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Saturday, October 28, 2006

Civilização ou barbárie?



































Foi um vexame: a "Síndrome Motorista de Táxi" derrubou Lula
por Reinaldo Azevedo

Comecemos pelo fim: este foi o confronto em que o tucano Geraldo Alckmin teve o melhor desempenho, e o petista Luiz Inácio Lula da Silva, o pior. Dos quatro debates havidos neste segundo turno, o pessedebista venceu três (Band, Record e Globo), e Lula, apenas um (SBT). Evidência: Alckmin venceu quando jogou no ataque. No SBT, testou aquela linha tecnocrático-propositiva. Isso, com Lula, que é chegado a uma generalidade a um senso comum, é sempre um perigo. Mas o dia e o formato do embate da Globo foram particularmente perversos para o petista.

Síndrome Motorista de Táxi

O leitor vai entender direitinho o que é isso. A maioria dos motoristas, cansados de conduzir os passageiros pra lá e pra cá o dia inteiro, ficam tendo idéias sobre como solucionar os problemas da humanidade: do buraco de rua à crise em Bagdá, eles sempre têm uma resposta. O Casseta & Planeta até aproveitou esse furor propositivo da categoria num quadro de humor.

Reparem que, na maioria das vezes, as coisas que dizem são irrespondíveis. Não que estejam certas. Ocorre que vêm formuladas de uma maneira, digamos, impenetrável. Olham para você e mandam ver: “Esse governo dá muito mole pra bandido, não dá?”. É claro que concordamos com ele. Mas vai saber o que ele quer dizer com isso... Pena de morte? Linchamento? Regime de Segurança Máxima? Ou então: “Vou falar pro senhor: política é uma merda. Se eu não ficar aqui 15 horas dirigindo, não ponho comida em casa”. De novo, ele tem razão. Mas o que será que ele quer? Ditadura? Revolução? Só reclamar da vida? É por isso que quase sempre nos limitamos a ouvir e a anuir com o que é dito. Entrar em detalhes pareceria difícil ou pernóstico. Ou imaginem: “Sabe o que é? Na democracia, a crise da representação...” Esqueça. Ele não quer saber o que você pensa. Quer dizer o que ele pensa.

O candidato que se diz popular, “do povo”, que conhece a linguagem das ruas, deu-se mal justamente com essas obviedades que se falam na rua. A Cristiane Santana, do Rio, por exemplo, afirmou conhecer um monte de gente desempregada. Um irmão seu está sem trabalho há um ano. Eis aí: um jornalista jamais faria uma pergunta como essa. Mesmo um candidato não a formularia com tal crueza. De que valem os 7,5 milhões de empregos que Lula diz ter criado? O irmão da Cristiane o desmente. Aí, o Dêivison fala da violência. Muitos amigos já morreram. Os problemas ganham dimensão concreta.

Realidade atrapalha. E sem ficha

A realidade tomada em sua particularidade é sempre pior para um candidato da situação. Por uma razão simples: problemas sempre existirão. Se aqueles que estão ali são indecisos, sinal de que estão, quando menos, em dúvida na avaliação das respostas até agora apresentadas pelo governo. Em tese, Lula nadaria de braçada porque saberia falar aquela linguagem. Mas esqueceu. Ele se tornou uma espécie de idiota da macroeconomia, opondo sempre números gigantescos a questões muito particulares.

Pior: como os candidatos, a exemplo dos debates que acontecem nos EUA, são obrigados a ficar transitando no palco, gesticulando, falando, o petista não pôde consultar as suas fichas. Restou-lhe o recurso de acusar todo mundo por tudo. Chegou, como costuma acontecer, às caravelas de Cabral. Também tentou ser irônico e desqualificar as respostas de Alckmin. Caiu na grosseria pura e simples. Chamou o Programa Bolsa-Cidadão do governo de São Paulo de “cheque sei lá das quantas”.

Ultrapassagem

O tucano, ao contrário, soube lidar melhor com as minudências levadas pelos indecisos porque tem grande facilidade de memorizar números. Ao contrário de Lula, gosta de detalhes. Conseguia transformar os problemas privados em questões de administração pública. E fez pelo menos três grandes ultrapassagens (fosse uma corrida): quando exigiu respeito ao programa Bolsa-Cidadão; quando, aludindo à indagação de Lula sobre “de onde iria tirar o dinheiro” para seus programas, provocou: “Pensei que ele fosse dizer de onde saiu o dinheiro do dossiê”. E quando afirmou que os líderes do PCC estão na cadeia, mas os da quadrilha que operavam no governo estão soltos.

Lula pode ter sido prejudicado também pelo salto alto. Por mais que ele mesmo tenha dito ser preciso evitá-lo, mal conseguia disfarçar a irritação. Ao ir para o debate com 20 ou mais pontos de vantagem nas pesquisas — segundo os institutos ao menos —, transpirava impaciência. Alckmin também jogou bem melhor sem a bola, quando sabia que, mesmo sendo hora da resposta do outro, estava enquadrado pela câmera: alternava sinais de negativo com a cabeça com um rosto tranqüilo, um sorriso quase sempre amistoso, raramente um tanto cínico. Lula, ao contrário, fechava a cara, olhando por baixo, como quem está sendo desafiado e se prepara para dar um pito.

A eleição é amanhã. Em que esse debate pode alterar o resultado? Talvez leve para Alckmin uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Mas quem vai saber. Eu já disse o que penso sobre a avaliação dos debates. Se você fizer agora uma pesquisa, o resultado óbvio será o seguinte: Lula ganhou. Afinal, ele está na frente. As coisas se confundem. Mas não ganhou. Levou uma sova feia. Estando certos os institutos, no entanto, é claro que não dá pra reverter o resultado.

Mas é fato que quem viu o debate, e isso inclui os eleitores convictos de Lula, não teve como não constatar que o tucano tem mais preparo. Em 2002, o Brasil escolheu quem sonha menos. E, agora, tudo indica, fará o mesmo. Lula, quem diria?, levou o maior tropeção nos debates justamente quando o tal “povo” entrou na conta.


Reinaldo Azevedo é jornalista, guia cultural, assessor de imprensa e blogueiro. Foi editor-chefe da revista Primeira Leitura, colunista da revista Bravo! e também editor do jornal Folha de S. Paulo. Escreve freqüentemente sobre política nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, hoje é colunista da revista Veja. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Universidade Metodista, foi professor de literatura e redação dos colégios Quarup, Singular e do curso Anglo.





Publicado no "Blog Reinaldo Azevedo".
Domingo, 28 de outubro de 2006, 02h24.

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Saturday, October 14, 2006

Ouça e leia o comentário de Arnaldo Jabor na rádio CBN, censurado pelo TSE/PT.


Click na seta ou no botão play (4) duas vezes, para ativar o som.

Comentário de Jabor deve ser retirado da internet.

O ministro Ari Pargendler, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), determinou, liminarmente, a retirada da página da rádio CBN na internet, e das páginas de todas as suas afiliadas, do comentário do colunista Arnaldo Jabor feito às 8h05 do último dia 10 de outubro. A rádio CBN foi notificada da decisão, por fax, nessa quinta-feira (12).



Qual é a origem do dinheiro
por Arnaldo Jabor

O debate de domingo serviu para vermos dois lados do Brasil. De um lado, a busca de um "choque de capitalismo", de outro um delirante choque de um socialismo degradado em populismo estatista, num getulismo tardio. De um lado, São Paulo e a complexa experiência de um estado industrializado, rico e privatista e, do outro, a voz de grotões onde o Estado ainda é o provedor dos vassalos famintos. De um lado, a teimosa demanda de Alckmin pelo concreto da administração pública e, do outro lado, o Lula apelando para pretextos utópicos, preferindo rolar na retórica de símbolo, lendo constrangido estatísticas e citando obras quem nem foram iniciadas.

Alckmin foi incisivo; Lula foi evasivo. Lula saiu da arrogância do primeiro turno para o papel de "sóbrio estadista injustiçado". Mas não deu para esconder seu mau humor quase ofendido, por ter de dialogar ali com aquele "burguês", limpinho, sem barba. Faltou-lhe a convicção de suas afirmações, pois seu "amor ao povo" não teve a energia de antes. Gaguejou, tremeu, suas frases peremptórias não tinham ritmo, não tinham "punch line", não "fechavam", enquanto Alckmin parecia um cronômetro, crescendo no ritmo e concluindo com fragor.

Lula estava rombudo, Alckmin era um estilete. Lula estava deprimido porque raramente foi contestado assim, ao vivo. Sempre recuamos diante do sagrado "Lulinha do povo", imagem que se rompeu domingo. Houve um leve sabor de sacrilégio na acusação do agora agressivo "picolé de chuchu". Alckmin rompeu a blindagem do Lula, protegido dos escândalos. Alckmin atacou a intocabilidade do operário sagrado e tratou-o como cidadão. Isso. O Lula perdeu um pouco da aura de "ungido de Deus".

Lula sempre se disse "igual" a nós ou ao "povo", mas sempre do alto de uma intocabilidade, como se ele estivesse "fora da política". Sempre houve um temor reverencial por sua origem pobre; qualquer crítica mais acerba soava como ataque da "elite reacionária que não suporta um operário no poder", como clamam tantos lulo-colunistas e artistas burros. Quando apertou o cerco, Lula tentou se valer dos pobres, dos humildes, falou da mãe analfabeta, mas sempre evitou responder qualquer pergunta concreta, como se a concretude fosse uma ofensa a seu mundo ideológico puro, acima da vida "comum". Várias vezes, suas falas não faziam sentido, porém mantinham para o espectador acrítico aquele ronronar grosso que empresta um ritmo de fundo em torno da sua imagem de "símbolo dos pobres".

Lula não precisa dizer a verdade; basta parecer. Sempre que o Alckmin o encostava na parede, ele chamava as verdades proferidas de "leviandades", o que é muito comum no vocabulário petista que nomeia de "erros" os crimes cometidos ou de "meninos", os marmanjos corruptos que transportam dólares na cueca ou nas maletas e que foram "desencaminhados", coitados, por bandidos comuns, talvez até (quem sabe?) "a serviço" de tucanos solertes.

Lula tentou encobrir os crimes de sua quadrilha apelando para pretensos "crimes" de gestões anteriores, como barragem de CPIs, votos comprados, caixa 2 sem provas. Ele e os petistas se julgam donos de uma "meta-ética", uma "supra moral" que os absolveria de tudo e, por isso, Lula se utilizou de mentiras e meias-verdades para responder às acusações de mensalões e sanguessugas em seu governo. Para justificar a omissão e a passividade diante da Bolívia e do prejuízo de 1 bilhão e meio de dólares nas instalações da Petrobras, Lula chegou a criticar a violência burra do Bush para se absolver na política de "companheirismo" com o Evo Morales.

Em vez de se defender de acusações pontuais, dizia que a era-FHC também era corrupta, como nas brigas de bordel, em que as prostitutinhas se defendem apontando os pecados das outras.

Lula tentou fugir da pergunta que não vai se calar: "Qual a origem do dinheiro?".

Lula respondeu com a metáfora batida: "Muitas vezes o sujeito está na sala e não sabe o que está acontecendo na cozinha". Ou seja: é normal que o chefe da Casa Civil e agora o presidente do partido, Berzoini, Hamilton Lacerda, o chefe da campanha do Mercadante, o diretor do Banco do Brasil, seu assessor, seu churrasqueiro, petistas ativos no diretório, todos soubessem e trouxessem o dinheiro em malas, sem avisar o chefe. E quer que a gente engula. Lula pediu a Deus que não o mate "até que ele saiba de onde veio o dinheiro". A resposta óbvia é: "Não precisa perguntar a Deus; basta perguntar aos seus assessores na sala ao lado...", como escreveu a Miriam Leitão.

Quando Alckmin o apertava, ele o desqualificava: "Meu Deus... como é que pode? Você está nervoso, Alckmin... Não é o seu estilo...", querendo trancar o desafiante em seu papel de gentil picolé. Diante do pedido de explicações, fugia, tentando abordar "questões programáticas" (como se ele as tivesse...), como se elas pudessem estar acima das "bobagens de crimes que sempre houve, de erros de companheiros" etc... Assim, tentou voar por cima da ética assassinada.

Acontece que os crimes de sua quadrilha "são" a questão principal e também "programática" porque, além da imoralidade, esses crimes prefiguram uma política que visa atropelar a democracia através de grossuras truculentas que lhes mantenham no emprego a qualquer custo.

Lula não pôde responder a pergunta fatal ("de onde vem o dinheiro?") porque sua origem é conhecida.

Todos sabemos que o dinheiro veio de algum nicho onde está guardado para "despesas do partido", dinheiro desviado ou de fundos de pensão ou de estatais ou de bancos oficiais ou de contratos superfaturados. Todos eles sabem. Só falta o nome do dono da cueca ou das maletas. E, certamente, o advogado do governo não permitirá que saibamos até o dia 29.

Tudo está óbvio. Neste momento perigosíssimo de nossa história, só resta esperar que o "povo" perceba o óbvio, já que os intelectuais jamais o enxergarão.


Arnaldo Jabor, carioca nascido em 1940, é cineasta e jornalista, também já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Na década de 90, por força das circunstâncias ditadas pelo governo Fernando Collor de Mello, que sucateou a produção cinematográfica nacional, Jabor foi obrigado a procurar novos rumos e encontrou no jornalismo o seu ganha-pão. Estreou como colunista de O Globo no final de 1995 e mais tarde levou para a TV Globo, no Jornal Nacional, no Bom Dia Brasil e na Rádio CBN. O estilo irônico e mordaz com que comenta os fatos da atualidade brasileira foi decisivo para o seu grande sucesso junto ao público. Arnaldo Jabor também é colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, além de escrever regularmente para diversos outros jornais do Brasil.



Publicado no jornal "O Povo" de Fortaleza.
Sábado 14 de outubro de 2006.


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