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Sunday, June 26, 2011

BRASILEIROS: DEFORMADOS MORAIS CRÔNICOS !





Desonestidade é cultura
por João Ubaldo Ribeiro

Sempre se tem cuidado com generalizações, para não atingir os que não se enquadram nelas. Às vezes o sujeito odeia indiscriminadamente toda uma categoria, mas, ao falar nela e, principalmente, ao escrever, abre lugar para as exceções, os "não-são-todos" e ressalvas hipócritas sortidas. Outros recorrem a gracinhas, como na frase do antigamente famoso escritor Pitigrilli, segundo a qual "as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor". No caso presente, decidi que as generalizações feitas hoje excluem todos os leitores, a não ser, evidentemente, os que desejem incluir-se - longe de mim contribuir para aumentar nossa tão falada legião de excluídos.

Antigamente, era muito comum ler ensaios e artigos escritos por brasileiros em que nós éramos tratados na terceira pessoa: o brasileiro é assim ou assado, gosta disso e não gosta daquilo. Em relação a maus hábitos então, a terceira pessoa era a única empregada. O autor do artigo escrevia como se ele mesmo não fizesse parte do povo cuja conduta lamentava. Até mesmo nas conversas de botequim, durante as habituais análises da conjuntura nacional, o comum era (ainda é um pouco, acho que o boteco é mais conservador que a academia) o brasileiro ser descrito como uma espécie de ser à parte, um fenômeno do qual éramos apenas espectadores ou vítimas. Eu não. Talvez, há muito tempo, eu tenha escrito dessa forma, mas devo ter logo compreendido sua falsidade e passei a me ver como parte da realidade criticada. Individualmente, posso não fazer muitas coisas que outros fazem, mas não serei arrogante ou pretensioso, vendo os brasileiros como "eles". Não são "eles", somos nós.

Creio que, feita a exceção dos leitores e esclarecido que estou falando em nós e não em inexistentes "eles", posso expor a opinião de que fica cada vez mais difícil não reconhecer, vamos e venhamos, que somos um povo desonesto. Não conheço as estatísticas de países comparáveis ao nosso e, além disso, nossas estatísticas são muito pouco dignas de confiança. Mas não estou preparando uma tese de mestrado sobre o problema e não tenho obrigação metodológica nenhuma, a não ser a de não falsear intencionalmente os fatos a que aludo e que vem das informações e impressões a que praticamente todos nós estamos expostos.

Claro, choverão explicações para a desonestidade que vemos, principalmente nos tempos que atravessamos, em que a impressão que se tem é de que ninguém é mais culpado ou responsável por nada. Há sempre fatores exógenos que determinaram uma ação desonesta ou delituosa. E, de fato, se é assim, não se pode fazer nada quanto à má conduta, a não ser dedicar todo o tempo a combater suas "causas". Essas causas são todas discutíveis e mais ainda o determinismo de quem as invoca, que praticamente exclui a responsabilidade individual. E, causa ou não causa, não se pode deixar de observar como, além de desonestos, ficamos cínicos e apáticos. Contanto que algo não nos atinja diretamente, pior para quem foi atingido.

Ninguém se espanta ou discute, quando se fala que determinado político é ladrão. Já nos acostumamos, faz parte de nossa realidade, não tem jeito. Alguns desses ladrões são até simpáticos e tratados de uma forma que não vemos como cúmplice, mas como, talvez, brasileiramente afetuosa. Votamos nele e perdoamos alegremente seus pecados, pois, afinal, ele rouba, mas tem suas qualidades. E quem não rouba? Por que todo mundo já se acostumou a que, depois de uma carreira política de uns dez anos, todos estão mais gordinhos e com o patrimônio às vezes consideravelmente ampliado? Como é que isso acontece rotineiramente com prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, ministros e quem mais ocupe cargo público?

Os políticos, já dissemos eu e outros, não são marcianos, não vieram de outra galáxia. São como nós, têm a mesma história comum, vieram, enfim, do mesmo lugar que os outros brasileiros. Por conseguinte, somos nós. Assim como o policial safado que toma dinheiro para não multar - safado ele que toma, safados nós, que damos. Assim como o parlamentar que, ao empossar-se, cobre-se de privilégios nababescos, sem comparação a país algum.

Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de "suspeitos" confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de "suspeitos" confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.

Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.


João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941. Iniciou no jornalismo trabalhando como repórter no Jornal da Bahia e, tempos depois, tornou-se editor-chefe do Jornal A Tribuna da Bahia. Com seu livro, Sargento Getúlio, de 1971, ganhou o Prêmio Jabuti. Morou nos EUA, em Portugal e na Alemanha. Participou de adaptações de textos seus e de terceiros para televisão e cinema e foi premiado e homenageado em várias partes do mundo. Atualmente assina textos semanais nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. É um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, autor de clássicos como Viva o Povo Brasileiro, que já superou a marca dos 120 mil exemplares vendidos e é membro da Academia Brasileira de Letras. Escreveu mais de 15 livros, traduzidos em 16 países.



Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" – (Cultura).
Domingo, 23 de junho de 2011.





CAPISCI MALEDETTO ? – Bootlead







Tuesday, March 10, 2009

A Praça dos Três Poderes: O tricéfalo "Cérbero" * com seu apetite insaciável.

Ilustração: "Cérbero" de Paul Gustave Doré para a Divina Comédia.

































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Antessala do inferno
por João Ubaldo Ribeiro

Não está na moda acreditar no inferno, mas encaro isso com suspeita, pois não dizem que a maior vitória de Satanás é não acreditarem nele? Aliás, atrevendo-me a adivinhar a estratégia do Inimigo, imagino que deve ser assim mesmo, pois ao desdenhar da sua dele existência e das penas avernais, seus prepostos e futuras almas sob seu domínio vão fazendo o trabalho dele sem lhe dar cuidados. A expressão "estar como o Diabo gosta" deixa de ser brincalhona e passa a aplicarse seriamente ao Brasil. Correndo o risco de soar cínico, chego a sugerir que a crença na existência do inferno seja fomentada pelos óbvios descrentes que nos governam. (Ou então creem, mas acham que Deus olha para o outro lado e não os vê nas muitas horas em que estão perpetrando todo tipo de bandidagem; e, claro, confiam em que a misericórdia divina é infinita, esquecendo que é infinita, mas não otária.) Funcionaria, se é que não já funciona, como excelente ópio do povo. Acreditar no inferno pode ser, para muitos brasileiros, a única maneira de manter uma relativa sanidade mental. Já se viu que, neste vale de lágrimas, os salteadores que se instalaram em todos os poderes, em todos os níveis, em todos os graus desta federação de meia-tigela, nunca vão pagar por nada. Por conseguinte, resta ao cidadão ultrajado, roubado, menosprezado e vilipendiado botar fé em que Satanás, mais dia menos dia, cuidará do assunto à sua maneira.

Não foi à toa que, como é mostrado no livro de Jó, Deus criou Satanás e tem uma certa curiosidade paternal sobre ele e suas realizações — vamos dizer que o acha um mal necessário.

Talvez até não seja tão ridículo assim imaginar um inferno como nas ilustrações de Gustave Doré para A Divina Comédia, ou mesmo pior, com lagartões comendo o sujeito vivo, poças de excremento onde se é obrigado a chafurdar ("saíste do metafórico para o literal", poderá brincar um diabão letrado, ao aplicar esse tratamento no próximo senador que for dar com os costados lá), tentar dormir em catres permanentemente úmidos, frios, cheios de pulgas, aranhas, baratas e ratazanas, com o sono frequentado por pesadelos medonhos.

Por que não? Todo homem constrói seu próprio inferno e, se é assim que pensa no inferno um desses meliantes, assim seu inferno será.

Peço desculpas pela teologia de botequim, mas creio estar dando minha contribuição para a estabilidade social do país. Existe inferno, tem que existir.

Inicialmente, pensei em tomar emprestada a expressão aplicada por um senador ao Congresso Nacional (ou somente ao Senado, não tenho certeza, mas me responsabilizo pela extensão): casa de tolerância. Mas depois pensei na grande injustiça contra as prostitutas assim cometida pelo senador e não quis repeti-la aqui. Não estou fazendo graça, não, é uma injustiça mesmo. Quantas prostitutas (só estou tratando das profissionais, as idôneas) se locupletaram do dinheiro público? Quantas prostitutas afanaram verbas destinadas a obras de saneamento, merendas escolares e todo tipo de programa, até mesmo os destinados a matar a fome dos mais miseráveis? Ou seja, quantas prostitutas encheram o pandulho às custas da fome de uma criança? Quantas prostitutas mantêm escravos a seu serviço? Quantas prostitutas mentem como rotina, se valem de truques jurídicos para tirar o toba da seringa e enriquecem por fraude, concussão, advocacia administrativa e todo tipo de tramoia concebível? Quantas prostitutas têm entrada na polícia ou respondem a processos criminais, descontando-se que não têm imunidade nem foro especial e são tratadas com santimonial hipocrisia até pelos fregueses? Quantas prostitutas contribuem todos os dias para a descrença geral, o cinismo, a desmoralização das instituições democráticas, o "cada um cuide de si", "farinha pouca, meu pirão primeiro", "se eu não meter a mão, neguinho vem e mete", "vassífu o avião, que eu não sou piloto" e mais lemas que hoje orientam nosso comportamento? Será exagero aqui do poeta oferecer a hipótese de que o Brasil tem muitíssimo melhor exemplo em suas putas que em seus parlamentares? Os congressistas talvez se enganem um pouco com a imagem do Congresso e de seus membros. Enganamse para melhor, pois pouco falta para, na usança popular, político, deputado, senador, vereador etc. virarem sinônimos perfeitos de ladrão esperto e impune. Pelo interior do Brasil, já há muita gente apelidada pejorativamente de Político ou Deputado e sei de pelo menos um proprietário de jegues, Luíz Olegarino, lá de Itaparica, que se recusa a chamar seus animais de qualquer nome que, mesmo remotamente, lembre políticos.

"O bichinho nasce e eu vou logo difamando?", diz Luís.

Ninguém os respeita. Pela frente, sim, a maior parte com medo de desagradar à autoridade. Fomos, quase todos nós, criados para ter uma postura subserviente diante da autoridade e agir como se o ocupante de cargo público não existisse para servir ao cidadão. Outra parte por puxa-saquismo.

E ainda outra parte por admiração, pois considera a política, conforme o exemplo vindo de cima, o caminho mais seguro para o sujeito "se fazer". Tanto assim que se contam nos dedos os políticos que não encerram a carreira com o patrimônio opulentamente engordado, tudo dentro desta "legalidade" indecente, que não se faz nada para mudar. A coisa pública é conduzida como feudo, aceita-se tudo e não se responde por nada, dentro de um sistema podre, imoral e delinquente, sem valores que não os da pilhagem, sem ética que não a do silêncio conivente, sem ideal que não a prosperidade pessoal.

O país é governado por decretosleis com o nome artístico de medidas provisórias.

O Congresso, para o povo, não é nada, não serve para nada além de roubar e dar despesa. E ainda falam em imagem. Nem se olhem no espelho, que o espelho ou quebra ou cospe em vocês. E, sim, o inferno existe, pensem nisso.

*NR. Na mitologia grega, Cérbero ou Cerberus (em grego, Kerberos = "demônio do poço") era um monstruoso cão de três cabeças e cobras ao redor do pescoço que guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem. Em "A Divina Comédia" de Dante Alighieri, Cérbero aparece no Inferno dos Gulosos.


João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941. Iniciou no jornalismo trabalhando como repórter no Jornal da Bahia e, tempos depois, tornou-se editor-chefe do Jornal A Tribuna da Bahia. Com seu livro, Sargento Getúlio, de 1971, ganhou o Prêmio Jabuti. Morou nos EUA, em Portugal e na Alemanha. Participou de adaptações de textos seus e de terceiros para televisão e cinema e foi premiado e homenageado em várias partes do mundo. Atualmente assina textos semanais nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. É um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, autor de clássicos como Viva o Povo Brasileiro, que já superou a marca dos 120 mil exemplares vendidos e é membro da Academia Brasileira de Letras. Escreveu mais de 15 livros, traduzidos em 16 países.


Publicado no jornal "O Globo".
Domingo, 08 de março de 2009.




NEM TUDO ESTÁ DOMINADO – A DECISÃO DO CONFRONTO NECESSÁRIO I e II – Geraldo Almendra





Saturday, March 07, 2009

Seria o Congresso Nacional o nosso Karni Mata* (Templo dos Ratos)
e os deputados e senadores nossos "kabas" (ratos)?

Ilustração: © Revista Exame – Edição nº 0853 de 12/10/2005 por Dálcio Machado.
































Bombaim é aqui
por Nelson Motta

Além da grande diversão que me proporcionam as histórias de Glória Perez, os cenários deslumbrantes e a cultura indiana, toda vez que assisto a "Caminho das Índias" penso nos políticos brasileiros. Eu sempre penso neles.

Ah, como eles adorariam que aqui houvesse um sistema de castas com 50 milhões de dálits, de intocáveis - os excluídos dos excluídos. Para lutar por seus direitos e ganhar seus votos. Quantas ONGs, com dinheiro público, os dálits teriam no Brasil?

A bolsa-dálit seria imediatamente instituída, seriam criadas cotas para dálits em universidades, serviços públicos e até em empresas privadas. Para os dálits indianos, o Brasil seria o paraíso. E não haveria novela de Glória Perez.

Uma parte dos nossos políticos seria da casta dos xátrias, que nasceram dos braços de Brahma, como os militares e os governantes; outra dos vaixás, que saíram das pernas do criador, como os comerciantes e os agricultores; ou dos sudras, que saíram dos pés do deus como operários e camponeses; raros seriam brâmanes, que saíram da boca da divindade, como sacerdotes, filósofos e professores. Os companheiros dálits seriam apenas a poeira sob os pés de Lula, epa!, de Brama. Não da cerveja, do deus. Aqui, dálits unidos jamais seriam vencidos.

A organização familiar indiana, com filhos e netos morando com o patriarca, que tem autoridade absoluta, deve dar água na boca de nossos políticos. Principalmente porque o nepotismo na Índia é a regra, família trabalha com a família: caixa único.

Outro objeto de desejo deve ser a tradição de casamentos arranjados e negociados pelas famílias, em bens e em dinheiro vivo, que não chega a ser novidade na política brasileira, mas poderia ser usada de forma mais prática, em alianças eleitorais legais, à prova de TRE. Casamento por amor é coisa de novela.

Mas os políticos que assistem a "Caminho das Índias" devem tomar cuidado. Alguns podem se impressionar com as crenças hinduístas na reencarnação, no carma de cada um, e serem acometidos por pesadelos em que acordam como um chacal, uma hiena ou uma ratazana, zanzando pelo plenário, de paletó e gravata. Are baba!

*NR. O Templo dos Ratos - Karni Mata que fica no Estado do Rajastão (Índia), é considerado um dos locais santos dos hindus da Índia. Para os hindus, o templo é o local que habita Karni Mata - que seria a reencarnação de Durga - deusa do poder e da vitória e também para reverenciar os ratos (chamados Kabas), que são adorados e bem alimentados. Os hindus crêem que os corpos dos ratos sejam "casas" para as almas dos devotos de Karni Mata que já morreram.


Nelson Cândido Motta Filho, nascido em São Paulo em 29/10/1944, é jornalista, compositor, escritor, roteirista e produtor musical. Nelson Motta também já dirigiu shows no Brasil e no exterior e produziu discos de Elis Regina, Marisa Monte, Gal Costa, Daniela Mercury, entre outros. Nelson foi diretor artístico da gravadora Warner Music/Brasil, produtor da Polygran/Brasil, integrou por oito anos a mesa do programa "Manhattan Connection", da GNT/Globo, é também comentarista do noticiário "Jornal da Globo", além de colunista no jornal "O Globo". Nelsinho como é chamado pelos amigos, é autor do livro/biografia "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", afora ser o criador e "management" do site/revista musical online "Sintonia Fina".



Publicado no jornal "O Globo".
Sexta-feira, 06 de março de 2009.




"Consciência social de brasileiro é medo da polícia" – Arnaldo Jabor





Seria o Congresso Nacional o nosso Karni Mata (Templo dos Ratos) e os deputados e senadores os "Kabas"?

Wednesday, February 04, 2009

O caráter de um povo, deve ser julgado pelo tipo de pessoas que elege.










































O banquete de migalhas de Sarney e Temer
por José Nêumanne

O PMDB está em festa: três meses depois de ter comemorado um amplo triunfo nas eleições municipais de outubro de 2008, entra em 2009 refestelado nas presidências da Câmara e do Senado. Ou seja, fez barba, cabelo e bigode! Como 11 entre 10 comentaristas políticos em atividade na imprensa, no rádio e na televisão consideram que os pleitos municipais de 2008 foram o vestíbulo e da composição das Mesas dirigentes das duas Casas do Congresso Nacional se tece o capacho (nunca antes uma palavra foi tão bem usada em todos os sentidos, modéstia inclusa) da eleição de 2010, enfim, estará o partido da resistência civil à ditadura militar pronto para assumir o poder na República, do qual foi apeado pela vontade do povo desde que José Sarney saiu do Palácio do Planalto. Mas esta será uma afirmação tão autêntica quanto a natureza peemedebista do "novelho" presidente do Senado.

O caso é que o PMDB não ganhou as eleições municipais. A aritmética de sua vitória renega aquele princípio matemático segundo o qual não é correto somar laranjas com bananas, pelo fato elementar de que, ao serem somadas, laranjas não passam a ter gosto de banana e vice-versa. Não se pode falar em vitória nacional de um partido num pleito municipal, seja na Suíça ou no Paraguai. Quanto mais num país do tamanhão do nosso! Mesmo tendo vencido a eleição no segundo maior município do País, São Sebastião do Rio de Janeiro, com um candidato tão puro-sangue quanto o maranhense do Amapá, o ex-tucano Eduardo Paes, e ainda que faça parte da coligação vencedora no maior de todos, São Paulo de Piratininga, desde os primórdios da disputa, nada há a ser comemorado pelo PMDB. Ou melhor: há, sim! Composto por gatos e sapatos que não se entendem nem se toleram, o PMDB tem mais é de cantar vitória para valorizar o próprio peixe. Os outros dirigentes políticos que tratem de separar a verdade da falsidade para não comprarem gato por lebre. Nós outros, que não temos cargos a distribuir nas províncias nem na capital, é que nada temos a ganhar numa festa em que o penetra se comporta como anfitrião e este se finge de morto só para dele tirar o pior.

O domínio do Poder Legislativo pelo maior aliado do governo, seja qual for o governo, não diz respeito à cidadania, tampouco à disputa decisiva que se dará em 2010, quando forem disputados os governos estaduais e a maior joia da coroa, a Presidência. Aí, o PMDB ganhará o prêmio que merece no cenário político nacional: o Oscar de coadjuvante de qualquer vencedor de uma eleição de verdade. Ora, dirão os "idiotas da objetividade", Itamar Franco militou no PMDB e foi presidente da República. Sim, mas a situação atual não pode ser comparada com a da Nova República, quando Sarney reinava no Planalto e o dr. Ulysses dava as cartas na Praça dos Três Poderes. Como Sarney, saído da cúpula do partido que servia à ditadura, a Arena, para ser vice de Tancredo, que voltara ao PMDB após haver fundado o PP com o arqui-inimigo Magalhães Pinto, Itamar era vice - do ressurreto Collor - e, portanto, desembarcou na Presidência sem um mísero votinho que sequer aquecesse o chá das 5 das velhinhas inglesas. Agora mandando de novo no Congresso e sem candidato à Presidência, o PMDB se manterá mordomo, mas tão cedo não vai ser castelão.

A vitória de Sarney no Senado e de Michel Temer (SP) na Câmara só confirma a velha vocação que o Parlamento tem no Brasil de bem servir aos senhores do Poder Executivo. Assim foi sempre, à exceção da chamada Nova República, quando o multipresidente do partido, da Constituinte e da Câmara amarrou seu cavalo no mastro da bandeira e deixou ao noviço maranhense as pompas e circunstâncias dos toques de corneta no Alvorada. Em nossa meia-democracia das urnas, o poder popular expresso pelo voto, legítima manifestação de soberania, é atenuado, ou melhor, moderado, como já se dizia no Segundo Império, pelo método de representação escolhido.

O voto proporcional para a Câmara dos Deputados, na qual em teoria o poder popular seria exercido por representação, evita cuidadosamente a interferência do cidadão incômodo. O truque para escamotear a possibilidade de intromissão do populacho nas decisões tomadas pelas elites dirigentes da burguesia patronal, da casta sindical e das cúpulas partidárias também é facilitado pela forma como funciona o Senado Federal. A igualdade aritmética das bancadas de Estados díspares em tamanho, população e importância econômica ajuda a diluir o poder popular num caldo grosso e insípido de interesses paroquiais e ambições classistas. Sarney e Temer passam a ser os encarregados de mexer essa poção.

Isto pode ser muito bom para eles e para os cupinchas que dividirão com ambos as mordomias deste poder de fancaria. Mas nada significa nem para o poder real, que será disputado daqui a dois anos, nem para a cidadania, que se manifestará nas urnas e, depois, se recolherá ao silêncio, "bestializada", como definiu o historiador José Murilo de Carvalho, até a eleição seguinte, em 2014. Em 2010, e depois de quatro em quatro anos, a cidadania escolherá seu chefe e este terá entre seus poderes os instrumentos de cooptação dos parlamentares que, na mesma ocasião, a mesma cidadania escolher. É melhor que o arbítrio das ditaduras civis e militares de antanho. Pode até ser melhor que as farsas passadas do Império moderado ou das eleições de bico de pena da República Velha. Ninguém duvida. Mas é algo bem diferente de uma democracia de verdade, com instituições impessoais, Poderes autônomos, recall e transparência na gestão e, sobretudo, na manipulação dos bens públicos.

O PMDB tem o direito de festejar as migalhas no banquete dos poderosos de verdade. Nós, não! Ainda temos um imenso deserto de homens e ideias a percorrer.


José Nêumanne Pinto é um escritor, jornalista e poeta, nascido em Uiraúna (PB), em 18 de maio de 1951. Começou sua carreira jornalística no "Diário da Borborema", Campina Grande (PB), como repórter em 1968. Recebeu os prêmios Esso de Jornalismo Econômico em 1975, pela série "Perfil do Operário Brasileiro Hoje" e o Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva, também em 1975, pela reportagem "Éder Jofre e o Boxe Brasileiro". Nêumanne foi colunista, com um artigo semanal sobre Brasil na edição em castelhano do jornal "Miami Herald" . Atualmente reside em São Paulo, onde é articulista periódico do jornal "O Estado de S. Paulo" e editorialista do "Jornal da Tarde", além de publicar seus artigos em diversos órgãos da imprensa nacional. Como escritor José Nêumanne tem diversos livros publicados, também é editor do blog "Estação José Nêumanne" sobre poesia, jornalismo e literatura. E-mail: neuman@estado.com.br


Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" – (Editorial Opinião).
Quarta-feira, 04 de fevereiro de 2009.




Leia também: Não é fácil ser Obama – João Mellão Neto



Sunday, November 23, 2008

Animal de estimação "adestrado" pelo próprio "dono"!


































Como lidar com pato manco
por Mauro Chaves

O problema é que ele ainda não sabe que é pato e muito menos que é manco - se é que já ouviu falar dos lame ducks, apelido que os norte-americanos dão aos governantes em fim de poder. Ele não se sente esvaziado - e, se sentir, finge que não se sente. Não percebe ou finge que não percebe que suas ordens estão longe de ser prontamente atendidas, como antigamente. Até o cafezinho demora muito mais - e chega frio, faltando adoçante de envelope (vindo só o feio frasco de gotas). A displicência toma conta do seu gabinete - e dos seus Ministérios, e do seu governo. Mas ele ainda pensa que todos à sua volta continuam, como antes, concentrados 24 horas por dia para lhe agradar. É capaz de, meticulosamente, medir tudo, menos o grau de importância que ainda consegue preservar - mas que despenca a cada novo dia que o aproxima da planície.

É claro que um pato que tentou durante 20 anos entrar cinco vezes na lagoa - e o conseguiu em duas - se acostumou a desfrutar essas tentativas, até mais do que a própria lagoa. Mas não tendo encontrado quem possa suceder-lhe no comando da lagoa - e vendo-a só sobrevoada ostensivamente por outra espécie de ave, de bico grosso -, o pato manco se esforça por colocar em seu lugar alguém cuja rigidez de movimento de asas (à prova de qualquer treinamento com bambolê) mais se assemelha a uma estátua de ave do que a uma ave natural. De qualquer forma, foi o pato chefe que precipitou desastradamente a própria sucessão. Isso foi sua maior mancada - tanto que o tornou manco muito ante do tempo.

Quando o pato ainda era todo-poderoso e desfrutava popularidade recordista entre penosos e outros bichos de variada espécie, tinha todas as razões para se sentir acima de todos os bicos e asas. Fora favorecido, na lagoa, pelo elevado nível das águas que provinham de mananciais externos em excelente estado de vazão. Os patinhos que eram (ou se esforçavam para permanecer) mais raquíticos recebiam bolsas de milho sem precisar fazer nenhum esforço de catação. Muitos patos auxiliares faziam coisas feias nas bordas da lagoa - pegando porções que não lhes pertenciam e oferecendo milho extra e patuás de propinas para que alguns não os delatassem -, mas o pato chefe nunca sabia de nada, não tinha a menor idéia do que pudesse ocorrer de errado com seus subordinados, nem mesmo quanto ao milho não-contabilizado.

Por outro lado, sempre que algum pato companheiro procurava se destacar na lagoa, ou tentava disputar o poder com o chefe, tinha por este as asinhas cortadas, de uma forma ou de outra. Assim a lagoa ficou sob o domínio de um pato só, com a perspectiva de ser dominada não mais por pato algum - mas sim por um tucano que nunca parou de realizar seus vôos rasantes por sua superfície. E eis que, sem que bichos de espécie alguma esperassem, surgiu um tremendo tsunami (que o pato chefe, inicialmente, identificou como simples marolinha) que começou a arrasar muitos lagos vizinhos e se aproxima, perigosamente. Coincidiu a intempérie com o fato de o pato chefe estar na plena situação de pato manco. Os poderes totais de que este se sentia investido, o enorme sucesso pesqueiro que julgara ter obtido - e que "nunca antes havia ocorrido nesta lagoa" - passaram a escoar rapidamente por um bueiro que parecia invisível (mas de cuja existência, no fundo, todos desconfiavam).

Então, o que fazer? Como lidar com um pato manco que ainda acredita poder deslizar tranqüilo pela superfície da lagoa, no pouco tempo que ainda lhe resta para comandá-la, apesar do torvelinho que tem pela frente? A primeira coisa a fazer é procurar deixá-lo na ilusão de que ainda não é pato manco. Pois, se ele tiver consciência da própria patomanquice, é um perigo. Ninguém sabe como poderá reagir. Poderá sucumbir à tentação de fazer acordos até com alguns velhos urubus - o que seria péssimo para o processo de oxigenação da lagoa que se espera daqui a dois anos. Assim, não se pode deixar que saia da euforia habitual para entrar num processo de solidão que leve à depressão. É preciso que não perca a capacidade de festejo, nem a de comemorar até a vitória de campeão da segunda divisão - categoria, aliás, que marcou todo o seu governo da lagoa.

É preciso redobrar a paciência e aturar, com generosidade, a continuação das hipérboles, prosopopéias e antonomásias improvisadas, dos conselhos bombásticos a todos os dirigentes das lagoas do planeta, das tentativas de liderar as 20 maiores do mundo - em menoscabo das que são, efetivamente, as oito maiores. É preciso não se queixar quando ele repete e insiste nas excelências dos feitos de antecessores adversários como se tratasse dos próprios feitos, ou quando atribui a erros alheios o que, há pouco, comemorava como acertos seus.

É necessário reconhecer, sobretudo, as notáveis qualidades do que virou pato manco. Ele até conseguiu melhorar o volume de alimentos produzidos na lagoa, tamanho foi o sucesso em repetir e até aperfeiçoar o sistema de coleta alimentar feito por seu antecessor - embora nisso tenha empregado auxiliares demais que só nadavam e, mesmo assim, em águas não muito limpas. A enorme facilidade de comunicação foi outra qualidade que, durante a fase dos peixes gordos, só aumentou o prestígio do chefe. Foi ele quem demonstrou - "como nunca antes nesta lagoa" - a maior capacidade de aquisição de convencimentos: pois nunca antes se dissera tanto "eu estou convencido de que", nesta patuléia. Mas sua qualidade mais extraordinária foi a de ensinar a usufruir os maiores sabores da vida com a maior economia de esforços. Nisso ele foi, é e sempre será um autêntico mestre. E o resto é papo (de pato).


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Opinião).
Sábado, 22 de novembro de 2008.
















O monstro no fundo do abismo – J. R. Nyquist


The Monster at the Bottom of the Abyss – J. R. Nyquist





Tuesday, October 28, 2008

O crime é a extensão lógica de um tipo de comportamento
perfeitamente respeitável no mundo político e dos negócios!

Foto: "Heros Come and Heros Go", óleo sobre tela de John Alexander.








































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Políticos e mafiosos
por Ipojuca Pontes

Em seu livro-denúncia "Ilícito - o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global" (Zahar Editora, Rio, 2006, R$ 49,90), Moisés Naim, com a autoridade de quem já dirigiu o Banco Mundial, afirma textualmente: "Em alguns países, traficantes e seus cúmplices controlam partidos, são donos de jornais ou estão entre os principais filantropos, escondidos por trás de ONGs. Quando seus negócios são grandes e estáveis, as redes de tráfico fazem o que tendem a fazer as grandes empresas: diversificam as atividades e investem em política".

Senso crítico aguçado, Naim considera, com riqueza de dados e informações, que, no mundo globalizado, "uma das grandes tendências é a politização do crime e a criminalização da política. Criminosos se transformam em políticos, do mesmo modo que governantes se transformam em mafiosos. No México, militares que estavam envolvidos no combate às drogas foram detidos porque faziam parte das quadrilhas. No Peru, Vladimiro Montesinos, chefe da Inteligência, tinha vínculos com o tráfico de armas. O presidente da Lituânia, Rolandas Paksas, foi preso porque era cúmplice de um grupo mafioso. É impossível que haja uma indústria desse tamanho, com tal sofisticação, sem que as autoridades sejam cúmplices".

Já é lugar-comum afirmar que o porte da indústria do crime organizado é colossal e sem fronteiras. Pois ele atua e se expande em circuito planetário, abocanhando, comprovadamente, cerca de um quarto da economia mundial. Com efeito, não só na Rússia, Japão, Estados Unidos, Itália, Brasil, etc., as máfias, com seus métodos abrangentes e dissuasivos, operam em larga escala nos mais variados negócios, a saber: tráfico de drogas e órgãos humanos, armas sofisticadas, falsificação e lavagem de dinheiro, prostituição, contrabando, jogos ilegais, seqüestros, fraudes, extorsão ou qualquer tipo de atividade que possa envolver lucro e poder.

Alguns especialistas - entre eles, Carlo Lizzani, em "Os Italianos" (Civilização Brasileira, Rio, 1965) - sugerem que a Máfia nasceu como um fato político à sombra da reação dos habitantes da Sicília contra os sucessivos invasores que ocuparam a ilha do Mediterrâneo. No século 19, para sobreviver, a sociedade embrionária passou a cobrar "proteção" dos proprietários e comerciantes nativos, atuando como milícia privada sob os olhares coniventes - e participativos - do poder público local.

[Aqui, vale lembrar o óbvio: Al Capone, o "Inimigo público nº 1 da América", jamais chegaria até onde chegou sem a conivência de juízes e prefeitos de Chicago. Por sua vez, sem o apoio interno da polícia siciliana, Salvatore "Totó" Riina, o poderoso chefão da Cosa Nostra, não ousaria liquidar o juiz italiano Giovanni Falcone. E, o mais evidente, sem contar com a larga legião de agentes da KGB e da elite do Partido Comunista, além de membros do Exército Vermelho, a máfia russa não seria hoje a mais rica e poderosa organização criminosa do mundo. Em particular na exploração do tráfico de armas, droga, prostituição, lavagem de dinheiro e a morte por encomenda - atividade sem a qual o regime autoritário (ainda nas mãos de Putin) poderia fazer desaparecer por envenenamento jornalistas e dissidentes do regime.]

Não há o que contestar: desde o seu início as associações mafiosas modernas estiveram estreitamente ligadas ao poder público, não só financiando e elegendo políticos e dirigentes partidários, mas atuando direta ou indiretamente na administração de negócios considerados lícitos ou ilícitos. Quando a simples manipulação do voto não resolve a questão, apela-se para a eliminação física do oponente.

Hoje, ninguém dúvida que certos partidos políticos, dentro ou fora do poder, aqui ou no exterior, agem como autênticas organizações criminosas, especialmente no que se refere à utilização de métodos em que a fraude, o aliciamento, a intimidação e a corrupção são os instrumentos operativos de sobrevivência e expansão.

No entanto, convém alargar o enfoque do fenômeno. Sem querer realçar o óbvio ou diminuir a contribuição analítica do ex-diretor do Banco Mundial, seria pertinente avançar na avaliação proposta e, de igual modo, evidenciar a semelhança operacional entre o partido político e a empresa do crime organizado: ambos têm presidentes, secretários-executivos, conselheiros e militantes, todos voltados para os objetivos finais de expandir, conquistar, manter, manobrar e usufruir o poder, pouco importa que no âmbito mafioso os seus integrantes sejam reconhecidos pelos nomes de "don", "capo", "capo de tutti capi" ou mero "soldati".

Fora do Estado, ou a ele furtivamente associado, as organizações criminosas cultivam suas idéias, legendas, reverberam o prestígio dos seus chefes e "famílias" e reafirmam os valores da disciplina e do respeito hierárquico, sem os quais não passariam de meras quadrilhas desorganizadas. Elas têm suas leis, crenças, ética, práticas sociais, crises e disputas internas. Punem os seus traidores, "protegem" suas fontes de recursos e exterminam os que se atrevem a contrariá-las. Para enfrentar os organismos internacionais de repressão, nos tempos da internet, as máfias se reúnem em encontros estratégicos, negociam e se ajudam mutuamente em rede mundial.

No âmbito do Estado, uma luva para a mão da delinqüência legalmente admitida - ou dentro dos partidos políticos, uma instância legal e ideológica do poder -, seus condutores podem exercer os mesmos direitos, quase sempre encobertos pelos eufemismos de arrocho fiscal, impostos, subsídios, incentivos (diretos e indiretos), financiamentos a fundo perdido, isonomias, verbas representativas, gratificações, adicionais, medidas provisórias, CPIs, foro privilegiado, prisões domiciliares, penas corretivas e o diabo a quatro - tudo, evidentemente, sustentado pelo suor do trabalho do homem comum, coitado, que nunca reflete sobre a própria sina e condição.


Ipojuca Pontes é jornalista, cineasta e escritor, nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e ao longo de sua carreira conquistou mais de trinta prêmios nacionais e internacionais. Foi também Secretário Nacional da Cultura no governo Fernando Collor de Mello.






Publicado no site " MídiaSemMáscara" (Editorias).
Segunda-feira, 27 de outubro de 2008.



Candidato do medo – Olavo de Carvalho



ATENÇÃO!

Se por um acaso você der azar de ser atacado por uma cobra sucuri de + ou – quatro metros de comprimento, não reaja. Morra! É a lei!

O mesmo procedimento deverá ser observado no caso de ataques por onças, jacarés, piranhas (as de rios), ariranhas, tubarões, cães hidrófobos e militantes petistas, ou seja: MORRA!

Afinal de contas isto é Brasil...sil...sil...sil..., onde, répteis, animais selvagens e raivosos, "lindenbergs" e petistas-comunistas devem ser preservados. Você? Ora, você não passa de "lixo" descartável, sua única utilidade é pagar impostos.

Não entendeu? Veja o vídeo abaixo:




Click na SETA ou no botão PLAY, para ativar o vídeo.


Monday, October 13, 2008

NÃO SOMOS CONDUZIDOS, CONDUZIMOS!










































São Paulo se conduz
por Mauro Chaves

Por ser um cadinho étnico-cultural que mistura todos os povos do mundo a brasileiros de todas as regiões do País, a cidade de São Paulo é influenciada por todos, mas preserva sua sólida autonomia, não se deixando levar por ninguém. Ninguém melhor do que os que vivem aqui para saber dos problemas de quem vive aqui. Foi considerando esse caráter, forjado na têmpera dos que daqui partiram para estender os limites do território nacional, que Guilherme de Almeida se inspirou ao inscrever no brasão desta cidade o lema "non ducor, duco". E a História tem comprovado que, efetivamente, São Paulo não é conduzida, mas conduz - e, sobretudo, se conduz. Com todo o respeito a Brasília, Garanhuns ou Caetés.

Foi se conduzindo, sem tutelas externas, que São Paulo se tornou a terceira cidade do mundo, com um PIB de R$ 144 bilhões. Foi sem ouvir palpites de fora que São Paulo alfabetizou 95,4% de sua população, construiu 205 hospitais, 120 teatros e casas de shows, 80 museus, 39 centros culturais, 12.500 restaurantes, 5 mil pizzarias, 72 shopping centers, 15 mil bares e 410 hotéis. São Paulo não precisou de opiniões de terceiros para realizar, anualmente, seus 90 mil eventos e feiras, nem para fazer funcionar suas 146 faculdades e 26 universidades, nem para agüentar suas mil academias de ginástica, suas 1.500 agências bancárias e até seus 5 mil pet shops. Por que, então, São Paulo precisaria ser "conduzida" (de fora) para escolher seus governantes?

É por São Paulo não ser conduzida que parece descabido - se não ridículo - o receio de o Planalto "mandar para cá dinheiro para ambulâncias que fica guardado no banco". Pois São Paulo não é de "se mandar dinheiro para cá" - como oferenda. São Paulo é que "manda dinheiro para lá" - para o resto do Brasil - com o volume de tributos federais gerados por sua produção. Mas se verbas repassadas são aplicadas antes de chegar o momento de serem gastas, isso se chama responsabilidade fiscal, que é o simples hábito de só se gastar quando já se tem com que pagar.

É um primitivismo patrimonialista, herdado dos piores momentos de nossa formação histórica, a idéia de que são as afinidades ou os compadrios políticos que determinam o repasse de verbas de uma entidade a outra - da União ao município, por exemplo. Usar isso como discurso eleitoral é entender a atividade de governo como transação de apaniguados, em que prevalece o companheirismo político sobre os verdadeiros princípios de interesse público, o que não passa de agressão à própria consciência de cidadania. Eis aí o velho critério da "intercessão", ou da influência do "pistolão", que serve tanto para as concessões de sinecuras quanto para as distribuições eleitorais de dinheiro público.

Coisas simples de São Paulo nem sempre são entendidas pelos de fora. A cidade que não é conduzida, mas se conduz, tem seus próprios códigos, sendo que o mais importante deles tem que ver com o respeito. O paulistano é, antes de tudo, um respeitador do espaço e da intimidade alheios. Não faz visitas sem avisar, não costuma se aboletar como hóspede na casa de parentes e amigos, não força intimidade. Sem disposição de parecer hospitaleiro, o paulistano não se deixa invadir nem invade a privacidade do próximo, não se mete em conversa para a qual não foi chamado. Mas, na hora da real necessidade, acode o outro sem hesitar, não mede esforços, é solidário ao extremo.

O paulistano tem um especial senso de proporção e equilíbrio. É discreto, mas não se incomoda com quaisquer indiscrições. É despreconceituoso em relação ao modo de vestir, de falar e de se comportar das pessoas, não "repara" como os outros estão e muito menos cochicha a respeito. Em São Paulo ninguém se choca com ninguém e ninguém debocha de ninguém. Certamente, aí está a riqueza ética da tolerância, de uma sociedade intensamente misturada. Mas é preciso que se descubra nos paulistanos a sutileza do código não escrito de respeito - nem sempre detectável pelos de fora.

Por exemplo, ao contrário do que ocorre em muitas outras capitais brasileiras, onde noite e dia os carros berram à vontade, ninguém buzina em São Paulo, a não ser em situação de risco ou emergência. Na infernal competição do trânsito, aqui também há um outro código curioso: se alguém quer passar de uma fila de carros para outra, "cortar" para virar numa esquina ou sair de uma vaga em que está estacionado, é impedido com manobras de "fechamento" por seus intolerantes "concorrentes". Mas é só se fazer um mínimo gesto de solicitação de passagem, um discreto pedido de "abre-alas", para se ser prontamente atendido, com boa vontade e, às vezes, generoso sorriso. Isso bem traduz a característica essencial da alma paulistana: ela exige respeito.

É a exigência de respeito que leva os paulistanos a apreciar muito a (atual) proibição de que alguns usurpem o espaço de todos - as calçadas invadidas pelos bares e camelôs, as ruas públicas fechadas como se fossem privadas, o descontrole de sons perturbadores da vizinhança, as pichações de todo gênero. E é a exigência de respeito que leva os paulistanos a apoiar tanto o Cidade Limpa - de que hoje, já acostumados, só nos damos conta quando visitamos outras cidades, tão visualmente poluídas como São Paulo era.

Quem quiser prestígio do eleitor paulistano não traga prestígio de fora. Muito menos se espetaculoso, barulhento, com carreatas, bandeiras e inusitados apelos da voz presidencial invadindo residências nas madrugadas, via telemarketing. O efeito será como o de um verdadeiro fermento da já "rejeição militante".


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Opinião).
Sábado, 11 de outubro de 2008.




Silêncio e Mistério – Olavo de Carvalho Pereira





Sunday, August 17, 2008

Brasileiros: Um "povo" desconfiado de si mesmo.










































Como confiar?
por Mauro Chaves

Segundo pesquisa do Instituto Vox Populi, apenas 3% dos brasileiros acham que é possível confiar nos outros. A muitos isso parece estarrecedor, porque nas democracias civilizadas esse porcentual de confiança chega a 65%. Mas encontrar no Brasil três pessoas (em cem) que confiem em algo já seria um portento, dado o volume descomunal de desconfiança que inspiram instituições, Poderes, governos, leis, pessoas públicas, entidades de classe, organizações não-governamentais, veículos de comunicação, campanhas de publicidade, gestões de universidades e tantas coisas mais.

O brasileiro é profundamente desconfiado porque sabe o que lhe acontece quando confia. Como confiar nas leis que permitem a um assassino condenado ser libertado depois de cumprir apenas 1/6 de sua pena - punição que reduz a vida humana a menos de 17% de seu valor? Aliás, por que 1/6 - e não um 1/5, um 1/7 ou 1/10? Será uma homenagem ao número da Besta, já que dividindo 100 por 6 dá 16,666...?

Como confiar no poder público, se altos funcionários, mesmo flagrados, filmados - e exibidos na televisão - no momento em que estão recebendo propinas ou roubando dinheiro público, impetram habeas-corpus e se livram da cadeia, a ela jamais retornando, por "falta de provas"? Como confiar na Justiça, se um sujeito mata premeditada e covardemente a colega ex-namorada pelas costas, dando-lhe outro tiro quando ela já está no chão, confessa o crime, é condenado e fica mais de oito anos livre leve e solto - como está Pimenta Neves?

Como confiar em "medidas socioeducativas" em benefício de facínoras - do tipo Champinha - só "recuperáveis" pela hipocrisia legal que, ao contrário das leis de todos os países do mundo (menos Guiné, Venezuela e Colômbia), estabelece maioridade penal apenas aos 18 anos, como se a capacidade de recebimento de informações e de desenvolvimento de consciência nos jovens de hoje fosse igual à de 70 anos atrás?

Como confiar nas mensagens publicitárias que afirmam que as pessoas podem ser persistentes, batalhadoras, guerreiras, capazes de vencer os obstáculos da vida e permanecer fiéis às suas origens só porque tomam cerveja Brahma - como os "brameiros" Zeca Pagodinho e Carlinhos Brown?

Como confiar nas religiões, se tantas e tantas delas se tornaram gigantescas caixas registradoras de "dízimos", vendendo escandalosamente indulgências pelo rádio e pela televisão, explorando com a máxima falta de escrúpulos a credulidade e a ignorância do povo?

Como confiar na Segurança Pública, se há polícias que matam (até crianças) antes de pedir documentos, enquanto outras fazem vista grossa aos que praticam todo tipo de violência, nas invasões, nos esbulhos, depredações, cárceres privados, saques de pedágios e de caminhões, matança de animais, vandalismos contra sedes de propriedades rurais e laboratórios de experimentação agrícola, como fazem os ditos "movimentos sociais", do tipo MST e assemelhados?

Como confiar numa medicina que chegou ao cúmulo da venalidade, a ponto de médicos falsificarem exames, venderem lugares na fila de transplantes de órgãos, condenando à morte os que não têm condições de satisfazer sua abjeta ganância financeira - como acontece com a fila de transplantes de fígado do Rio de Janeiro?

Como confiar em produtores de alimentos, cujo falta absoluta de escrúpulos os fez adulterar o alimento básico das crianças - o leite -, pondo em risco a saúde dos próprios filhos e netos, misturando ao leite substâncias nocivas ou capazes de reduzir o seu valor nutricional (do tipo soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, água, sal, etc.), para aumentar seu volume e o prazo de validade, como é o caso das cooperativas de produtores de leite denunciadas pelo Ministério Público de Uberaba, em Minas Gerais?

Como confiar em intelectuais "idealistas", que lutaram contra a ditadura militar, mas se locupletaram com indenizações inacreditavelmente milionárias, como jamais se viu em país redemocratizado algum do mundo, nem em benefício de vítimas de genocídio?

Como confiar em valores da família, se as famílias são sempre apresentadas, nas "melhores" novelas de televisão, como verdadeiras aberrações antropológicas, sem traços de conexão afetiva, mas apenas como amontoados grupais de golpistas e portadores de ambições criminosas?

Como confiar em relações amorosas consistentes, se a comunicação eletrônica de massas massifica ao máximo o sexo barato, sem qualquer dignidade, banalizando ao extremo as ligações pessoais, a ponto de a sociedade poder ver-se pelo cretino buraco de fechadura dos BBBs da vida?

Como confiar numa internet infestada de grandes falsários, que adulteram textos alheios, violentam conceitos, opiniões e pesquisas, sob a camuflagem covarde do anonimato?

Como confiar na universidade, se importantes docentes permitem - e defendem até quanto podem - um reitor que desviou verbas destinadas à pesquisa científica para um esbanjamento decorativo doméstico, bem sintetizado na compra, com dinheiro público, de latas de lixo de quase R$ 1 mil e saca-rolhas de R$ 849?

Como confiar em organizações não-governamentais, com tanta pilantropia à solta e abnegados de causas "sociais" com bolsos cada vez mais cheios de subsídios governamentais?

Como confiar numa classe política que produz, impunemente, mensaleiros, sanguessugas, vampiros, aloprados, portadores de dólares na cueca e pornográficos cartões corporativos?

Quem souber como confiar em tudo isso é favor melhorar nossas estatísticas - e retirar-se do grupo dos gatos escaldados, formado por 97% da população brasileira.


Mauro Chaves é formado em Direito, Administração de Empresas, Filosofia, Cinema e Línguas, é jornalista, escritor, autor teatral, compositor e artista plástico. Mauro também é Editorialista e articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", desde 1981 e comentarista político da Rede Gazeta de Televisão. Entre seus vários livros publicados, destacam-se "Três Contos Artificiais", "O Dólar Azul" e "Eu não disse?".
E-Mail: mauro.chaves@attglobal.net




Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo".
Sábado, 16 de Agosto de 2008.




QUEM AGÜENTAR VERÁ - O Dia do Juízo Final – Gen Valmir Fonseca Azevedo Pereira





Monday, July 16, 2007

Os políticos brasileiros são apenas um reflexo dos seus eleitores.

































Esperto ou corrupto, qual a diferença?
por Fritz Utzeri

Nas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, as maneiras de pensar e agir de um povo se revelam. De que serve indignar-se com Renan & Roriz e no dia-a-dia trafegar pelo acostamento da estrada se houver engarrafamento; desrespeitar o sinal se não houver guarda ou ignorar a placa e estacionar na vaga do paralítico? Vejo isso todos os dias no estacionamento onde deixo o meu carro, no Centro.

Parece que procuramos sempre a vantagem à custa de pequenos expedientes. Corrupção é outra coisa, pensamos. É roubar grande! Quantos de nós, brasileiros, só não somos corruptos simplesmente porque jamais tivemos a oportunidade de sê-lo? Ou será que, como dizia o imortal Barão de Itararé, corrupção é "aquele grande negócio para o qual não fomos convidados?"

Li no domingo passado, numa das colunas mais prestigiadas da imprensa carioca uma nota sobre a inauguração do Engenhão. O ingresso seria trocado por uma lata de leite em pó, destinada a instituições de caridade. Leia a nota transcrita, ipsis literis do jornal:

"Em tempo: uns torcedores espertos trocaram o leite em pó das latas por areia na inauguração do Engenhão. No ato da troca pelo ingresso, poucos bilheteiros perceberam o golpe".

Percebeu? Não? Leia novamente. Será que é adequado qualificar como "esperto" o torcedor que dá esse golpe para entrar no estádio? Vamos verificar, no Aurélio, o que significa "esperto".

Esperto. [Do lat. vulgo expertu (v. espertar).] Adj. 1. Acordado, desperto. 2. Inteligente, fino, arguto: "Nada lhe escapa, é muito esperto". 3. Enérgico, vigoroso: movimentos espertos. 4. Espertalhão (1). 5. Forte, vivo: fogo esperto. 6. Quase quente: Estranhou a água do banho que estava esperta. 7. Bras. Gir. V. bacana (1). S.m. 8. Espertalhão (2): O mundo é dos espertos. [Cf. experto.]

Vamos a espertalhão:

Espertalhão. [De esperto + alhão.] Adj. 1. Diz-se de homem esperto, finório. Velhaco, astuto, malicioso, esperto.

Veja como o comportamento e a percepção se refletem na língua, tornando-a imprecisa e demonstrando como o criminoso pode ser admirado pela sociedade, a ponto de ser confundido com "inteligente, fino e arguto", sem citar que "esperto" dá origem a "experto" que significa alguém que tem experiência, um perito.

Ou seja, segundo o dicionário, "esperto" para os brasileiros quer dizer: "inteligente, fino, arguto", mas também: "finório, velhaco, astuto e malicioso"... Entenderam?

Ora, o que esses espertalhões do Engenhão (aí a palavra seria aplicada corretamente) fizeram, a lei tipifica como estelionato, fraude, que é crime definido assim pelo Código Penal:

"Estelionato é o fato de o sujeito obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento".

A pena para crime de estelionato é de dois a seis anos de detenção com multa. Não há razão alguma para a admiração mal disfarçada que freqüentemente demonstramos por essas pequenas "espertezas" criminosas. Vamos usar as palavras certas. E não adianta reclamar do Renan e do Roriz & Cia. Se você anda pelo acostamento, paga uma cervejinha para o guarda ou acha idiota perder seu precioso tempo numa fila, podendo furá-la, você, meu amigo, não é esperto. Você é um delinqüente.

PS - A nota não informa o que aconteceu com os "espertos" que foram pegos. Foram presos? Sentenciados a quantos anos? Por mim, mandava preparar um copão do leite em pó que trouxeram e mandava beber até o último gole...



Fritz Utzeri nasceu na Alemanha em 1945. Em 1953, mudou-se para o Brasil. Cursou medicina, onde começou na imprensa universitária, fazendo panfletagem, e descobriu que o que gostava de fazer era jornal. Em 1968, após ser aprovado no curso para seleção de estagiários, começou a trabalhar para o Jornal do Brasil, onde foi repórter especial, editor e correspondente internacional em Nova York e Paris. Reportagens como "Quem matou Rubens Paiva" e a cobertura do atentado do Riocentro renderam importantes prêmios: Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e Esso de Jornalismo. Trabalhou ainda na TV Globo, onde recebeu outro prêmio Vladimir Herzog pelo Globo Repórter sobre os 15 anos do caso Riocentro. Após a TV Globo, abandonou , durante cinco anos, o jornalismo e foi trabalhar na Alcatel como Diretor de Comunicação. Trabalhou na Fundação Roberto Marinho como Superintendente de Comunicação e no jornal O Globo, onde atuou como editor de opinião. Foi também Diretor de Redação do Jornal do Brasil. Atualmente Fritz Utzeri escreve no Jornal do Brasil e edita o jornal eletrônico Montbläat.


Sunday, January 07, 2007

PSDB: Um partido de farsantes!



























OS PARCEIROS SIMBIÔNTICOS
por Augusto de Franco

O fato é que começamos o ano 5º da "Era Lula" sem oposição no país. Tal como o governo, a oposição partidária no Brasil também constitui fenômeno inédito. Segundo ela, a vitória eleitoral terá sido uma espécie de anistia para os crimes do governo corrupto de Lula da Silva. Assim, vamos esquecer tudo. Vamos parar de ficar cobrando de onde veio o dinheiro do mensalão e do falso dossiê e o que faziam os homens de confiança de Lula na trama, quem traiu o presidente, como foram usados os cartões corporativos da Presidência, onde foram parar aquelas cartilhas...

Apostando todas as fichas na loteria do calculismo eleitoreiro, a oposição colheu o óbvio: consagrou a impunidade dos malfeitores e a continuidade da "sofisticada organização criminosa" que se instalou no Planalto.

Tenho uma tese a esse respeito: só foi possível a eclosão do fenômeno político inédito que estamos vivendo no Brasil desde 2003, com Lula e o PT no poder, devido à existência de um partido com as características do PSDB. Eles, PT e PSDB, dão a impressão de parceiros simbiônticos. Uma crítica mais ácida diria que o PSDB fez o papel de "Kerenski brasileiro". Mas essa foi uma conseqüência objetiva do seu comportamento fora do poder, sem nenhum desdouro para a gestão e as intenções democráticas do estadista Fernando Henrique Cardoso.

Ademais, o colaboracionismo oposicionista foi o resultado do comportamento adotado pelos dois principais partidos de oposição, e não uma orientação dessas agremiações. Tal comportamento evoluiu, manifestando-se como renúncia de ser e fazer oposição (2003, ano em que os tucanos foram atacados pela "síndrome da oposição responsável"), passando pela vacilação e pela leniência tática (2004 e parte de 2005), avançando para características menos colaborativas (2005, no auge do escândalo do mensalão), mas recuando novamente para formas implícitas ou explícitas de conivência (a partir de agosto de 2005 até o início formal da campanha eleitoral em agosto de 2006).

Lula não deveria ser mal-agradecido. Ele deve tudo às oposições, sobretudo aos tucanos. Ele jamais foi abalado pelo PSDB e, sim, por suas próprias trapalhadas e as dos seus auxiliares que, uma vez descobertas, não poderiam deixar de ser denunciadas pela imprensa. Pelo contrário, Lula sempre foi ajudado por uma oposição que se esmerou em poupá-lo e blindá-lo e, de agosto de 2005 até o final daquele ano, construiu uma operação de resgate do presidente, estendendo-lhe a tábua de salvação do palanque de 2006 para livrá-lo do naufrágio. Deu no que deu.

Não contente com isso, a oposição ainda lhe fez o favor de não travar a decisiva pré-campanha, de janeiro a agosto de 2006. Enquanto o PSDB aguardava, apalermado, o início do horário eleitoral, durante oito meses, Lula, disputando sozinho, praticamente dobrou as suas intenções de voto, pulando, segundo o Datafolha, de um patamar de 33% (no início do ano passado), para 41% (em março), para 43% (em maio), para 46% (em junho) e para 49% (em agosto). Deu no que só poderia dar mesmo.

Eis-nos, agora, novamente na tempestade. Lula recuperou a sua nau, mas a nossa está à deriva. Nossos pilotos abandonaram o barco, pressurosos como sempre, para cuidar de seus próprios interesses. Quando tudo isso passar, será que eles não terão vergonha de contar para seus filhos e netos o ridículo papel que desempenharam nesta história? Eu teria. Quando tudo isso passar. Mas... e se não passar assim tão rapidamente? E se estivermos apenas no início de um período regressivo de longa duração? Quem vai reagir? Quem vai resistir?

Se você é um democrata, deve estar indignado. Mas como você foi abandonado, é possível que tenha feito um propósito nesta entrada de 2007: imitar as oposições e dizer que a vida é assim mesmo. Não importa se Lula continuar avacalhando o Brasil e urdindo uma maneira de não sair (de fato) do poder: você dirá que não tem nada com isso. Pior: você pode, imitando mais uma vez as oposições, só se mexer se surgir um movimento oposicionista (de fato), propondo retirar Lula do poder. Aí, sim, você marchará ombro a ombro com os bravos tucanos para defender a governabilidade.

Sorte sua se, como ocorre com esses propósitos que fazemos no início de cada ano, você não cumprir o prometido. Nem que seja pela falta de virtude, desejo que você seja poupado da vergonha de ter que explicar para os seus filhos e netos as razões pelas quais resolveu dobrar a espinha. São os meus votos de Ano Novo.


Augusto de Franco é Coordenador-Geral da AED – Agência de Educação para o Desenvolvimento, é autor de mais de 12 livros. Além de Coordenador Geral da AED é também Diretor Presidente da ARCA – Sociedade do Conhecimento. Augusto de Franco é professor convidado da Fundação Dom Cabral na área de responsabilidade corporativa, sustentabilidade empresarial e gestão de stakeholders, articulista do jornal Folha de São Paulo, conferencista, consultor senior de governos estaduais e municipais, empresas e organizações internacionais e professor de vários MBA nas áreas de terceiro setor e desenvolvimento local. Blog do autor: Blog de Augusto de Franco.




Publicado no jornal "Folha de S. Paulo".
Quinta-feira, 04 de janeiro de 2007.




FARINHA DO MESMO SACO

É tudo gente com o mesmo caráter. Geralmente mau.








































Thursday, September 21, 2006

O "povo brasileiro" e os políticos brasileiros!!!


































ENTRE A LEI E A BARBÁRIE
por Gilberto Barbosa Figueiredo

"Aquele que, num principado, não reconhece os males na origem não é verdadeiramente sábio, e esta qualidade é concedida a poucos". (Maquiavel)

Tenho batido em uma tecla, repetidamente, desde que assumi a presidência do Clube Militar – o grave perigo a que se expõe o Brasil com o sistemático desrespeito à lei, que temos acompanhado, nos últimos tempos, por segmentos cada vez mais numerosos de nossa sociedade. Mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo, sinto-me compelido a voltar ao tema.

Muito se tem falado através da imprensa, e com justificável orgulho, de nossas recentes conquistas democráticas. Ocorre que a democracia não nasce espontaneamente, como dádiva concedida a um povo. É, ao contrário, conquista amealhada no dia-a-dia, através, principalmente, de sua prática honesta e constante. Tem de figurar nos diplomas legais, por certo, mas, acima de tudo, tem de estar na consciência dos cidadãos. E um dos primeiros pressupostos para que exista em plenitude é a formação de um senso generalizado de respeito à lei. Isso, infelizmente, não tem sido uma das preocupações prioritárias entre os habitantes de nosso País. Três aspectos, hoje, chamam a atenção no endêmico pouco caso com a lei, que se instalou entre os brasileiros: nosso próprio comportamento, procurando “jeitinhos” para burlar responsabilidades e obrigações; o procedimento aético de considerável parcela das autoridades constituídas – aquelas que deveriam ser exemplos de conduta ilibada – perpassando todos os Poderes da República; a absoluta e absurda liberdade de ação dos chamados “movimentos sociais”, para a prática de crimes.

Quanto ao primeiro aspecto, há a considerar o proceder um tanto egoísta do brasileiro. É o primeiro a criticar o governo ou o parlamentar acusado de ter recebido o “mensalão”, mas não tem a menor dor de consciência em valer-se de uma “esperteza” para conseguir alguma vantagem pessoal. Para tanto, acha normal praticar pequenos delitos, como estacionar o carro em cima da calçada, comprar um certificado ou tentar subornar um agente da administração pública. Falta o rigor consigo mesmo, que os militares aprendem a cultivar desde os bancos escolares. Seria ótimo que o cidadão pensasse como Calvin Coolidge, quando disse: “uma pessoa ao lado da lei é maioria”.

Já, no que diz respeito ao comportamento de algumas autoridades, pouco há a acrescentar ao que exaustivamente tem sido publicado em jornais, revistas e outros meios de comunicação. No lugar de exemplos, temos presenciado as mais deploráveis manifestações de descaso com o bem comum. As autoridades que tinham, por obrigação funcional, velar pela obediência aos preceitos legais, não têm o menor acanhamento em buscar ganhos pessoais, ao arrepio da ética. E o que se vê é governo comprando parlamentares, parlamentares envolvidos em esquemas escabrosos; a imprensa tem publicado, até, casos de tribunais vendendo sentenças. Enfim a corrupção, lamentavelmente, incrustada nos três Poderes.

A mais escandalosa, a mais inacreditável prática constante de atos ao arrepio dos direitos constitucionais é praticada pelos autodenominados movimentos sociais. É a exacerbação do pouco caso com a lei. E tudo mais incompreensível fica ao constatarmos que os fatos são consentidos pelos governantes, no mínimo por omissão. Isso quando o poder público não chega até a incentivá-los e financiá-los. Não é crível que em um país civilizado sejam admitidos impunemente atos como invasões de propriedades alheias, até as produtivas, depredação de bens, públicos ou privados, seqüestros de pessoas, interdição de rodovias, para citar apenas alguns dos delitos que nos acostumamos a ver estampados na imprensa, atribuídos aos ditos sem terra. Resta, ainda, a ação absolutamente irresponsável de seus líderes, estimulando esses atos ilegais, pregando abertamente o crime.

Todo esse conjunto de atividades ilícitas seria, por si só, extremamente grave. Mas, para nossa estupefação, a coisa não para por aí. Há muito, o MST e suas lideranças acrescentaram, publicamente, outras demandas à da reforma agrária que, inicialmente, mascarava suas reais intenções. E começou a se tornar notório um organismo espúrio, mas bem estruturado e financiado com recursos abundantes. Vinculado, segundo repetidas denúncias, a outras entidades guerrilheiras de países sul-americanos. Disposto a pregar a subversão da ordem em nosso próprio território.

As pregações ao desrespeito à lei e à ordem, antes camufladas, agora surgem às escâncaras, haja vista a bazófia de um de seus líderes em uma das muitas arruaças, ao afirmar que a luta contra os proprietários de terra é fácil, pois conta com 23 milhões da “luta camponesa”, contra 27 mil fazendeiros em todo o país.

Nossas conquistas democráticas precisam e devem ser preservadas. Afinal, não foi sem muitos sacrifícios, através da história, que alcançamos nossa atual estabilidade política. E, para tanto, exigirmos o respeito à lei parece um bom começo.

Não resta dúvida de que é hora de reagirmos, utilizando todos os meios de que possamos dispor, as conversas com amigos, as cartas aos jornais, a internet, mas, principalmente, as urnas, afinal, como nos afirmou
Renan*: “o que faz com que os homens formem um povo é a lembrança das grandes coisas que fizeram juntos e a vontade de realizarem outras”. Hora também de tomarmos consciência de que nosso próprio comportamento faz diferença. Que a lei é para todos, inclusive para nós mesmos. É uma cruzada que, embora difícil, vale a pena ser iniciada. É algo que merece nossa mais profunda reflexão. Mesmo porque, com qualquer outra alternativa estaremos correndo o risco de cair na “Lei da Selva”.


Gilberto Barbosa de Figueiredo é General do Exército Brasileiro, da Arma de Cavalaria, nasceu em Porto Alegre-RS, em 10/10/1938. Formou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1959, possui os seguintes cursos militares: Escola de Equitação do Exército, Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e Escola Superior de Guerra. Na área civil é formado em Administração de Empresas. Foi Assessor Parlamentar do Ministério do Exército, Assistente-Secretário do Ministro do Exército e Chefe da 5a. Seção do Comando Militar do Leste. Atuou como instrutor da Escola de Equitação do Exército, Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Cumpriu missão no exterior junto à Missão Brasileira de Instrução no Paraguai. Como Oficial-General foi Chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Leste, Comandante Militar do Oeste, Vice-Chefe do Departamento de Material Bélico e Chefe do Departamento de Ensino e Pesquisa do Exército.Integrou o Alto Comando do Exército de novembro de 2000 a Março de 2003.Passou para a Reserva em 31 de março de 2003. Foi eleito Presidente do Clube Militar em 2006.


Publicado no site do Clube Militar .
Outubro de 2006.

* Renan a qual o autor se refere é Ernest Renan, escritor francês (1823/1892) é claro que não é aquele "renan" amigo do lula, sarney e outras figuras sombrias. (N.R.)


 
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