
Discursos delinqüentes. E chegou a hora de cobrar ingresso no Senado
por Reinaldo Azevedo
- Renan: do antilulismo a principal aliado de Lula
- O festival de trapalhadas da tropa de choque
- Lula e o ataque à PF e ao MP
- Quem conspira contra Renan é a matemática
- O discurso de Dilma e as duas injustiças
- As esquerdas queriam direito de defesa?
- O que diz o Manual da Guerrilha de Marighella
- Roriz, misto de Odorico Paraguaçu e Dirceu Borboleta
- Cuidado com a pipoca ao visitar o Senado
Quando é possível explicar o país com mais clareza por meio da ironia, do sarcasmo, é sinal evidente de que estamos fritos. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), chegou ao primeiro time da política com Fernando Collor, em 1989. Foi o líder do PRN na Câmara, o tal Partido da Reconstrução Nacional, que afundou junto com o impichado. Renan vinha, então, do PMDB e, no começo dos anos 80, de uma renhida oposição a Collor em Alagoas, a quem chamava de “príncipe herdeiro da corrupção”. Aliou-se ao caçador de marajás, foi seu líder, assistiu à queda do chefe e nunca deixou de ser governista: apoiou Itamar, FHC, de quem foi ministro da Justiça, e Lula. A síntese: atingiu o topo da política ajudando a derrotar Lula e, agora, como seu principal aliado no Congresso (ainda que um tanto incômodo), submete o Senado a um vexame inédito.
Pior: a desfaçatez e o festival de trapalhadas que seus aliados protagonizam, mesmerizando e paralisando a Casa, fazem supor, e indícios não faltam, que ele cobra dos aliados o apoio até a última gota de vergonha na cara. Ou, então, abrirá a sua caixa de Pandora. A conclusão é uma só: boa parte do Senado e o governo Lula são reféns de Renan.
É impressionante. No passado, aqui e ali, escândalos também respingaram ou mesmo surgiram no Senado. Nem poderia ser diferente. O material humano que compõe as duas Casas do Congresso é o mesmo. Mas o fato de ser um grupo muito menor sempre conseguiu, de algum modo, manter as disputas e desentendimentos em padrões um pouco mais civilizados. As crises eram mais curtas, como a da violação do painel eletrônico, que resultou na renúncia de ACM e de José Roberto Arruda, ou a do embate entre o mesmo ACM e Jader Barbalho. Agora, não.
A barafunda parece interminável, e, como se vê e confessou o próprio Renan, a tropa de choque do presidente do Senado não tem limites. A lambança protagonizada por Leomar Quintanilha (PMDB-TO), que, em menos de 24 horas, convidou, desconvidou e convidou de novo o senador Renato Casagrande (PSB-ES) para relator do caso Renan assombra o processo político com o vale-tudo. Isso depois de, em três semanas, dois relatores e um presidente terem renunciado a suas funções no Conselho de Ética.
Não bastasse o espetáculo deprimente, a mesma maquinaria que degrada as instituições, posta para funcionar no período do mensalão e do dossiê fajuto, foi ontem acionada pelo Palácio do Planalto para tentar salvar Renan. O senador exige a solidariedade e, por razões que ele e Lula conhecem muito bem, recebe o amparo incondicional. A fala do presidente e a de Dilma Rousseff, ontem, entram para a história das imposturas, da avaliação política delinqüente. Exercitando uma das máximas do estado democrático de direito, segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário, o presidente perfilou-se com Renan na posse do procurador geral da República.
Lula misturou alhos com bugalhos, deixando escapar aquelas que certamente são preocupações do governo. Mandou bala: “Uma coisa que me inquieta, e me inquieta como cidadão, que me inquieta no comportamento da Polícia Federal e que me inquieta no comportamento do Ministério Público, é que, muitas vezes, não termos o cuidado de evitar que pessoas sejam execradas publicamente antes de serem julgadas”.
Há, aí, vários problemas. A Polícia Federal e o Ministério Público, até agora, não investigam o Renangate. Vai ver o presidente pensava em outra coisa: a operação que flagrou em conversas estranhas Vavá, um de seus irmãos. Quanto ao Ministério Público, vá lá, Lula não pode mesmo, em tese, fazer nada. O órgão é independente, ainda que seu chefe máximo seja nomeado pelo presidente da República. Mas e a Polícia Federal? Ele não tem o direito de se indignar “como cidadão”. A PF é um ente do Executivo, subordinada ao Ministério da Justiça, que, por sua vez, subordina-se à Presidência. Lula, evidentemente, não está reclamando do MP e da PF que põem seus adversários na fogueira. Não gosta é de ver amigos e companheiros em situação difícil. Ademais, note-se: os dois órgãos, às vezes, são de uma discrição e de uma incompetência notáveis — para sorte dos petistas: tomemos os exemplos do mensalão e do dossiê...
O presidente nada mais fez do que vir com aquela cascata de sempre, sugerindo uma espécie de conspiração, que estaria se movendo nas sombras, para depor o presidente do Senado. E convenham: a mais severa militante anti-Renan é quem? Não é Mônica Veloso, mas a matemática.
Dilma
Evidenciando que o discurso fora ensaiado, Dilma Rousseff, a chefe da Casa Civil, também falou da inocência presumida. E concluiu: “Acho que se aplica a todos nós brasileiros, nós que somos, inclusive, a velha geração, que participou das lutas de resistência à ditadura e sabe perfeitamente o que significa o respeito aos direitos individuais da pessoa humana, que é o direito à defesa, que é o direito de todos nós iguais perante a lei e o fato de que ninguém é culpado até que se prove que ele é culpado. Ele é inocente”.
Vamos ver. Se eu penetrar na razão de fundo das esquerdas a que ela se refere, corro o risco de ficar nauseado antes de dizer o que precisa ser dito. Esse misto de vitimismo e triunfalismo é uma das farsas históricas que tendem a perdurar ainda por um bom tempo. Até parece que a “velha geração” de guerrilheiros e terroristas estava muito preocupada com “direitos individuais”, “direito à defesa” e afins. Posso lembrar aqui algumas regras do Manual da Guerrilha Urbana, de Carlos Marighella, para evidenciar o humanismo daquela turma:
- “O espião apreendido dentro de nossa organização será castigado com a morte. O mesmo vai para o que deserta e informa a polícia.” (Capítulo 10);
- “colocar minas caseiras no caminho da polícia, utilizar gasolina, ou jogar bombas Molotov para incendiar seus veículos” (Capítulo 9);
- “O guerrilheiro urbano é um inimigo implacável do governo e infringe dano sistemático às autoridades e aos homens que dominam e exercem o poder. O trabalho principal do guerrilheiro urbano é de distrair, cansar e desmoralizar os militares, a ditadura militar e as forças repressivas, como também atacar e destruir as riquezas dos norte-americanos, os gerentes estrangeiros, e a alta classe brasileira.” (Capítulo 1)
- “Aprender a fazer e construir armas, preparar bombas Molotov, granadas, minas, artefatos destrutivos caseiros, como destruir pontes, e destruir trilhos de trem são conhecimentos indispensáveis a preparação técnica do guerrilheiro.” (Capítulo 3)
Procurei um trecho falando em direito de defesa, democracia, estado de direito, essas frescuras burguesas, e não encontrei nada. Aliás, o primeiro texto da esquerda militante brasileira, com algum alcance teórico, escrito em defesa da democracia, e, ainda assim, entendida como instrumento para o socialismo, é de 1978. Antes disso, todo esforço era direcionado, consoante com a tradição socialista, para a desmoralização do rito democrático “burguês” — nota: a cultura antidemocrática não morreu; persiste até hoje.
Voltando
Mesmo sendo esse lixo teórico e humanista, trata-se de uma impostura adicional evocar aquele tempo para se referir ao caso que toca Renan Calheiros. Não existe um estado discricionário no Brasil — não por enquanto... O senador tem amplíssimo direito de defesa, garantido pelo Conselho de Ética. Não responde, é bom que se diga, nem mesmo a uma acusação policial. O que se argumenta é que houve quebra de decoro. A meu juízo, duas vezes: a) quando foi flagrado em relações estranhas com o lobista de uma empreiteira; b) quando passou aos senadores um pilha de documentos que virou pó. Renan não resiste a um repórter com um microfone na mão e a pergunta certa na cabeça:
— O senhor comprou boi de Renan Calheiros?
— Eu não, meu filho. Nunca vi esse aí.
O que isso tem a ver com a visão certamente heróica que a senhora tem da "resistência", ministra Dilma Rousseff? O que isso tem a ver com os, como é mesmo que os chamava José Dirceu?, companheiros de armas? A sugestão chega a ser indecorosa e duplamente desrespeitosa: com o senador (até onde se sabe, não matou ninguém) e com os terroristas daquele tempo - a maioria ao menos julgava fazer o que fazia por idealismo. Não consigo ver um idealista em Renan a cada vez que ele se diz “BIS-SO-LU-TA-MEN-TE tranqüilo”, insistindo em omitir a vogal que existe para acrescentar a que não existe.
Depreda-se tudo: a verdade, as instituições, a história. Para não dizer, claro, a ética, hoje a cargo de Leomar Quintanilha. O Senado já está desmoralizado. Precisa, agora, de um plano para recuperar-se. Mas afunda um pouco mais.
Roriz
Os que, como eu, têm 45 (ou mais) se lembram. Os outros talvez tenham de recorrer a imagens de arquivo. Eu não ouvia aquela entonação do senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) num discurso de político desde o fim da novela (e depois seriado) O Bem Amado, de Dias Gomes. Roriz era o próprio Odorico Paraguaçu, com um certo banho de loja. A sinceridade que emanava de sua fala era rigorosamente a mesma: palavras ocas, pompa, sentimentalismo, gesto dramático e, como direi?, a verdade absolutamente estampada na cara. Ainda se atreveu a falar em nome de Deus e de Nossa Senhora, numa prova evidente de que não poderá ser socorrido por Um ou por Outra.
Odorico era melhor do que Roriz numa coisa: nas pausas. As ênfases não recaíam no substantivo quando deveriam estar no adjetivo, por exemplo. E também não procurava despertar a piedade da platéia. Pensando bem, Roriz, ontem, era um misto de Odorico com Dirceu Borboleta.
Em breve, o Senado pode começar a cobrar ingresso. Prometemos não dar pipoca aos senadores — se muitos deles não a roubarem de nossas mãos.

Reinaldo Azevedo é jornalista, guia cultural, assessor de imprensa e blogueiro. Foi editor-chefe da revista Primeira Leitura, colunista da revista Bravo! e também editor do jornal Folha de S. Paulo. Escreve freqüentemente sobre política nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, hoje é colunista da revista Veja. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Universidade Metodista, foi professor de literatura e redação dos colégios Quarup, Singular e do curso Anglo.
Publicado no "Blog Reinaldo Azevedo".
Sexta-feira, 29 de junho de 2007, 06h46. Leia mais artigos de REINALDO AZEVEDO no BOOTLEAD:¤ Raposa/Serra do Sol - Aos ministros do Supremo ¤ Contra o falso óbvio 1 - É Raposa/Serra do Sol, mas pode chamar de Anta do Obscurantismo¤ Depois daquela foto ou “O dever dos democratas” ¤ A Mídia do Contragolpe ¤ O ridículo dessa gente não conhece limites ¤ Revanchismo e mitologia esquerdopata querem rever Lei da Anistia ¤ Mais tentações totalitárias ¤ FAB mancha a sua história com as cinzas de 360 inocentes¤ O bolivarianismo de Lula: como o PT pretende fazer da Rede Globo a sua RCTV ¤ Universitário custa DEZ vezes mais do que aluno da escola fundamental em média. Aonde isso nos leva?¤ Lula quer agora fundar uma religião¤ O que não suportam na Igreja Católica? A liberdade e a consciência.¤ A ministra Matilde Ribeiro tem de ser demitida e processada. Agora o rinoceronte arrombou a porta.¤ STJ referenda madrassas do PT no jornalismo¤ Foi um vexame: a "Síndrome Motorista de Táxi" derrubou Lula
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