizado e do trabalho é que os participantes desta associação não concordam com que grandes empresas façam negócios com filhos dos homens públicos mais poderosos, dando-lhes uma participação excepcional - que em nada corresponda às aptidões consignadas em seus respectivos currículos -, assim caracterizando um escandaloso tráfico de influência.

Art. 13: Os integrantes do clube ora constituído não concordam que tenham sido jogadas para debaixo do tapete todas as falcatruas do tipo mensalão, "recursos não contabilizados", sanguessugas, valeriodutos, dólares na cueca e catrevagens assemelhadas.

Art. 14: Os participantes desta associação consideram que também as famílias de pessoas brancas, heterossexuais e capazes de prover o sustento com o próprio trabalho devem ser julgadas normais, sem sofrer qualquer tipo de discriminação por suas opções.

Art. 15: Os membros do Clube constituído pelo presente instrumento consideram que são legítimos a posse e o desfrute de propriedades que eventualmente possuam, assim como julgam correta a oposição que façam a esbulhos que lhes pratiquem militantes de movimentos sociais de sem-terra.

Art. 16: Os integrantes do presente sodalício se recusam a participar de passeatas "pela paz", quando essas se realizam em razão de crimes horripilantes, especialmente os praticados contra jovens e crianças, visto que não é "paz", e sim punição rigorosa que merecem os facínoras que os cometeram, além do fato de os direitos humanos de suas vítimas também deverem ser respeitados.

Art. 17: Entendem os membros deste Clube que é uma aberração os criminosos cumprirem só um sexto de suas penas e a legislação brasileira se assemelhar a apenas três outras do mundo - da Venezuela, Colômbia e Guiné - ao estabelecer a responsabilidade penal dos facínoras somente quando estes completem 18 anos de idade, antes do que só podem receber "medidas socioeducativas" por suas atrocidades.

Art. 18: Os integrantes desta sociedade consideram Oscar Niemeyer um talentoso artista que faculta a presença de pessoas dentro de suas esculturas - chamadas de prédios -, mesmo que estas lá se sintam desprovidas de serviços não escultóricos, próprios das necessidades da natureza humana.

Art. 19: Os membros da associação ora constituída declaram ódio ao BBB.

Art. 20: Este Clube entra em funcionamento na presente data.


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Opinião).
Sábado, 14 de fevereiro de 2009.



A PROFISSÃO MILITAR

"Senhor, umas casas existem, no vosso reino onde homens vivem em comum, comendo do mesmo alimento, dormindo em leitos iguais. De manhã, a um toque de corneta, se levantam para obedecer. De noite, a outro toque de corneta, se deitam obedecendo. Da vontade fizeram renúncia como da vida.

Seu nome é sacrifício. Por ofício desprezam a morte e o sofrimento físico. Seus pecados mesmo são generosos, facilmente esplêndidos. A beleza de suas ações é tão grande que os poetas não se cansam de a celebrar. Quando eles passam juntos, fazendo barulho, os corações mais cansados sentem estremecer alguma coisa dentro de si. A gente conhece-os por militares...

Corações mesquinhos lançam-lhes em rosto o pão que comem; como se os cobres do pré pudessem pagar a liberdade e a vida. Publicistas de vista curta acham-nos caros demais, como se alguma coisa houvesse mais cara que a servidão.

Eles, porém, calados, continuam guardando a Nação do estrangeiro e de si mesma. Pelo preço de sua sujeição, eles compram a liberdade para todos e os defendem da invasão estranha e do jugo das paixões. Se a força das coisas os impede agora de fazer em rigor tudo isto, algum dia o fizeram, algum dia o farão. E, desde hoje, é como se o fizessem.

Porque, por definição, o homem da guerra é nobre. E quando ele se põe em marcha, à sua esquerda vai coragem, e à sua direita a disciplina".





IDADE DAS TREVAS – Maria Lucia Victor Barbosa"





Sunday, November 23, 2008

Animal de estimação "adestrado" pelo próprio "dono"!


































Como lidar com pato manco
por Mauro Chaves

O problema é que ele ainda não sabe que é pato e muito menos que é manco - se é que já ouviu falar dos lame ducks, apelido que os norte-americanos dão aos governantes em fim de poder. Ele não se sente esvaziado - e, se sentir, finge que não se sente. Não percebe ou finge que não percebe que suas ordens estão longe de ser prontamente atendidas, como antigamente. Até o cafezinho demora muito mais - e chega frio, faltando adoçante de envelope (vindo só o feio frasco de gotas). A displicência toma conta do seu gabinete - e dos seus Ministérios, e do seu governo. Mas ele ainda pensa que todos à sua volta continuam, como antes, concentrados 24 horas por dia para lhe agradar. É capaz de, meticulosamente, medir tudo, menos o grau de importância que ainda consegue preservar - mas que despenca a cada novo dia que o aproxima da planície.

É claro que um pato que tentou durante 20 anos entrar cinco vezes na lagoa - e o conseguiu em duas - se acostumou a desfrutar essas tentativas, até mais do que a própria lagoa. Mas não tendo encontrado quem possa suceder-lhe no comando da lagoa - e vendo-a só sobrevoada ostensivamente por outra espécie de ave, de bico grosso -, o pato manco se esforça por colocar em seu lugar alguém cuja rigidez de movimento de asas (à prova de qualquer treinamento com bambolê) mais se assemelha a uma estátua de ave do que a uma ave natural. De qualquer forma, foi o pato chefe que precipitou desastradamente a própria sucessão. Isso foi sua maior mancada - tanto que o tornou manco muito ante do tempo.

Quando o pato ainda era todo-poderoso e desfrutava popularidade recordista entre penosos e outros bichos de variada espécie, tinha todas as razões para se sentir acima de todos os bicos e asas. Fora favorecido, na lagoa, pelo elevado nível das águas que provinham de mananciais externos em excelente estado de vazão. Os patinhos que eram (ou se esforçavam para permanecer) mais raquíticos recebiam bolsas de milho sem precisar fazer nenhum esforço de catação. Muitos patos auxiliares faziam coisas feias nas bordas da lagoa - pegando porções que não lhes pertenciam e oferecendo milho extra e patuás de propinas para que alguns não os delatassem -, mas o pato chefe nunca sabia de nada, não tinha a menor idéia do que pudesse ocorrer de errado com seus subordinados, nem mesmo quanto ao milho não-contabilizado.

Por outro lado, sempre que algum pato companheiro procurava se destacar na lagoa, ou tentava disputar o poder com o chefe, tinha por este as asinhas cortadas, de uma forma ou de outra. Assim a lagoa ficou sob o domínio de um pato só, com a perspectiva de ser dominada não mais por pato algum - mas sim por um tucano que nunca parou de realizar seus vôos rasantes por sua superfície. E eis que, sem que bichos de espécie alguma esperassem, surgiu um tremendo tsunami (que o pato chefe, inicialmente, identificou como simples marolinha) que começou a arrasar muitos lagos vizinhos e se aproxima, perigosamente. Coincidiu a intempérie com o fato de o pato chefe estar na plena situação de pato manco. Os poderes totais de que este se sentia investido, o enorme sucesso pesqueiro que julgara ter obtido - e que "nunca antes havia ocorrido nesta lagoa" - passaram a escoar rapidamente por um bueiro que parecia invisível (mas de cuja existência, no fundo, todos desconfiavam).

Então, o que fazer? Como lidar com um pato manco que ainda acredita poder deslizar tranqüilo pela superfície da lagoa, no pouco tempo que ainda lhe resta para comandá-la, apesar do torvelinho que tem pela frente? A primeira coisa a fazer é procurar deixá-lo na ilusão de que ainda não é pato manco. Pois, se ele tiver consciência da própria patomanquice, é um perigo. Ninguém sabe como poderá reagir. Poderá sucumbir à tentação de fazer acordos até com alguns velhos urubus - o que seria péssimo para o processo de oxigenação da lagoa que se espera daqui a dois anos. Assim, não se pode deixar que saia da euforia habitual para entrar num processo de solidão que leve à depressão. É preciso que não perca a capacidade de festejo, nem a de comemorar até a vitória de campeão da segunda divisão - categoria, aliás, que marcou todo o seu governo da lagoa.

É preciso redobrar a paciência e aturar, com generosidade, a continuação das hipérboles, prosopopéias e antonomásias improvisadas, dos conselhos bombásticos a todos os dirigentes das lagoas do planeta, das tentativas de liderar as 20 maiores do mundo - em menoscabo das que são, efetivamente, as oito maiores. É preciso não se queixar quando ele repete e insiste nas excelências dos feitos de antecessores adversários como se tratasse dos próprios feitos, ou quando atribui a erros alheios o que, há pouco, comemorava como acertos seus.

É necessário reconhecer, sobretudo, as notáveis qualidades do que virou pato manco. Ele até conseguiu melhorar o volume de alimentos produzidos na lagoa, tamanho foi o sucesso em repetir e até aperfeiçoar o sistema de coleta alimentar feito por seu antecessor - embora nisso tenha empregado auxiliares demais que só nadavam e, mesmo assim, em águas não muito limpas. A enorme facilidade de comunicação foi outra qualidade que, durante a fase dos peixes gordos, só aumentou o prestígio do chefe. Foi ele quem demonstrou - "como nunca antes nesta lagoa" - a maior capacidade de aquisição de convencimentos: pois nunca antes se dissera tanto "eu estou convencido de que", nesta patuléia. Mas sua qualidade mais extraordinária foi a de ensinar a usufruir os maiores sabores da vida com a maior economia de esforços. Nisso ele foi, é e sempre será um autêntico mestre. E o resto é papo (de pato).


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Opinião).
Sábado, 22 de novembro de 2008.
















O monstro no fundo do abismo – J. R. Nyquist


The Monster at the Bottom of the Abyss – J. R. Nyquist





Monday, October 13, 2008

NÃO SOMOS CONDUZIDOS, CONDUZIMOS!










































São Paulo se conduz
por Mauro Chaves

Por ser um cadinho étnico-cultural que mistura todos os povos do mundo a brasileiros de todas as regiões do País, a cidade de São Paulo é influenciada por todos, mas preserva sua sólida autonomia, não se deixando levar por ninguém. Ninguém melhor do que os que vivem aqui para saber dos problemas de quem vive aqui. Foi considerando esse caráter, forjado na têmpera dos que daqui partiram para estender os limites do território nacional, que Guilherme de Almeida se inspirou ao inscrever no brasão desta cidade o lema "non ducor, duco". E a História tem comprovado que, efetivamente, São Paulo não é conduzida, mas conduz - e, sobretudo, se conduz. Com todo o respeito a Brasília, Garanhuns ou Caetés.

Foi se conduzindo, sem tutelas externas, que São Paulo se tornou a terceira cidade do mundo, com um PIB de R$ 144 bilhões. Foi sem ouvir palpites de fora que São Paulo alfabetizou 95,4% de sua população, construiu 205 hospitais, 120 teatros e casas de shows, 80 museus, 39 centros culturais, 12.500 restaurantes, 5 mil pizzarias, 72 shopping centers, 15 mil bares e 410 hotéis. São Paulo não precisou de opiniões de terceiros para realizar, anualmente, seus 90 mil eventos e feiras, nem para fazer funcionar suas 146 faculdades e 26 universidades, nem para agüentar suas mil academias de ginástica, suas 1.500 agências bancárias e até seus 5 mil pet shops. Por que, então, São Paulo precisaria ser "conduzida" (de fora) para escolher seus governantes?

É por São Paulo não ser conduzida que parece descabido - se não ridículo - o receio de o Planalto "mandar para cá dinheiro para ambulâncias que fica guardado no banco". Pois São Paulo não é de "se mandar dinheiro para cá" - como oferenda. São Paulo é que "manda dinheiro para lá" - para o resto do Brasil - com o volume de tributos federais gerados por sua produção. Mas se verbas repassadas são aplicadas antes de chegar o momento de serem gastas, isso se chama responsabilidade fiscal, que é o simples hábito de só se gastar quando já se tem com que pagar.

É um primitivismo patrimonialista, herdado dos piores momentos de nossa formação histórica, a idéia de que são as afinidades ou os compadrios políticos que determinam o repasse de verbas de uma entidade a outra - da União ao município, por exemplo. Usar isso como discurso eleitoral é entender a atividade de governo como transação de apaniguados, em que prevalece o companheirismo político sobre os verdadeiros princípios de interesse público, o que não passa de agressão à própria consciência de cidadania. Eis aí o velho critério da "intercessão", ou da influência do "pistolão", que serve tanto para as concessões de sinecuras quanto para as distribuições eleitorais de dinheiro público.

Coisas simples de São Paulo nem sempre são entendidas pelos de fora. A cidade que não é conduzida, mas se conduz, tem seus próprios códigos, sendo que o mais importante deles tem que ver com o respeito. O paulistano é, antes de tudo, um respeitador do espaço e da intimidade alheios. Não faz visitas sem avisar, não costuma se aboletar como hóspede na casa de parentes e amigos, não força intimidade. Sem disposição de parecer hospitaleiro, o paulistano não se deixa invadir nem invade a privacidade do próximo, não se mete em conversa para a qual não foi chamado. Mas, na hora da real necessidade, acode o outro sem hesitar, não mede esforços, é solidário ao extremo.

O paulistano tem um especial senso de proporção e equilíbrio. É discreto, mas não se incomoda com quaisquer indiscrições. É despreconceituoso em relação ao modo de vestir, de falar e de se comportar das pessoas, não "repara" como os outros estão e muito menos cochicha a respeito. Em São Paulo ninguém se choca com ninguém e ninguém debocha de ninguém. Certamente, aí está a riqueza ética da tolerância, de uma sociedade intensamente misturada. Mas é preciso que se descubra nos paulistanos a sutileza do código não escrito de respeito - nem sempre detectável pelos de fora.

Por exemplo, ao contrário do que ocorre em muitas outras capitais brasileiras, onde noite e dia os carros berram à vontade, ninguém buzina em São Paulo, a não ser em situação de risco ou emergência. Na infernal competição do trânsito, aqui também há um outro código curioso: se alguém quer passar de uma fila de carros para outra, "cortar" para virar numa esquina ou sair de uma vaga em que está estacionado, é impedido com manobras de "fechamento" por seus intolerantes "concorrentes". Mas é só se fazer um mínimo gesto de solicitação de passagem, um discreto pedido de "abre-alas", para se ser prontamente atendido, com boa vontade e, às vezes, generoso sorriso. Isso bem traduz a característica essencial da alma paulistana: ela exige respeito.

É a exigência de respeito que leva os paulistanos a apreciar muito a (atual) proibição de que alguns usurpem o espaço de todos - as calçadas invadidas pelos bares e camelôs, as ruas públicas fechadas como se fossem privadas, o descontrole de sons perturbadores da vizinhança, as pichações de todo gênero. E é a exigência de respeito que leva os paulistanos a apoiar tanto o Cidade Limpa - de que hoje, já acostumados, só nos damos conta quando visitamos outras cidades, tão visualmente poluídas como São Paulo era.

Quem quiser prestígio do eleitor paulistano não traga prestígio de fora. Muito menos se espetaculoso, barulhento, com carreatas, bandeiras e inusitados apelos da voz presidencial invadindo residências nas madrugadas, via telemarketing. O efeito será como o de um verdadeiro fermento da já "rejeição militante".


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Opinião).
Sábado, 11 de outubro de 2008.




Silêncio e Mistério – Olavo de Carvalho Pereira





Sunday, August 17, 2008

Brasileiros: Um "povo" desconfiado de si mesmo.










































Como confiar?
por Mauro Chaves

Segundo pesquisa do Instituto Vox Populi, apenas 3% dos brasileiros acham que é possível confiar nos outros. A muitos isso parece estarrecedor, porque nas democracias civilizadas esse porcentual de confiança chega a 65%. Mas encontrar no Brasil três pessoas (em cem) que confiem em algo já seria um portento, dado o volume descomunal de desconfiança que inspiram instituições, Poderes, governos, leis, pessoas públicas, entidades de classe, organizações não-governamentais, veículos de comunicação, campanhas de publicidade, gestões de universidades e tantas coisas mais.

O brasileiro é profundamente desconfiado porque sabe o que lhe acontece quando confia. Como confiar nas leis que permitem a um assassino condenado ser libertado depois de cumprir apenas 1/6 de sua pena - punição que reduz a vida humana a menos de 17% de seu valor? Aliás, por que 1/6 - e não um 1/5, um 1/7 ou 1/10? Será uma homenagem ao número da Besta, já que dividindo 100 por 6 dá 16,666...?

Como confiar no poder público, se altos funcionários, mesmo flagrados, filmados - e exibidos na televisão - no momento em que estão recebendo propinas ou roubando dinheiro público, impetram habeas-corpus e se livram da cadeia, a ela jamais retornando, por "falta de provas"? Como confiar na Justiça, se um sujeito mata premeditada e covardemente a colega ex-namorada pelas costas, dando-lhe outro tiro quando ela já está no chão, confessa o crime, é condenado e fica mais de oito anos livre leve e solto - como está Pimenta Neves?

Como confiar em "medidas socioeducativas" em benefício de facínoras - do tipo Champinha - só "recuperáveis" pela hipocrisia legal que, ao contrário das leis de todos os países do mundo (menos Guiné, Venezuela e Colômbia), estabelece maioridade penal apenas aos 18 anos, como se a capacidade de recebimento de informações e de desenvolvimento de consciência nos jovens de hoje fosse igual à de 70 anos atrás?

Como confiar nas mensagens publicitárias que afirmam que as pessoas podem ser persistentes, batalhadoras, guerreiras, capazes de vencer os obstáculos da vida e permanecer fiéis às suas origens só porque tomam cerveja Brahma - como os "brameiros" Zeca Pagodinho e Carlinhos Brown?

Como confiar nas religiões, se tantas e tantas delas se tornaram gigantescas caixas registradoras de "dízimos", vendendo escandalosamente indulgências pelo rádio e pela televisão, explorando com a máxima falta de escrúpulos a credulidade e a ignorância do povo?

Como confiar na Segurança Pública, se há polícias que matam (até crianças) antes de pedir documentos, enquanto outras fazem vista grossa aos que praticam todo tipo de violência, nas invasões, nos esbulhos, depredações, cárceres privados, saques de pedágios e de caminhões, matança de animais, vandalismos contra sedes de propriedades rurais e laboratórios de experimentação agrícola, como fazem os ditos "movimentos sociais", do tipo MST e assemelhados?

Como confiar numa medicina que chegou ao cúmulo da venalidade, a ponto de médicos falsificarem exames, venderem lugares na fila de transplantes de órgãos, condenando à morte os que não têm condições de satisfazer sua abjeta ganância financeira - como acontece com a fila de transplantes de fígado do Rio de Janeiro?

Como confiar em produtores de alimentos, cujo falta absoluta de escrúpulos os fez adulterar o alimento básico das crianças - o leite -, pondo em risco a saúde dos próprios filhos e netos, misturando ao leite substâncias nocivas ou capazes de reduzir o seu valor nutricional (do tipo soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, água, sal, etc.), para aumentar seu volume e o prazo de validade, como é o caso das cooperativas de produtores de leite denunciadas pelo Ministério Público de Uberaba, em Minas Gerais?

Como confiar em intelectuais "idealistas", que lutaram contra a ditadura militar, mas se locupletaram com indenizações inacreditavelmente milionárias, como jamais se viu em país redemocratizado algum do mundo, nem em benefício de vítimas de genocídio?

Como confiar em valores da família, se as famílias são sempre apresentadas, nas "melhores" novelas de televisão, como verdadeiras aberrações antropológicas, sem traços de conexão afetiva, mas apenas como amontoados grupais de golpistas e portadores de ambições criminosas?

Como confiar em relações amorosas consistentes, se a comunicação eletrônica de massas massifica ao máximo o sexo barato, sem qualquer dignidade, banalizando ao extremo as ligações pessoais, a ponto de a sociedade poder ver-se pelo cretino buraco de fechadura dos BBBs da vida?

Como confiar numa internet infestada de grandes falsários, que adulteram textos alheios, violentam conceitos, opiniões e pesquisas, sob a camuflagem covarde do anonimato?

Como confiar na universidade, se importantes docentes permitem - e defendem até quanto podem - um reitor que desviou verbas destinadas à pesquisa científica para um esbanjamento decorativo doméstico, bem sintetizado na compra, com dinheiro público, de latas de lixo de quase R$ 1 mil e saca-rolhas de R$ 849?

Como confiar em organizações não-governamentais, com tanta pilantropia à solta e abnegados de causas "sociais" com bolsos cada vez mais cheios de subsídios governamentais?

Como confiar numa classe política que produz, impunemente, mensaleiros, sanguessugas, vampiros, aloprados, portadores de dólares na cueca e pornográficos cartões corporativos?

Quem souber como confiar em tudo isso é favor melhorar nossas estatísticas - e retirar-se do grupo dos gatos escaldados, formado por 97% da população brasileira.


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Sábado, 16 de Agosto de 2008.




QUEM AGÜENTAR VERÁ - O Dia do Juízo Final – Gen Valmir Fonseca Azevedo Pereira





Saturday, April 26, 2008

Menina Isabella Nardoni: Nesses casos há sempre uma "terceira pessoa".

Foto: "Gollum", personagem da série "O Senhor dos Anéis", o nome é uma forma flexionada da palavra "gull",
que em norueguês arcaico significa "ouro", ou seja: "ouro, tesouro, algo precioso", em suma dinheiro (pensão).
Eis o principal motivo por trás do monstruoso crime. O resto é pura falácia.











































O direito ao absurdo
por Mauro Chaves

Ainda mais chocante, enojante e revoltante do que o fato de acusados de crime monstruoso alegarem inocência ante as evidências mais acachapantes que os incriminam é o fingimento, o cinismo, a representação (mesmo que de canastrões) em que se mostra o "como se fosse" como o que é. No entanto, na esfera do Direito Penal isso não é novidade alguma. Como os acusados exercem o pleno direito de mentir, para não se incriminarem - e esse é um nó ético que ordenamento jurídico algum já conseguiu desatar -, e como a dúvida sobre a culpa sempre pode favorecer aos mais abjetos facínoras, dentro do princípio in dubio pro reo, a prática advocatícia de defesa não encontra limites na ilogicidade de certas "inocências".

A estratégia preferida da defesa é produzir dúvidas. É negar a autoria sempre, jamais confessar, porque, permanecendo alguma dúvida (por menor que seja) quanto à culpa do réu, ele terá chances melhores de recursos ou de diminuição de penas, mesmo se condenado. E até correrão menos riscos de linchamento - fora ou dentro das prisões - os acusados de crimes horripilantes, como o que vitimou a menina Isabella, se restar alguma dúvida sobre a sua autoria.

Em lugares de penas mais severas, como nos 38 (entre os 50) Estados norte-americanos que adotam a pena capital, muitas vezes a confissão é obtida mediante negociação - em que o criminoso, por exemplo, ao admitir a culpa, troca uma pena de morte por 40 anos de reclusão. Mas num país como o nosso, em que o sujeito condenado a 30 anos (coisa raríssima) é libertado (se primário) depois de cumprir apenas 5, em razão da aberração legal que reduz a um sexto a punição, até das mais terrificantes maldades que pode praticar um ser humano, o que pode ser oferecido, de substancial, em troca da confissão de um réu, para dele se obter a verdade? Quanto vale a redução de uma pena automaticamente redutível?

É claro, então, que, em termos de custo-benefício, mentir deslavadamente, contra todas as evidências de culpa, é sempre o melhor negócio nestes tristes trópicos - pelo menos no âmbito criminal. E nisso muitos advogados criminalistas revelam um talento dramatúrgico extraordinário, ao montarem para seus clientes, com absoluto sucesso absolutório, enredos mirabolantes - como no caso da Rua Cuba e em tantos outros semelhantes.

Há alguns anos, numa mesa de bar, uma advogada criminal me contava, entusiasmada, a absolvição que tinha conseguido para um cidadão que matara a mulher com nove facadas. Essa advogada era filha de quem tinha sido um dos mais brilhantes promotores de Justiça de São Paulo, com atuações memoráveis no Tribunal do Júri. Quando lhe perguntei se seu cliente lhe tinha confessado a autoria, ela respondeu que sim, mas não deu importância alguma a isso. O importante, para a advogada, fora a tremenda historinha que ela inventou e com a qual, contra todas as evidências, "colocou sérias dúvidas no bestunto dos jurados", como me disse. Perguntei-lhe, então, se aquilo não era mais um trabalho de ficcionista, de dramaturga, do que de advogada, ao que ela, num arfar inflado de doutrinas politicamente corretas, pontificou sobre o "sagrado direito de defesa" da pessoa, no que o advogado defensor deveria mergulhar por inteiro, pois não lhe cabia considerar o que era ou o que não era a verdade. Não se tratava, assim, de buscar atenuantes para o criminoso confesso, mas sim de impedir que ele virasse réu confesso - e para isso valia utilizar a estratégia da pura, simples e descarada mentira.

É verdade que, se um certo direito ao fingimento, à mentira, ao absurdo sempre permaneceu como uma inevitável excrescência ética de nossa práxis processual penal, de algum modo isso se continha dentro de certos limites. Acontece que a quebra geral de valores que tem acometido a sociedade brasileira, nos últimos tempos, pela influência exemplar dos que, nas esferas mais altas do poder, mentem descarada e impunemente, inventam eufemismos (do tipo “recursos não-contabilizados”, "erros administrativos", “banco de dados”) para "substituir" crimes, mesmo sabendo que isso não convence ninguém (com o que pouco se estão lixando), tudo isso parece quebrar, no organismo social, a resistência à indecência. A partir daí, todas as explicações inverossímeis, as justificativas absurdas, as defesas sem nexo, as afirmações notoriamente contra os fatos passam a ser usadas sem a menor cerimônia, sem qualquer laivo de vergonha.

É claro que perante as câmeras da televisão, nestes tempos de Big Brother, em que a vida real e a representação se misturam num amálgama de exibicionismo compulsivo, indigência mental e desvalorização absoluta da dignidade humana, o "direito" ao fingimento, à mentira, ao cinismo e ao absurdo apenas se potencializa, dentro do jornalismo-espetáculo. Aliás, aqueles que lançam as maiores diatribes contra o comportamento da mídia, acusando-a (não sem razão) de explorar as emoções resultantes das desgraças humanas, para segurar boa audiência, são os maiores cativos dessa audiência, procurando sempre, no controle remoto, o canal que está conseguindo exibir o que é mais chocante. Mas isso também faz parte do "direito" vigente ao fingimento e à hipocrisia.

Apesar de tudo, sejamos otimistas e consideremos que o fundo do poço é o melhor lugar para se obter impulso para sair dele. O sacrifício de uma linda menina de 5 anos, da maneira mais escabrosa que jamais alguém poderia imaginar, simboliza o fundo do poço moral a que chegou a sociedade brasileira. Então, que a imagem da pequena Isabella, com seu sorriso de doce inocência, seja para nós uma inspiração, na penosa reconstrução de nossos valores.


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Sábado, 26 de abril de 2008.




Nós, os imperialistas – João Mellão Neto





 
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