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Thursday, January 14, 2010

2010: SE NOS SUBMETERMOS A ISSO...

Click na foto abaixo para a conclusão do acima predito.









































ESTRATÉGIA DE APROXIMAÇÃO INDIRETA
por Oliveiros S. Ferreira

O empenho que se coloca em revogar a lei da anistia deve ser analisado à luz de critérios diversos daqueles sob os quais muitos o vêem.

A análise corrente tende a fixar-se nos aspectos propriamente penais do problema que se criou e conclui que o objetivo das ações seria julgar e condenar Oficiais do Exército que, a juízo dos que dirigem a campanha, cometeram atentados contra os direitos humanos no período 1964-1985. O Plano Nacional dos Direitos Humanos, em sua terceira versão agora conhecida sob forma de decreto presidencial assinado por Lula da Silva — já publicado no DOU, portanto, em pleno vigor — seria disto a prova.

A batalha de usura que vem sendo travada em torno da validade e eficácia da lei da anistia tem-nos feito esquecer de um dos princípios que orienta qualquer bom General ao fazer seu plano de guerra, ofensiva ou defensiva: nunca desprezar o adversário. Minha impressão, hoje, é que aqueles que lutam com floretes, preocupados com defender-se das cargas da cavalaria adversária, a esse princípio não atentam. Com a distração, correm o risco de perder a batalha principal, ainda que venham a imaginar ter vencido a guerra, caso aqueles que chamo de sabreurs venham a dar por perdida a batalha secundária quando a questão da anistia for submetida ao Supremo Tribunal Federal.

Dessa perspectiva − a questão se decidirá no STF − é fazer pouco dos conhecimentos jurídicos do adversário caso partamos do suposto de que ele desconhece que a lei penal não retroage a não ser para beneficiar o réu. É igualmente um erro crasso menosprezar o entendimento que esse adversário tenha das coisas, e supormos que ele não saiba que as leis, a Constituição e os tratados internacionais, pelas quais pretende que os Oficiais do Exército sejam julgados, são todos posteriores aos fatos hoje apontados como ilícitos penais.

Conseguir a anulação da lei da anistia é o objetivo secundário de toda esta campanha. O objetivo principal − e para ele tenho chamado, de quando em quando, a atenção de todos − é fazer do Exército um instrumento da política do Governo e não do Estado.

O presente é o presente, o passado é o passado, bem sei; e, a muitos, parecerá desagradável relembrar fatos que supõem estar sepultos há muito tempo e remexer neles. Mas fatos do presente somente podem ser compreendidos caso saibamos como puderam acontecer, e soubermos quais fatos do passado os provocaram ou os tornaram possíveis. Reflitamos, pois:

1. Em 1936, na sucessão da Intentona de 1935, o Presidente Vargas (governo constitucional, convém ressaltar) conseguiu que o Congresso aprovasse duas emendas à Constituição, uma das quais dava ao Governo a faculdade de afastar dos quadros da Ativa do Exército e da Marinha quantos Oficiais considerasse que constituíam perigo para as instituições. Num famoso voto em reunião de Generais do Exército, Góes Monteiro firmou a posição de que o Exército cuidaria de seus problemas e de que o Governo não tinha por que arrogar-se o direito de julgar a conduta política dos Oficiais da Força de Terra. Góes concluía seu voto dizendo que, se o Governo pretendia de fato afastar da Ativa os Oficiais que considerasse menos leais às instituições, estaria transformando o Exército numa gendarmaria. Com o que ficava claro que, para ele, Comandante militar da Revolução de 1930, o Exército não poderia estar sujeito às variações de humor político dos governantes, sobretudo porque, além de ter uma função constitucional bem clara, definida pela Constituição de 1934, o Exército era o instrumento de uma política externa, portanto, um instrumento do Estado.

2. Conforme seja a concepção político-ideológica que se tenha da função do Exército (e das Forças Armadas em geral), tal será sua colocação no organograma do Estado, que é a Constituição. Mais do que a "folha de papel" reescrita tantas vezes ao sabor das conveniências do Executivo e de Congressistas, é a prática constitucional o que conta: que posição os militares ocupam no organograma constitucional? Têm assento entre aqueles que decidem ou deste círculo restrito são afastadas?

3. Em 1934, seguramente por sugestão ou pressão de Góes, o que era mero decreto − creio que de 1926 − incorporou-se à Constituição, com a criação do Conselho de Segurança Nacional desde sempre chefiado pelo Chefe da Casa Militar. A composição do Conselho evidenciou, durante todos estes anos, que os Ministros militares participavam das graves decisões de Estado, além de terem acesso direto ao Presidente da República na sua condição de Ministros e, convém lembrar, pela figura do Chefe da Casa Militar, de status igual à do Chefe da Casa Civil.

4. A Constituição de 1988 mudou o organograma do Estado no que se refere às Forças Armadas, extinguindo o Conselho de Segurança Nacional e criando em seu lugar um outro órgão, o Conselho de Defesa, que nem tem as mesmas características do CSN, nem tem as mesmas funções. Mudou sem que na campanha eleitoral para a Constituinte, em 1986, o assunto tivesse vindo à baila. Foi o primeiro sinal do afastamento dos militares dos centros de decisão, que pouca reação provocou, afastamento este confirmado anos depois com a criação do Ministério da Defesa e a subordinação das Forças aos civis. Aqueles que se dedicarem a estudar o porquê dessa mudança deverão lembrar-se de que o Brasil era um dos poucos, se não o único País da América do Sul que ainda não tinha, a exemplo dos Estados Unidos, criado um Ministério da Defesa.

5. Subordinadas a um Ministro civil nessas novas condições (lembremo-nos que o antigo Ministério da Guerra pôde ser ocupado, eventualmente, por um civil, um civil de fibra, Pandiá Calógeras, que, sem representar qualquer prejuízo para as funções militares, foi e é até hoje considerado um dos melhores Ministros que o Exército já pôde ter), as Forças Armadas deixaram de ter acesso direto ao Presidente da República e às decisões de Estado. Foram assim, como hoje se diz, "blindadas" as decisões civis a respeito das questões militares e de Segurança e Defesa nacionais. Pela força da inércia político-institucional que regeu o processo brasileiro até a escolha do Sr. Nelson Jobim para o Ministério da Defesa e que agia a favor da presença militar no Estado — fato evidenciado claramente com a nomeação do Vice-presidente da República para ocupar o cargo depois de uma sucessão de civis na Pasta da Defesa sem condições de vencê-la — as Forças Armadas conservaram parte de seu poder de pressão nos assuntos administrativos.

Voltemos então ao tema principal deste artigo.

A batalha que tem por objetivo alcançar o objetivo secundário é uma batalha frontal − de usura, convém sempre repetir. Para ela, mobilizam-se as ditas "organizações da chamada sociedade civil" que, por seus porta-vozes, reclamam "justiça" para que se possa conhecer — este o grande argumento usado na arregimentação dos recrutas a quem chamo de sipaios — a "verdadeira" história do Brasil. Não apenas estas organizações foram mobilizadas. Agora, a notícia é de que há mais de 10 mil assinaturas em documento na internet reclamando que a "justiça" se faça contra os militares. Assinaturas de dez mil indivíduos (ou mais) que serão encaminhadas ao STF para que os Ministros possam decidir e julgar em consonância com a "vontade geral da sociedade civil".

Os que comandam esta batalha sabem como travá-la, inspirados não nas lições de um cavalheiro chamado Antonio Gramsci (que alguns insistem em apontar como máximo denominador comum de todas as pragas), mas na doutrina político-militar da guerra subversiva. Nesse tipo de confronto, o importante é conquistar corações e mentes. Essa conquista sempre se deu pela propaganda e pelo terror, fosse quem fosse o interessado nela. A propaganda pode resumir-se à repetição diuturna de uma palavra de ordem que faça apelo aos corações, isto é, aos sentimentos mais profundos de Justiça de intelectuais ou simples homens do povo. Se os primeiros, em grande número, reclamarem Justiça, a batalha está ganha. E o poder garantido.

Assim acontece porque, pelo processo de circulação social das idéias, cada intelectual conquistado por aqueles que dirigem a luta pela "justiça" significa, a médio prazo, a conquista da confiança de cem homens do povo.

A mente (dos intelectuais ou dos simples, sempre preocupados com as questões da vida e da morte) conquista-se por um tipo especial de "terror", que consiste em fazer que os indecisos saibam que sua adesão ao partido contrário ou à proposta contrária implicará, para todo o sempre, o seu isolamento social, na medida em que serão rotulados de "reacionários", quando não de "defensores da injustiça", quando não "defensores da tortura".

Os que viveram os anos que se seguiram à posse do Sr. João Goulart no sistema parlamentarista, e antecederam março de 1964, lembrar-se-ão de que todos aqueles que se manifestaram a favor da posição assumida pelos Ministros militares, que eram contrários à posse de Goulart, foram acoimados de "reacionários" e "gorilas". A pecha tinha tamanho impacto que o próprio Sr. José Bonifácio, candidato da UDN às eleições para Governador de São Paulo em 1962, fez questão, em comício, de condenar os "gorilas" e afastar-se dos Ministros Denys, Heck e Moss.

Para um intelectual, mais do que para o homem do povo, o isolamento social com base numa acusação deste tipo é como uma sentença de morte.

A reação não tardou. Na ocasião, um Capitão da Reserva do Exército procurou, na Bahia e na área de atuação do que era então o IV Exército, reverter o processo: lançou, juntamente com seus companheiros da "Frente Patriótica Sete" (pois essa "frente" era composta de apenas sete Capitães) um jornal chamado "O Gorila", apontando, no primeiro número, aquilo que seriam as virtudes do animal: força, inteligência e fidelidade ao grupo.

Para a conquista dos corações e das mentes, na guerra subversiva, é necessário seguir uma das lições de MaoTsé-tung: o guerrilheiro deve ser como um peixe fora d'água, isto é, deve confundir-se com a população. Confundir-se de tal maneira que ninguém dele suspeite, o que lhe permitirá agir quando necessário, encoberto por sua condição de pacífico cidadão.

Na batalha de usura, os sipaios são aqueles que foram conquistados pela propaganda e em boa medida também pelo "terror". Eles não são uma coorte, "parte de uma legião". São uma legião inteira, composta por tantos quantos temem o isolamento social a que estarão sujeitos caso não formem entre os que simplesmente querem que se faça "JUSTIÇA", assim mesmo, com maiúsculas e com aspas.

Os "peixes de Mao" são de outro tipo. Eles são aqueles que travam a batalha principal como se fossem Forças Especiais, as que os ingleses e os norte-americanos empregam para destruir alvos inimigos no meio da noite. Sua missão não é reclamar "JUSTIÇA"; é destruir a solidariedade do Exército que têm como inimigo. Sua estratégia não é a da usura. É a da aproximação indireta.

A batalha principal é esta. Nela, as armas são a propaganda que visa a constranger os intelectuais, colocando-os diante de um problema que nada tem a ver com os ideais de Justiça: para que servem as Forças Armadas? Elas devem ter o poder que tinham antes da criação do Ministério da Defesa ou devem ser estritamente profissionais, subordinadas ao Poder Civil como o são nos países do Primeiro Mundo, especialmente nos Estados Unidos?

É em torno destas questões que se trava a batalha principal sem que haja quem, nas estruturas militares, atente para a gravidade delas.

E estas reflexões vão longe. Eu as retomarei em breve.


Oliveiros S. Ferreira nasceu em 05 de maio de 1929 em São José do Rio Pardo, SP, é cientista social, jornalista, escritor, cientista político, historiador e professor, licenciado em Ciência Sociais pela Universidade de São Paulo, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, é livre-docente pela mesma instituição. Atualmente é professor convidado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de ministrar cursos no Programa de Estudos Pós-Graduados da FFLCH da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais e Teoria Política. Tem publicados inúmeros livros nos seguintes temas: Brasil, Política, Relações Internacionais, Ordem Mundial e Guerra. Para saber mais sobre o Prof. Oliveiros, seus artigos e obras publicadas, visite seu site pessoal "Pensar e Repensar". E-mail: pensar-e-repensar@uol.com.br


Publicado no site "Pensar e Repensar".
Terça-feira, 12 de janeiro de 2010.




PODEREMOS TERMINAR RECEBENDO ISTO!






























































O DECRETO DOS DIREITOS HUMANOS
por José Nivaldo Cordeiro

Os jornais anunciaram que o presidente Lula está alterando cosmeticamente o decreto que instituiu o III Plano Nacional de Direitos Humanos, que causou grande desconforto no meio militar e em alguns setores da sociedade civil, especialmente junto ao agronegócio. Na verdade, a maneira como está sendo feita a alteração sequer muda o decreto anterior, que permanece. Está sendo feito outro decreto que modifica algumas expressões.

A vontade política que comandou a feitura do decreto anterior permanece intacta. É uma carta de princípios e um plano de ação para as esquerdas organizadas em torno da legenda do PT. Pode-se dizer que é o plano de governo da candidata Dilma. Aqui quero explorar um pouco mais o significado do que está inserido no decreto.

A primeira coisa que salta aos olhos é que o PT está fazendo um grande esforço para sovietizar o processo de tomada de decisão política, em escala nacional. Já foram realizadas mais de sessenta conferências nacionais, a exemplo da Confecom e de direitos humanos. Pude testemunhar que os participantes dessas conferências comportam-se como se estivessem em processo constituinte.

Obviamente que o marco jurídico brasileiro desconhece essa instância decisória, que se torna assim meramente indicativa. Mesmo assim, o decreto original "aprova" seu conteúdo, colocando o peso da Presidência da República a seu serviço. O produto das conferências acaba por se tornar decretos, projetos de lei e portarias, de sorte que podem ter impacto imediato.

Veja-se que o clamor militar e civil era contra o decreto em si, não contra meras expressões. O decreto de direitos humanos pretende rever o sistema de propriedade privada e a Lei de Anistia, entre outras coisas. Ele continua valendo. Estamos diante de um crime de responsabilidade, conforme definido no artigo 4º da lei 1079, de 1950 ("Atos que atentarem contra a Constituição Federal").

Obviamente que o que está sendo chamado de "direitos humanos" nada mais é que um chavão para desqualificar a democracia representativa e o corpo legal em vigor no país. É um instrumento de propaganda revolucionária e de ação política, de ação direta nos moldes do fascismo, pelas minorias organizadas, que tentam impor à Nação sua ideologia particularista. É a prova mais evidente de que o Brasil está em franco processo revolucionário que objetiva a instalação de um regime comunista pleno no Brasil.

Veja, meu caro leitor, que tudo está sendo feito às claras, sem nenhuma preocupação em disfarçar nem os meios e nem os objetivos a serem alcançados. Esse plano de direitos humanos é da mesma natureza do Mein Kampf de Hitler. As pessoas não levaram muito a sério mas, uma vez no poder, os revolucionários nazistas puseram tudo em prática. Vejo a passividade dos empresários, do meio militar, da Igreja, da classe média, todo mundo achando que essa iniciativa é meramente tática e não é para valer. Mas é para valer! Essa gente não está para brincadeira, proclama o que vai fazer e o faz, sem encontrar maiores resistências. A passividade é exasperante, parece que a covardia tomou conta de toda a Nação brasileira. O torpor é generalizado.

A proclamação em metástase dos múltiplos direitos humanos, definidos sempre em antagonismos, impõe a cisão na sociedade. O direito da criança, por exemplo, é sempre definido em antagonismo em relação ao pátrio poder. O da mulher contra o marido. Do adolescente contra a família. O de diretos humanos é muito mais abrangente, procurando modificar o sistema de propriedade privada, o controle completo sobre a produção de notícias e conteúdo de informações em geral e a humilhação dos chefes militares, entre outras coisas.

Na verdade, está proclamado nas entrelinhas o direito ao terrorismo e impedida a ação das forças da ordem contra ele. É a subversão total da ordem.

Lula não voltou atrás. Fez um gesto vazio. Nada de bom nos aguarda.


José Nivaldo Cordeiro: "Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas".



José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP e editor do site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado". E-mail: nivaldocordeiro@yahoo.com.br


Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Quarta-feira, 13 de janeiro de 2010.





Uma "aula" sobre "SABREURS" (comunas) e "SIPAIOS"* (milicos).





Friday, October 23, 2009

CaLUguLA*: O tiranete demente.

Fotomontagem: Percebam a "olhadura" do desqualificado. São olhos que riem, riem de nós.






























Um fatalismo conveniente
editorial do jornal O Estado de S. Paulo

O presidente Lula é um realista radical. Para governar o Brasil, afirma, quem quer que chegue ao Planalto, "pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista", não terá escolha. Deverá se resignar à realidade política, formando alianças com as forças partidárias dominantes no Congresso, qualquer que seja o perfil - ou a folha corrida - de seus líderes e qualquer que seja o custo dessas barganhas. "Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico", justificou-se Lula numa entrevista à Folha de S.Paulo. E, para não deixar dúvida sobre os extremos a que chega o seu fatalismo, a sua crença no predomínio absoluto dos imperativos do poder sobre valores, princípios e afinidades, saiu-se com uma analogia que é puro Lula. "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer", imaginou, "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão."

O sistema político brasileiro, de fato, conduz a isso - não se chamasse, em linguagem acadêmica, presidencialismo de coalizão. O modelo eleitoral, ao mesmo tempo que incentiva a proliferação de partidos, muitos dos quais mal se distinguem uns dos outros, praticamente impede que a legenda ou a coligação do candidato vitorioso ao Executivo receba, na disputa para as Câmaras legislativas, a proporção equivalente de votos, o que daria ao governante a maioria parlamentar natural. Mas, em sete anos no Planalto, Lula não moveu uma palha para reformar o sistema que obrigaria Jesus a negociar o apoio de Judas. Ao contrário, com os recursos de poder ao seu alcance, montou a mais enxundiosa base de sustentação da história do Congresso Nacional - e está perfeitamente confortável com a "realidade política" de que tirou proveito e que, em outra encarnação, prometia transformar. Nesse sentido, a teoria lulista da inexorabilidade dos pactos fisiológicos revela a sua conveniência: serve para legitimar a acomodação ao que está aí.

Lula não tem sentimento de culpa - ou o esconde admiravelmente. Perguntado, na mesma entrevista, se sentia algum aperto no peito por ter reatado com o ex-presidente e senador Fernando Collor, depois de todas as baixezas de que foi vítima da parte dele, na campanha de 1989, respondeu friamente que não tem razão para "carregar mágoa ou ressentimento". E tornou a teorizar: "Quando se chega à Presidência, a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o direito de ser pequeno." Em abstrato, o argumento é perfeito. Mas, visto na perspectiva dos fatos desta Presidência, é mais uma racionalização. Está no mesmo departamento de sua justificativa para o apoio ao presidente do Senado, José Sarney, a quem considera um "grande republicano", envolvido em denúncias que, em outras circunstâncias, o teriam apeado do cargo. "A manutenção do Sarney era questão de segurança institucional", exagerou. Se caísse, a oposição faria "um inferno neste país".

Além de ostentar a costumeira autoindulgência, Lula não hesita em desqualificar quem se atreva a questionar os seus atos. O alvo, no caso, foi o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que chamou de "vale-tudo" a sua campanha antecipada, com recursos públicos, em favor da pré-candidata Dilma Rousseff - cujo maior evento até agora foram os 3 dias de "inspeções" das obras de transposição do Rio São Francisco, na semana passada. Primeiro, disse que "ninguém pode ser contra a Dilma ir às obras comigo". Depois, acusou o ministro de fazer "um debate pequeno". "Cada brasileiro tem o direito de falar o que bem entender", arrematou, "mas vamos continuar inaugurando." Isso também é puro Lula, no que contém de desprezo pela ética e de subordinação dos meios aos fins. (Num discurso, anteontem, ele foi ainda mais rombudo. "Agora desgraçou tudo", disparou, "porque os homens estão ficando nervosos porque nós estamos inaugurando obra.")

Confiante na sua supremacia política, ele se permite tudo. Enquanto isso, a oposição patina na definição de seu candidato para 2010 e frequentemente se mostra intimidada pelos 80% de aprovação popular ao presidente e o renovado clima de otimismo com a economia. Apenas a imprensa parece fazer sombra a Lula - a ponto de levá-lo a dizer que o seu papel não é de "fiscalizar" o poder, mas apenas de "informar". É o retrato de uma mentalidade.


Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" – (Editorial Opinião).
Sexta-feira, 23 de outubro de 2009.










*NR. O nosso CaLUguLA, tem tudo a ver com o verdadeiro Calígula, senão vejamos: Conforme escritos do filósofo do Império Romano, Sêneca, "O Moço": "Calígula transformou-se num homem arrogante, cheio de ódio e grosseiro na sua ascensão ao trono". Suetônio, filósofo e escritor latino (69 d.C.–141 d.C.), que escreveu a obra "A vida dos doze Césares", onde dedicou 21 capítulos a Calígula, definiu-o como "um monstro". Josefo, historiador romano de origem judaica afirmou que foi o poder que tornou Calígula um arrogante, fazendo-lhe acreditar que era "um deus". Juvenal, poeta e filósofo romano, o mesmo que cunhou a máxima: "As pessoas comuns - em vez de cuidar da sua liberdade - estão apenas interessados em pão e circo" (conhecemos isso, não?), afirmava que Calígula bebera uma poção que o tornara louco (seria 51?). Muitos historiadores defenderam que Calígula padecia de hipertiroidismo, diagnóstico este, baseado na irritabilidade e na "olhadura" do imperador. Também a política econômica de Calígula, pontuada pela generosidade (leia-se corrupção) e a extravagância, esgotou as reservas financeiras do império, levando Roma a bancarrota e o povo à miséria. Como podem ver o nosso CaLUguLA tem muita semelhança com o Calígula imperador romano, que pensava ser Deus, arruinou seu império e foi descrito por quases todas as fontes contemporâneas como como um demente irascível, caprichoso, derrocador e enfermo sexual (animais, menino do MEP, etc.). Na certa, nos dias de hoje, Calígula seria disgnosticado como um psicopata no grau máximo. É isso, esse é o nosso "cara". Calígula reencarnou!
Bootlead
E.T. Alguém saberia informar se Calígula possuía somente "nove" dedos?



O alerta de um soldado – J. R. Nyquist





Friday, January 30, 2009

Veremos, se será capaz de ressuscitar.










































Não é fácil ser Obama
por João Mellão Neto

Meio século atrás, em certa cidadezinha do sertão de Minas, surgiu um sujeito bem apessoado, de barbas e cabelos longos, que afirmava ser ninguém menos do que Jesus Cristo. Tanto e com tal veemência ele insistiu que o povo da cidade começou a se amoldar à circunstância de ter, entre si, o Filho de Deus. Logo surgiram um Pôncio Pilatos, uma Madalena arrependida, 12 apóstolos, centuriões romanos e todos os personagens necessários para levar à frente a Paixão de Cristo. O sujeito foi preso e julgado. Foi devidamente condenado a morrer na cruz. Iniciou-se, então, a via crúcis. Tudo corria de modo impecável até que o tal do messias sertanejo, no momento de ser pregado na cruz, cochichou no ouvido de um dos soldados que iria até a moita mais próxima se aliviar. Foi, sumiu e nunca mais deu as caras por ali. Escafedeu-se. Tratou de dar no pé e, assim, salvar a própria pele.

O povo local nunca mais se recuperou. Todos, traumatizados, ainda aguardam o retorno do messias. E assim ficarão até o fim dos tempos.

Em meados de 1961, o jornalista David Nasser valeu-se dessa parábola para traduzir a estupefação dos brasileiros diante da renúncia do presidente Jânio Quadros.

Voltando à atualidade, ninguém desejaria, neste momento, estar na pele de Barack Obama. Como outros 2 bilhões de espectadores - um terço da população mundial -, todos assistimos, pela TV, à sua posse. Não havia, naqueles tensos instantes, quem não estivesse, em todos os cantos da Terra, depositando em seus ombros a obrigação de nos livrar dos problemas e, simplesmente, fazer-nos felizes.

Não bastará, assim, a Obama, ser um bom presidente. O que se espera dele, no mínimo, é que seja excepcional. Ou ele se demonstra, já no início, um dos maiores estadistas da história dos EUA ou, então, cairá na vala comum ocupada por tantos outros colegas seus.

Que Obama chama a atenção pela sua condição racial, isso é fato. Ele prometeu mudanças, rupturas. E, perante o imaginário coletivo, a sua negritude é o mais eloquente símbolo dessa proposta.

Há, no entanto, uma peculiaridade que, como negro norte-americano, distingue o presidente Obama: ele não descende de escravos e, portanto, não tem a cobrança e o ressentimento em sua agenda política.

Sua vitória nas urnas não foi tão arrasadora como se quer crer e tampouco lhe garante uma maioria confortável e incondicional no Congresso.

Seu pacote de estímulo econômico é de mais de US$ 800 bilhões. É muito dinheiro. Representa 5% do produto interno bruto (PIB) dos EUA. O governo do país não dispõe de tal quantia e, assim, ela virá de um aumento considerável do endividamento público.

Trata-se, na prática, de um cheque sem fundos. O debate sobre como e quem pagará essa dívida é o que divide, hoje em dia, os economistas.

Essa discussão, para nós, brasileiros, parece absurda. O que está em jogo é o tamanho do Estado e o seu papel na economia. Entre nós, o Estado é gigantesco e vem intervindo fortemente na economia, sob os mais diversos pretextos, desde, pelo menos, os anos 30 do século passado.

Nos EUA há, atualmente, duas grandes vertentes no pensamento econômico.

De um lado estão os intervencionistas, ou neokeynesianos. Para eles, o papel do Estado é fundamental para promover uma retomada dos investimentos, em geral. Com isso os empregos seriam mantidos e a recessão terminaria. O principal argumento deles é o de que foi graças a uma política econômica semelhante que o presidente Franklin Delano Roosevelt logrou acabar com a Grande Depressão que assolou os EUA a partir de 1929. Para eles, todo e qualquer investimento público - mesmo que não haja dinheiro disponível para cobri-lo - é justificável. O aumento da arrecadação de impostos resultante de tais estímulos acaba quitando a dívida.

Segundo os discípulos de Keynes, numa recessão, mesmo que o Estado contrate uma equipe de trabalhadores para abrir buracos e outra para tapá-los, o dinheiro gasto para tanto tem um efeito claramente multiplicador na economia. O raciocínio é o seguinte: os trabalhadores, empregados em tais serviços "inúteis", gastarão os seus salários no comércio, em geral. Os comerciantes, com esse dinheiro em mãos, tratarão de investi-lo na compra de novos estoques de mercadorias, ou mesmo na criação de mais empregos. Ao adquirir novos estoques, o comércio fará as indústrias produzirem mais. Todos os tributos arrecadados na cadeia produtiva em razão do investimento inicial do governo (abrir e tapar buracos) acabam repondo o dinheiro gasto.

De outro lado está a corrente clássica, ou "monetarista", para a qual o Estado não é solução, e sim problema. Eles afirmam que a Grande Depressão não terminou em função da política de Roosevelt, e sim da entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial. Isso gerou novas demandas, que levantaram o parque industrial inteiro. Em tempos de paz, os únicos papéis válidos do Estado, para atenuar a crise, são: 1) Garantir a liquidez do sistema financeiro e 2) reduzir os impostos para que as pessoas tenham mais dinheiro disponível em mãos para consumir. Esta é a doutrina econômica e política que nós, liberais, sempre pregamos.

O pacote de Obama, curiosamente, contempla providências que são, ora do agrado de uma corrente econômica, ora do de outra. Procura atrair gregos e troianos... Como reza a sabedoria popular, quem põe um pé em cada canoa acaba sempre com os fundilhos na água...

O tempo dirá com quem está a razão. O que se pode afirmar, por enquanto, é que a sua situação, agora, é bem mais desconfortável do que a do Cristo mineiro. Nem pular fora ele pode. Realmente, não é fácil ser Obama...


João Mellão Neto, nasceu na cidade de São Paulo, SP em 06/11/1955, filho de comerciante de café e agro-pecuarista estudou administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e jornalismo na Fundação Cásper Líbero. João Mellão Neto tem seus artigos publicados, todas as sextas-feiras na página 2 do jornal "O Estado de S. Paulo". Como escritor já publicou diversos livros na área do "pensamento político liberal", em vista que João Mellão também teve uma carreira política bastante diversificada para sua idade, sendo quatro vezes secretário municipal, cumpriu dois mandatos de deputado federal e foi Ministro do Trabalho e da Administração, atualmente é deputado estadual em São Paulo (DEM).
E-mail: jmellao@al.sp.gov.br



Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" (Editorial Opinião).
Sexta-Feira, 30 de janeiro de 2009.




Leia também: VERDADE, HONRA, VERGONHA – Maria Lucia Victor Barbosa



Tuesday, June 03, 2008

A malícia nada pode contra a sabedoria.













































Errando e aprendendo
por Olavo de Carvalho

Recebo diariamente dezenas de perguntas de alunos, leitores e ouvintes, e tento responder a quantas posso, mas em geral recuso todo pedido de orientação religiosa, quando mais não seja porque não considero que eu mesmo seja o protótipo do sujeito orientadíssimo nessas questões. Há, no entanto, uma regra de interpretação bíblica – portanto, de moral religiosa também – que decorre da natureza mesma da linguagem e que ninguém em seu juízo perfeito pode negar, embora muitos a neguem na prática sem percebê-lo.

Não aprendi essa regra com ninguém, nem decerto fui o primeiro a descobri-la: depois de ter andado por inumeráveis cabeças de crentes ao longo dos milênios, ela acabou por aparecer na minha, espontaneamente, uma certa manhã, depois de eu ter rezado durante meses a Nosso Senhor Jesus Cristo para que tornasse as Suas palavras mais inteligíveis a um jumento como eu. Tenho portanto minhas razões para acreditar que Ele mesmo, sem que eu o notasse, programou o meu cérebro para aceitá-la. Aos santos, profetas e iluminados, Deus fala em voz alta ou em sonhos. Os burros e teimosos da minha espécie só aprendem em estado de sono profundo, quando repousamos totalmente inconscientes e indefesos entre os braços do Senhor, como as criancinhas, e, por momentos, sem qualquer mérito da nossa parte, desfrutamos de um privilégio a elas reservado. Tenho seguido essa regra há anos, e infalivelmente ela me torna as coisas cada vez mais claras, tanto na decifração de trechos da Bíblia como na resolução de perplexidades da vida. No mais, ela é tão natural e óbvia que só não a seguem os que jamais se deram conta dela.

Como geralmente acontece com as verdades mais simples, aquilo que é percebido num relance intuitivo e mudo exige algum requinte lógico para se expor em palavras. Para facilitar a explicação, faço aqui uma distinção entre "normas" e "princípios" – longinquamente inspirada na de Kant e Max Scheler entre ética material e formal, mas sem o mínimo compromisso com a filosofia moral de um ou do outro. Todo sistema moral compõe-se das duas coisas. Normas específicas ordenam ou proíbem um determinado tipo de conduta concreta: não mate, não roube, ajude os órfãos e as viúvas, etc. Quando a ordem não se expressa por um imperativo concreto, mas por uma relação abstrata de proporcionalidade, como numa equação do tipo a/b = x/y, então já não se trata de uma conduta em especial, mas de um princípio que deve ser seguido em todas as condutas, em todas as situações da vida.

As normas específicas, para ser obedecidas, requerem distinções e ressalvas que, partindo da sua formulação geral tipológica, as adaptem sabiamente à situação particular do momento. "Não matarás", decerto, mas quem se recuse a fazê-lo na guerra ou em defesa do inocente ameaçado pode arcar com a culpa de expor os outros à morte, por omissão. "Não roubarás", é claro, mas quem tem o direito de se recusar a fazê-lo quando o único meio de transportar um ferido ao hospital é o carro que um proprietário desconhecido esqueceu com a chave na ignição? "Não prestarás falso testemunho", mas isto não quer dizer que você esteja obrigado a dizer a verdade quando um assaltante lhe pergunta onde o seu patrão guarda o dinheiro, ou quando um truculento comissário do povo lhe pergunta onde a sua aldeia escondeu a colheita. Tendo validade tipológica absoluta, as normas são de aplicação eminentemente relativa: relativa à situação, às intenções, ao caráter das pessoas envolvidas, à interferência de fatores culturais, psicológicos e psicopatológicos altamente complexos, etc. etc. etc. Permanentes na sua obrigatoriedade geral, requerem uma interpretação particular, diferente em cada caso e circunstância. Muitas vezes, pessoas de bem fazem o mal, não porque desejem conscientemente violar a regra moral, mas porque erram na sua interpretação particular.

Por isso mesmo, Deus não nos forneceu só regras de conduta, mas também os princípios gerais que devem nortear a sua interpretação. Esses princípios, por serem formais como equações e não se referirem a nenhuma situação concreta, são de validade absoluta e incondicional em todas as situações e servem de pedra-de-toque para aferir a interpretação que damos às normas concretas. Nos Dez Mandamentos, essa distinção é clara. Quando alguém lhe pergunta qual o mínimo necessário para entrar no céu, Jesus responde: "Amarás o teu Deus acima de todas as coisas e amarás o teu próximo como a ti mesmo." Os Dez Mandamentos compõem-se portanto de dois princípios e oito regras. Os princípios são as chaves que determinam o sentido das regras em cada caso. Se um sujeito comete adultério, ele infringe uma regra, mas, se você o aponta à execração nas ruas em vez de perdoá-lo e aconselhá-lo em particular como esperaria que fizessem com você caso o pecado fosse seu, você peca muito mais que o adúltero, pois viola um princípio. Deus perdoa os adúlteros, os mentirosos, os ladrões e até os assassinos, mas não perdoa quem não perdoa. Posso estar enganado, mas suspeito que no inferno há menos adúlteros do que cônjuges virtuosos que lhes negaram o perdão.

Ao longo da Bíblia encontram-se muitos princípios formais secundários, derivados dos dois primeiros. São autênticos mapas da mina para a alma atormentada que, nas complexidades da existência, quer fazer o certo mas não sabe o que é o certo. Um desses princípios – o mais freqüentemente esquecido, pelas minhas contas – foi enunciado por S. Paulo Apóstolo: "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom." Não me canso de meditar essa sentença, e as profundidades que nela encontro preencheriam muitos livros, se eu fosse capaz de escrevê-los.

Vejam. São Paulo, ao longo de suas cartas, enunciou muitas regras de conduta, mais pormenorizadas do que aquelas contidas nos Dez Mandamentos. Se você lê essas regras, já sabe portanto o que, segundo o ensinamento do Apóstolo, é bom e é mau. Para que, então, a necessidade de "experimentar"? A distinção mesma entre princípios e regras contém implicitamente a resposta. Para que você evite uma conduta má, não basta saber que, tipologicamente, isto é, genericamente, ela está enquadrada na classificação de "má". A conduta humana não se dirige por abstrações, mas pela percepção direta e sensível das situações. É preciso que você "veja" com seus próprios olhos o mal e o bem. Seres humanos não aprendem só por ouvir dizer – mesmo que a Palavra ouvida seja a de Deus: eles aprendem pela experiência, pela demorada, trabalhosa e dolorosa distinção entre o bem e o mal não em definições gerais simples, mas em situações alucinantemente complexas e ambíguas da vida real. O símbolo do pão, na Eucaristia, significa as virtudes morais, práticas, assim como o vinho significa as virtudes espirituais, de ordem puramente interior. "Comerás o teu pão com o suor do teu rosto" quer dizer exatamente isso: o pouco de bom que possa haver em nós virá misturado ao mal, e terá de ser separado dele aos poucos, através da experiência, da tentativa e do erro, como numa longa decantação alquímica. Deus pode, é claro, preservar você deste ou daquele pecado por um ato da Graça, mas Ele não está obrigado a fazer isso, muito menos a imunizá-lo de antemão contra todos os pecados possíveis. Ademais, que graça maior você pode receber de Deus além da Sua promessa de justificar os erros tão logo, no caminho da experiência, eles sejam francamente admitidos como tais?

Se o Apóstolo distingue entre a experiência e sua conclusão seletiva, ele subentende que nem tudo o que for experimentado será bom, mas que tudo deve ser experimentado sempre em vista do aprendizado e do bem, não do vulgar desejo de experimentar por experimentar, nem de uma dúvida forçada, artificiosa. Platão dizia que "verdade conhecida é verdade obedecida". Tão logo você enxergou nitidamente que certa conduta é má, tem de evitá-la por todos os meios. Até lá, tem uma certa margem de erro justificado, como exigência inerente à própria noção de aprendizado, com a condição de confessar o erro tão logo o tenha percebido como tal e de não teimar nele depois disso. Quando você descobriu o que é bom, não o largue por dinheiro nenhum deste mundo.

Eu, que sou burro e não presto, e além disso sou relapso e preguiçoso, enxerguei um pedacinho muito pequenininho do bem, que comparado à minha ilustre pessoa é do tamanho do infinito. Enxerguei-o graças ao conselho paulino. Daí advém a parte estável e séria da minha alma, parte miúda mas muito melhor que o conjunto dela, o qual espero ir melhorando aos poucos até o último dia, conforme outros bens vão rebrilhando aqui e ali entre as obscuridades da minha mente. Vou por partes, decerto. Sou paciente e tolerante comigo mesmo enquanto estou na confusão e na dúvida, mas, tão logo vejo as coisas com claridade, não dou mais moleza ao meu mesquinho ser. Passo num instante dos auto-afagos à palmatória.

Não conheço outro método, nem recomendo este a quem saiba de outro melhor. Aos demais, digo com o Apóstolo: Experimentem.


Olavo Luís Pimentel de Carvalho nasceu em Campinas, SP em 29/04/1947 é escritor, jornalista, palestrante, filósofo, livre pensador e intelectual, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros, publica regularmente seus artigos no jornal "Diário do Comércio" e no site "Mídia Sem Máscara", além de inúmeros outros veículos do Brasil e do exterior. Já escreveu vários livros e ensaios, sendo que o mais discutido é "O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras" de 1996, que granjeou para o autor um bom número de desafetos nos meios intelectuais brasileiro, mas também uma multidão de leitores devotos, que esgotaram em três semanas a primeira edição da obra, e em quatro dias a segunda. Atualmente reside em Richmond-Virginia, EUA onde mantém um site em português e inglês, sobre sua vida, obras e idéias.
E-mail: olavo@olavodecarvalho.org


Publicado no jornal "Diário do Comércio".
Segunda-feira,02 de junho de 2008.





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