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Tuesday, September 21, 2010

IMPRENSA: COMEÇANDO A CAIR A FICHA? TARDE, MUITO TARDE...

LEIA TAMBÉM: "Lula é um fenômeno religioso" por Arnaldo Jabor





































Lula e a visão autoritária da imprensa
editorial do jornal "O Globo"

É nos improvisos que o presidente Lula se deixa levar, fala o que não seria conveniente do ponto de vista político, mas transmite o que lhe vai no fundo da alma. Inebriado por índices recordes de popularidade, nunca antes alcançados neste país, Lula tem radicalizado na autoindulgência, como se o apoio popular o colocasse acima de leis e limites institucionais.

São exemplos desse desvio as sucessivas vezes em que o presidente age como chefe de partido, numa deplorável mistura de papéis, porém bem ao estilo de um governo que, na ocupação da máquina burocrática, exercita ao extremo a confusão entre interesses privados e a esfera pública.

É nessa zona cinzenta que a grande família de Erenice Guerra se aboletou, e corporações sindicais sentam praça nos cofres do Tesouro, ao lado de movimentos ditos sociais que atuam em estado de semiclandestinidade, em parte financiados pelo contribuinte.

À medida que se envolvia no projeto de eleger a sua desconhecida ministra Dilma Rousseff, enquanto mantinha e até elevava a popularidade, o presidente foi jogando às favas o equilíbrio. Principal atração dos comícios de sua candidata, Lula radicaliza na insensatez. Pode-se dar desconto pelo inevitável aumento de temperatura característico das campanhas eleitorais, mas não é possível ser condescendente quando se invade de maneira desvairada o campo vital das liberdades democráticas.

Até porque o ataque feito por Lula à imprensa, num comício em Campinas, sábado, não é um acidente de rota, um fato isolado no seu governo de quase oito anos; tampouco no seu partido, onde se destilam propostas formais para a democratização da mídia, o controle social dos meios de comunicação, eufemismos para designar a destruição da independência da imprensa profissional, assim como fazem os governos de Cristina Kirchner e Hugo Chávez, aliados preferenciais da diplomacia companheira no continente.

No sábado, Lula, como se tomado pelo espírito do Rei Sol, um Luis XIV tropicalizado, bradou: Nós somos a opinião pública. Em meio a ataques a alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem um partido político (...), Lula, na verdade, externou toda a dificuldade que ele, auxiliares diretos e líderes petistas têm de entender o papel da imprensa numa sociedade aberta. Há tempos emana do Planalto a visão de que o governo Lula acabou com os formadores de opinião, e agora se sabe que eles foram substituídos, segundo este contorcionismo intelectual, pelo presidente e seu grupo no poder. Numa reedição de um pai dos pobres de figurino getulista, o presidente teria hipnotizado as massas, alimentadas por um assistencialismo bilionário, e por isso elas só reproduzirão a opinião do seu redentor.

Mais do que uma tosca engenharia de raciocínio, porém, esta percepção lulista da imprensa deriva de um entendimento autoritário da função dos meios de comunicação: segundo a vulgata ideológica dos intelectuais orgânicos do lulopetismo, a imprensa é um instrumento de manipulação da sociedade.

E, sendo assim, precisa estar subordinada ao partido e ao Estado, os quais, no imaginário desses militantes, se confundem. É inconcebível para esses que a imprensa profissional que precisa ser rentável para se manter independente, e o mais distante possível de verbas administradas pelos poderosos do momento cumpra uma função pública, e disto têm consciência profissionais e acionistas das empresas de comunicação.

A visão maniqueísta lulopetista da imprensa leva a que se procure intrincadas conspirações por trás de reportagens de denúncia, um truque que também serve para jogar uma cortina de fumaça à frente de desvios éticos cometidos pela companheirada. Foi assim que o mensalão se tornou produto de uma imprensa golpista, bem como a ação dos aloprados.

Denunciado por um aliado desgostoso, Roberto Jefferson, do PTB, o esquema de coleta e lavagem de dinheiro sujo para alimentar uma bancada parlamentar governista gerou um processo que tramita no Supremo Tribunal Federal, depois de aceita denúncia da Procuradoria Geral da República contra essa organização criminosa. No escândalo da tentativa de compra de um dossiê falso contra o tucano José Serra, na campanha de 2006 para o governo de São Paulo, petistas proeminentes os aloprados, nas palavras do próprio Lula foram apanhados em flagrante delito.

Nada, porém abala o discurso petista contra manobras golpistas da imprensa independente.

Mas não houve qualquer crítica quando, no primeiro governo FH, reportagem do GLOBO derrubou o então presidente dos Correios, Henrique Hargreaves, ao revelar que ele tinha um contrato com o Sebrae, do qual recebia sem trabalhar.

Não se ouviu, também, qualquer reclamação petista quando a Folha de S.Paulo relatou histórias de compra de votos de deputados federais a favor da emenda constitucional que permitiria a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Ou na revelação feita pelo GLOBO de que o esquema do mensalão, antes de José Dirceu, Delúbio e Genoino, fora acionado pelo PSDB mineiro no financiamento da campanha frustrada de reeleição do governador Eduardo Azeredo, delito também a ser julgado no STF. E nenhuma admoestação à imprensa partiu do PT na divulgação de cenas pornográficas de corrupção patrocinadas pelo DEM de Brasília.

Imprensa boa é imprensa chapa-branca, deduz-se.

Outra prova cabal de como o PT se equivoca sobre o jornalismo profissional foi dada por José Dirceu, cassado no escândalo do mensalão e considerado pelo Ministério Público o chefe da tal organização criminosa.

Considerado líder importante no partido, até visto como herói por ter se imolado pela causa petista, Dirceu demonstra continuar com bom trânsito em Brasília, e continua a pontificar.

Na semana passada, ao doutrinar sindicalistas petroleiros na Bahia, o ex-ministro da Casa Civil de Lula comemorou o fato de uma provável vitória da companheira de armas Dilma Rousseff facilitar a execução do projeto político do PT, difícil de ser aplicado com Lula, pois o presidente em contagem regressiva para voltar a São Bernardo é algumas vezes maior que o partido, explicou. Do projeto, consta o de sempre: democratização dos meios de comunicação etc.

Além de considerar que a imprensa brasileira abusa do direito de informar uma pérola do pensamento da esquerda autoritária, Dirceu reclamou de uma suposta tentativa das redações de interferir na formação do futuro governo Dilma, algo digno de ficção.

Ora, isto não é função da imprensa.

A não ser que se entendam os meios de comunicação pela ótica do PT: não passam de instrumentos de manipulação política e social.

É gigantesca também a dificuldade de Lula e companheiros entenderem que veículos de comunicação podem não defender partidos e candidatos, mas princípios, e, em função deles, criticar ou elogiar partidos e candidatos.

Trata-se de outro equívoco tentar comparar a postura da imprensa brasileira diante de governos, candidatos e legendas com a de países onde práticas democráticas são seguidas há séculos e existem partidos enraizados na sociedade por gerações.

Deturpar a realidade em razão de cacoetes ideológicos não chega a preocupar.

Costuma acontecer na política e mesmo no mundo acadêmico. O perigo está quando se chega ao poder com este tipo de percepção.


Publicado no jornal "O Globo" (Editorial Opinião).
Terça-feira, 21 de setembro de 2010.





Este governo transforma fatos em ficção (e vice-versa)

Foto: © CAMALEÃO - Óleo sobre tela, caricatura de "Arnaldo Jabor".









































Lula é um fenômeno religioso
por Arnaldo Jabor

Lula não é um político - é um fenômeno religioso. De fé. Como as igrejas que caem, matam os fiéis e os que sobram continuam acreditando. Com um povo de analfabetos manipuláveis, Lula está criando uma igreja para o PT dirigir, emparedando instituições democráticas e poderes moderadores.

Os fatos são desmontados, os escândalos, desidratados, para caber nos interesses políticos da igreja lulista e seus coroinhas. Lula nos roubou o assunto. Vejam os jornais; todos os assuntos são dele, tudo converge para a verdade oficial do poder. Lula muda os fatos em ficção. Só nos resta a humilhante esperança de que a democracia prevaleça.

Depois do derretimento do PSDB, o destino do país vai ser a maçaroca informe do PMDB agarrada aos soviéticos do PT, nossa direita contemporânea.

Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos, como "razão, democracia, respeito à lei, ética", ficaram ridículos, insuficientes raciocínios diante do cinismo impune.

Como analisar com a razão essa insânia oficial? Como analisar o caso Erenice, por exemplo, com todas as provas na cara, com o Lula e seus áulicos dizendo que são mentiras inventadas pela mídia? Temos de criar novos instrumentos críticos para entender essa farsa. Novos termos. Estamos vendo o início de um "chavismo light", cordial, para que a "massa atrasada" seja comandada pela "massa adiantada" (Dilma et PT).

Os termos têm de ser mudados. Não há mais "propina"; agora o nome é "taxa de sucesso". A roubalheira se autonomeia "revolucionária" - assalto à coisa pública em nome do povo. O que se chamava "vítima" agora se chama "réu". Os escândalos agora são de governos inteiros roubando em cascata, como em Brasília, Rondônia e Amapá - são "girândolas de crimes". Os criminosos são culpados, mas sabem tramar a inocência. O "não" agora quer dizer "sim".

Antigamente, mentia se com bons álibis; hoje, as tramoias e as patranhas são deslavadas; não há mais respeito nem pela mentira. Está em andamento uma "revolução dentro da corrupção", invadindo o Estado em nossa cara, com o fito de nos acostumar ao horror. Gramsci foi transformado em chefe de quadrilha.

Nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no país não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas.

Nosso único consolo: estamos aprendemos muito sobre a dura verdade nacional neste rio sem foz, onde as fezes se acumulam sem escoamento. Por exemplo: ganhamos mais cultura política com a visão da figura da Erenice, a burocrata felliniana, a "mãe coragem" com seus filhos lobistas, com o corpinho barbudo do Tuminha (lembram?), com o "make-over" da clone Dilma (que ama a ex-Erenice, seu braço- direito há 15 anos), com o silêncio eufórico dos Sarneys, do Renan, do Jucá... Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!

Ao menos estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno corrupto que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento popular.

Nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades imundas, mas fecundas como um adubo sagrado, belas como nossas matas, cachoeiras e flores.

Os canalhas são mais didáticos que os honestos. Temos assistido a um show de verdades mentirosas no chorrilho de negaças, de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo.

Como é educativo vermos as falsas ostentações de pureza para encobrir a impudicícia, as mãos grandes nas cumbucas e os sombrios desejos das almas de rapina. Que emocionante este sarapatel entre o público e o privado: os súbitos aumentos de patrimônio, filhinhos ladrões, ditadura dos suplentes, cheques podres, piscinas em forma de vaginas, despachos de galinhas mortas na encruzilhada, o uísque caindo mal no Piantela, as flatulências fétidas no Senado, as negaças diante da evidência de crime, os gemidos proclamando "honradez" e "patriotismo".

Talvez essa vergonha seja boa para nos despertar da letargia de 400 anos. Através deste escracho, pode ser que entendamos a beleza do que poderíamos ser!

Já se nos entranhou na cabeça, confusamente ainda, que, enquanto houver 20 mil cargos de confiança no país, haverá canalhas, enquanto houver estatais com caixa preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse Código Penal, nunca haverá progresso.

Já sabemos que mais de 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas, sem saneamento, com o Lula brilhando na TV, xingando a mídia e com todos os mensaleiros, sanguessugas e aloprados felizes em seus empregos e dentro do ex-partido dos trabalhadores.

E é espantoso que esse óbvio fenômeno político, caudilhista, subperonista, patrimonialista, aí, na cara da gente, seja ignorado por quase toda a "inteligentsia" do país, que antes vivia escrevendo manifestos abstratos e agora se cala diante desse perigo concreto que nos ronda. No Brasil, a palavra " esquerda" ainda é o ópio dos intelectuais.

A única oposição que teremos é a da imprensa livre, que será o inimigo principal dos soviéticos ascendentes.

O Brasil está evoluindo em marcha a ré! Só nos resta a praga: malditos sejais, ó mentirosos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços e vos devorem a alma.

Os soviéticos que sobem já avisaram que revistas e jornais são o inimigo deles.

Por isso, "si vis pacem, para bellum", colegas jornalistas. Se quisermos a paz, preparemo-nos para a guerra.


Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.
E-mail: a.j.producao@uol.com.br


Publicado no jornal "O Estado de S.Paulo".
Terça-Feira, 21 de setembro de 2010.






9.11.01–9.11.10 You promised, you'd never forget. You promised. – Bootlead






Sunday, November 01, 2009

URGENTE: ÚLTIMA CHAMADA! A SITUAÇÃO JÁ ESTÁ QUASE IRREFREÁVEL!

*Atualizado em 02/11/2009.

Isso é muito sério: Até o pai da "criança" (FHC), já admite que gerou um "monstro".
E os milicos? Ora, continuam acovardados e "deitados em berço esplêndido"!










































Para onde vamos?
por Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da terra", de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista" deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha casa, minha vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência". Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar "l'État c'est moi". Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.


Fernando Henrique Cardoso (FHC), nasceu no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1931, é professor, sociólogo, cientista político e escritor. FHC, foi Senador da República, Ministro das Relações Exteriores, Ministro da Fazenda e Presidente da República por dois mandatos (1995-2002). Atualmente FHC, preside o Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) e participa de diversos conselhos consultivos em diferentes órgãos no exterior, além de ser presidente de honra do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), partido este, que foi co-fundador.





Publicado no jornal "Zero Hora" – (Edição Nº 16142).
Domingo, 01 de novembro de 2009.




NIVALDO CORDEIRO "TRADUZ" FHC. PERFEITO!










































FHC E O TEMA DE NOSSO TEMPO
por José Nivaldo Cordeiro

O tema de nosso tempo é o totalitarismo (que chamei de Estado Total) e o Brasil caminha a passos largos na sua direção. Os leitores que me acompanham estão perfeitamente cientes dos perigos que nos  rondam. E quero  confidenciar  aqui, que o artigo hoje  publicado em vários jornais pelo  ex-presidente  Fernando Henrique Cardoso (v. texto acima), ao mesmo tempo que me envaideceu, me deixou entristecido. Vejo que vários dos pontos preocupantes que tenho levantado em minhas análises foram plenamente endossados por ele. FHC também está muito preocupado com o futuro político do Brasil. Ter a concordância de FHC mostra que, de fato, não tenho errado nas análises, algo a envaidecer-me. Porém, fico triste porque acertar aqui é perder, pois os riscos emergem de todos os lados, as ameaças brotam, a sociedade treme inerme diante do Estado Total petista.

FHC inicia o artigo indo direto ao ponto principal, a plena alienação da sociedade brasileira diante da arrogância e exorbitância do governo Lula: "A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio 'talvez' porque alguns estão de tal modo inebriados com 'o maior espetáculo da terra', de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?"

FHC só não pode afetar surpresa por isso. Ele sabe perfeitamente bem que o grande eleitor de Lula e o pavimentador dos caminhos do PT ao poder foi ele mesmo. A alienação da sociedade aconteceu em larga medida em seu próprio tempo de poder e oriunda de seus próprios métodos. Não faz muito eu comentei a entrevista que FHC deu à revista Dicta&Contradicta (v. AQUI ), na qual ele se declarou partidário dos métodos políticos de Gramsci. Ora, o resultado disso não seria coroado no seu governo, socialista meia-boca, ainda com o ranço "burguês". A social-democracia sempre preparou o terreno para que os radicais desembarcassem no poder de Estado. Como teórico da revolução gramsciana ele tem perfeitamente claro como funciona a coisa toda.

FHC completou no exórdio do artigo: "Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos".

Sim, tem método, o método usado por FHC ele mesmo e seu grupo, desde antes de chegar ao poder. Impessoal, a despeito do príncipe tresloucado, um estúpido com cara de torcedor e futebol. A revolução no ensino, alienando os jovens, a edição de material didático mentiroso, o agigantamento acelerado do Estado, do lado da receita e da despesa, o controle ideológico dos meios de comunicação, foi tudo que FHC realizou. Até mesmo as malditas bolsas em troca de votos foi criação sua. FHC se preocupa talvez porque um insensato é um príncipe despreparado. Ora, quando os demônios são soltos fazem coisas que se esperam deles. Afinal, são demônios. É o que estamos vendo. Nada do que Lula faz é diferente do que FHC fez, exceto que o processo é cumulativo e está em grau muito mais avançado, praticamente temos vinte anos nessa marcha forçada no rumo do totalitarismo. Que a revolução gramsciana se faz assim mesmo, "devagarinho, quase sem que se perceba". Agora FHC chama a isso de "pequenos assassinatos", figura notavelmente apropriada, mas ele é mais que cúmplice desses crimes, pode ser considerado o mandante. FHC poderia ter salvo o Brasil desse desastre, mas jamais quis isso. Como um Fausto tupiniquim achou que poderia negociar com Mefistófeles sem entregar a alma. O fogo arderá para todos. FHC deu-se conta da dimensão da tragédia que nos espera.

Completou: "Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do 'autoritarismo popular' vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: 'Minha casa, minha vida'; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos".

FHC teve a coragem de vir a público dizer essas coisas todas, uma surpresa para mim. Falar, como fez, em autoritarismo popular é ainda um eufemismo, mas uma figura de linguagem que já dá a dimensão trágica do real. Afinal, FHC carrega a autoridade de ex-presidente, patrono de todos os esquerdistas, inclusive e sobretudo de Lula e seu grupo. De uma maneira que me pareceu desapropriada comparou as ações de Lula com as dos governos militares, esquecendo-se de dizer que os militares implantaram o regime de força para livrar o Brasil das mesmas forças totalitárias aglutinadas em torno de Lula; e, depois, fizeram a abertura política e entregaram o poder aos civis, sem qualquer trauma. O processo agora é precisamente o inverso e mais paralelo, vejo como o período imediatamente anterior ao pré-64: as esquerdas se aproximando do poder total pela via democrática, objetivando destruir a ordem democrática para perpetuar-se. FHC não perdeu o sestro de falar mal dos militares, para cortejar talvez aqueles a quem denuncia no artigo. Seu medo ainda não alcançou as devidas dimensões.

Não obstante, foi capaz de escrever: "Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados". Nesse trecho podemos notar sua ansiedade e sua urgência. Partido e Estado formando uma unidade é o totalitarismo com todas as letras e o Brasil já vive isso, conforme ele observou. Infelizmente, é o que tenho escrito há bem mais tempo. Esse processo começou no dia da posse de Lula. Este artigo tardou a ser escrito.

Em meus artigos os leitores têm lido muito sobre o papel adquirido na economia pelos fundos de pensão e como eles se tornaram instrumentos para a chegada ao socialismo, a partir da resenha que fiz do livro de Peter Drucker (v. AQUI ). É a primeira vez que vejo o problema colocado nos mesmos termos que tenho escrito: "Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde".

Pergunta: quem tem força para dar basta ao continuísmo? Ora, direis, as estrelas. Quais? As quatro, aquelas mesmas quatro que em 1964 tiveram a força e o discernimento para espantar os alucinados do poder. Que venham enquanto é tempo. Ora, direis, ouvir estrelas... Melhor ouvir clarins?

Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Domingo, 01 de novembro de 2009.




CONTRATO EM FASE DE CONCLUSÃO












































A MÃO QUE BALANÇOU O BERÇO
por José Nivaldo Cordeiro

Mais algumas palavras sobre o artigo de FHC (v. AQUI ) publicado no último domingo. A angústia do ex-presidente é a real possibilidade de se consolidar o continuísmo petista. Seu artigo é esse grito de desespero de alguém que construiu a revolução gamsciana achando que controlaria todo o processo e que ele mesmo e seus asseclas iriam manter-se no poder. Não podemos esquecer que na entrevista concedia à revista Dicta&Contradicta (v. AQUI ) FHC declarou que o PT estava apenas temporariamente no poder. Queimou a língua.

Brincou de feiticeiro, soltando os demônios revolucionários e agora não sabe mais como fazer para que eles retornem à caixa de Pandora. Fernando Henrique Cardoso é uma espécie de Zeus do petismo, tendo parido essa gente de sua própria cabeça. Foi um grande ato de irresponsabilidade política. A arte da política é combinar a legitimidade da democracia com a condução aristocrática dos negócios do Estado. Essa fórmula, esse regime misto, só é possível de ser obtido na chamada democracia burguesa, que pressupõe o respeito à propriedade privada e o Estado Mínimo. E o pluralismo político, que inclua as forças conservadoras com capacidade real de alcançar o poder.

O esforço pessoal e de seus correligionários foi o de precisamente destruir o conservadorismo no Brasil, mesmo a memória do conservadorismo, que nisso consiste a tal revolução gramsciana. Criou-se um artificial abismo de gerações, moldando um homem novo, sem passado, as multidões eleitoras do PT. Descambar para o populismo bolivariano de Lula era o passo lógico subseqüente. FHC achou-se o patrício-mor da Nação. Errou feio. Seu artigo foi a confissão desse erro e do desespero de ver o país caminhar para o abismo, sem nada a fazer. Resta ainda, como última instância, as supremas forças da ordem, as Forças Armadas, aquelas mesmas que FHC humilhou, criando o Ministério da Defesa, condenando seus comandantes à condição de subalternos. Ora, eles nunca foram subalternos e se tem alguém que se assemelhe aos patrícios romanos no Brasil são eles mesmos, os comandantes, não FHC.

Piora o quadro o fato de que FHC não mais controlar o processo político nem mesmo dentro de sua agremiação política, o PSDB. Estamos vendo a rebelião de Aécio Neves, que quer porque quer ser o cabeça de chapa na eleição que se aproxima. Se não o for, fará o que fez nas últimas eleições e trairá o próprio partido, consumando a derrota e o continuísmo petista. Até mesmo uma possível recondução ao governo de São Paulo, de José Serra, pode estar ameaçada, o que seria a suprema tragédia política. Tantas são as besteiras de seus aliados que acabarão por entregar a rapadura aos adversários.

Os demônios (uso o termo aqui no sentido que Dostoievsky usou no famoso romance) soltos e agindo vão pôr fogo no mundo. Fausto encarnado sob o manto de FHC não tem como controlá-los. Tempos de grandes perigos. Não deve FHC se queixar da mão pesada deste modesto escriba, mas dos seus próprios delírios revolucionários.

Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Segunda-feira, 02 de novembro de 2009.



José Nivaldo Cordeiro: "Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas".



José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP e editor do site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado". E-mail: nivaldocordeiro@yahoo.com.br




NIVALDO CORDEIRO POR NIVALDO CORDEIRO





































QUEM SOU EU?

Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas.

Digo como o grande Ortega y Gasset:"Dou o que tenho; que outros, capazes de fazer mais, façam o seu mais, como eu faço o meu menos".

POR QUE ME DECLARO CRISTÃO

É muito difícil definir em que consiste o meu cristianismo. Em primeiro lugar, porque Cristo é, antes de tudo, uma expressão simbólica e como tal contém o Inefável, o Indizível, aquilo que escapa à compreensão humana. Lendo os belos textos das Escrituras vemos muitas metáforas e outra figuras de linguagem, pois a definição das coisas divinas não é fácil na linguagem humana. Gosto especialmente do discurso de Paulo no Areópago (At17,22 +) em que fala do Deus Desconhecido. Gosto quando Paulo fala do Deus Vivo, gosto quando Cristo disse que vem renovar a Aliança, mas vem também fazer valer a Lei, uma contradição aparente. Gosto quando Paulo diz que "Deus não faz acepção das pessoas" e gosto da vocação evangelizardora cristã, sua mais nobre missão.

O que mais me seduz no Cristianismo é a sua idéia fundamental de que a Humanidade é uma só, que Deus é um só, e que pela Graça haverá a Salvação. Sem isso a vida fica rigosoramente oca, não vale a pena, é transitória, dolorosa, contraditória, aterrorizante. A morte, diante de uma negação de Deus, é a única saída sensata para um ser inteligente, para escapar da horrenda condenação a que está submetida a Natureza, a vida a devorar-se a si mesma, eternamente, numa sucessão de dores inúteis.

Então a minha crença consiste em dar fé ao testemunho dos homens excepcionais que escutaram a mensagem de Cristo e outros, como Paulo, que viveram uma experiência avassaladora e irresistível, de "ver" Cristo. De homens modernos, como Jung, que nos afirmam que a experiência desses homens antigos é verdadeira e que o Deus Vivo continua vivo como sempre, em cada um de nós. De homens como Miguel de Unamuno, que ungidos da bênção da poesia, conseguem exprimir a fé como uma verdade filosófica. De homens como Olavo de Carvalho, que, a partir de intelectos excepcionais, dão-nos a garantia a nós outros de que Verdade e Fé são uma única e mesma coisa.

Mas o Cristianismo tem ainda outras belezas. Tem as virtudes, em especial a Caridade. E o que dizer do Perdão? Da Tolerância? Da Paciência? Uma religião que prega a prática desse conjunto de virtudes, dificílima, que por si só exige do vivente uma força interior de um gigante, tem algo de extraordinário e de transcendente.

Mas tenho também muitas perguntas, acho que todas elas sem respostas, dentro das limitações humanas. Por que "esse" plano de Salvação? Em que consiste precisamente a Salvação? Por que Deus permitiu que Satã tivesse força para ser a Sua negação? Etc, etc, etc.

O que me consola é ter aprendido com Unamuno que a fé pressupõe a dúvida e entre as duas fica o crente crucificado durante a sua existência. Era a sua maneira peculiar de ver no homem uma imitação do Cristo pregado à Cruz, "morriente".

Por fim, há um conjunto de sonhos que tive, nos quais aparece a Cruz Resplandecente e que dão a minha própria sustentação empírica à minha fé. É a maneira com que o Bom Deus abençoou-me com uma dádiva, uma gota de Sua bondade. Como explicar isso para quem não viveu algo igual? É indizível, é o que nos torna sós, solitários em meio a multidão. Haveria ouvidos para ouvir? Duvido. Quem é mesmo o meu próximo? Hoje só há pseudos cristãos guerreiros (aonde está a paz de Cristo?) em busca de revolução, ninguém quer mais saber do Pão da Vida, mas do Reino desse Mundo, a ruina do Espírito na ensandecida busca da salvação pela política, vale dizer, pela matéria.

26/03/2001

DEVER DE CONSCIÊNCIA

Em conversa com amigos, perguntaram-me porque decidi me expor, escrevendo quase que diariamente sobre temas variados e opinando sobre os fatos da conjuntura. Resposta na ponta da língua: faço-o por dever de consciência. Por mim, por minha família, por meus amigos, por meu País.

O estilo que adoto nos meus curtos escritos é o da sobriedade, mesmo quando manipulo temas naturalmente polêmicos e explosivos. Sem ela, poderia acontecer dos textos tomarem o tom denuncista e, por isso mesmo, perderem a credibilidade. Mas sobriedade não significa fazer concessões: ela é um mero estilo de escrever. Minhas palavras são tão duras quanto merecem os temas trabalhados, sem fazerem concessão de espécie alguma. E não é sem esforço, pois os temas são candentes e a minha inclinação natural é a explosão verbal de indignação. Mas, assim, os textos teriam a eficácia diminuída.

Decidi escrever por dois motivos fundamentais. Primeiro, porque descobri que, no meio-dia da vida em que me encontro, eu tenho algo dizer. Mas decidi também fazer esse estafante – e gratificante – esforço porque a mentira e a desinformação tomaram conta das nossas fontes de informação e senti-me na responsabilidade de fazer o contraponto, no limite das minhas possibilidades. Tive que fazer um grande esforço pessoal para escapar da lavagem cerebral a que estamos submetidos e decidi somar esforços com os poucos gatos-pingados que também decidiram enfrentar a mentira institucionalizada, voluntária ou não, que domina os nossos meios de comunicação e de produção cultural.

Não escrevo por dinheiro, nem por vaidade, nem por projeto político pessoal. Escrevo como uma espécie de missão. Posso até dizer que o faço hoje não mais por escolha – se é que algum dia o fiz – mas por um impulso interior que só se controla diante da crônica do dia redigida. Por ser assim, desfruto da máxima liberdade, aquela liberdade inebriante que só a arte de escrever pode permitir. A sublime liberdade.

Algumas publicações, em diferentes regiões do Brasil, têm acolhido as minhas notas. Fico feliz e lisonjeado por isso. Mas me daria por satisfeito com a requintada platéia que tenho na Internet, essa grande maravilha, que permitiu juntar-me aos solitários de alma e unir-me àqueles que estavam irremediavelmente ilhados. Essa será talvez a maior revolução da rede, a de deixar que homens e mulheres que têm o que dizer, e o fazem por dever de consciência, amplifiquem a sua mensagem, fazendo-a chegar aos lugares mais distantes. É uma confraria dos solitários de alma.

Tenho feito novos e grandes amigos entre os seres mais especiais, não apenas em nosso País, mas também no exterior. É uma dádiva e uma recompensa trocar correspondência com essas pessoas e ocasionalmente encontrá-las. É uma graça divina partilhar da riqueza espiritual de tanta gente distinta, jovens e velhos, todos muito talentosos.

É por isso que escrevo com gosto. Mudei a minha rotina e aumentei a minha carga de trabalho, mas é o que faço de mais importante nesse instante da minha existência.
03/02/2002
José Nivaldo Cordeiro




Lealdade e disciplina – Cel Marcelo Oliveira Lopes Serrano





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Wednesday, May 28, 2008

Um "jogo" muito estranho! Quem perdeu: $$$ GANHOU $$$.






































O germe do autoritarismo
por Ricardo Noblat

Fui preso quatro vezes durante a ditadura militar inaugurada no país em 1964. Estudava jornalismo no Recife e ao mesmo tempo trabalhava em jornais. Em 1969, eu e mais vinte e poucos colegas fomos expulsos da Universidade Católica de Pernambuco, acusados de subversão. E durante um ano proibidos de estudar em qualquer outra universidade. Fiquei desempregado por algum tempo.

Eu simpatizava com a Ação Popular, uma das muitas organizações de esquerda que lutavam contra a ditadura. Mas nunca a ela me filiei - nem a nenhuma outra. Sabia que não dava para ser jornalista e militante político ao mesmo tempo - e o jornalismo me atraía mais. E não estava convencido de que o comunismo era a salvação do mundo. Não queria trocar a ditadura que nos esmagava por qualquer outro tipo de ditadura.

Todas ou quase todas as organizações que pregavam o fim da ditadura rejeitavam o modelo de "democracia burguesa" que temos hoje, aqui e na maior parte do mundo. Eu respeitava quem pensava assim, mas não estava convencido do acerto de sua opção - pelo contrário. E não via a mais remota chance de sucesso na tentativa de se derrubar a ditadura via luta armada. Ela venceria, como de fato venceu.

Parte dos jovens daquela época era "generosa", como observou, ontem, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, em entrevista ao Programa do Jô. Por generosa, entenda-se: capaz de arriscar a integridade física em defesa de suas idéias. Mas isso não quer dizer que suas idéias fossem corretas. Ou Dilma ainda acredita na "ditadura do proletariado"? Ou ainda acredita que "o poder está na ponta do fuzil"? Não creio.

Tenho horror e nojo à ditadura, como disse certa vez o deputado Ulysses Guimarães, então presidente do PMDB. E a todas as suas práticas - a suspensão dos direitos e garantias individuais, a tortura e a morte dos seus adversários. Mas por ter combatido a ditadura de 64 ao meu modo, e arrostado com as consequências disso, não me acho merecedor de indenizações ou de qualquer outro tipo de reconhecimento.

A glorificação dos que enfrentaram armados a ditadura pensando em substitui-la por outra revela oportunismo e a dificuldade de se abdicar de idéias carcomidas . Há nisso também muito de arrogância e de autoritarismo.


Ricardo Noblat, nasceu em 1949 na cidade de Recife-PE, formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou como repórter dos jornais "Diário de Pernambuco" e "Jornal do Commercio", além das sucursais do "Jornal do Brasil" e revista "VEJA", também foi repórter e chefe da extinta revista "Manchete" no Recife. Chefiou a sucursal da revista "VEJA" em Salvador-BA, por dois anos, revista esta, onde depois foi editor-assistente em Sâo Paulo-SP. Trabalhou ainda em Brasília-DF, como editor regional da sucursal do "Jornal do Brasil" e repórter na também sucursal do jornal "O Globo", de onde saiu para chefiar a sucursal da revista "IstoÉ" e posteriormente a direção de redação do jornal "Correio Braziliense". De volta a Salvador-BA, chefiou a redação do jornal "A Tarde" por quase um ano. Ainda teve uma passagem pelo jornal "O Estado de S. Paulo", onde além de uma coluna aos domingos, manteve um blog. Atualmente Ricardo Noblat é editor-chefe do "Blog do Noblat" e publica uma coluna às segundas-feiras no jornal "O Globo". Noblat também é autor de vários livros na área de Jornalismo.


N.R. Além de política e atualidades o Blog do Noblat também é ótimo para quem gosta da boa música.

Publicado no Blog do Noblat.
Terça-feira, 27 de maio de 2008, 14h19.





A IDIOTIA DE LULA – José Nivaldo Cordeiro
 
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