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Wednesday, June 24, 2009

Sir Ney, "sarney", se até o sobrenome da "famiglia" é falso...














































O GRÃO MESTRE DA CLOACA DA ESBÓRNIA
por Valmir Fonseca Azevedo Pereira

Elevado à camada dos bem-aventurados, entes de gracioso estado de santidade e graça celestial pelo "bruxo do nordeste" (auto-intitulado o "maior estadista" que já transitou nestas plagas), o Exmo e desacreditado Senhor Presidente do Senado foi alçado aos píncaros dos deuses, e repousa, portanto, acima dos demais mortais. Faz companhia, entre outros, ao êmulo da honestidade e da retidão de caráter, o injustiçado ex-Deputado Federal Severino, considerado pelo nosso verboso monarca, um supimpa "cabra da peste". Não esqueçamos que o Severino foi eleito prefeito, graças ao valioso aval de sua integridade, endossada pelo imparcial pensador que dirige os destinos da Nação.

Diante do óbvio, ocorreu-nos que o recém inaugurado "Museu da Corrupção" está incompleto. Lastimosamente carece o singular acervo, das estátuas de seus venerandos heróis.

Por certo, faltará espaço naquele memorial para tantos homenageados. Podemos reclamar do esquecimento das figuras maiores da propina, do golpe, das licitações fajutas, dos desvios pecuniários, dos roubos escancarados, das tramóias e esbulhos, dos ilícitos praticados à larga e de roldão por astutos políticos do passado.

Realmente, daqueles, permanecem indícios de que eram contumazes ladravazes, entretanto, as provas se perderam na poeira dos tempos. Mas o que dizer dos exemplos de agora, dos ícones atuais? Onde estão o reconhecimento, as homenagens, os lauréis?

São tantos, dirão os Curadores do Museu. Mas, por que não imortalizar os atuais? Os que proliferaram com o fim da "dita branda"? Sim, são tantos. Como laureá–los sem cometer injustiças?

Na multidão que se acotovela para inscrever seu nome no "Livro de Ouro", diante do descortino de seus sombrios passos nos escaninhos do poder, um se sobressai – o imortal José Sarney.

Click no banner abaixo para fazer uma visita virtual ao MuCo – Museu da Corrupção.






Sarney poderia ser entronizado como "o equilibrista", tal sua longevidade junto aos poderosos e ao poder. É um camaleão profissional. Por tudo o que o magnífico Sarney e sua prole legaram de ensinamentos para as futuras gerações como exemplos de sucesso, apesar de nadarem de braçada no mar da pusilanimidade, na sombra e na água fresca, sua gloriosa trajetória política é digna de ser cantada em prosa e verso. E sua imagem, esculpida em bronze.

Como Presidente da Nação, de 1985 a 1990, destacou-se como o pai da maior inflação gestada neste País. Não bastasse, em janeiro de 1987, decretou a moratória. Diante tantos e retumbantes fracassos, só podia dar no que deu; Sarney conquistou com méritos o seu diploma de "Homem de Visão", justo reconhecimento da sociedade agradecida, diante da virtuosa figura. É um monumento, asseveram seus correligionários.

Ao propormos, que o insigne cidadão, que conseguiu manter na pobreza e na ignorância dois estados da federação, tenha sua majestosa estátua no hall de entrada do "Museu da Corrupção", cumprimos um dever de justiça.

Sabemos, pelo "nosso guia", que o probo Senador, não é qualquer vivente e "merece respeito". Assim, dia-a-ia, o desgoverno vai criando a cota dos "desonestos inimputáveis", selecionadissima máfia da esquerdalha, simpatizantes e aderentes de ocasião. Sarney, o "maribondo de fogo", um imortal da Academia Brasileira de Letras (pobre Brasil), é "hors concours".

O Sarney, cognominado de "o epítome da bandalha enrustida", encabeça, por suas decantadas qualidades, reconhecida desfaçatez e proverbial capacidade de negar qualquer envolvimento em "maracutaias" e flagrantes abusos e usufrutos de poder, diante de contundentes e explícitas comprovações, sem mexer um músculo da face, encabeça com méritos, aquele rol de afamados cidadãos.

E merece ser perenizado. Daí... E, por exultação incontida, em face do que nos aguarda, bradamos convictos e rútilos de admiração "que viva a república socialista–cotista", futuro objetivo do "estado policialesco", que está sendo implantado através da "enrolação e da boçalização do politicamente correto".


Valmir Fonseca Azevedo Pereira é General-de-Brigada do Exército Brasileiro.








Publicado no site "TERNUMA – Terrorismo Nunca Mais" – (Regional Brasília).
Segunda-feira, 22 de junho de 2009.




O BÊBADO E O EQUILIBRISTA










































O presidente e a mãe de preso
por Augusto Nunes

Tão recorrente quanto tiroteio em faroeste é o diálogo entre o repórter da TV e a mulher que chora na calçada do presídio conflagrado por uma rebelião.

– A senhora tem parente lá dentro?

– Meu filho ─ informa a voz aflita. ─ Fez umas besteiras porque andou em má companhia, mas é um menino muito bom.

Vai-se conferir a folha corrida e as besteiras não foram pouca coisa. Homicídio, latrocínio, assalto a mão armada, estupro, tentativa de assassinato, por aí. A mãe não sabe de nada, ou finge que de nada sabe. O filho é um menino muito bom.

Tão recorrente quanto essa conversa em dia de rebelião é a arbitrária absolvição pelo presidente Lula de todos os delinquentes de estimação. Peculato, furto, roubo, lavagem de dinheiro, estelionato, formação de quadrilha, estupro do sigilo bancário, um e outro assassinato de prefeito ─ seja qual for o crime cometido, os autores continuam inocentes. São bons companheiros. São meninos bons. Culpada é a imprensa, que sofre de denuncismo epidêmico e enxerga pecado onde só existe virtude.

José Dirceu, Antonio Palocci, Matilde Ribeiro, Benedita da Silva, Severino Cavalcanti, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Fernando Collor, Romero Jucá, todos os mensaleiros, todos os sanguessugas, todos os aloprados, agora José Sarney ─ a lista é tão extensa quanto o prontuário da turma. Lula faz de conta que não sabe de nada.

A diferença entre o presidente e a mulher do presídio é que ela tenta socorrer um criminoso que está no xadrez porque é uma pessoa comum, ele só socorre criminosos que continuam em liberdade porque são pessoas incomuns. O destino transformou-a numa genuína mãe de bandido preso. A esperteza fez Lula virar mãe de bandido solto.


Augusto Nunes da Silva é jornalista, nascido em Taquaritinga, interior de S. Paulo, foi redator-chefe da revista Veja, diretor de redação das revistas Época e Forbes, dos jornais O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Zero Hora, além de diretor-executivo do Jornal do Brasil. Foi também apresentador do programa Roda Vida da TV Cultura e do programa "Verso & Reverso" da TVJB. Augusto Nunes escreveu diversos livros, entre os quais: "Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter" (livro de memórias de Samuel Wainer), "Tancredo" (biografia de Tancredo Neves), "O Reformador: um Perfil do Deputado Luís Eduardo Magalhães" e "A Esperança Estilhaçada", sobre a atual crise política, entre outros. É um dos personagens do livro "Eles Mudaram a Imprensa", da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que selecionou os seis jornalistas mais inovadores dos últimos 30 anos, além de ter ganho por quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente, Nunes escreve uma coluna na edição eletrônica da Revista VEJA.




Publicado na seção Direto ao Ponto da "Coluna do Augusto Nunes".
Terça-feira, 23 de junho de 2009.



O "ALTER EGO" DO POVO BRASILEIRO – Gen Valmir Fonseca Azevedo Pereira





Wednesday, March 04, 2009

PMDB: Pomos a Mão no Dinheiro do Brasil!






































"Consciência social de brasileiro é medo da polícia"
por Arnaldo Jabor

Nelson Rodrigues previu a onda atual de neocanalhas

Uma das obsessões de Nelson Rodrigues era o canalha. Ele dizia: "Ninguém sai na rua e bate no peito berrando: "Eu sou um canalha"". O maior dos pulhas se achava um santo de vitral. Mas isso mudou muito.

Hoje, o canalha se orgulha de sê-lo. Veste-se de canalha, bigode e gravata de canalha, cabelo pintado, carantonhas ferozes. Antes, o canalha se ocultava pelos cantos, escondido da própria sombra. Hoje, os sem-vergonhas ostentam orgulho pelo que chamam de "realismo político" ou necessidade de alianças. Roubar são ossos do ofício. A pornopolítica tomou conta de tudo, e Nelson é que tem fama de pornográfico - logo quem... um moralista que corava diante de um palavrão. Mas, hoje, Nelson, revisto como estilo e como visão de mundo, traz uma lição política.

Filho do jornalismo policial com o fundo talento de Dostoievski caboclo, Nelson mostrava como um escritor deveria se posicionar diante do texto neste país. Uma vez ele me disse ao telefone que o "problema da literatura nacional era que nenhum escritor sabia bater escanteio". Ensolarada imagem esportiva para definir muito literato folgado.

Formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros plásticos e ornamentais, metido no cotidiano marrom do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.

Uma vez ele me disse: "Se Deus perguntar para mim se eu fiz alguma coisa que preste na vida para entrar no céu, eu responderei a Deus: "Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!""

Sua literatura nos ensina o óbvio e isso é profundo numa literatura eivada de ambiciosos engajamentos "corretos" ou cheia de intenções formais desesperançadas que transformam o cinismo debochado numa visão de mundo.

Como criar (querem uns), sem denunciar o "mal latino", a miséria, como o chatola García Márquez, ou como criar (querem outros) sem babar o ovo de Joyce, Kafka ou Beckett?

Ele foi o primeiro a sacar o futuro dos marxistas de galinheiro do passado que hoje lutam por boquinhas e roubam no mensalão.

Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na sincronia com os detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia. Nelson baniu as metáforas a pontapés "como ratazanas grávidas" e criou o que podemos chamar de antimetáforas feitas de banalidades condensadas. Suas comparações sempre nos remetem a um "mais concreto" que denota comicamente a impotência da literatura. Shakespeare tinha isso, Cervantes também. Suas frases famosas nunca aspiravam ao sublime. Exemplos: "O torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado", "A mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil", "Seu ódio era tanto que ele dava arrancos de cachorro atropelado", "Seu peito se encheu de um ar heroico como anúncio de fortificante", "A bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono", "O juiz correu como um cavalinho de carrossel", "A virtude é bonita, mas exala um tédio homicida. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera", "O sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura".

Às vezes, ele dá lições de arte e literatura: "Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. E vem a grande verdade: a obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão elitista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões".

Gilberto Freyre sacou sua "superficialidade profunda", assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era "a épica das irrelevâncias...". E isso é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade.

Em meio a esta crise, dominados pela mídia, sem projeto político claro, "somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem", "vivemos amarrados no pé da mesa bebendo água numa cuia de queijo Palmira", "hoje o brasileiro é inibido até para chupar um Chicabon". E uma das razões para estarmos "mergulhados em negra e cava depressão" é a visão épica, generalista, ideológica ou ambiciosa demais nos projetos e programas e utopias para o Brasil. Se bem que ele mesmo dizia: "Sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo".

A lição política de Nelson é de que talvez as coisas sejam muito mais simples. Não adianta nem nos "atolarmos em brutais euforias" nem vivermos com "complexo de vira-latas", atravessando a "aridez de três desertos".

O Brasil não se salvará com planos messiânicos ou ideias gerais de "epopeias de Cecil B. de Mille", sejam elas epopeias operárias ou epopeias neoliberais. O "óbvio ululante" é limpar a casa e cuidar do detalhe, do enxugamento do Estado, "chupando a carótida dos chefes das estatais como tangerinas" quando se mostrarem obviamente ladrões ou favorecendo correligionários, como vemos todo dia.

Salvar o Brasil é óbvio, tão simples e puro como a prosa do NR - é só pensar no presente e não sonhar com um futuro impossível. O PMDB, por exemplo, é um partido que extirpou o canalha e instituiu o pragmatismo dos delitos permitidos, de modo a nos anestesiar com a impossibilidade de solução ou de punições. A extraordinária entrevista de Jarbas Vasconcelos, fundamental para o país, teve até o sabor de algo arcaico, nostálgico dos parlamentos do Império. Seus colegas velhacos até riram da "inatualidade" de seu gesto - que coisa "antiga", denunciar ladrões...

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-lata e protestar, como fez agora com sucesso na tentativa de assalto à mão armada do PMDB ao fundo Real Grandeza de Furnas.

Não conseguiram. Porque, como Nelson dizia: "Consciência social de brasileiro é medo da polícia." E, agora sabemos, da opinião pública também.


Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.



Publicado no jornal "O Globo".
Terça-feira, 03 de março de 2009.



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O caso Morel – Ipojuca Pontes"





Wednesday, February 04, 2009

O caráter de um povo, deve ser julgado pelo tipo de pessoas que elege.










































O banquete de migalhas de Sarney e Temer
por José Nêumanne

O PMDB está em festa: três meses depois de ter comemorado um amplo triunfo nas eleições municipais de outubro de 2008, entra em 2009 refestelado nas presidências da Câmara e do Senado. Ou seja, fez barba, cabelo e bigode! Como 11 entre 10 comentaristas políticos em atividade na imprensa, no rádio e na televisão consideram que os pleitos municipais de 2008 foram o vestíbulo e da composição das Mesas dirigentes das duas Casas do Congresso Nacional se tece o capacho (nunca antes uma palavra foi tão bem usada em todos os sentidos, modéstia inclusa) da eleição de 2010, enfim, estará o partido da resistência civil à ditadura militar pronto para assumir o poder na República, do qual foi apeado pela vontade do povo desde que José Sarney saiu do Palácio do Planalto. Mas esta será uma afirmação tão autêntica quanto a natureza peemedebista do "novelho" presidente do Senado.

O caso é que o PMDB não ganhou as eleições municipais. A aritmética de sua vitória renega aquele princípio matemático segundo o qual não é correto somar laranjas com bananas, pelo fato elementar de que, ao serem somadas, laranjas não passam a ter gosto de banana e vice-versa. Não se pode falar em vitória nacional de um partido num pleito municipal, seja na Suíça ou no Paraguai. Quanto mais num país do tamanhão do nosso! Mesmo tendo vencido a eleição no segundo maior município do País, São Sebastião do Rio de Janeiro, com um candidato tão puro-sangue quanto o maranhense do Amapá, o ex-tucano Eduardo Paes, e ainda que faça parte da coligação vencedora no maior de todos, São Paulo de Piratininga, desde os primórdios da disputa, nada há a ser comemorado pelo PMDB. Ou melhor: há, sim! Composto por gatos e sapatos que não se entendem nem se toleram, o PMDB tem mais é de cantar vitória para valorizar o próprio peixe. Os outros dirigentes políticos que tratem de separar a verdade da falsidade para não comprarem gato por lebre. Nós outros, que não temos cargos a distribuir nas províncias nem na capital, é que nada temos a ganhar numa festa em que o penetra se comporta como anfitrião e este se finge de morto só para dele tirar o pior.

O domínio do Poder Legislativo pelo maior aliado do governo, seja qual for o governo, não diz respeito à cidadania, tampouco à disputa decisiva que se dará em 2010, quando forem disputados os governos estaduais e a maior joia da coroa, a Presidência. Aí, o PMDB ganhará o prêmio que merece no cenário político nacional: o Oscar de coadjuvante de qualquer vencedor de uma eleição de verdade. Ora, dirão os "idiotas da objetividade", Itamar Franco militou no PMDB e foi presidente da República. Sim, mas a situação atual não pode ser comparada com a da Nova República, quando Sarney reinava no Planalto e o dr. Ulysses dava as cartas na Praça dos Três Poderes. Como Sarney, saído da cúpula do partido que servia à ditadura, a Arena, para ser vice de Tancredo, que voltara ao PMDB após haver fundado o PP com o arqui-inimigo Magalhães Pinto, Itamar era vice - do ressurreto Collor - e, portanto, desembarcou na Presidência sem um mísero votinho que sequer aquecesse o chá das 5 das velhinhas inglesas. Agora mandando de novo no Congresso e sem candidato à Presidência, o PMDB se manterá mordomo, mas tão cedo não vai ser castelão.

A vitória de Sarney no Senado e de Michel Temer (SP) na Câmara só confirma a velha vocação que o Parlamento tem no Brasil de bem servir aos senhores do Poder Executivo. Assim foi sempre, à exceção da chamada Nova República, quando o multipresidente do partido, da Constituinte e da Câmara amarrou seu cavalo no mastro da bandeira e deixou ao noviço maranhense as pompas e circunstâncias dos toques de corneta no Alvorada. Em nossa meia-democracia das urnas, o poder popular expresso pelo voto, legítima manifestação de soberania, é atenuado, ou melhor, moderado, como já se dizia no Segundo Império, pelo método de representação escolhido.

O voto proporcional para a Câmara dos Deputados, na qual em teoria o poder popular seria exercido por representação, evita cuidadosamente a interferência do cidadão incômodo. O truque para escamotear a possibilidade de intromissão do populacho nas decisões tomadas pelas elites dirigentes da burguesia patronal, da casta sindical e das cúpulas partidárias também é facilitado pela forma como funciona o Senado Federal. A igualdade aritmética das bancadas de Estados díspares em tamanho, população e importância econômica ajuda a diluir o poder popular num caldo grosso e insípido de interesses paroquiais e ambições classistas. Sarney e Temer passam a ser os encarregados de mexer essa poção.

Isto pode ser muito bom para eles e para os cupinchas que dividirão com ambos as mordomias deste poder de fancaria. Mas nada significa nem para o poder real, que será disputado daqui a dois anos, nem para a cidadania, que se manifestará nas urnas e, depois, se recolherá ao silêncio, "bestializada", como definiu o historiador José Murilo de Carvalho, até a eleição seguinte, em 2014. Em 2010, e depois de quatro em quatro anos, a cidadania escolherá seu chefe e este terá entre seus poderes os instrumentos de cooptação dos parlamentares que, na mesma ocasião, a mesma cidadania escolher. É melhor que o arbítrio das ditaduras civis e militares de antanho. Pode até ser melhor que as farsas passadas do Império moderado ou das eleições de bico de pena da República Velha. Ninguém duvida. Mas é algo bem diferente de uma democracia de verdade, com instituições impessoais, Poderes autônomos, recall e transparência na gestão e, sobretudo, na manipulação dos bens públicos.

O PMDB tem o direito de festejar as migalhas no banquete dos poderosos de verdade. Nós, não! Ainda temos um imenso deserto de homens e ideias a percorrer.


José Nêumanne Pinto é um escritor, jornalista e poeta, nascido em Uiraúna (PB), em 18 de maio de 1951. Começou sua carreira jornalística no "Diário da Borborema", Campina Grande (PB), como repórter em 1968. Recebeu os prêmios Esso de Jornalismo Econômico em 1975, pela série "Perfil do Operário Brasileiro Hoje" e o Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva, também em 1975, pela reportagem "Éder Jofre e o Boxe Brasileiro". Nêumanne foi colunista, com um artigo semanal sobre Brasil na edição em castelhano do jornal "Miami Herald" . Atualmente reside em São Paulo, onde é articulista periódico do jornal "O Estado de S. Paulo" e editorialista do "Jornal da Tarde", além de publicar seus artigos em diversos órgãos da imprensa nacional. Como escritor José Nêumanne tem diversos livros publicados, também é editor do blog "Estação José Nêumanne" sobre poesia, jornalismo e literatura. E-mail: neuman@estado.com.br


Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" – (Editorial Opinião).
Quarta-feira, 04 de fevereiro de 2009.




Leia também: Não é fácil ser Obama – João Mellão Neto



Monday, October 15, 2007

"El chancho": Um porco fedorento e baitola assassino.

Aqui uma boa foto para estampar em camisetas, com todo o charme do "Che".


































Che – O mito macabro
por Ipojuca Pontes
"Não sou Cristo nem filantropo; sou todo o contrário de Cristo"
"Che" Guevara em carta familiar

No próximo dia 23 de outubro, em sessão especial, o Senado Federal vai prestar homenagem à memória do mitológico Ernesto "Che" Guevara. Como se sabe, há 40 anos o "Che", tentando levantar uma revolução comunista nas selvas da Bolívia, foi capturado por pequena tropa comandada pelo capitão Gary Prado, do Exército boliviano e logo depois executado pelo tenente Mario Téran - não sem antes implorar pela vida: "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto".

O requerimento para a estranha celebração política é de autoria do obscuro senador José Nery (PSOL-PA) - que responsabilizou o "imperialismo ianque" pela morte do aventureiro mas cuja desgraça, sabe-se, foi urdida pela vontade de Moscou, Fidel Castro e o PC boliviano – e tem a aprovação de outro político esquerdista, Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado.

Como registrei no meu livro "Politicamente Corretíssimos" (Toopbooks, Rio, 2003), o mito Guevara não corresponde nem de longe à realidade dos fatos. Salvo pela "revolução cubana" – efetivada, em parte, pela inação dos Estados Unidos que abandonaram o sargento Fulgêncio Batista e no início ajudaram Fidel Castro nas escaramuças de Sierra Maestra - a vida do cruel revolucionário foi um completo fracasso: na órbita familiar, no amor, à frente de ministério e banco, como comandante, "diplomata" e guerrilheiro, para não falar no "ideólogo do foquismo" - sua trajetória humana e social tributa larga soma de erros e equívocos que nem mesmo os biógrafos mais entusiastas (entre eles, Jon Lee Anderson) conseguem dissimular.

Com efeito, filho de mãe "possessiva" e produto de um lar "excêntrico", desde cedo o "Che" só fez acumular fracassos. Por exemplo: quando, como estudante, aspirava (em Córdoba/Argentina) realizar casamento "burguês" com a prima rica Chinchina Ferreyra, que o repudiou; ou como presidente do Banco Nacional Cubano, levando a moeda e a economia da ilha à completa insolvência; ou ainda como ministro da Indústria de Cuba, quando fracassou miseravelmente ao lado de Fidel, na obtenção de 10 milhões de toneladas de açúcar que nem de longe atingiu; e nas frustradas negociações com a Nomenklatura soviética em que pedia ajuda para industrializar Cuba e teve como resposta um sonoro "não"; e na sua doentia pretensão de criar o "homem novo" e a "sociedade nova" – enfim, em tudo que o desastrado guerrilheiro colocou as mãos, só demonstrou elevado grau de incompetência e insensatez.

No levantamento dos sucessivos fracassos de Guevara, propositadamente escondido pelos criadores de mitos, o que chama atenção, no terreno em que se dizia "especialista", é a sua derrota para os 100 mercenários do Coronel Mike Hoare nas planícies do Congo, em 1965. Vale a pena lembrar.

Excluído da vida política e administrativa de Cuba pelos russos, que sustentavam com bilhões de dólares o banquete de "la revolución" e não o queriam por perto, Guevara saiu mundo afora. Sua idéia era criar "um, dois, muitos Vietnãs" para debilitar o "imperialismo ianque". Julgando oportuno e financiado por Ben Bella (leia-se "petróleo argelino") e contemplado com armas chinesas, rumou para o Congo (ex-belga) e se juntou às tropas rebeldes de Laurent Kabila, o jovem aspirante a ditador que, por sua vez, queria derrubar o governo de Moise Tshombe e tomar o seu lugar.

Com 127 guerrilheiros cubanos e 3 mil soldados congoleses bem armados, Guevara se internou nos charcos do país africano e tentou derrubar Tshombe. Seus objetivos no Congo eram, pela ordem, privar as fontes financeiras do governo provenientes das minas, obrigar a Bélgica a reconhecer o novo Estado revolucionário, controlar os minerais estratégicos para benefício do bloco socialista e, mais tarde, levar sua guerrilha até Angola.

Diante da ameaça, Tshombe contratou os serviços do Coronel Mike "Mad" Hoare, mercenário sul-africano, especialista em guerra de movimento nas selvas. Conforme registra o historiador Miguel A. Faria, em "Escape of from lost paradise" (Hacienda Publishing, 2002), as derrotas dos guerrilheiros do "Che" no Congo, foram "desmoralizantes". Na batalha pela hidrelétrica de Bendela, por exemplo, Hoare eliminou boa parte do exército congolês e botou os guerrilheiros cubanos a correr.

Na batalha de Fizi Baraka, nas proximidades do Lago Tanganica, Hoare encurralou Guevara e suas tropas, atacando-as pela retaguarda, de madrugada, destruindo o serviço de comunicação e o centro de abastecimento da guerrilha. No entrechoque fatal, Hoare eliminou 125 soldados congoleses e deixou pelo chão mais de 600 feridos. O "Che", que tinha prometido aos seus comandados "devorar" com as próprias mãos os adversários vencidos, bateu célere em retirada. No seu próprio diário sobre a experiência militar do Congo ("Passagens da guerra revolucionária: Congo" - Record, Rio, 2005), diz que a experiência foi um "fracasso absoluto" e justifica a clamorosa derrota pela "indisciplina" dos soldados congoleses - que, por sinal, diga-se de passagem, eram também canibais, pois comiam o fígado e o coração dos inimigos.

(Depois da fuga humilhante, irritado com a derrota incontornável, o "Che", vendo um dos seus guerrilheiros em conversa íntima com uma africana, ordenou que o comandado ficasse de joelhos e, em seguida, deu-lhe malvadamente um tiro bem no meio da testa).

Numa carta dirigida à primeira esposa, Hilda Gadea, o carrasco que de arma em punho matou vários presos políticos na prisão de La Cabaña, e que era movido pelo ódio como fator de luta, escreveu: "Querida velha. Estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue".

É uma figura assim, transformada em santo pela eficiente máquina de propaganda marxista, que o Senado Federal, em detrimento dos verdadeiros heróis, vai homenagear.

É o fim!


Ipojuca Pontes é jornalista, cineasta e escritor, nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e ao longo de sua carreira conquistou mais de trinta prêmios nacionais e internacionais. Foi também Secretário Nacional da Cultura no governo Fernando Collor de Mello.






Publicado no site "MídiaSemMáscara
Segunda-Feira, 15 de outubro de 2007.




"Che", bicha e porco - Ipojuca Pontes

Friday, October 12, 2007

Um conselho inestimável aos senadores de oposição:
































A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
por Augusto de Franco

O exercício da luta política democrática, sobretudo em circunstâncias como a que vivemos, em que a democracia é alvo de ataques solertes de um manipulador neopopulista que usa a democracia contra a democracia com o objetivo de restringi-la, exige algum tipo de preparação que nossas oposições - está visto - não têm absolutamente!

Depois da leniência em relação ao caso - basta ver como Renan foi confortado por importantes senadores oposicionistas diante da primeira revelação sobre seus negócios escusos com uma empreiteira - agora a oposição quer auferir algum lucro da situação insustentável do presidente do Senado. Agora? Agora é um pouco tarde para isso.

Pedir a renúncia de Renan, mantendo o seu cargo como senador, é uma saída que só interessa ao governo, que assim arranjará uma desculpa para afastar o aliado que se tornou incômodo.

Aprendam um pouco de luta política prática, seus basbaques. Do contrário vocês nunca mais conseguirão levantar a cabeça diante de um adversário que quer desconstitui-los como força oposicionista ou capturá-los e amansá-los para usá-los como força auxiliar (coisa que já vem fazendo). Apliquem um pouco da inteligência humana: a renúncia de Renan da presidência interessa ao governo. Logo, não interessa mais à oposição. O que interessa então à oposição democrática? Mostrar por que Renan foi (e ainda continua sendo, salvo prova em contrário, que não existe, pois nem mesmo a maioria dos senadores petistas declarou-se favorável à perda do mandato de Renan) apoiado por Lula, pelo PT, pelo governo e pelos partidos aliados.

Renan não é o adversário da oposição democrática. O adversário é Lula. Renan não é a principal ameaça à democracia brasileira. A ameaça é Lula. Renan só pôde afrontar a democracia porque contou para tanto com o apoio de Lula. Renan é uma conseqüência direta do esquema criminoso de poder que foi montado pelo lulopetismo no Brasil. Se queremos desmascarar tal esquema - e esse é o principal tema da democracia brasileira nos dias que correm - temos que criar condições para que Renan diga o que Lula não quer que ele diga!

A tática oposicionista, portanto, deve ter Lula como alvo principal. Não deve facilitar a vida para ele e sim expor os seus malfeitos e confrontá-lo, colocando na pauta a pergunta que não quer calar: 'Por que Renan foi mantido até aqui por Lula, pelo PT, pelo governo e pelos partidos aliados?' Por quê?

Como escreveu um leitor do site www.democracia.org.br (chamado Carlão), em um comentário de hoje, "se o "kumpanhêro" Renan abrir a boca, vai começar tudo de novo... Teremos novamente aquela interminável série de reportagens investigativas e capas imperdíveis de Veja; longas e explosivas entrevistas na FSP; gravações contendo diálogos simplesmente inacreditáveis sobre "dutos" de dinheiro público e incríveis conchavos políticos articulados pelo Partido Único do Grotão; propostas de CPIs pra todo lado, com os desgovernistas tentando barrá-las ou, pelo menos, ocupar tanto a presidência quanto a relatoria, para obstruir as investigações; levas de petralhas abestalhados, mentindo descaradamente para o país inteiro ou, então, usufruindo do "direito de ficarem calados"; as divisões Iraque (CUT), Hamurabi (UNE) e Medina (MST) do Exército Vermelho ameaçando sair às ruas; as "oposições"(?) se reunindo para "NÃO" pedir o impeachment do desgovernante e o desgovernante, por sua vez, jurando de pés juntos que, como o Jamanta da história, "não sabia nem nunca soube de nada"; e, no final das contas, a imenso decepção de vermos essa montanha toda parindo um rato: o terceiro mandato para o desgovernante! "Com a força do povo"!

Será possível que nossos oposicionistas sejam tão desprovidos de inteligência? Conhecendo alguns, como conheço, imaginava que não. Mas agora estou em dúvida.

Por outro lado, talvez não seja falta de inteligência, mas irresponsabilidade e covardia mesmo.


Augusto de Franco é Coordenador-Geral da AED – Agência de Educação para o Desenvolvimento, é autor de mais de 12 livros. Além de Coordenador Geral da AED é também Diretor Presidente da ARCA – Sociedade do Conhecimento. Augusto de Franco é professor convidado da Fundação Dom Cabral na área de responsabilidade corporativa, sustentabilidade empresarial e gestão de stakeholders, articulista do jornal Folha de São Paulo, conferencista, consultor senior de governos estaduais e municipais, empresas e organizações internacionais e professor de vários MBA nas áreas de terceiro setor e desenvolvimento local.
Site do autor: democracia.org.br.



Publicado no site " DIEGOCASAGRANDE.COM.BR.".
Quinta-feira, 11 de outubro de 2007, 17h02.


Monday, July 16, 2007

Os políticos brasileiros são apenas um reflexo dos seus eleitores.

































Esperto ou corrupto, qual a diferença?
por Fritz Utzeri

Nas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, as maneiras de pensar e agir de um povo se revelam. De que serve indignar-se com Renan & Roriz e no dia-a-dia trafegar pelo acostamento da estrada se houver engarrafamento; desrespeitar o sinal se não houver guarda ou ignorar a placa e estacionar na vaga do paralítico? Vejo isso todos os dias no estacionamento onde deixo o meu carro, no Centro.

Parece que procuramos sempre a vantagem à custa de pequenos expedientes. Corrupção é outra coisa, pensamos. É roubar grande! Quantos de nós, brasileiros, só não somos corruptos simplesmente porque jamais tivemos a oportunidade de sê-lo? Ou será que, como dizia o imortal Barão de Itararé, corrupção é "aquele grande negócio para o qual não fomos convidados?"

Li no domingo passado, numa das colunas mais prestigiadas da imprensa carioca uma nota sobre a inauguração do Engenhão. O ingresso seria trocado por uma lata de leite em pó, destinada a instituições de caridade. Leia a nota transcrita, ipsis literis do jornal:

"Em tempo: uns torcedores espertos trocaram o leite em pó das latas por areia na inauguração do Engenhão. No ato da troca pelo ingresso, poucos bilheteiros perceberam o golpe".

Percebeu? Não? Leia novamente. Será que é adequado qualificar como "esperto" o torcedor que dá esse golpe para entrar no estádio? Vamos verificar, no Aurélio, o que significa "esperto".

Esperto. [Do lat. vulgo expertu (v. espertar).] Adj. 1. Acordado, desperto. 2. Inteligente, fino, arguto: "Nada lhe escapa, é muito esperto". 3. Enérgico, vigoroso: movimentos espertos. 4. Espertalhão (1). 5. Forte, vivo: fogo esperto. 6. Quase quente: Estranhou a água do banho que estava esperta. 7. Bras. Gir. V. bacana (1). S.m. 8. Espertalhão (2): O mundo é dos espertos. [Cf. experto.]

Vamos a espertalhão:

Espertalhão. [De esperto + alhão.] Adj. 1. Diz-se de homem esperto, finório. Velhaco, astuto, malicioso, esperto.

Veja como o comportamento e a percepção se refletem na língua, tornando-a imprecisa e demonstrando como o criminoso pode ser admirado pela sociedade, a ponto de ser confundido com "inteligente, fino e arguto", sem citar que "esperto" dá origem a "experto" que significa alguém que tem experiência, um perito.

Ou seja, segundo o dicionário, "esperto" para os brasileiros quer dizer: "inteligente, fino, arguto", mas também: "finório, velhaco, astuto e malicioso"... Entenderam?

Ora, o que esses espertalhões do Engenhão (aí a palavra seria aplicada corretamente) fizeram, a lei tipifica como estelionato, fraude, que é crime definido assim pelo Código Penal:

"Estelionato é o fato de o sujeito obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento".

A pena para crime de estelionato é de dois a seis anos de detenção com multa. Não há razão alguma para a admiração mal disfarçada que freqüentemente demonstramos por essas pequenas "espertezas" criminosas. Vamos usar as palavras certas. E não adianta reclamar do Renan e do Roriz & Cia. Se você anda pelo acostamento, paga uma cervejinha para o guarda ou acha idiota perder seu precioso tempo numa fila, podendo furá-la, você, meu amigo, não é esperto. Você é um delinqüente.

PS - A nota não informa o que aconteceu com os "espertos" que foram pegos. Foram presos? Sentenciados a quantos anos? Por mim, mandava preparar um copão do leite em pó que trouxeram e mandava beber até o último gole...



Fritz Utzeri nasceu na Alemanha em 1945. Em 1953, mudou-se para o Brasil. Cursou medicina, onde começou na imprensa universitária, fazendo panfletagem, e descobriu que o que gostava de fazer era jornal. Em 1968, após ser aprovado no curso para seleção de estagiários, começou a trabalhar para o Jornal do Brasil, onde foi repórter especial, editor e correspondente internacional em Nova York e Paris. Reportagens como "Quem matou Rubens Paiva" e a cobertura do atentado do Riocentro renderam importantes prêmios: Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e Esso de Jornalismo. Trabalhou ainda na TV Globo, onde recebeu outro prêmio Vladimir Herzog pelo Globo Repórter sobre os 15 anos do caso Riocentro. Após a TV Globo, abandonou , durante cinco anos, o jornalismo e foi trabalhar na Alcatel como Diretor de Comunicação. Trabalhou na Fundação Roberto Marinho como Superintendente de Comunicação e no jornal O Globo, onde atuou como editor de opinião. Foi também Diretor de Redação do Jornal do Brasil. Atualmente Fritz Utzeri escreve no Jornal do Brasil e edita o jornal eletrônico Montbläat.


Wednesday, June 20, 2007

Bovino transgênico: Só produz “filé mignon”.


































Fazendas baratas, bois caros
por Carlos Sardenberg

Toda a operação para salvar Renan Calheiros revelam visão muito peculiar das elites brasileiras – ou de parte delas, vá lá. Como se trata de uma elite que nasceu e cresceu em torno do Estado, seus representantes não vêem separação entre o público e o privado. Eles se desenvolvem na política, vereadores, prefeitos, deputados, até chegar a Brasília. E quanto mais avançam na política, mais cresce sua, digamos, capacidade empresarial.

Tomem-se os negócios da família Calheiros em Alagoas. Como consegue comprar fazendas tão baratas e vender bois tão caros?

Tem sempre a intervenção de um órgão público, municipal, estadual ou federal, facilitando o negócio. E a administração pública no Estado é dominada por famílias e clãs, todas muito amigas, mesmo quando em partidos diferentes. Aliás, os partidos lá não guardam qualquer relação com a ideologia ou programas políticos. São siglas para acomodar pessoas e interesses.

O fato é que a elite de Alagoas enriquece enquanto a população vive na pobreza – e isso há tanto tempo. E quando alguém é apanhado, como Renan, é seu próprio pessoal encarregado da apuração.

Querem exemplo maior do que este?

Há dúvidas sobre os documentos apresentados pelo senador para justificar os lucros com a venda de gado. Pois quem foi despachado para Alagoas para checar os documentos? O diretor da Secretaria de Controle Interno do Senado, Shalom Granado, que deve o cargo a Renan.

E quem está providenciando os documentos? Autoridades estaduais entre as quais só há amigos e/ou correligionárias do senador.

Debates
Alguns internautas que gastam seu tempo comentando notas deste blog têm o hábito de desclassificar um argumento pelo seu autor. Ah! dizem em tom acusador, se foi fulano que falou, não vale. Ora, tal comentário não serve para nada. É preciso apontar o equívoco.


Publicado no Portal G1.
Segunda-feira, 18 de junho de 2007.


Os bois de Renan
por Carlos Sardenberg

De um leitor do blog e do site www.sardenberg.com.br, Dairo, economista, recebemos os seguintes cálculos. Passo como recebi. Façam as contas:

Dados informados pelo senador Renan Calheiros: Venda de 1.700 cabeças de gado; 3 fazendas próprias e três arrendadas; período, jan/2004 a junho/07 (42 meses). Receita líquida = lucro líquido de R$ 1.900.000,00.

Premissas para análise desses dados:

1) Custo na operação pecuária de 25% da receita bruta {compra-venda} - Mão de obra, Vacina, Sal mineral, Sementes de pastagens, óleo diesel, vermífugos, cercas etc.

2) Custo de arrendamento, pelo menos 1 arroba por animal por ano (de graça);

3) Gado 100% macho;

4) Nenhum animal morre no período {zero de perda};

5) Pastos mais férteis do Brasil, 0,9 animal/ha, ganho de 13 arrobas brutas por ano, ou 6,5 @ de carne;

6) Preço de compra e de venda médio da Cepa/USP {usado pela BM&F} dos últimos 42 meses = R$ 55,6842 a arroba;

7) compras e vendas sem intermediários, sem custos de comissão;

8) Sem considerar custos de transporte;

9) Boi gordo = 16,5 arrobas e boi magro, 10 arrobas {padrão BM&F);

Com estes dados e estas premissas podemos especular que o Exmo. Sr. Presidente do Senado pode ter realizado apenas três tipos de operações:

a) Tinha um estoque inicial de 1.700 cabeças de boi gordo em 2004, vendeu na sua totalidade a R$ 67,73 a arroba. E hoje não possui gado algum!

b) Tinha 1.700 cabeças de boi gordo em 2004. Vendeu, recomprou boi magro nos 3,5 anos seguintes, girando 100% de seu estoque. Assim, venda de 1.700 bois x 16,5@ x 55,6842 = R$ 1.561.941 por ano. Compra 1.700 bois x 10,0@ x 55,6842 = R$ 946.631 por ano. Logo, receita bruta = R$ 615.310 por ano; Receita Bruta no período: R$ 615.310 x 3,5 anos = R$ 2.153.585; Menos os custos {25%} R$ 538.396; menos arrendamento 1.700:2 x 55,6842 x 3,5= R$ 165.660. Dá uma Receita liquida {lucro} de R$ 1.449.520;

c) Realizou lucro de R$ 1.900.000,00 engordando gado nos últimos 3,5 anos. Ou seja: vendeu líquidas 34.120 arrobas. Seguindo o raciocínio do calculo anterior, 50.690 arrobas brutas. Se cada cabeça de gado ganha 6,5 arrobas por ano, significa que foram vendidas 7.798 cabeças de boi gordo no período ou 2.228 cabeças por ano, 185 por mês ou 10 caminhões de gado/mês, um a cada três dias!

Na operação "a" trata-se do melhor vendedor de gado do Brasil, pois a arroba média nos melhores mercados foi de R$ 55,68 no período. Partindo das Alagoas, zona afetada pela febre aftosa, Renan vendeu seu gado a R$ 67,73, ou 21% acima do mercado.

d) Seu gerente afirma que ainda há 1.100 cabeças no pasto??? Então, na operação B teria uma receita líquida de apenas R$ 1.449.520, portanto abaixo dos 1.900.000,00 que afirma ter conseguido!!!!!

Na operação "c" seria o maior comerciante de gado das Alagoas, girando mais de 15.000 cabeças em 3,5 anos, tornando-se conhecido no mercado. Obviamente não venderia gado para açougues ou que tais. Lidaria diretamente com produtores e grandes frigoríficos. Estamos tratando com o verdadeiro REI DO GADO!

Mas todas as hipóteses colocadas são altamente improváveis, principalmente nas Alagoas. No interior dizemos que o gado engorda aos olhos do dono. Sua Exa., que mora em Brasília, a milhares de quilômetros de suas fazendas consegue o impossível, diz que seu gerente não sabe quantas cabeças possui, que quem sabe é seu veterinário, que mora em outra cidade e é Secretario do Município onde seu filho é prefeito!!!

Como consegue tamanha eficiência?

Conclusão: A atividade pecuária no Brasil é uma coisa seria, foi-se o tempo de se usar bois para esconder ou lavar dinheiro. Hoje temos de provar que o gado foi vacinado, temos rastreabilidade, nota de produtor rural tanto na compra quanto na venda, guia de transito de animais, declaração de estoque inicial e final no Imposto de Renda, pagamento de impostos. Frigoríficos dão recibos e não pagam mais em espécie e sim em cheques ou transferência eletrônica, portanto facílimo de provar. Vamos parar de atentar contra a inteligência dos brasileiros, notadamente de toda a cadeia da pecuária de corte que inclui exportadores, frigoríficos, produtores, pesquisadoras, grandes universidades, institutos como Embrapa, grandes multinacionais que pesquisam e produzem vacinas, antibióticos, vermífugos etc. A operação Collor (Uruguai) era menos risível que esta.


Publicado no Portal G1.
Terça-feira, 19 de junho de 2007.


Carlos Alberto Sardenberg é jornalista e âncora do programa CBN Brasil. Também é comentarista econômico do Jornal das Dez (da Globonews) e do Jornal da Globo, da TV Globo, além de manter colunas nos jornais “O Estado de S.Paulo” e no “O Globo”. Mantém ainda um blog no Portal G1 e o site Sardenberg.com.br. Foi apresentador do telejornal da Gazeta Mercantil e apresentador do Roda Viva da TV Cultura. Sardenberg também é palestrante na área de política e política econômica (conjuntura, cenário nacional e internacional, perspectivas políticas e econômicas). Em 37 anos de jornalismo, trabalhou como repórter, redator e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo. Nas mesmas funções, trabalhou ainda nas revistas Veja e IstoÉ. Já publicou três livros: "Aventura e Agonia nos Bastidores do Cruzado", "Jogo Aberto" e “O Assunto é Dinheiro”.



 
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