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Friday, November 16, 2007

Cala a boca "macaco"!



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Rei espanhol calou a boca de Chávez
por William Waack

Quem acompanhou a passagem da ditadura de Francisco Franco na Espanha para um regime democrático que serve de exemplo para todos nós, latinos, lembra-se com que desconfiança se olhava, em 1975, para a figura do então jovem Rei Juan Carlos. Dizia-se que tinha sido uma grande esperteza do velho ditador (que só não teve a desfaçatez de coroar-se monarca) a escolha daquele Bourbon inexperiente.

Juan Carlos vale hoje para a crônica política e histórica espanhola como um dos grandes (e decisivos) personagens da “solução espanhola”. Em que consistia? Nas suas linhas mais gerais, numa transição lenta e gradativa de um regime ditatorial, clerical e provinciano para uma democracia parlamentar representativa, tolerante e aberta. Não foi à toa que um jornalista espanhol perguntou ao então ditador brasileiro, General Ernesto Geisel, durante uma entrevista coletiva na Alemanha, em 1977, se ele pensava numa “solução espanhola” para o Brasil. “Sim”, respondeu Geisel.

Santiago Carrillo, o velho comunista, Felipe González, o jovem socialista, e várias gerações de políticos conservadores espanhóis respeitavam o rei como os trabalhistas e “tories” britânicos respeitam a Rainha, ou os social-democratas suecos a monarquia em Estocolmo -e assim por diante. Tido como um “bon vivant” famoso por suas tiradas (digamos, machistas) em conversas em “off”, jovial e bem humorado, Juan Carlos acabou virando um desses símbolos vivos de transição de um passado escuro para um futuro de prosperidade -tudo isso, no espaço de apenas uma geração.

E os espanhóis -que passaram dos conservadores para os socialistas, dos socialistas para os conservadores e, desde 2004, de novo para os socialistas- continuam dando um magnífico exemplo de que luta política não significa a destruição do adversário (o que não é pouca coisa, considerando-se a presença, na memória coletiva, de uma Guerra Civil que deixou centenas de milhares de mortos entre 1936 e 1939).

A Espanha de várias épocas parece possuir esse dom de nos proporcionar frases fortes e contundentes. Lembram-se do “no creo en brujas, pero que las hay, las hay” (Cervantes)?. Ou do “vencereis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis” (Unamuno)?. O Rei Juan Carlos soltou uma na cara de Hugo Chávez que provavelmente será repetida por bom tempo onde se fala espanhol: “porque no te callas?” (porque você não cala a boca?).

Juan Carlos tem todos os argumentos morais para mandar Chávez calar a boca. Afinal, ele soube ajudar a conduzir um país da repressão para um regime aberto, enquanto Chávez faz exatamente o contrário. O rei e seu primeiro-ministro souberam mostrar a um falastrão que não levam ofensas para casa. Foi de uma extraordinária dignidade política o que fez o primeiro-ministro socialista José Luiz Zapatero, defendendo de ataques verbais de Chávez seu antecessor (e ferrenho adversário político), o conservador José Maria Aznar.

Cabe lembrar aqui, aliás, o que o mesmo socialista Zapatero disse ao presidente boliviano, Evo Morales, quando o governo boliviano tomou à força instalações de empresas petrolíferas espanholas (além da Petrobrás). Naquela ocasião, o dirigente espanhol lembrou ao boliviano, em tom que não deixava margem a dúvidas, que contratos existem para serem respeitados. A Espanha não engoliu o que Evo Morales fez.

Nosso espaço político (no seu sentido mais amplo) é muito marcado pelo caudilhismo, populismo, personalismo e pela (muitas vezes apenas pretendida) virilidade de seus líderes políticos. São, digamos, “tradição” da política latino-americana, assim como o paternalismo, o assistencialismo e a melancolia que às vezes nos faz pensar que não temos jeito mesmo. Por isso foi tão retumbante o que fez Juan Carlos diante de Chávez -e está repercutindo intensamente na enorme esfera hispânica.

Ele mostrou ao bufão quem tem, em bom espanhol, cojones. Viva o Rei.


William Waack nasceu em São Paulo, SP em 30/08/1952 é jornalista, formado pela USP. Cursou também Ciências Políticas, Sociologia e Comunicação na Universidade de Mainz, na Alemanha, e fez mestrado em Relações Internacionais. Tem quatro livros publicados e já venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura da Guerra do Golfo de 1991 e por ter revelado informações sobre a Intentona Comunista de 1935, até então mantidas sob sigilo nos arquivos da antiga KGB em Moscou. Waack trabalhou em algumas das principais redações do Brasil, como o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e a revista Veja. Foi editor de Economia, Internacional e Política. Durante 20 anos, William Waack foi correspondente internacional na Alemanha, no Reino Unido, na Rússia e no Oriente Médio. Desde 1996, trabalha para a TV Globo e voltou ao Brasil em 2000. Apresenta, desde maio de 2005, o Jornal da Globo e em 2006, passou a assinar uma coluna na editoria Mundo do portal de notícias G1.



Publicado no Portal G1.
Segunda-feira, 12 de novembro de 2007, 14h45.






Saturday, October 28, 2006

Civilização ou barbárie?



































Foi um vexame: a "Síndrome Motorista de Táxi" derrubou Lula
por Reinaldo Azevedo

Comecemos pelo fim: este foi o confronto em que o tucano Geraldo Alckmin teve o melhor desempenho, e o petista Luiz Inácio Lula da Silva, o pior. Dos quatro debates havidos neste segundo turno, o pessedebista venceu três (Band, Record e Globo), e Lula, apenas um (SBT). Evidência: Alckmin venceu quando jogou no ataque. No SBT, testou aquela linha tecnocrático-propositiva. Isso, com Lula, que é chegado a uma generalidade a um senso comum, é sempre um perigo. Mas o dia e o formato do embate da Globo foram particularmente perversos para o petista.

Síndrome Motorista de Táxi

O leitor vai entender direitinho o que é isso. A maioria dos motoristas, cansados de conduzir os passageiros pra lá e pra cá o dia inteiro, ficam tendo idéias sobre como solucionar os problemas da humanidade: do buraco de rua à crise em Bagdá, eles sempre têm uma resposta. O Casseta & Planeta até aproveitou esse furor propositivo da categoria num quadro de humor.

Reparem que, na maioria das vezes, as coisas que dizem são irrespondíveis. Não que estejam certas. Ocorre que vêm formuladas de uma maneira, digamos, impenetrável. Olham para você e mandam ver: “Esse governo dá muito mole pra bandido, não dá?”. É claro que concordamos com ele. Mas vai saber o que ele quer dizer com isso... Pena de morte? Linchamento? Regime de Segurança Máxima? Ou então: “Vou falar pro senhor: política é uma merda. Se eu não ficar aqui 15 horas dirigindo, não ponho comida em casa”. De novo, ele tem razão. Mas o que será que ele quer? Ditadura? Revolução? Só reclamar da vida? É por isso que quase sempre nos limitamos a ouvir e a anuir com o que é dito. Entrar em detalhes pareceria difícil ou pernóstico. Ou imaginem: “Sabe o que é? Na democracia, a crise da representação...” Esqueça. Ele não quer saber o que você pensa. Quer dizer o que ele pensa.

O candidato que se diz popular, “do povo”, que conhece a linguagem das ruas, deu-se mal justamente com essas obviedades que se falam na rua. A Cristiane Santana, do Rio, por exemplo, afirmou conhecer um monte de gente desempregada. Um irmão seu está sem trabalho há um ano. Eis aí: um jornalista jamais faria uma pergunta como essa. Mesmo um candidato não a formularia com tal crueza. De que valem os 7,5 milhões de empregos que Lula diz ter criado? O irmão da Cristiane o desmente. Aí, o Dêivison fala da violência. Muitos amigos já morreram. Os problemas ganham dimensão concreta.

Realidade atrapalha. E sem ficha

A realidade tomada em sua particularidade é sempre pior para um candidato da situação. Por uma razão simples: problemas sempre existirão. Se aqueles que estão ali são indecisos, sinal de que estão, quando menos, em dúvida na avaliação das respostas até agora apresentadas pelo governo. Em tese, Lula nadaria de braçada porque saberia falar aquela linguagem. Mas esqueceu. Ele se tornou uma espécie de idiota da macroeconomia, opondo sempre números gigantescos a questões muito particulares.

Pior: como os candidatos, a exemplo dos debates que acontecem nos EUA, são obrigados a ficar transitando no palco, gesticulando, falando, o petista não pôde consultar as suas fichas. Restou-lhe o recurso de acusar todo mundo por tudo. Chegou, como costuma acontecer, às caravelas de Cabral. Também tentou ser irônico e desqualificar as respostas de Alckmin. Caiu na grosseria pura e simples. Chamou o Programa Bolsa-Cidadão do governo de São Paulo de “cheque sei lá das quantas”.

Ultrapassagem

O tucano, ao contrário, soube lidar melhor com as minudências levadas pelos indecisos porque tem grande facilidade de memorizar números. Ao contrário de Lula, gosta de detalhes. Conseguia transformar os problemas privados em questões de administração pública. E fez pelo menos três grandes ultrapassagens (fosse uma corrida): quando exigiu respeito ao programa Bolsa-Cidadão; quando, aludindo à indagação de Lula sobre “de onde iria tirar o dinheiro” para seus programas, provocou: “Pensei que ele fosse dizer de onde saiu o dinheiro do dossiê”. E quando afirmou que os líderes do PCC estão na cadeia, mas os da quadrilha que operavam no governo estão soltos.

Lula pode ter sido prejudicado também pelo salto alto. Por mais que ele mesmo tenha dito ser preciso evitá-lo, mal conseguia disfarçar a irritação. Ao ir para o debate com 20 ou mais pontos de vantagem nas pesquisas — segundo os institutos ao menos —, transpirava impaciência. Alckmin também jogou bem melhor sem a bola, quando sabia que, mesmo sendo hora da resposta do outro, estava enquadrado pela câmera: alternava sinais de negativo com a cabeça com um rosto tranqüilo, um sorriso quase sempre amistoso, raramente um tanto cínico. Lula, ao contrário, fechava a cara, olhando por baixo, como quem está sendo desafiado e se prepara para dar um pito.

A eleição é amanhã. Em que esse debate pode alterar o resultado? Talvez leve para Alckmin uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Mas quem vai saber. Eu já disse o que penso sobre a avaliação dos debates. Se você fizer agora uma pesquisa, o resultado óbvio será o seguinte: Lula ganhou. Afinal, ele está na frente. As coisas se confundem. Mas não ganhou. Levou uma sova feia. Estando certos os institutos, no entanto, é claro que não dá pra reverter o resultado.

Mas é fato que quem viu o debate, e isso inclui os eleitores convictos de Lula, não teve como não constatar que o tucano tem mais preparo. Em 2002, o Brasil escolheu quem sonha menos. E, agora, tudo indica, fará o mesmo. Lula, quem diria?, levou o maior tropeção nos debates justamente quando o tal “povo” entrou na conta.


Reinaldo Azevedo é jornalista, guia cultural, assessor de imprensa e blogueiro. Foi editor-chefe da revista Primeira Leitura, colunista da revista Bravo! e também editor do jornal Folha de S. Paulo. Escreve freqüentemente sobre política nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, hoje é colunista da revista Veja. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Universidade Metodista, foi professor de literatura e redação dos colégios Quarup, Singular e do curso Anglo.





Publicado no "Blog Reinaldo Azevedo".
Domingo, 28 de outubro de 2006, 02h24.

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