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Monday, February 09, 2009

Os Estados totalitários conhecem apenas um fator determinante, que é o poder.
(Konrad Adenauer)


Foto: "Saturno devorando a un hijo" - Museo del Prado
Óleo sobre reboco (al secco) de Francisco de GOYA.









































Click AQUI se desejar ver a imagem no tamanho original (1000 x 1736)

BASTIAT E A LEI (II)
por José Nivaldo Cordeiro

Em artigo anterior (v. AQUI ) comentei o opúsculo de Bastiat e quero aqui continuar aquela reflexão. Entendo que temos duas ordens de problemas a discutir. Em primeiro lugar, a significância do que seja lei e do que seja Estado, do que seja o próprio poder. Em segundo, entender a lei dentro da perspectiva do direito natural, pois esta é a questão mais central não só do ponto de vista teórico, mas também a questão factual maiúscula a explicar o nosso tempo.

Por primeiro é preciso formular a pergunta: o que é o Estado? Desde a origem o Estado é violência organizada, coerção, e desde a origem procura praticar alguma forma de justiça. A lei é a espada, para expressar hiperbolicamente. É o Estado, em qualquer circunstância, o instrumento da justiça, mas ele mesmo não é a justiça. Desde tempos antigos filósofos e governantes perseguiram a fonte última de justiça e daí que provem a idéia do direito natural. Uma descoberta imorredoura dos filósofos gregos e dos profetas hebraicos é que a lei não é humana, sua fonte é transcendente, cabendo aos viventes a descoberta da sua melhor expressão positiva.

Seguindo a trilha da obra de Michel Villey podemos dizer que a tradição clássica entendia que a lei precedia a norma escrita. Esta só se solidificava na busca dialética entre os fatos e a tradição. O ponto perseguido é que a forma escrita da lei se aproximasse o máximo possível da fonte, segundo a natureza. Por isso que a norma positiva tem que ser necessariamente mutante, como os espécimes particulares são variáveis em comparação com a forma permanente. A lei, por definição, é algo que antecede qualquer expressão escrita. A tradição cristã reconhece que a lei está escrita na alma dos homens, um dom de Deus, podendo ser discernida pela razão. Toda a gente tem noção do certo e do errado, mesmo que pratique o erro de caso pensado.

O poder de Estado, a par do compromisso de proteção dos indivíduos da comunidade política contra o inimigo externo, tem também esse compromisso inescapável com a administração de alguma forma de justiça, ainda que essa venha a ser a vontade idiossincrática do soberano do dia. É essa função judicial que legitima. Defesa e justiça são as funções mais essenciais do Estado e a civilização só é possível ser construída quando essas funções estão desenvolvias.

O poder não é coisa inventada dos príncipes e dos escolhidos por algum critério para exercê-lo. Ele guarda relação com a opinião pública, expressa essa opinião. Pode-se governar pela tirania por certo tempo, mas não por todo tempo. Sem consentimento não há como um poder se manter. Por isso Ortega y Gasset, no famoso livro A Rebelião das Massas, lembrou-nos que governar é menos uma questão de punhos de que de nádegas, menos de fuzis do que de trono.

O problema acontece quando a fonte última do poder, as gentes, está moralmente adoecida, como nos tempos atuais. Como em todos os momentos revolucionários. A corrupção das gentes leva à escolha de governantes moralmente inferiores e intelectualmente despreparados para o desafio da arte de governar. O mister do governante não é técnico, bem que se diga, embora possua uma dimensão técnica que freqüentemente é executada pela tecnoburocracia. É, antes de tudo, um mister filosófico. Tem que ter o sentido da história. Tem que expressar o projeto existencial de toda a gente. Tem que buscar a justiça a mais pura possível.

Quando a corrupção da alma coletiva alcança limites inferiores o processo legislativo descola-se completamente da fonte de justiça. Como a lei é o instrumento pelo qual o Estado toma forma, é, por assim dizer, seu esqueleto, o processo legiferante contraditório agiganta-o e transforma-se no oposto, no instrumento de injustiça. A burocracia só faz aquilo que está expresso em lei. O poder será sempre o do fiscal, do policial da esquina, do vigia de trânsito, do juiz de primeira instância, do oficial de justiça. Quando as leis descolam-se da fonte passam a imperar normas demais, incoerentes entre si e contrárias ao senso de justiça. Dessa forma, o exercício do poder por parte dos agentes transforma a rotina da vida em tirania cotidiana, as prisões ficam abarrotadas e o simples existir passa a correr grande perigo. O Estado transforma-se no Saturno devorador de homens, para lembrar a forte imagem do quadro de Goya.

A doença coletiva atual é a mais profunda e é por causa dela que o Estado agigantou-se como nunca em toda a história da humanidade. A tributação, a regulação e a vigilância alcançaram graus nunca antes imaginados. As populações são agora cativas do poder de Estado e suas patrulhas – policiais, fiscais ou de qualquer natureza – tornaram-se como que expedição de caça. Nesse contexto, a função de justiça já foi sacrificada há muito.

Por isso que a lei positiva passou a ser idolatrada, numa espúria autonomização dos meios e das funções jurídicas, a começar pelo processo legislativo. Por causa da loucura coletiva, da segunda realidade (v. AQUI ) quixotesca. O sistema legal, a cambiar em velocidade alucinante, é a máxima expressão da doença da alma. O positivismo jurídico como filosofia imperante entre legisladores e juristas não é puro cinismo, embora o seja também: é sintoma dessa psicopatologia. Nunca devemos esquecer o que Voegelin escreveu sobre ele, que um Hitler também foi estritamente legalista. A lei insana pede um governante insano; a lei louca pede um governante louco.

Peguemos um exemplo simples, a questão do direito de propriedade. É intuitivo que a propriedade privada é algo sagrado, fundamento da ordem justa. A cada um o que é seu, reza o mais antigo preceito de justiça. Qual a sacrossanta crença dos tempos modernos? Que a socialização é o remédio para todos os males. O megasistema tributário foi construído na suposição de que se estaria praticando justiça social, quando na verdade o que se vê é o sistema de rapina mais escandaloso que já se construiu em todos os tempos. Quando se prende um ladrão qualquer, e uma pena lhe é imposta, eu me espanto, pois o que é um simples ladrão diante do Fisco? Toda a engenharia de distribuição de renda via Estado é o sintoma mais acabado da destruição dos valores da alma, é a paródia mais ridícula da caridade cristã e é o exercício cotidiano da mais profunda injustiça.

Essa monstruosidade foi construída pela combinação da retórica esquerdista mal intencionada, que vem desde a Revolução Francesa, com os apetites bestiais das massas, que perderam as barreiras e passaram a demandar benesses estatais além do que o Estado deveria estar autorizado a dar. Esse dois pólos agindo, tijolo por tijolo, dia a dia, lei a lei, norma a norma, deram nisso que vemos aí: esse horrendo mundo em que tudo está normatizado e só vive e prospera quem estiver como sócio do Grande Saturno. De fato, vivemos a Era do Roubo Institucional.

Minha intuição é que a crise que se instalou, na sua proporção e na sua agudeza, nasceu dessa desordem, da desconexão entre o processo legislativo, o Estado e o senso de justiça. Corrigir o descalabro deverá custar muito. No passado tivemos guerras colossais. Não me atrevo a fazer prognóstico algum.


José Nivaldo Cordeiro: "Quem sou eu? Sou cristão, liberal e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas".



José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP e editor do site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado". E-mail: nivaldocordeiro@yahoo.com.br


Publicado no site "NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado".
Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2009.




Estatuto racista – Carlos Alberto Di Franco


O banquete de migalhas de Sarney e Temer – José Nêumanne






Saturday, October 28, 2006

Civilização ou barbárie?



































Foi um vexame: a "Síndrome Motorista de Táxi" derrubou Lula
por Reinaldo Azevedo

Comecemos pelo fim: este foi o confronto em que o tucano Geraldo Alckmin teve o melhor desempenho, e o petista Luiz Inácio Lula da Silva, o pior. Dos quatro debates havidos neste segundo turno, o pessedebista venceu três (Band, Record e Globo), e Lula, apenas um (SBT). Evidência: Alckmin venceu quando jogou no ataque. No SBT, testou aquela linha tecnocrático-propositiva. Isso, com Lula, que é chegado a uma generalidade a um senso comum, é sempre um perigo. Mas o dia e o formato do embate da Globo foram particularmente perversos para o petista.

Síndrome Motorista de Táxi

O leitor vai entender direitinho o que é isso. A maioria dos motoristas, cansados de conduzir os passageiros pra lá e pra cá o dia inteiro, ficam tendo idéias sobre como solucionar os problemas da humanidade: do buraco de rua à crise em Bagdá, eles sempre têm uma resposta. O Casseta & Planeta até aproveitou esse furor propositivo da categoria num quadro de humor.

Reparem que, na maioria das vezes, as coisas que dizem são irrespondíveis. Não que estejam certas. Ocorre que vêm formuladas de uma maneira, digamos, impenetrável. Olham para você e mandam ver: “Esse governo dá muito mole pra bandido, não dá?”. É claro que concordamos com ele. Mas vai saber o que ele quer dizer com isso... Pena de morte? Linchamento? Regime de Segurança Máxima? Ou então: “Vou falar pro senhor: política é uma merda. Se eu não ficar aqui 15 horas dirigindo, não ponho comida em casa”. De novo, ele tem razão. Mas o que será que ele quer? Ditadura? Revolução? Só reclamar da vida? É por isso que quase sempre nos limitamos a ouvir e a anuir com o que é dito. Entrar em detalhes pareceria difícil ou pernóstico. Ou imaginem: “Sabe o que é? Na democracia, a crise da representação...” Esqueça. Ele não quer saber o que você pensa. Quer dizer o que ele pensa.

O candidato que se diz popular, “do povo”, que conhece a linguagem das ruas, deu-se mal justamente com essas obviedades que se falam na rua. A Cristiane Santana, do Rio, por exemplo, afirmou conhecer um monte de gente desempregada. Um irmão seu está sem trabalho há um ano. Eis aí: um jornalista jamais faria uma pergunta como essa. Mesmo um candidato não a formularia com tal crueza. De que valem os 7,5 milhões de empregos que Lula diz ter criado? O irmão da Cristiane o desmente. Aí, o Dêivison fala da violência. Muitos amigos já morreram. Os problemas ganham dimensão concreta.

Realidade atrapalha. E sem ficha

A realidade tomada em sua particularidade é sempre pior para um candidato da situação. Por uma razão simples: problemas sempre existirão. Se aqueles que estão ali são indecisos, sinal de que estão, quando menos, em dúvida na avaliação das respostas até agora apresentadas pelo governo. Em tese, Lula nadaria de braçada porque saberia falar aquela linguagem. Mas esqueceu. Ele se tornou uma espécie de idiota da macroeconomia, opondo sempre números gigantescos a questões muito particulares.

Pior: como os candidatos, a exemplo dos debates que acontecem nos EUA, são obrigados a ficar transitando no palco, gesticulando, falando, o petista não pôde consultar as suas fichas. Restou-lhe o recurso de acusar todo mundo por tudo. Chegou, como costuma acontecer, às caravelas de Cabral. Também tentou ser irônico e desqualificar as respostas de Alckmin. Caiu na grosseria pura e simples. Chamou o Programa Bolsa-Cidadão do governo de São Paulo de “cheque sei lá das quantas”.

Ultrapassagem

O tucano, ao contrário, soube lidar melhor com as minudências levadas pelos indecisos porque tem grande facilidade de memorizar números. Ao contrário de Lula, gosta de detalhes. Conseguia transformar os problemas privados em questões de administração pública. E fez pelo menos três grandes ultrapassagens (fosse uma corrida): quando exigiu respeito ao programa Bolsa-Cidadão; quando, aludindo à indagação de Lula sobre “de onde iria tirar o dinheiro” para seus programas, provocou: “Pensei que ele fosse dizer de onde saiu o dinheiro do dossiê”. E quando afirmou que os líderes do PCC estão na cadeia, mas os da quadrilha que operavam no governo estão soltos.

Lula pode ter sido prejudicado também pelo salto alto. Por mais que ele mesmo tenha dito ser preciso evitá-lo, mal conseguia disfarçar a irritação. Ao ir para o debate com 20 ou mais pontos de vantagem nas pesquisas — segundo os institutos ao menos —, transpirava impaciência. Alckmin também jogou bem melhor sem a bola, quando sabia que, mesmo sendo hora da resposta do outro, estava enquadrado pela câmera: alternava sinais de negativo com a cabeça com um rosto tranqüilo, um sorriso quase sempre amistoso, raramente um tanto cínico. Lula, ao contrário, fechava a cara, olhando por baixo, como quem está sendo desafiado e se prepara para dar um pito.

A eleição é amanhã. Em que esse debate pode alterar o resultado? Talvez leve para Alckmin uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Mas quem vai saber. Eu já disse o que penso sobre a avaliação dos debates. Se você fizer agora uma pesquisa, o resultado óbvio será o seguinte: Lula ganhou. Afinal, ele está na frente. As coisas se confundem. Mas não ganhou. Levou uma sova feia. Estando certos os institutos, no entanto, é claro que não dá pra reverter o resultado.

Mas é fato que quem viu o debate, e isso inclui os eleitores convictos de Lula, não teve como não constatar que o tucano tem mais preparo. Em 2002, o Brasil escolheu quem sonha menos. E, agora, tudo indica, fará o mesmo. Lula, quem diria?, levou o maior tropeção nos debates justamente quando o tal “povo” entrou na conta.


Reinaldo Azevedo é jornalista, guia cultural, assessor de imprensa e blogueiro. Foi editor-chefe da revista Primeira Leitura, colunista da revista Bravo! e também editor do jornal Folha de S. Paulo. Escreve freqüentemente sobre política nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, hoje é colunista da revista Veja. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Universidade Metodista, foi professor de literatura e redação dos colégios Quarup, Singular e do curso Anglo.





Publicado no "Blog Reinaldo Azevedo".
Domingo, 28 de outubro de 2006, 02h24.

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