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Garibaldi compara Edison Lobão a Winston Churchill por Josias de Souza No afã de defender o companheiro de partido da acusação de inépcia elétrica, o presidente do Senado torturou a lógica com um curto-circuito. Garibaldi Alves guindou Edison Lobão, veja você, ao mesmo patamar em que se encontra Sir Winston Churchill.
Ouça-se Garibaldi: “Churchill ganhou a guerra e não era general. Era um grande estrategista, um estadista, não era general. Portanto, Lobão pode ser um grande ministro de Minas e Energia. O José Serra não foi um grande ministro da Saúde?”
As palavras de Garibaldi são de calar um Maracanã lotado em dia de Fla-Flu. Mas deixar um presidente do Senado falando sozinho seria uma descortesia indesculpável. Assim, melhor aceitar a provocação. Lobão e Churchill...
Desprezem-se, por desnecessários, os detalhes. Acentue-se apenas o essencial. Lobão caminhou até o ministério de Lula com os pés de José Sarney. Deixou pelo caminho a convicção de despreparo e um filho-suplente com muito a explicar.
Churchill foi ao posto de primeiro-ministro da Grã-Bretanha equilibrando-se nos próprios sapatos. Chamavam-no de bêbado, oportunista e pé-frio. Pisou o preconceito e esmigalhou o favoritismo de um amigo do rei, Lord Halifax.
Lobão chega ao primeiro escalão para prover ao PMDB cargos nas estatais do sistema Eletrobras e na Petrobras. À malta, oferece a perspectiva de um reajuste da conta de luz. Churchill tinha ambições mais modestas e menos a ofertar: "Não tenho nada a oferecer, senão sangue, suor, trabalho duro e lágrimas".
O adversário de Lobão é a ameaça de racionamento de energia. No ano passado, valorizava-o. Discursou sobre ele duas vezes –primeiro, em abril; depois, em julho. Nas duas ocasiões, falou do “risco muito alto de apagão.” Foi mudando de opinião à medida que se aproximava da Esplanada. Até se desdizer integralmente. Agora, agarrado a São Pedro, afirma que as chuvas de verão derrotarão o fantasma.
O inimigo de Churcill chamava-se Adolf Hitler. Concentrou-se nele. Jamais o menosprezou. Quando Hitler marchava sobre Paris a Bélgica já de joelhos, o exército britânico encurralado no porto de Dunquerque-, disse: "Ofereço visão, valentia e vitória". Quando a Europa parecia à mercê do Füher, reforçou a dose: "Vamos defender nossa ilha a qualquer custo, vamos lutar nas praias, vamos lutar nos campos e nas ruas, vamos lutar nas montanhas; nós nunca nos renderemos".
Lobão se autoconcedeu o prazo de 30 dias para concluir as nomeações de sua pasta. "Vou ouvir o PMDB e outros partidos aliados. Tanto quanto for possível, vou (atender às reivindicações do PMDB). Desde que sejam boas, vou atendê-las", avisou. O triunfo do PMDB e demais "aliados" corresponderá, neste caso, a mais uma derrota dos bons costumes e a uma nova invasão do Tesouro Nacional.
Em período mais curto, Churchill cavou um lugar na historiografia. Seu apogeu encontra-se magnificamente descrito no livro “Cinco Dias em Londres: Negociações que Mudaram o Rumo da 2ª Guerra", do historiador norte-americano John Lukacs. Conta como Churchill preservou a Grã-Bretanha, acudiu a Europa e começou a livrar o mundo civilizado do nazi-fascismo. Tudo entre os dias 24 e 28 de maio de 1940.
No dia em que a folhinha alcançar 31 de dezembro de 2010, Lobão, Garibaldi e o PMDB de ambos serão notas de rodapé no capítulo dedicado à fisiologia que infelicitou a era Lula. Filhos de uma cruza do instante com o circunstante, não terão lugar na estante. Esse barulho que se ouve ao fundo é Sir Churchill revirando no túmulo. Revoltou-se com a afronta de uma comparação despropositada. Julga-se merecedor de companhias mais edificantes.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
Publicado no blog "Josias de Souza".
Sexta-feira, 18 de janeiro de 2008, 00h54.
http://bootlead.blogspot.com "Sir-ney" Edison Lobão – Josias de Souza
Depois daquela foto ou “O dever dos democratas” – Reinaldo Azevedo

Previsões para um 2008 repleto de imprevisíveis por Josias de Souza *Janeiro: A essa altura, sabe-se que a liberdade do "contribuinte" para comemorar o fim de um tributo termina onde começa o arbítrio do governo de aumentar outros impostos. Pena. O sistema econômico começava a se organizar. Nem socialismo nem capitalismo. Rumava-se para a República Federativa do Crediário. Só duas classes sociais: credores, poucos, e devedores, muitos, muitíssimos. Dizia-se "sem entrada" e o brasileiro já entrava. A festa acabou, irmão. O aumento do IOF soou como a badalada da meia-noite. O carro novo que você planejava comprar a prazo virou abóbora. Ou abacaxi. Tá com raiva? Experimente praguejar o Adão. Se o maldito tivesse recusado a fruta da Eva, ainda estaríamos no paraíso. Livres da indústria, da do vestuário à automobilística e dos impostos. A oposição ainda fará cara feia por algum tempo. O PMDB, mais safo, continuará fazendo cara de bobo. "Estou preocupada com o PMDB", dirá Dilma a Lula. "Mas o PMDB não está nos dando nenhum motivo de preocupação!", dará de ombros o presidente. E Dilma: "É isso que me preocupa..." Prepare-se. Depois da febre amarela, vem aí o ministro Edison Lobão e o fantasma do racionamento de energia.
*Fevereiro: Pouco a pouco, o barulho do surdo se transferirá para Brasília, sede de todos os blocos de sujos. A folhinha traz um quadradinho a mais. Normalmente, serviria apenas para compensar a defasagem acumulada entre os períodos de translação e rotação da Terra. Neste 2008 providencialmente bissexto, porém, o 29º dia terá outras serventias. Os pais e as mães das despesas vão dispor de 24 horas extras para conspirar contra a promessa de passar R$ 20 bilhões na faca. E o "contribuinte", órfão, será intimado pelos tics e tacs adicionais a refletir sobre uma evidência insofismável: no escurinho das dobras do Orçamento, todos os gastos são pardos.
*Março: Os jornais pendurarão a reforma tributária nas manchetes. Ninguém será contra. Mas os fatos desvirtuarão, de novo, as boas intenções. E a reforma sobreviverá como mero ideal retórico. O "contribuinte", qual um neo-Prometeu, acorrentado à promessa jamais cumprida, continuará à espera de um Hércules que o liberte das bicadas que o fisco, abutre pós-pós, lhe desfere no fígado.
*Abril: Os partidos definirão as regras para a escolha, em convenção, dos candidatos a prefeito. Das provetas partidárias começarão a saltar os pré-candidatos ideais. Em condições de laboratório, terão respostas para tudo. Com o correr das semanas, o eleitor se dará conta de que os "salvadores" não passam de ilusões fabricadas a frio.
*Maio: A proximidade do meio do ano provocará comichões nos economistas. A partir de fatos e números inexplicáveis, tentarão explicar por que o PIB de 2008 crescerá menos que o de 2007. O debate conduzirá a um oxímoro – a figura de retórica que combina dois termos antagônicos, para chegar a um terceiro. Algo como a "inocente culpa", cunhada por Cecília Meireles. No caso do PIB, teremos o "crescimento anão". O tamanho do gnomo dependerá da musculatura da economia do gigante norte-americano.
*Junho: Os partidos vão formalizar na Justiça Eleitoral as coligações para o pleito municipal. Em centenas de municípios, a Vovozinha irá para a cama com o Lobo Mau, sob os olhares atônitos de Chapeuzinho Vermelho. Do cruzamento nascerão inúmeros sacos de gatos. Ou, pior, centenas de sacos de ratos.
*Julho: Começarão os comícios. Os carros de som vão às ruas. Em discursos claros e diretos, os guias do povo darão pseudônimo aos bois.
*Agosto: O início da novela será retardado pela propaganda eleitoral televisiva. Candidatos de "Duas Caras" cacarejarão os ovos que jamais serão botados.
*Setembro: O eleitor, tomado de dúvida canina, hesitará entre morder ou abanar o rabo.
*Outubro: Abertas as urnas municipais, a democracia exibirá, ressalvadas as exceções, aquela velha vocação para levar a estupidez às extremas conseqüências.
*Novembro: Sob o impacto do penúltimo atentado no Iraque, os EUA elegerão o novo síndico do mundo. O planeta vai trocar de perna. Sairá das coxas do republicano George Bush para um novo colinho, provavelmente democrata.
*Dezembro: A dois anos da abertura das cortinas de 2010, a platéia começará a ouvir o barulho da montagem do cenário e o burburinho dos atores se posicionando em cena, para disputar o amor da República. Se ouvir uma batida de porta, é o Serra trancafiando o Aécio nos camarins de 2014. Se escutar um bate-boca é o PT se desentendendo consigo mesmo antes de se fixar em Dilma, único petista macho o bastante para arrostar o desafio da ausência de Lula na cédula.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
Publicado no blog "Josias de Souza".
Terça-feira, 15 de janeiro de 2008, 04h02.
http://bootlead.blogspot.com Previsões para 2008 – Josias de Souza
Garibaldi compara Edison Lobão a Winston Churchill - Josias de Souza

Senado prova que instituições também se suicidam por Josias de Souza O nome da crise não é mais Renan Calheiros. O caos agora se chama Senado da República. Ao absolver um presidente indefensável, os senadores comprovaram a existência de um par de axiomas indubitáveis: 1) só há duas formas de fazer política, as ruins e as muito piores; 2) a exemplo dos indivíduos, também as instituições pretensamente republicanas podem cometer suicídio.
Dias antes da votação secreta, o líder tucano Arthur Virgílio dissera que, no escurinho do plenário, longe dos holofotes e das câmeras da TV Senado, a sessão sigilosa em que Renan Calheiros seria julgado se transformaria numa espécie de “terapia de grupo”.
De fato, o Senado converteu-se nesta quarta-feira num imenso centro terapêutico. Deveria tratar a demência de seu presidente. Mas, ao dar alta a Renan, 40 senadores deitaram, eles próprios, no divã. Pior: convidaram toda a sociedade a compartilhar de sua esquizofrenia, num sacrifício coletivo das evidências.
O Brasil foi intimado a fingir-se de louco. O Senado pede ao país que esqueça as notas frias, os bois voadores, os frigoríficos de fancaria, o lucro agropecuário fictício, os pagamentos feitos com dinheiro vindo sabe-se lá de onde, o empréstimo não declarado à Receita, a rádio e o jornal adquiridos em moeda sonante e por meio de laranjas... Nada disso existiu, eis o que informa o Senado. Tudo não passou de uma alucinação coletiva.
Restou demonstrado que os políticos brasileiros não se sentem pessoas públicas. Eles pedem à nação que pare de atrapalhar suas vidas privadas. Recomendam ao eleitor que aceite, compulsoriamente, a tese de que o presidente do Senado é um homem bom. Aconselham aos jornalistas que deixem de fazer perguntas incômodas –O que o senador comeu hoje? Ou, por outra: Quem ele comeu ontem?
O país deve aceitar, babando na camisa, a existência de um patrimonialismo docemente arcaico, alegremente eterno. Ficou estabelecido que, no universo psicanalítico do Senado, é o privado que rege o público. E os senadores não devem nada a ninguém. Muito menos explicações.
Diante de um Renan que bate na barriga e diz “Brasília é a minha Murici”, não resta ao cidadão em dia com o fisco senão ouvir, respirar fundo, e seguir em frente, fingindo uma patológica normalidade. Seja maluco, caro leitor. E não encha mais o saco.
Ao optar pelo impasse, ao dar sobrevida à crise, o Senado virou as costas para a sensatez, fez uma opção pela delinqüência, deu as mãos à desmoralização. Há muito não se via um ataque tão frontal à democracia. A política vai se consolidando como um parafuso espanado. Roda a esmo, incapaz de dar solução às suas próprias crises. Que não reclamem depois das loucas divagações berzoínicas, do desvario de um Brasil sem Senado. Os senadores suicidaram o Senado.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
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Quarta-feira, 12 de setembro de 2007, 20h11.
http://bootlead.blogspot.com senado suicida

Depois de envenenar Anac, Dilma fala de "antídotos" por Josias de Souza O brasileiro vai, aos poucos, suprimindo de seus hábitos o ponto de exclamação. Espantosa época a nossa, em que se permite aos ministros fazer tudo e dizer qualquer coisa. Gestos e palavras nem sempre fazem nexo. Mas nada acontece. O absurdo adquiriu uma doce, arrebatadora, admirável naturalidade.
Veja-se o caso da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Ajudou a enfiar nos postos de direção da Anac um punhado de incompetentes. É parceira de Walfrido dos Mares Guia na articulação que acomodou o petista Milton Zuanazzi na poltrona de presidente da agência.
Dilma fez política numa área que reclamava rigores técnicos. Sobreveio o aerocaos. E a constatação de que, sob Lula, graças à esperteza dos ministros e à inapetência do Senado, a Anac convertera-se em descalabro.
Pois bem, em meio ao absurdo, Dilma leva à face um sorriso de aeromoça. E passa a discorrer sobre o futuro da Anac. Como se não tivesse nada a ver com o passado da encrenca. Nesta segunda-feira (13), a superministra defendeu, veja você, uma poda nos poderes das agências e a flexibilização dos mandatos fixos de seus gestores.
Ora, agências reguladoras, como o nome está a indicar, servem para “regular” e fiscalizar os setores econômicos sob sua alçada –no caso da Anac, o setor aéreo. Em tese, deveriam defender os interesses do consumidor. Seus gestores têm mandato justamente para que possam agir com desassombro, sem o receio de sofrer retaliações.
No caso da Anac, o problema está no uso político que se fez da agência, não nas normas que regem o seu funcionamento. O cargo público costuma ser feito pelo funcionário que o ocupa. Se a matéria-prima que a ministra ajudou a acomodar nas cadeiras da Anac não ajuda, é lícito que tente remediar o próprio erros. Mas a companheira Dilma deveria impor a si mesma uma penitência: para cada solução que apresentasse, faria pelo menos duas autocritícias.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
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Segunda-Feira, 13 de agosto de 2007, 17h38.
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Hugo Chávez e a “sala de controle” de Washington por Josias de Souza Hugo Chávez considera-se um gênio. Gênio do socialismo pós-pós. Em casos do gênero, só há três alternativas: ou o sujeito é maluco, ou é idiota, ou é gênio mesmo. As evidências encarregaram-se de refutar a última hipótese. Remanesce, porém, a dúvida: tolo ou débil mental?
Tudo leva a crer que o caso é de esquizofrenia. A maioria dos venezuelanos ainda acha que votou em São Jorge. Mas, em vez de salvar a donzela, Chávez casou-se com o dragão. Lança chamas em todas as direções. Na noite passada, esquentou os miolos dos congressistas do Brasil.
Entre uma explicação de Renan ‘Encrenca’ Calheiros e uma entrevista de Romeu ‘Quero Absolvê-lo’ Tuma, o Senado brasileiro encontrou tempo, no meio da semana, para aprovar uma mensagem dirigida a Chávez. No texto, pedia-se a São Jorge que recolocasse no ar emissora RCTV.
Abespinhado, o dragão venezuelano fumegou: “O Senado brasileiro age como um papagaio do Congresso americano”. Disse que é mais fácil o Brasil voltar a ser colônia portuguesa do que o seu governo devolver a concessão ao canal retirado do ar. Em Brasília, houve repúdio e indignação. Lula, de passagem por Londres, também esboçou uma reação.
Chávez, por doido, tem dificuldade para enxergar a realidade. Há, de fato, uma salinha em Washington. Fica nos fundos do prédio do Departamento de Estado. Abriga os nossos controladores –três funcionários obscuros, que decidem o futuro do Brasil. Preocupam-se, porém, com o Executivo, não com o Legislativo.
Durante anos, os controladores do Brasil apostaram nos militares. Cansados, idealizaram a redemocratização lenta e gradual. Depois de uma seqüência de apostas erradas, decidiram que Fernando Henrique Cardoso era o homem para executar a tarefa no Brasil. Deram-lhe duas chances. Mas acharam que FHC não entregou tudo o que combinara.
Para punir o tucanato, autorizaram a eleição de Lula. O objetivo de nossos controladores era dar um susto de quatro anos. Depois, retomariam o “Tucano’s Project”. Porém, os três funcionários da sala de controle surpreenderam-se com Lula. Acharam que ele se revelou um FHC melhor do que o original.
Sem nenhuma combinação, Lula aparou a barba, vestiu Armani, manteve a abertura econômica, preservou o rigor fiscal e pagou a dívida com o FMI. De quebra, tornou-se amigo de Bush. Os controladores o rebatizaram de “Fernando Terceiro”. E lhe deram mais um mandato.
As declarações de Hugo Chávez levaram os controladores do Brasil às gargalhadas. Ninguém mais do que os funcionários da salinha do Departamento de Estado sabem da irrelevância do Congresso brasileiro. Sossegados em relação ao Brasil, eles decidiram que, nos próximos meses, para passar o tempo, vão se divertir assistindo às transmissões da venezuelana RCTV pela internet.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
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Sexta-feira, 01 de junho de 2007, 16h36.
http://bootlead.blogspot.com Brasil sob-controle

O Carandiru aéreo
por Josias de Souza
A queda do avião da Gol causou mais mortes (154) que os 111 do Carandiru. Mas, ao contrário do que aconteceu no presídio paulista, a responsabilidade por este crime fica diluída nas dobras de um poder público imensamente ineficiente.
Primeiro, culpou-se os pilotos do Legacy, que eram estrangeiros, ainda por cima norte-americanos, os suspeitos usuais em qualquer problema que ocorra na América Latina, tenham ou não qualquer tipo de culpa.
Depois, o foco passou para os controladores de vôo. Digamos que tenham de fato errado. São culpados? Ou culpada é uma administração que forçou-os a trabalhar fora das normas e padrões internacionalmente aceitos? Fala-se de controladores que "pilotavam" 20 aviões simultaneamente, quando o limite normal é 14.
É preciso uma defensora do consumidor como Maria Inês Dolci, na Folha de ontem, para apontar o dedo para o verdadeiro culpado: "O desvio das verbas para segurança aérea, a partir de 2003, já sob o domínio do "nunca ninguém jamais". Refiro-me aos R$ 286,5 milhões efetivamente empregados no programa de proteção ao vôo até agora, dos R$ 531,7 milhões previstos para este ano".
Posto de outra forma, o governo gastou a metade do que deveria gastar para proteger a vida dos passageiros de aviões. Não consta, por exemplo, que tenha gastado só a metade do que deveria gastar para pagar os credores da dívida pública.
Natural: a vida humana, neste governo como em anteriores, vale menos que a bolsa. O pior é que, se se encontrou a caixa-preta do avião da Gol, a caixa-preta que é a forma de operar do governo no Brasil continua escondida. É preciso um Carandiru aéreo para que fiquemos sabendo que, cada vez que um avião voa pelos céus do Brasil, seus passageiros correm risco de vida.
Josias de Souza, nascido em 1962, é jornalista desde 1984. Trabalha na Folha de S.Paulo há 20 anos. Nesse período, ocupou diferentes funções, de repórter a Secretário de Redação do jornal. Hoje, é colunista da Folha. Publicou em 1994 o livro "A História Real" (Editora Ática), em co-autoria com Gilberto Dimenstein. O trabalho revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2001, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".
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Sábado, 04 de novembro de 2006.

CAOS PARA TODOS
por Walter Carrilho
A crise nos aeroportos é uma prova de que a democracia tem sempre uma forma de equalizar as coisas. Se não dá para melhorar para todo mundo, então que seja uma merda para todos. O que está acontecendo na aviação é a mesma trolha que aconteceu com o transporte urbano. Começa assim mesmo: o sistema oficial não dá conta, então surgem os clandestinos. Em breve veremos Constellations e DC3s voando baixo de porta aberta com cobradores batendo na lataria: “São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Manaus, aceita passe! Vambora gente!”
Não teremos mordomias como aeromoças que serão futuras modelos da Playboy. Muito menos as refeições de bordo. Mas teremos aqueles infalíveis vendedores ambulantes prestando um serviço aos viajantes: “Senhores passageiros, desculpem incomodar, eu podia estar roubando, mas estou aqui trabalhando. Eu tenho aqui as sensacionais barrinhas de cereal da Nestlé nos deliciosos sabores...” Teremos sindicatos de aviadores clandestinos, alguns assassinatos de líderes do setor...
Será a glória! Nas estradas, nas ruas, nos portos e nos céus, um único padrão nacional de transporte: a mesma bela merda!
Publicado no blog Walter Carrilho - Jornalismo Boçal.
Sexta-Feira, 03 de novembro de 2006. http://bootlead.blogspot.com Controladores
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